Comissão Permanente / Temporária
TIPO : DEBATE PÚBLICO

Da . Vereador Leonel Brizola

REALIZADA EM 11/09/2017


Íntegra Debate Público :
DEBATE PÚBLICO REALIZADO EM 9 DE NOVEMBRO DE 2017
(Debate Público sobre Comunicação Comunitária e Mídia Alternativa)

Presidência do Sr. Vereador Leonel Brizola.
Às dezoito horas e cinquenta e oito minutos, no Auditório Aarão Steinbruch, sob a Presidência do Sr. Vereador Leonel Brizola, tem início o Debate Público da Câmara Municipal do Rio de Janeiro sobre o tema “Comunicação Comunitária e Mídia Alternativa”.

O SR. BRUNO FRANCO – Boa noite a todos e todas. É com alegria, em nome da Câmara Municipal do Rio de Janeiro e do Gabinete do Vereador Leonel Brizola, que está aberto o nosso Debate Público sobre Comunicação Comunitária e Mídia Alternativa.

A Mesa está assim constituída: Senhor André Fernandes, fundador da Agência de Notícias das Favelas (ANF); Senhora Julianne Gouveia, editora da ANF; Senhora Gizele Martins, jornalista; Senhor Raul Santiago, representante do Coletivo Papo Reto; Senhora Carla Santos, representante do Centro de Mídia Barão de Itararé; e Senhora Ivana Bentes, professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ).

Agora passo a palavra para o Vereador.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Boa noite a todos. É com muita honra que abrimos este Debate sobre uma questão fundamental deste País, que é a comunicação. Infelizmente, até hoje, é esse monopólio que nos tem sido muito custoso. Não é aquilo que passam, mas o que deixam de informar. Lembrando que é uma concessão pública. E o pior: esse gigantismo e essa concentração acabam esmagando os pequenos.

Isso acaba se tornando uma política pública quando você vê as publicidades dos governos, do Executivo, com um direcionamento claro; às vezes, vira até refém desse grande conglomerado e do monopólio das pequenas famílias que tomam conta, de fato, da comunicação do nosso País. Em nenhum país há o total controle de uma única empresa ser dona do jornal, da rádio, da revista, da televisão e até da internet. Aí é que mora o perigo.

E parece que discutir isso, André, é uma questão em que não se pode mexer. Todos aqueles que tentaram confrontar esse cartel, vamos dizer assim... Você me desculpe chamar assim, mas eles se comportam como isso. Todos aqueles que tentaram enfrentar eram praticamente “enviados para a Sibéria”, vamos dizer assim. E, se lá reclamasse, lá mesmo era executado. Ali, salgavam a terra para mais nada nascer. Isso é um fato em nosso País.

E a própria história, desde os Diários Associados de Assis Chateaubriand, que também tratavam dessa questão, desse monopólio – de fato – da informação, foi crescendo enormemente, com apoio da ditadura militar, com financiamento estrangeiro; uma coisa que é proibida pela nossa Constituição. Então, é um tema extremamente importante para o nosso País e para as próximas gerações, porque a desinformação é a base de todos os golpes de Estado. Esse é que é o fato.

Em 1961, a tentativa de golpe só não deu certo porque lideranças políticas ganharam, de fato, a batalha da comunicação pelo rádio. E, também, se não fosse o Brizola, no Rio Grande do Sul, encampar, vamos dizer assim, tomar quase que na marra as rádios para colocar dentro do Palácio e poder fazer a transmissão ao povo. O povo não saberia o que estava acontecendo. E que, mais ou menos, aconteceu em 1964 também. Ali, abriram as portas e foram entrando, entrando e já estavam. Pronto. Estabeleceram-se. E não tinha uma contrainformação. Se tivesse, também, era pau-de-arara. Acho que a gente traz um debate importantíssimo sobre a comunicação comunitária e a mídia alternativa.

Trazendo para a nossa realidade, aqui e agora, se não fosse essa mídia alternativa, André, talvez esse golpe de Estado já tivesse sido feito há muito tempo. Porque se não fossem os blogs e a contrainformação, seria um massacre. Ainda há uma resistência a isso tudo aí. Você pode ter certeza: se não fosse a mídia alternativa, eles tinham aprovado de primeira a Reforma da Previdência, a destruição da CLT, vendiam a Petrobras, a Eletrobras, ninguém ia nem saber.

Eu abri o jornal O Globo de hoje e havia uma informação na capa, é com todo o respeito que eu falo aqui: “O governo da Venezuela endurece a ditadura e persegue a imprensa”. Eu fui olhar para ver o que era. Vamos ler o que é isso aí... Inclusive, alguns setores do campo progressista também se equivocam. Eu fui ver o que era: “Assembleia Nacional Constituinte eleita democraticamente pelo povo”. Lembrando que na Venezuela não há a obrigação do voto. Então, falar que é “a ditadura da Venezuela” é triste de escutar, com todo o respeito. A gente vai ver do que se trata e a notícia é a de que a Assembleia Constituinte aprova uma lei que condena a incitação ao ódio. Aquele que incita o ódio é julgado e condenado pelos tribunais a uma pena de 10 anos, com aumento em alguns casos. E aquele veículo de comunicação que fizer incitação ao ódio tem a sua concessão cassada. Genial e democrático! Como não? Ou vamos aceitar uma incitação ao ódio? Tenho certeza de que lá não se criariam Bolsonaro e William Waack da vida, entre outros.

Vamos falar sobre o que está acontecendo em nosso País. Vamos separar o joio do trigo, porque essa questão é muito séria. Quando colocamos a comunicação alternativa e a mídia comunitária, principalmente, para informar o que se passa lá dentro, é porque a gente não sabe o que acontece nas nossas favelas. São 800, se não me engano. Esse mar de gente excluída, os indesejados que a sociedade não quer ver e saber o que acontece.

O que acontece, na realidade, é botinada na porta, com a truculência das forças de segurança; a falta de moradia; a falta de tudo, vamos dizer assim; é a falta de dignidade humana. E sabemos o que acontece de belo: as propostas, as genialidades e a inventividades que nascem dali, que são coisas geniais.

Então, queria, antes de tudo, parabenizar a todos que trabalham ali como formiguinhas, incansáveis, com muita dificuldade, não é, André? Sem retorno, sem patrocínio, sem ajuda financeira, remando contra a corrente em uma tempestade de mar escuro. São guerreiros, heróis e que defendem, de fato, aquele jornalismo que tem que ser feito em nosso País. Porque parece que se matou, morreu. O jornalismo agora é só de um lado. Eu olho esse corpo. Vou analisar só desse viés. Não há o outro lado, o outro ponto. Quer dizer, mataram, de fato. Então, quando trazemos essa voz, às vezes oculta, a gente informa e democratiza. Mesmo que ainda com percentuais baixos, a gente democratiza a informação. Mostramos para que serve a informação.

Eu estava dando uma entrevista para a Rio TV Câmara e pensando que estamos em uma sociedade na qual a televisão vem caindo em desuso. Ainda se assiste muito à televisão em nosso País. Mas essas gerações novas, essa meninada de 12, 14 e 15 anos já não assiste; é o celular. Às vezes, a tecnologia é tão rápida que a gente nem sabe. Uma hora lançam o aparelho 1 e logo já estão no 10. É uma loucura. É tão rápida que a televisão está caindo em desuso. É uma coisa grande.

Eu tenho dois filhos, um de 15 anos e uma de 12 anos, que não assistem à televisão. Nem têm televisão. Só há uma televisão em casa e eles não assistem. É tudo pela internet. E, por outro lado, o que me chama atenção – e o André me deu essa informação, que depois pesquisamos mais – é um momento em que os jornais estão diminuindo suas tiragens, as pessoas estão diminuindo a leitura de jornais. Aqui, no Rio de Janeiro, tínhamos inúmeros veículos. Eu me lembro até do Jornal dos Sports, rosinha, lembra, André? Tinha informação de esporte, mas também falava de política. Também havia outros jornais. Tinha o jornal O Povo, que brincavam que, se espremesse, saía sangue. Mas tinham outros.

Hoje estamos concentrados em quê? Num único bloco! E eles estruturam os jornais todos iguais, a mesma informação. Às vezes parece um “Control + C Control + V” da própria informação.
Então, quando se tem a mídia comunitária escrita e se tem um aumento de tiragem, como você falou, e a meninada lendo, a comunidade lendo, isso dá outra perspectiva também. Salvar os jornais de bairro, os jornais comunitários, o que se passa, o que se sucede. Até para que a gente possa traçar políticas públicas para aquela localidade, adequadas às necessidades daqueles moradores que sabem melhor que qualquer um do que precisam. Como a Rocinha disse: eu não quero teleférico, quero saneamento.

E outra: para que a gente possa traçar algo aqui, nesta Casa, André, na hora de fazer a propaganda, que ela descentralize também. Porque acaba tendo uma chantagem velada nos executivos: “Olha, se você não der...” É aquela velha prática dos Diários Associados. Se você ler, você vê como é aquela prática... É uma espécie de chantagem. Se não der, eu falo mal. Eu falo bem, é aquela coisa... E, aí, acabam obrigando os anúncios ali. Descentralizar isso, colocar uma verba, um percentual dessa verba para comunicação comunitária e mídia alternativa é uma grande solução, porque já começa a capilarizar e dar voz a quem tem muito a falar.

Bom, eu fico por aqui. Obrigado a todos. Passo a palavra ao André. E vamos discorrer sobre o tema neste Debate, que considero de suma importância.

Com a palavra, André. Por favor.

O SR. ANDRÉ FERNANDES – Boa tarde a todas e todos. Quero agradecer pela parceria do mandato do Vereador Leonel Brizola, por estarmos em um debate público sobre comunicação comunitária e mídia alternativa. Quero agradecer a todos os que vieram aqui e aos componentes da Mesa, que são pessoas que são superocupadas, que fazem um milhão de coisas, mas estão dispostas a participar aqui.

E quero dizer o seguinte: o que nós estamos fazendo aqui? Para que serve este debate? Acho que, acima de tudo, é para a gente se ver, a gente se olhar, se conhecer, saber quem está fazendo comunicação comunitária, quem está fazendo mídia alternativa, quem está preocupado com isso, quem são essas pessoas. Essa é a primeira coisa.

Nós fomos questionados, por algumas pessoas, sobre o que sairia daqui. Nós realizamos, em julho, o I Encontro Latino-Americano de Comunicação Comunitária que, na realidade, foi um preparatório para o congresso de que nós participaremos em Quito, do dia 19 ao 26, que é o III Congresso Latino-Americano de Cultura Viva Comunitária.

Quero frisar que Niterói está dando um banho na gente em vários sentidos, como na Cultura. A Prefeitura de Niterói, obviamente. O Prefeito que nós temos aqui, infelizmente... Inclusive nessa área de comunicação comunitária e mídia alternativa, porque eles estão com uma lei na Câmara de Vereadores – tramitando e, em breve, pode ser sancionada – em que se institui uma porcentagem da verba publicitária da Prefeitura para os veículos comunitários. Quer dizer, a gente precisa levar isso para outros lugares, essa ideia fantástica de que Niterói é uma cidade interessante porque tem realmente muitos veículos comunitários, muitos jornais de bairro e tudo mais. E é importante que essa verba publicitária da Prefeitura não fique só nas mãos dos grandes veículos.

Então, durante esse encontro, que foi lá em Niterói e do qual vocês participaram, na realidade, quase todo mundo aqui participou, tivemos uma ideia lá. É uma coisa que quero jogar aqui para vocês. Até porque vamos a um congresso latino-americano, para um encontro grande, e podemos levar essa proposta que já foi colocada pela Ivana Bentes, nesse encontro, que foi montarmos uma associação, quiçá latino-americana de comunicação comunitária e mídia alternativa.

Por que essa importância? Estamos vendo, e quem é jornalista sabe, que, nas redações, muitas pessoas estão sendo demitidas. São os conhecidos “passaralhos”. E centenas de jornalistas pelo País inteiro estão sendo demitidos. Muitos deles, inconformados – obviamente –, estão criando veículos de mídia alternativa, de mídia livre, o que eu acho fantástico. Então, se conseguirmos unir todas essa iniciativas ou pelo menos boa parte delas, em uma coisa mais institucionalizada, ganhamos força, corpo e o poder de chegar, inclusive, às Câmaras de Vereadores pelo País inteiro. Quiçá, na Câmara de Deputados com uma força maior.

Acho que podemos sair aqui deste primeiro encontro que estamos fazendo na Cidade do Rio de Janeiro com uma proposta para nos institucionalizarmos. O convite foi feito de uma maneira bem misturada. Convidamos pessoas de vários veículos e agências de favelas, onde atuamos, como de mídia alternativa, justamente porque queremos também ouvir cada um desses debatedores sobre o que é comunicação comunitária e o que é mídia alternativa.

Então, por isso, vamos finalizar esse Debate com a palavra da Ivana Bentes, que é uma estudiosa da área, para ouvir. Vamos passar a palavra para Julianne, que é da Agência de Notícias das Favelas, nossa editora. Depois, vamos ouvir a Gizele Martins, que é jornalista e fez parte, durante muitos anos, aquele que talvez seja o jornal mais antigo das favelas, que é o Jornal O Cidadão, da Maré. Depois, ouviremos o Raul Santiago, que é um parceiro do Coletivo Papo Reto, que está fazendo acontecer e levando a voz das favelas mundo afora. Lembro de mim há 20 anos atrás. A Carla Santos é do Centro de Mídia Barão de Itararé, que é uma mídia alternativa. Depois, finalizaremos com a palavra da Ivana, que voltou a ser diretora, graças a Deus, da ECO/UFRJ. Também é uma grande parceira nossa. É isso.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Obrigado, André. Com a palavra, a senhora Julianne Gouveia.

A SRA. JULIANNE GOUVEIA – Sou editora da Agência de Notícias das Favelas e do jornal A Voz da Favela, desde junho de 2016. Essa questão que o André estava falando, por exemplo, da associação, acho que é muito importante pensarmos em uma união maior desses coletivos, que são muitos. Cada favela ou comunidade se comunica de uma maneira muito especifica.

É importante a gente pensar nessas questões, porque a gente está falando de pessoas que estão, muitas vezes, expondo a própria vida e não existe nenhum apoio público ou mesmo algum suporte de um advogado. A gente consegue resolver essas coisas com a amizade das pessoas que nos apoiam. Não existe uma comissão, assim como existe uma Comissão de Direitos Humanos. Não existe nada desse tipo para os comunicadores, principalmente os comunicadores populares que estão lá botando a cara. Lembrei agora do Bota Cara CDD, que é um dos veículos.

Essa união e essa formalização são importantes, nesse sentido. Além disso, penso que existe certa separação. Está todo mundo muito focado em fazer o seu trabalho – inclusive porque a vida é dura para todo mundo –, então, falta um pouco de união. Mas, falando especificamente da nossa experiência na Agência de Notícias das Favelas, talvez a nossa linha editorial seja um pouco diferente do que o Raul e a Gizele fazem. Eles levam de forma muito firme essa questão dos direitos humanos, da defesa, da denúncia.

O Raul está lá três vezes por semana tomando “dura” da polícia! Nós, na verdade, exaltamos mais o que a favela tem de positivo; ou seja, tentamos levar para as pessoas que estão na rua, por meio dos nossos distribuidores, a ideia de que a favela tem mesmo potencial. Muitas vezes, a gente tem debates internos sobre os acontecimentos que ocorrem, Infelizmente, toda hora, na favela, há tiroteios, crimes... No entanto, às vezes, preferimos falar sobre a roda cultural que também tem lá, em vez de falar do tiroteio que houve ontem, por exemplo. Essas são questões muito importantes para a gente.

Uma vez entrevistei o Raul para o jornal A Voz da Favela e ele falou uma coisa que sempre me lembro: as pessoas gostam de notícias ruins, inclusive, sobre o seu território. Há uma morbidez, uma curiosidade, sei lá! Ele contou um caso do Papo Reto em que, às vezes, eles falam de coisas legais e registram cinco curtidas na comunicação. Mas quando, infelizmente, há uma denúncia com relação à polícia, por exemplo, são cerca de 500 curtidas! É uma bomba!

Essa também é uma batalha: fazer as pessoas verem a si próprias como potências, como um ponto de origem de coisas muito positivas. Essa é também uma maneira de a gente se posicionar contra essa mídia hegemônica que está aí, que diz o tempo inteiro, para todo mundo, que na favela só tem coisa ruim, só tem morte, esgoto, lixo na porta, falta de educação, miséria e desgraça.

A gente tenta, então, o tempo inteiro falar das coisas positivas. Infelizmente, a vida é dura para todo mundo, como eu falei; e nem sempre dá. Mas a gente está sempre tentando passar essa visão.

Outra coisa que é fundamental no nosso trabalho é que, quando a gente está num processo de apuração, primeiro, a gente trabalha basicamente com os próprios comunicadores locais, com pessoas das favelas que são notícia e produzem notícias, produzem conteúdo, enviam matérias pelo WhatsApp. Eu raramente recebo coisas por e-mail; é tudo pelo WhatsApp, na hora. Escrevem ali mesmo, porque o celular é a maior arma de todo comunicador.

Então, a gente está sempre recebendo material e dando esse protagonismo para quem está ali dentro, porque, quando tem um conflito, alguma coisa, algum problema, a grande mídia vai primeiro perguntar para a polícia o que está acontecendo. Ela não ouve o morador. Não quer saber!

Uma coisa a que a gente também está tentando dar ênfase é àquela história de: “Tiroteio em horário de saída de escola”. O tempo inteiro isso acontece e você, dificilmente, verá uma matéria na grande mídia falando sobre isso. Nós sempre colocamos e os alertas que a gente posta na nossa página vem como: “Mais uma vez em horário escolar”, para que as pessoas entendam isso.

O nosso foco é o morador. A nossa primeira fonte vai ser o morador. E a gente quer saber como tudo afeta esse morador.

Eu não estou nem aí para o que a polícia vai falar ou para o que a polícia vai fazer. O órgão oficial vai ser a última coisa que eu vou ouvir, porque não me interessa muito o que eles têm a dizer. A gente já sabe o que eles vão dizer, naquela notinha lacônica com números de apreensões, mortos... Isso não me interessa. Eu quero saber o dano que aquele tiroteio está causando na vida do trabalhador que não pode sair de casa; não pode levar o filho para creche e, assim, vai perder um dia de trabalho; vai ter que se virar.

Então, é muito importante que a gente pense nessa ideia de jogar a luz para o outro lado. E esse é o grande diferencial.

O nosso jornal impresso, mensal, tem 50 mil exemplares. Está na rua com os nossos distribuidores. A gente tem um modelo diferenciado de distribuição. Temos cerca de 30 agora.

A gente não volta R$ 1,00 para a agência. Muitos deles já produzem esse conteúdo. E a maneira que a gente encontrou – não apenas de compartilhar informação, mas também compartilhar – é dividir a renda com essas pessoas.

Enfim, era exatamente isso o que eu iria falar. E dizer que o jornal se chama A Voz da Favela, mas a gente não tem a intenção de ser voz de ninguém, porque todo mundo tem a sua voz. O morador tem a voz dele.

Somos apenas um amplificador ou um instrumento para que essa voz chegue a mais pessoas, entendeu? E a gente está tentando. Todos os meses é uma batalha fechar o jornal sem grana. Não é um problema com que todos aqui convivemos? Não existe incentivo, não existe nada.

Então, é sempre uma batalha para os comunicadores independentes, principalmente. Raul e Gizele podem falar isso melhor até. Gizele costuma dizer que tem dois empregos para pagar a militância dela.

Era só para pontuar algumas questões da nossa metodologia de trabalho, que também não é só uma coisa de receber conteúdo e “beijo e tchau”. Também trabalhamos com formação de colaboradores, damos cursos de formação em comunicação. Queremos empoderar essas pessoas, dar as ferramentas para que elas sejam cada vez mais donas desse direito à comunicação. Comunicação é direito. A gente se esquece disso.

Todo mundo tem direito de ter a sua voz replicada o mais longe possível e é para isso que a gente trabalha basicamente.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Gizele Martins, por favor.

A SRA. GIZELE MARTINS – Boa noite a todas e todos.

Sou Gizele. Sou comunicadora comunitária, já a metade da minha vida, como comunicadora há mais de quinze anos. Sou moradora do conjunto de favelas da Maré.

Fiz jornalismo muitos anos depois de já ser comunicadora comunitária na Maré. Escolhi essa profissão justamente porque não acreditava na mídia comercial, não me via representada.

Quando eu via na televisão e ouvia que havia um tiroteio na favela da Maré, eu não me sentia representada ali, porque o jornalismo comercial nunca coloca como é a vida da Gizele diante de um tiroteio; o que ela sofre; o médico a que ela não vai, e que estava marcado há dois anos; a faculdade a que ela não vai; o emprego que ela perdeu; a escola e os postos de saúde fechados; os tiros que atingem corpos negros.

Ela não problematiza o tiroteio, não coloca os sentimentos dessa Gizele diante desse tal tiroteio, que não é um tiroteio que acontece ali e ponto final; é uma prática constante de um estado que está matando.

Isso é discutir a favela e a Cidade; é problematizar a própria comercialização das armas; a própria política de drogas; discutir racismo; discutir os 120 anos das mais de 800 favelas que nós temos no Rio de Janeiro. Discutir porque no asfalto existe um tratamento e na favela outro.

Eu não via toda essa problematização numa simples notícia, num simples lide que a mídia colocava: “Houve um tiroteio na favela da Maré que impediu a circulação de estrangeiros e da população carioca entre aeroporto e Zona Sul”; nunca falando de Gizele Martins e dos mais de 132 mil moradores dessa Favela da Maré. Então, eu vi que precisava fazer jornalismo para aprender mais essa técnica e continuar na comunicação comunitária, em que estou há mais de 15 anos. Nem consigo mais contabilizar os anos.

Fiz parte do jornal O Cidadão, que circula na Maré há 20 anos. É um dos jornais comunitários mais antigos que existem. Por falta de verbas, infelizmente, não temos mais o impresso, que, dentro da favela, é muito importante, porque nós criamos um afeto com os moradores.

Há gente que não sabe ler, há gente quem usasse aquele impresso para fazer trabalhos escolares. Professores faziam provas de interpretação de texto com o jornal O Cidadão; moradores colecionam aquele periódico desde a sua primeira edição. Eu não tenho a edição n° 1, somente uma cópia, mas há moradores que têm o original.

Eu até já pedi para tirar cópia e os moradores falam: “De jeito nenhum, para você roubar o jornal de mim?” Há toda uma questão de afeto com esse jornal, que também é memória. É como se fosse um livro desses moradores, sobre a sua própria história.

Junto ao jornal, nós também damos atenção às redes sociais. Hoje, na Maré, há a página Maré Vive, da qual também participei da fundação. Criamos a Maré Vive na época em que o Exército invadiu a Maré, porque só o jornal impresso não dava conta, 24 horas, das notícias de violações de direitos humanos que aconteciam e acontecem lá dentro. Então, nós criamos essa página junto com vários moradores. Nós não colocamos a cara de quem criou a página e o que aconteceu foi que, ameaçada de morte, fiquei seis meses fora da Maré.

Discutir comunicação comunitária tem toda uma problematização, porque é a nossa própria vida. Nós, que somos produtores dessa notícia, estamos morando nesse território. Então, há a segurança interna desse comunicador, a segurança externa, a família. Eu fiquei morrendo de medo de pegarem a minha família. Eu tenho mais de 100 pessoas da família na Favela da Maré. Como eu iria tirar minha família dali? Então, falei que precisava me desvincular dessas mídias.

Nós precisamos também ter uma articulação melhor com as organizações que trabalham com a questão da segurança de comunicadores e jornalistas. Nós tivemos, no Brasil, 30 jornalistas assassinados em seis anos, e isso é muito grave. Nós temos comunicadores comunitários no Brasil inteiro sendo ameaçados de morte. Ontem mesmo, tive a notícia de que comunicadores comunitários do Pará, por denunciarem uma chacina, tiveram que meter o pé, assim como eu tive que meter o pé em 2014, só porque denunciaram essa chacina.

Hoje, eu tenho dois empregos para sustentar a minha militância na comunicação comunitária. Pagar passagens, o lanche. Eu e Raul tivemos um debate, nesta semana, que acabou à meia-noite e tinha começado às 21 horas. Nem sempre dão dinheiro de passagem ou transporte para quando a gente sair à meia-noite de um evento. Então, a gente acaba sustentando a nossa própria militância, dando dinheiro para imprimir os nossos jornais.

Em 2014, por exemplo, mesmo eu – comunicadora já antiga na área de favelas – não sabia a quem pedir socorro, porque eu sofri uma ameaça de morte na minha própria casa. Então, a gente precisa articular essas organizações que trabalham com a segurança de comunicadores e colocá-los em contato, para que mantenham uma pessoa ali, segurando todos os contatos.

Também precisamos fazer cursos de formação sobre a questão da segurança, porque houve um momento em que eu tinha que me expor, do contrário, eu morreria. Ou seja, para mim, a não exposição não vale mais, porque eu tenho de me expor 24 horas, tenho uma rede de apoio que sabe onde eu estou e a que horas eu estou chegando. Porque eu sou uma comunicadora comunitária que denuncia a violação dos direitos humanos. A gente precisa formar esses comunicadores, para cuidar de sua segurança e também evitar que eles sofram o que eu, o Raul, o Tainã passamos e que os comunicadores estão sofrendo no Rio de Janeiro e no Brasil inteiro.

E precisamos capitalizar recursos também. Uma grande dificuldade que a gente tem é nisso. Não é à toa que a gente não tem recursos para a comunicação comunitária, por isso está lutando pela democratização da comunicação. Porque a gente está fazendo mídia contra a hegemônica e há uma mídia ideológica, sim, que pauta a questão racial, que pauta uma briga de pensamentos, de mobilização de ideias, não é? Temos sete famílias donas de grandes meios de comunicação que são donas de shoppings, donas disso, donas daquilo, donas de fazendas e que estão dentro do Congresso também.

E nós, comunicadores, sem grana, sem proteção alguma, sem contato nenhum, sem recursos, sem emprego. A gente está fazendo uma comunicação de guerrilha. E, aí, não é por acaso que a gente não tem recursos direcionados a esses comunicadores e comunicadoras. A ideia é a de que, de fato, a gente não tenha recursos para melhorar a comunicação, porque, se eu tivesse uma grana, estaria bombando no Rio de Janeiro com um monte de comunicação; fazendo inúmeros cursos de comunicação comunitária; fazendo outros comunicadores e comunicadoras nascerem. Fazendo outros Papo Reto, outros Maré Vive, outros jornais O Cidadão e cidadãos nascendo nas favelas e periferias do Rio de Janeiro.

E, não só eu, Gizele. A gente tem hoje uma rede de comunicadores que nascem neste momento em que o Rio de Janeiro tem suas favelas atacadas pelos megaeventos, pelas UPP, pelas remoções. E agora, com a queda desses direitos, a gente vê um aumento do número de comunicadores que nasceram justamente nesta Cidade. Porque percebemos que a comunicação comercial não nos vê, não lê os nossos releases, não nos atende. E quando atende é sempre para contar que o tiroteio ocorrido na Maré interrompeu apenas quem passava na Linha Vermelha, e não quem mora ao lado da Linha Vermelha, que sou eu, não é?

Vemos o aumento no número de comunicadores comunitários, o que é muito bom, fazendo outros tipos de comunicação, usando a internet, o Facebook, o YouTube, a roda de conversas na escola, nas ruas da favela. Hoje, numa ideia de tentar tirar esta cara de que só denuncia a polícia, que só denuncia assassinatos e chacinas, porque, de fato, foi isso que eu acabei fazendo minha vida inteira, infelizmente. Eu lembro a primeira vez que vi o André foi no dia 4 de dezembro de 2008, quando o Matheus Rodrigues, de oito anos, foi assassinado pela Polícia Militar.

E outra função do comunicador comunitário é escrever a matéria, mas uma matéria diferenciada: é mobilizar a favela para que o BOPE não pegue o corpo, é expulsar o BOPE, é expulsar o Caveirão, é fechar a Linha Vermelha, a Avenida Brasil; é protestar contra aquilo; e ainda avisar aos moradores da hora de sair ou entrar. Ou seja, nossa função de comunicador vai além de um simples lide.

A gente precisa aprofundar também esse debate, e é outra sugestão que eu faço, já para acabar a minha falação aqui: que a gente consiga uma entrada nas universidades pública e particular; que a gente exija que matérias de comunicação comunitária não sejam eletivas apenas e sejam dadas por comunicadores e comunicadoras comunitárias. Porque o que a gente vê na universidade é uma galera falando que ONG é comunicação comunitária, sem se aprofundar no tema. A comunicação comunitária vem se aperfeiçoando, cada vez mais, na sua guerrilha e na sua falta de sustentabilidade, mas também vem tentando se renovar a cada dia, tentando acompanhar novas tecnologias que vêm nascendo.

E é na universidade que a gente precisa ter uma entrada; e, aí, as verbas também têm que virar política pública. Temos que discutir como as verbas vão chegar, porque muitos desses comunicadores e comunicadoras dessas rádios, canais e páginas no Facebook não têm CNPJ, não têm nenhum tipo de proteção, não têm documentação. De que forma também isso pode ser repassado e de que forma a gente consegue garantir que, de fato, os comunicadores e as comunicadoras tenham parte dessas verbas? Ou seja, são várias coisas: discutir a segurança dos comunicadores; a garantia da existência desses comunicadores e da comunicação; TV, rádio, web, tudo isso. É discutir a sobrevivência também desses comunicadores, a sobrevivência tanto física quanto financeira, que são essenciais.

Se a gente tivesse apoio, imaginem todos os nossos meios de comunicação que nasceram nesses últimos anos nas favelas... A gente estaria, de fato, disputando com a mídia comercial. A página Maré Vive tem 100 mil seguidores. Todo dia eu, Gizele, vou à página para saber se o Caveirão entrou na favela ou não. E é o que todo mundo faz também; essas 100 mil pessoas que seguem e são moradoras da Maré. Para ver se podem sair de casa ou não, se podem levar o filho na escola ou não.

É a ideia da comunicação comunitária lutando pela sobrevivência; pontual, ideológica, mas física também; não só dela, mas do comunicador e da população que está ali dependendo dela. Acessando, acreditando e confiando nessa comunicação que está sendo feita pelos seus e não pelo outro que está lá fora, numa redação seja da Globo ou de onde for.

Era isso que eu tinha para falar.

O SR. ANDRÉ FERNANDES – Como diz você: “Arrasou!”.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Raul Santiago, do Coletivo Papo Reto.

O SR. RAUL SANTIAGO – Bom, primeiramente, queria agradecer ao Leonel Brizola pelo espaço, pela parceria com a ANF. Ao André e à ANF, quero parabenizar por tudo que aconteceu ontem e hoje, por essa história. E, enfim, poder estar aqui numa Mesa tão potente é algo muito significativo. A gente poder discutir a comunicação em um país onde a comunicação hegemônica dita tanto seus rumos e muitas vezes, de forma desigual, para quem é pobre, para quem é preto, para quem é indígena, para as pessoas das bases desse Brasil.

Pegando um pouco da fala da Mesa, da galera que já falou, vou explicar um pouco a comunicação que o Papo Reto faz. O Coletivo Papo Reto é um coletivo de comunicação independente do Complexo do Alemão. Ele surgiu no final de 2013 e é um coletivo potente, porque as pessoas que fazem parte desse coletivo já têm alguns anos de ativismo. Nos unimos em coletividade para poder fazer a comunicação dentro do Complexo do Alemão. Resumidamente, o Coletivo Papo Reto surge nessa mesma lógica que a Gizele trouxe.

A gente vive numa favela historicamente conhecida e explorada pela forma negativa. Então, quando se ouve falar historicamente do Complexo do Alemão, você pensa em problema, em lugar ruim, em tudo de pior que existe no Rio de Janeiro. Sem discussão. Sem pensar o que faz esse lugar ter essa imagem, sem pensar o porquê de esse lugar ter se tornado violento, o porquê de terem criado esse imaginário sobre o Complexo do Alemão.

Antigamente, quando a gente pegava o jornal impresso, ouvia rádio e assistia à TV, todos e todas assumiam esse discurso. O jornal de meio-dia, o jornal das 17 horas e o jornal da noite falavam do Complexo do Alemão como o problema do Rio de Janeiro. “O Complexo do Alemão é um lugar violento do Rio de Janeiro”; “O Complexo do Alemão é lugar de pessoas ruins.”

Só que quem vive na favela, quem vive a cidade por inteiro e não experimenta a cidade partida, olhando de fora para dentro, apontando para a favela e dizendo que “aquilo ali é um problema”, mas sem conhecer, não vê a vida, a criatividade, a potência, a quantidade de coisas incríveis que acontecem o tempo inteiro e que não têm espaço, por causa da exploração de vender o medo, de vender a dor, de vender o terrorismo, para manter a forma como este Estado e como este País funcionam.

Se qualquer pessoa pesquisar, a principal política pública, historicamente, para o Complexo do Alemão vem por meio da Secretaria de Segurança. Os principais investimentos são por meio da polícia. O Estado dialogando com a população da favela por meio da polícia. Essa é a principal política pública. E, aí, nesse cenário de TV falando mal, de jornal falando mal, de rádio falando mal, a gente olha para o lado e pensa: “não, não é isso”. Isso acontece inclusive pela forma como vocês nos tratam.

Há um processo que precisa ser discutido, mas não é; por quê? E, aí, quando acontecia um abuso ou uma violência extrema do Estado por meio da polícia, era feito um protesto na famosa Estrada do Itararé, um dos principais acessos do Complexo do Alemão. A polícia vinha com gás de pimenta, bomba, tiro de verdade, bala de borracha, dispersava todo mundo, e a imprensa colava uma câmera na cara do policial: “O que aconteceu?”. O cara falava: “Isso é aí é um protesto a mando do tráfico. Esse povo todo trabalha para o crime, não é nada não”. E a versão oficial que ficava era essa. A comunicação independente vem nessa disputa. Não é daquele jeito que estava sendo mostrado. Não é daquele jeito que estava sendo discutido.

Então, o Coletivo Papo Reto tenta disputar essa narrativa numa mão dupla da comunicação. “Papo reto” significa gíria direta: o papo reto de falar direto, direto ao ponto, sem enrolar muito. Basicamente, o que a gente fez? A gente começou a tentar disputar uma narrativa e mobilizar ações, fazer uma comunicação que virasse ação prática ou usar da comunicação para divulgar ações práticas, sempre nesse método de retroalimentar. O campo com o online, o online com o campo, se alimentando e tornando de fato as coisas concretas, tentando mudanças reais.

Basicamente, hoje a gente trabalha com uma comunicação que tem uma via de mão dupla. Desde que a gente surgiu, experimentou algumas ferramentas para fortalecer o Complexo do Alemão e os territórios de favelas do País. A gente atua em dois eixos. Um deles, eu posso chamar de comunicação de resistência, que é criar uma rede de denúncias, uma rede de apoio, uma rede de pessoas, para que a gente encaminhe denúncias e não apenas as torne públicas; não apenas torne notícia, disputando a real situação do que aconteceu no campo da violência no Complexo do Alemão, mas que a gente consiga encaminhar soluções de violação policial, de não garantia de direitos, de não garantia de outras políticas públicas.

A gente construiu uma rede local forte de encaminhamento de denúncias: nós por nós, nos fortalecendo dentro do território. Em que sentido? A gente criou uma ferramenta tecnológica de última geração, mas que todo mundo deve ter no seu telefone: um grupo de WhatsApp. Mas a gente fez um grupo bem estratégico. O Complexo do Alemão deve ter quase 200 mil moradores, são 16 favelas, e a gente trabalha com comunicação para denunciar a violência numa favela que é extremamente marcada por isso, desde a forma como o Estado dialoga com aquela realidade.

Neste grupo, tentamos juntar todas as diferenças existentes, todos os tipos de pessoas: homem, mulher, adulto, criança, gay, mototaxista. Criamos um grupo com duas ou mais pessoas de cada um desses territórios que compõem o Complexo do Alemão e criamos um núcleo de cobertura completo, em tempo real.

A gente começou a trocar informação: “Olha, galera, esse grupo é para nossa proteção, para a gente falar quando tiver tiroteio”. Junto com isso, a gente criou a página no Facebook. A gente começou a ver que a galera informava: “Olha, estão dando tiro aqui em tal área do Complexo do Alemão”. Então, a gente pegava aquela informação que as pessoas nos passavam e postava na página. Isso se multiplicava. Em pouco tempo, a gente percebeu que conseguia, através dessa simples rede, reduzir danos. A gente sabia imediatamente onde tinha um tiroteio e postava; imediatamente as pessoas viam; imediatamente menos pessoas passariam naquele lugar enquanto estivesse tendo o conflito. Redução de danos direta, numa articulação simples, em rede.

Pouco tempo depois, a gente percebeu que consegue saber onde estão dando tiro e a gente está vendo que semanalmente, mensalmente, que esse lugar tem muito conflito. Sabemos que tal local do Complexo do Alemão é uma das áreas mais violentas, onde mais tem operação policial. A gente precisa intervir com cultura, enquanto denuncia que aquele espaço está violento. Assim, a gente começou a perceber que essa comunicação trazia dados concretos que nos permitiam mapear locais para intervenções, para diálogos, para construir uma estrutura direta e tentar mudar aquela realidade.

Junto a isso, a gente começou a perceber que a violência era uma demanda muito grande, que sugava muito a nossa energia e a gente também não poderia repetir o erro de sermos apenas multiplicadores da nossa dor; apesar de o problema ser algo real. Éramos uma comunicação que não explorava, mas tentava reduzir e diminuir as ocorrências.

Começamos a trabalhar com o que chamamos de publicidade afirmativa, que é fortalecer o local, contar a história daquelas pessoas, mostrar o que de bom acontece, mostrar como a favela é criativa, potente e um lugar incrível. A gente está ali dançando um passinho; o moleque está soltando pipa; tem o mototaxista; tem a lan house; tem a vida acontecendo; a tia da quentinha; e, de repente, “pá pá pá”. Aí, tudo isso para, essa vida para.

As pessoas não entram na favela. Ainda há esse preconceito, ainda há o racismo. As pessoas nos olham de longe, apontando. Quem não é da favela diz: “Olha, não vá ao Alemão, não”. É a primeira coisa que falam para o turista: “Não vá lá, não. Não sobe, não. Vai morrer”. E as pessoas não conhecem a realidade que a gente que é de dentro vê: a arte, a cultura, quanta coisa incrível está acontecendo o tempo inteiro. Mas o tiro atravessa a barreira invisível. As pessoas de fora da favela ouvem o tiro. Ouvindo o tiro, chamam a mídia, que explora aquele tiro. Cria-se, a partir disso, o imaginário violento do Complexo do Alemão e ele se resume àquilo.

A gente traz essa publicidade afirmativa, na disputa de construir outro olhar, outro imaginário sobre o que é a realidade da favela. Nesse processo, para resumir a fala e depois a gente debater, o Complexo do Alemão é historicamente posto como um lugar extremamente violento. E a política pública é muito exploradora, inclusive na forma como chegou a essa favela. Até 2010, se você desse como endereço a Rua Joaquim de Queiroz, a entrada da Grota, do Complexo do Alemão, você não arrumava emprego. Todo mundo olhava torto: “Está maluco? Não quero esse doido aqui, não!”. Nem carta chega. Em 2010, o Brasil estava para sediar vários megaeventos e tal, com todo aquele discurso que, infelizmente, quando tem evento acontece.

A Gi falou uma parada muito interessante na última mesa em que a gente participou: que a festa das pessoas é o nosso terrorismo. Enquanto as pessoas curtem, a gente sangra; enquanto discutem e vendem paz, é através do nosso sangue.

Então, isso se repete e, em 2010, chegaram as grandes obras e os megaeventos. E a principal intervenção de política pública no Complexo do Alemão foi a polícia, novamente. É a única solução que encontram para dialogar com o morador e a moradora da favela. O Estado chega e fala: “Olha, aquela política que historicamente veio, matou, fez as chacinas, agora ela é legal; agora ela é boa, e vai ficar aí para proteger você”. E deram um nome: Unidade de Polícia Pacificadora.

Só que, na prática, pouco tempo depois – não precisou nem a gente se movimentar tanto –, a estrutura, sozinha, já se mostrou falha. Porque, quando você pensa a favela apenas através da segurança pública, você não constrói caminhos, pelo contrário, você criou uma contenção da pobreza, uma contenção armada da vida do pobre, do quotidiano das pessoas humildes.

Imediatamente começaram a surgir violações e abusos diversos e o Papo Reto começou a denunciar essa situação. Em certo momento, essas denúncias se tornaram tão constantes que já não impactavam mais. Aí, a gente teve que achar uma forma de denunciar e evitar que as pessoas continuassem sendo assassinadas.

Há uma coisa muito grave aqui no Brasil: a guerra às drogas. Só que guerra está para o pobre. Guerra está para o preto. Guerra está para as pessoas humildes. Guerra está para quem é da periferia. A guerra às drogas não está para o filho da desembargadora, que não vai ficar preso nem um dia; nem para o helicóptero das famílias, dos Perrella; não está para os poderosos. Mas a guerra tem território, tem endereço: diariamente nos matam, nos assassinam e reduzem a nossa morte, dizendo que foi bala perdida. Mas bala perdida também só tem dentro da favela todo dia, toda hora. Bala perdida é algo para o pobre.

Então, nós começamos a dialogar com isso, a desenrolar. Em certo momento, nós vimos que as pessoas morriam dentro de casa no Complexo do Alemão. As. Teve um momento em que uma mãe e uma filha foram baleadas enquanto viam televisão. Teve um momento em que uma pessoa foi baleada dentro da Kombi, e nós falamos concluímos que estávamos sendo baleados em todo lugar, então, tentaríamos mostrar quem estava nos dando tiros.

As oito pessoas do Papo Reto se organizaram e começaram a ir para a rua durante a operação policial, para tentar, através de áudio e vídeo, mostrar que tinha um intuito naquilo ali, que o culpado não era a gente, mas a forma como a intervenção chegava. E nós, rapidamente, pegamos abuso policial, extorsão, arrego, agressão, violências diversas com a população, execuções sumárias, execução de pessoas já rendidas.

Começamos a fazer essas denúncias. Imediatamente, teve um boom muito grande com o nome do Papo Reto para duas vertentes. Na primeira, nós, enfim, com áudio e com vídeo, conseguimos reabrir a discussão sobre política de segurança dentro do Complexo do Alemão, a partir do momento em que tínhamos algo visual para mostrar. “Veja aqui como é que acontece e para que serve um caveirão. Vejam aqui como é que acontecem as coisas de fato”.

Rapidamente, nós chamamos a atenção de toda a milícia do Rio de Janeiro. Começou a vir um processo grande de ameaças. Então, nós tivemos que nos reorganizar para saber como trabalharíamos a comunicação on-line e na rua. Então, desenvolvemos estratégias de segurança, de cobertura no campo, em parceria com algumas instituições, como o Front Line Defenders e a Witness, uma instituição de Nova Iorque, que chegou fortalecendo os nossos treinamentos, tanto tecnológicos quanto de campo, para cobrirmos o espaço de conflito e pudéssemos ter uma comunicação segura, online, e conseguíssemos continuar mantendo o trabalho que fazemos.

Ao mesmo tempo, nós começamos a nos conectar com outras periferias do mundo, como nos Estados Unidos, com o movimento Black Lives Matter. Os Estados Unidos foram o primeiro país a declarar guerra no mundo e o Brasil copia, pouco tempo depois. E com a Colômbia, pois todo o processo do Complexo do Alemão é inspirado em Medellín: teleférico, UPP são copiados de lá.

Ninguém dava atenção para o que acontecia no Complexo do Alemão nos últimos três anos. O que importava eram os Jogos Olímpicos, a Copa do Mundo, megaeventos, turismo e a favela militarizada. Aí, teve um momento em que não conseguíamos atenção de ninguém para discutir o que estava acontecendo, a gravidade do fato que existia dentro do Complexo do Alemão.

Começamos a nos conectar com essas periferias e, em parceria com a Witness, em 2015, cavamos uma matéria no The New York Times. Eles queriam nos entrevistar por telefone, e nós falamos: “Não, vocês têm que vir”. Eles mandaram dois jornalistas que ficaram conosco, por uma semana, no Complexo do Alemão. Neste período, o que esses jornalistas viram foi a execução sumária de dois mototaxistas. Um deles a polícia colocou dentro do Caveirão, botou a cabeça para fora e executou, na Vila Cruzeiro, Complexo da Penha. Pegaram a quantidade de pessoas baleadas. Viram o que um carro blindado chamado caveirão faz em uma rua principal quando entra. Porque, além de dar tiro, a blindagem e a imponência dele destroem o carro do morador, a moto do morador, o comércio de rua da moradora.

Então, eles viram tudo isso, e nós, em 2015, de dentro do Complexo do Alemão, com um celular na mão, estampamos sete páginas do The New York Times, com uma matéria que chamava para o Brasil, dizendo: “A mídia do Brasil não se importa com o que acontece aqui”. No dia seguinte, toda a imprensa do Brasil nos procurou. A partir disso, nós debatemos.

Era só para dizer como é possível, com um celular na mão, com um jornal impresso dentro da periferia, mobilizar uma revolução e construir uma contranarrativa diante de um processo de comunicação hegemônica que não dialoga conosco, mas sobrevive a partir da exploração do nosso corpo e do nosso sangue.

É isso. Estamos juntos.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Muito bom. Carla Santos, do Centro de Mídia Barão de Itararé. Entre sem bater, não é?

A SRA. CARLA SANTOS – Exatamente, entre sem bater. Boa noite a todos e todas. É uma grande responsabilidade falar depois da Gizele e do Raul.

Estou muito emocionada de ouvir esse depoimento deles e acho que muita gente aqui também. E também por estar ao lado deles, porque são pessoas que eu acompanho há algum tempo. Muitas vezes, eu estava no público assistindo, torcendo, acompanhando, dando meus likes e compartilhando. Estar aqui ao lado deles realmente é uma grande responsabilidade. Acho que são verdadeiras inspirações. Heróis nos quais nós realmente temos que nos inspirar para enfrentar tudo o que estamos enfrentando, porque a situação política do Brasil está muito difícil, muito complexa. E são exemplos como esse que fazem com que tiremos o ânimo lá do âmago para enfrentar tudo isso.

Depoimentos como esses alimentam e dão perspectiva para nossa militância, a mídia alternativa, a mídia livre e a mídia comunitária para seguirmos em frente. Eu também acho muito simbólico que estejamos fazendo esse debate dentro deste Auditório, com você, Leonel Brizola Neto. Eu também sou gaúcha, apesar de não parecer – atípica, porque sou a mais agasalhada aqui. Por isso, eu vim morar no Rio de Janeiro, para fugir do frio, já sou “cariúcha”. Mas nós sabemos que o Brizola é um ícone dessa luta em defesa da democratização da comunicação, inclusive o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, a entidade que eu humildemente represento aqui, fez um ato, em 2016, na Rua do Centro onde está a gráfica da Rede Globo, para trocar simbolicamente o nome Irineu Marinho pelo nome Leonel Brizola. Você estava lá conosco inclusive nesse dia. Nós projetamos aquele vídeo do seu avô, no direito de resposta à Globo, que já tem milhões de views no YouTube. Então, é muito simbólico estarmos aqui neste auditório, com você, travando esse debate.

Quero dizer também que estou muito feliz com a iniciativa da Agência de Notícias das Favelas de nos reunir nesta sala. Pode não haver centenas de pessoas, mas estava faltando isso; está faltando gente que tenha essa iniciativa de nos chamar para sentar, conversar e pensar essa rede.

A Ivana é outra figura muito importante nesse sentido, nós acabamos de ser contemplados pelo Prêmio Lab Cultura Viva de Midialivrismo, que a Ivana abraçou dentro da Escola de Comunicação da UFRJ; por meio de uma emenda que veio da Jandira Feghali, mas que ela encampou na UFRJ. Eu acho que esses momentos em que podemos nos encontrar são muito importantes, como o André citou no início.

A ANF, que está com uma exposição linda aqui na frente da Câmara de Vereadores – acho que é bacana o pessoal ir lá conhecer –, tem protagonizado cenas interessantes nesse ambiente de troca das redes. Fez o Encontro Latino-americano de Comunicação Comunitária, tem ido aos Congressos Latino-americanos de Cultura Viva e atuado muito fortemente para criar esses ambientes, sair um pouco do seu quadrado, aproximar as pessoas. É isso: é mídia livre, é mídia alternativa, é mídia comunitária, como essas coisas dialogam. Acho isso superimportante. Parabéns ao André e a toda a equipe. A Renata, a Elaine, as meninas arrasando na ANF!

Queria também agradecer muito a presença de quem não é do Rio de Janeiro e queria fazer isso através do meu querido Fred, do Rionlinetv, uma TV comunitária de São Gonçalo. Então, veio de São Gonçalo para cá, para discutir. Tem as rádios e as TV comunitárias, que eu também acho que é muito importante conversar sobre isso. E também é superimportante essa integração; e o Rio ser mais que a Capital; pensar a Baixada, o Leste Fluminense, o interior, o Brasil profundo. Tem tanta coisa bacana.

Há outras periferias além da do Rio, com as quais temos que dialogar, aumentando a visibilidade entre nós. Muito obrigada pela participação de vocês.

Quero comemorar também o afastamento do William Waack do Jornal da Globo; uma vitória pequenininha, mas muito simbólica. O Renato Rovai, da Revista Fórum, disse que foi fogo amigo, porque realmente aquelas imagens vieram de dentro da Globo, de um cinegrafista que estava gravando o intervalo. Mas, mesmo que tenha sido fogo amigo, a reação é que fez com que ele fosse afastado. Porque esse tipo de coisa nós já vemos há muito tempo...

A SRA. JULIANNE GOUVEIA – Carlinha, só uma coisa, vitória mesmo seria colocar um âncora negro no lugar dele. Aí, sim!

A SRA. CARLA SANTOS – Sim, eu acho que vitória seria tomar de assalto todos os equipamentos da Rede Globo, as antenas. Mas eu estou pensando na quadra em que vivemos, o que significa a gente conseguir mexer alguma coisa na estrutura da Rede Globo por 24 horas... Vamos combinar.

Esse vídeo vazou num dia e no outro o William Waack estava afastado da Rede Globo. “Ah, ele pode voltar. Isso é muito pouco.” Eu concordo. Claro que isso é muito pouco. Mas se a gente pensar no que isso significa, olhando para história da luta pela democratização da comunicação, é pequenininho, mas é muito simbólico.

As pessoas já não aceitam mais da mesma maneira o racismo, o machismo, a homofobia, o fascismo; apesar de o Bolsonaro estar bombando nas pesquisas. Mas já existe isso e é mudança de mentalidade. Mudar a mentalidade é muito difícil.

Os 13 anos de governo Lula-Dilma não foram capazes de mudar a mentalidade das pessoas. Elas continuaram acreditando que o Minha Casa Minha Vida, o PROUNI (Programa Universidade para Todos), REUNI (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), políticas públicas para salário mínimo foram um mérito pessoal, não foram decisões de política pública no Brasil. Então, é uma vitória muito pequena? É, mas eu acho que é simbólico do que a gente pode fazer e do que a gente está fazendo para mudar o status quo da mídia tradicional; dessas seis famílias que – como o Leonel citou aqui – determinam o que é verdade e o que é notícia no Brasil. Então, eu acho que isso é bem simbólico.

E o que é o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé? Basicamente, é uma rede de blogueiros e ativistas digitais, fundado em 2010, logo após a primeira e única Conferência de Comunicação no Brasil, em Brasília, em 2009. Depois, nunca mais tivemos e não é à toa também que estamos pagando por esses erros hoje. E, naquele calor, muitos blogueiros se reuniram e fundaram o Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé que, além de blogueiros e jornalistas, também reúne muitos pesquisadores.

No ano passado, lançamos um livro chamado “Pelo Direito a Comunicação”, com vários artigos de vários pesquisadores, de várias universidades da área da comunicação e de outras também, para tratar do tema das políticas públicas para a comunicação. Então, o Barão de Itararé tem esse perfil. Ele chama Centro de Estudos da Mídia Alternativa, e aí, talvez, para o Barão de Itararé, a mídia alternativa esteja muita ligada à galera que vai privilegiar essa linguagem do texto da informação, da fonte, desse rigor para pensar a comunicação e discussão sobre política pública.

Com a TV digital, quadruplicaram o número dos canais de televisão e rádio e, no entanto, isso continua concentrado na mão de seis famílias. Então, as seis famílias tinham 10 canais abertos e agora elas terão 30, e essa concessão é pública. Se ela é pública, por que só seis famílias têm acesso a isso? Então, o Barão de Itararé vai fazer esse debate.

E uma das figuras que eu acho mais emblemáticas na nossa atuação, aqui no Rio de Janeiro, é o Miguel do Rosário, que tem um blog chamado O Cafezinho e corajosamente denunciou a Rede Globo pela sonegação de R$ 600 milhões em impostos. A mesma Rede Globo que condena o Lula e a Dilma por ter um barquinho, por comprar um suposto apartamento no Guarujá, sonega R$ 600 milhões. Nós abrimos um processo na Polícia Federal quanto a isso, que foi arquivado.

E o Miguel do Rosário também foi processado pelo Ali Kamel, Diretor Executivo da Globo – aquele que disse que lá não tinha racismo –, a pagar R$ 30 mil de multa por ter citado seu nome em uma das matérias. Então, existe uma perseguição a quem faz mídia comunitária; e existe uma perseguição também a quem procura investigar e apontar essa concentração na comunicação brasileira e a corrupção existente nessas relações entre as grandes corporações de comunicação, nacional e internacionalmente. Então, o Miguel é um dos nossos heróis, no Barão de Itararé.

Nós conseguimos fazer uma vaquinha virtual, mas, infelizmente, não conseguimos ganhar essa ação, porque realmente a Rede Globo é muita poderosa. Vencer eles na justiça... A gente vê a judicialização da política e o peso que o Judiciário tem hoje para definir tudo; imaginem com a Globo. Mas a gente conseguiu fazer uma ação em rede e pagar essa multa para o Miguel; esse é um pouco do trabalho que o Barão de Itararé tem feito.

Já fizemos três encontros de blogueiros e ativistas digitais. Estamos aqui para estabelecer esse diálogo, pensar essa rede, à disposição dos vários amigos e amigas, pessoas novas que estão hoje com a gente, para contribuir dentro desse debate e trabalhar em rede.

Uma vitória recente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé é a aprovação de 30% dos recursos de publicidade da Câmara de Vereadores de Niterói para as mídias alternativas e livres da cidade. Esse é um projeto de lei em que o Barão de Itararé fica batendo todo ano. Volta e meia o pessoal ouve falar nisso.

Aqui no Rio de Janeiro mesmo – não é, Leonel? – a gente tentou com o Reimont; seriam 20% e não passou nem na Comissão de Justiça e Redação. Vamos tentar novamente! Eu estou achando ótimo! Esse é um compromisso público, porque água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

Na Assembleia também a gente apresentou o projeto com a Deputada Enfermeira Rejane, de 20%, mas também não passou pela Comissão de Constituição e Justiça. Agora a gente está nos 30%.

Mas, em Niterói, como foi bem pontuado aqui, com o mandato do Vereador Leonardo Giordano, nós conseguimos a aprovação da Comissão de Constituição e Justiça e Redação Final e, desde já, convoco todo mundo a ir à Niterói. A gente vai avisar. Fiquem ligados na página do Facebook do Barão de Itararé.

Temos também um site para fazer essa mobilização. Eu acho que vai ser muito importante porque, apesar de ser em Niterói, nós somos uma rede. Assim, 30% dos recursos da Câmara de Vereadores de Niterói iriam para as mídias que estão aqui. Acho que essa é uma iniciativa – junto com o prêmio que a gente conquistou com a ECO/UFRJ, da Ivana – que vai ajudar a gente a dar um respiro, nesse momento.

E, por fim, eu queria colocar duas reflexões para a gente pensar junto. Primeiro, a gente ouviu aqui o depoimento da Gizele; ouviu também a Julianne, falando como editora da ANF. A primeira provocação é: por que a gente se compartilha, se curte, se acompanha tão pouco? Estava visitando as páginas do Facebook do O Cidadão, da ANF, do Barão de Itararé. E a gente não compartilha as notícias uns dos outros! A gente não fala dos outros! A gente não se frequenta nem nas redes. Então, eu acho que esses depoimentos, como: “por que o tiroteio no Complexo do Alemão é notícia banal? Por que o Jornal Extra e outros veículos, inclusive empresas, se beneficiam do sangue da favela?” E a gente não consegue tirar essa notícia desse lugar e colocá-la na mídia livre; não consegue furar essa barreira.

Aquelas seis famílias, em algum momento, têm algum ambiente que eu não sei se é físico ou virtual, mas elas se encontram; elas determinam as pautas, não é? A gente chega lá, todas as manchetes são praticamente iguais. O que varia é uma vírgula, uma palavra. A gente abre o jornal e a pauta é a mesma para todos os grandes jornais. A gente passa pela Record, passa pelo SBT, passa pela Band, com pequenas variações; o centro da pauta é o mesmo.

Por que nós, da mídia alternativa, da mídia livre e comunitária, não conseguimos unificar as nossas pautas? Por que não conseguimos dar a visibilidade para a morte da Marisa Carvalho Nóbrega, uma mulher de 48 anos, que, segundo testemunhas da Cidade de Deus, foi assassinada, na semana passada, pela polícia. Por que não conseguimos dar a mesma relevância para essa notícia como teve aquela do cidadão branco que foi esfaqueado ao roubarem sua bicicleta, na Lagoa? Por que não conseguimos unificar a nossa pauta e criar a nossa narrativa para comover as pessoas também e humanizar essas notícias, como disse a Gizele? Porque isso vai virando número.

O genocídio da juventude preta, de que a gente tanto fala, tem que tocar o coração das pessoas para a gente realmente dar essa virada de mentalidade. Então, a primeira provocação é: como a gente faz isso? Como a gente consegue dar visibilidade para essas pautas da favela, da periferia, do povo trabalhador?

Eu trabalho no Sindicato Comercial do Rio de Janeiro. Essa semana, teve uma paralisação de 27 unidades de trabalhadores do supermercado Mundial, que não aceitam um decreto do Temer que simplesmente retirou o direito de eles terem 100% de adicional de salário por trabalharem aos domingos e feriados e ainda acabou com a folga. Aí, a galera se rebelou. E eu acho que tem que acontecer isso mesmo.

A tendência é que, com esse massacre aos nossos direitos e o aumento do desemprego, essas manifestações aconteçam cada vez mais na Cidade. Mas isso não está lá no Papo Reto. Hoje mesmo, conversei com um cara que é trabalhador do Mundial e mora no Complexo do Alemão. Então, como vamos pensar essas pautas? A que vamos dar visibilidade? Como vamos dar repercussão?

E, por fim, acho importante discutirmos as plataformas da mídia livre, alternativa e comunitária, que hoje são o Facebook e o WhatsApp. Só que essas plataformas são do Mark Zuckerberg, um cara que trabalha para as empresas que a gente critica. Estamos aqui fornecendo informação, dia após dia, para essa galera que está se apropriando e vendendo as nossas informações, mapeando os nossos movimentos, controlando os nossos corpos, inclusive direcionando até o nosso globo ocular, o nosso olhar. Existem pesquisas milionárias só para descobrir como é que as pessoas olham para um smartphone – e a Ivana pode falar melhor sobre isso – e, a partir daí, determinam qual o lugar da publicidade, de determinada informação.

Sobre o movimento Software Livre, que fica lá, encastelado, no Rio Grande do Sul, é uma briga minha. Praticamente toda a movimentação acontece lá, mas acho que precisamos provocar essa galera, os programadores de esquerda. E a gente precisa pensar isso em nossa cultura digital, porque somos analfabetos digitais. As pessoas têm um smartphone, têm acesso a esses aplicativos, mas, às vezes, não sabem atuar nesses aplicativos. Temos dificuldade, inclusive, de trocar conhecimentos de tecnologia social; mesmo nesses aplicativos e plataformas privadas que servem ao capital e justamente a quem nos tem oprimido.

Precisamos também pensar nisso de maneira mais estruturante. Por que na escola não passa a ter essa matéria, educação digital? Precisamos fomentar uma inteligência. Com o pouco que temos, já fazemos esse estardalhaço com a nossa criatividade e com todas as nossas limitações. Imaginem se trouxermos essa pauta da educação digital; do analfabeto digital? Se pudermos ter programadores que, a partir dos 10 anos ou 12 anos vão criar aplicativos, pensar plataformas alternativas ao Facebook, ao WhatsApp, que gerem mais segurança e privacidade nas redes sociais... Um dos temas da era digital é esse: a vigilância e o controle, a falta de privacidade que temos.

Eu deixo esta dica. Acho que muita gente aqui já viu o filme “Snowden”, sobre o cara que trabalhava para a CIA. Esse filme dá um pouco a dimensão do quanto estamos sendo vigiados por essas grandes corporações e o quanto cada passo nosso está sendo utilizado para gerar mais riqueza, mais concentração, mais dinheiro; justamente para as empresas que a gente critica em nossas matérias; a esse poder que queremos superar e queremos ser contra-hegemônicos, chamando as pessoas para outra perspectiva, revolucionária e humana, de vida. É isso.

O SR. ANDRÉ FERNANDES – Pessoal, estamos bem intencionados, bem focados nessa ideia que a Ivana nos trouxe. Aliás, eu tenho a maior satisfação e honra de falar que a ideia não foi minha. Foi a Ivana que deu a ideia em nosso Encontro Latino-Americano de Comunicação Comunitária. Esse daqui é especificamente para organizações, grupos, coletivos, veículos de mídia alternativa e comunicação comunitária que queiram participam de uma fundação, de uma associação de comunicação comunitária e mídia alternativa.

Eu queria pedir para a Elaine me ajudar, ou o próprio Fábio, que está aqui na frente, e ver se alguém tem uma caneta para emprestar. Vamos passar uma lista para quem quiser deixar o seu contato, nome, telefone, entidade. Se puder, coloquem o e-mail também ao lado, porque estamos focados. E isso é uma coisa muito interessante de lembrar. A partir da ideia do Barão de Itararé que foi levada à Câmara Municipal de Niterói, com uma associação dessa criada, conseguiríamos percorrer o Brasil inteiro, passando pelas Câmaras Legislativas, para poder pleitear o mesmo, em relação a esse precedente que Niterói está abrindo, em outros lugares.

É para correr atrás nesta Casa e na Assembleia Legislativa, porque é uma associação representativa de muitos movimentos, organizações e veículos que não existem. Assim, como vamos trabalhar e inovar? Acho que é essa perspectiva. Passamos a palavra, então, para a nossa querida Ivana Bentes.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – A Senhora Ivana Bentes.

A SRA. IVANA BENTES – Boa noite a todos. Tentarei ser breve. Queria agradecer o convite do Vereador Leonel Brizola. Realmente é um prazer. Acho que deveríamos fazer a “Associação Leonel da Mídia Livre”. Acho que seria interessantíssimo. É um prazer sempre ouvir aqui o Papo Reto, a ANF, o Barão de Itararé, O Cidadão, com perspectivas assim.

Eu já saí da fase depressiva diante da crise. Eu digo que agora estou na fase maníaca. Porque acho que a crise é realmente tão radical que mexe as placas tectônicas e desarruma o arrumado. E a crise é para todos os lados: para a esquerda, para a direita. A crise é a coisa mais bem distribuída. Eu tenho dito: viva a crise! Porque acho que é um momento de reconfiguração de muitos campos. E um desses campos, sem dúvida, é o da mídia comunitária, da mídia alternativa e da mídia livre. Vimos uma explosão nesse campo.

O Vereador Leonel Brizola começou falando do trabalho de formiguinha. Mas eu queria te provocar e dizer que não é a formiguinha. É o formigueiro. Como diria o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto : “pisa ligeiro; quem não pode com a formiga não atiça o formigueiro”. Quando os grupos se articulam em campanhas, com pautas comuns e em sinergia, fazem um estrago. Então, a formiguinha, quando vira formigueiro, tem realmente o poder de virar pauta, de colocar trending topics no Twitter, faz um estrago. Essa articulação que o Raul Santiago traz, quando essa mídia comunitária, que parece que é a mais local, a mais territorial, que fala da vizinhança, do bairro...

Eu digo que a mídia comunitária é equivalente ao vereador. A coisa mais próxima do trabalho do vereador é a mídia que tem base, que conhece a cara das pessoas com quem trabalha e faz. Então, nesse sentido, acredito absolutamente que só sairemos desta crise com a revolução municipalista: é o município, é o território, é a comunidade, é a vizinhança, são todos esses que estão trazendo uma novidade nesse campo.

Estamos na vanguarda. Estamos à frente de um momento em que as grandes mídias corporativas, como vocês colocaram aqui, perderam leitores. A televisão perdeu telespectador. Querer falar para todo mundo é muito importante. Mas, cada vez mais, essa articulação do local, do territorial com o global cresce. Quando o Raul Santiago diz: “Vamos lá falar com o The New York Times”, é explosivo. E hoje isso é possível. Então, um grupo pequeno tem realmente potência e alcance global.

Eu gosto muito de falar dessa periferia global, porque acho que ela é uma das características da mídia comunitária. Quando ela se articula com as lutas globais, explode no território, no seu país, na sua cidade. Então, isso é uma potência que eu acho que temos que levar em consideração. Claro, quais são as condições para essa explosão do formigueiro? Porque acho que é o que estamos trazendo aqui: a articulação, a associação. Mas é só para fazer a primeira provocação. A gente sempre traz muito essa ideia.

Estamos saindo também daquele lugar do chororô, da lamentação simplesmente. Odeia, critica, detesta a mídia? Torne-se mídia. Regra básica, número um. E quem é a mídia hoje? Temos vários coletivos, redes, grupos de mídia. Mas a mídia somos nós. Ou seja, quando cada um de nós se entende como produtor de mídia, já temos uma expansão dessa ideia, da mídia comunitária, alternativa, livre, para a ideia de um jornalismo cidadão, de uma produção de mídia que é multidão, genérica.

Todo mundo aqui produz mídia todo dia e informação. Mesmo assim, nesse campo parlamentar da política, eu digo, há hoje vereadores, deputados, senadores cujos mandatos não estão nem na Câmara de Vereadores, nem na Câmara de Deputados, nem no Senado. Estão no Facebook. Fazem um estrago quando sabem usar as redes sociais.

Então, vejam, o mandato digital, virtual, tem o mesmo poder que acho que essas mídias territorializadas e comunitárias têm. Mas, para isso, acho que todo mundo trouxe questões de segurança. Sempre me pergunto: quem são os advogados da mídia livre, alternativa e comunitária? Quem são os parlamentares amigos, apoiadores da mídia comunitária, da mídia livre? Acho que temos que fazer esse mapa. Quais são as instituições? Quais são as universidades?

Fizemos muitas experiências de cooperação, por exemplo, com a Escola Popular de Comunicação Crítica (ESPOCC), da Maré, certificando pela extensão, um dos únicos lugares desengessados das universidades. Então, na extensão, dá para fazer cooperação com a ESPOCC, com o Papo Reto, com a ANF; e estamos fazendo. A UFRJ tem 40 mil estudantes. Hoje, todos eles podem, por exemplo, colaborar com o projeto da sociedade com 300 horas na extensão. Ou seja, a ANF pode receber estudantes da Escola de Comunicação da UFRJ para trabalhar, colaborar e apoiar o Papo Reto, a ANF, o O Cidadão.

Ou seja, como pensamos e estruturamos isso? Porque temos esses meios. As universidades públicas não têm recursos, mas temos uma certificação, mesmo de um curso de extensão. Ela é redistribuição de poder simbólico. Não tenho dinheiro para te dar, mas te dou um certificado da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Para muitas famílias e muitos jovens, vai ser o primeiro certificado de uma universidade pública que eles receberão e, talvez, o único. Então, valorizamos muito esse lugar de mobilidade possível.

As universidades mudaram de cara. A minha, a ECO/UFRJ, era branca, elitista. Você ia ao estacionamento da ECO/UFRJ e via os carros de marca. Isso mudou radicalmente. Hoje, temos pessoal da Maré, das periferias. A Universidade “empreteceu”, se tornou mais democrática. É pouco? É pouco. Mas acho que temos uma nova geração que está se formando e que virá dessa experiência que, de novo, não tem volta.

E é essa ponte que estamos fazendo hoje. Os meus bolsistas da Maré, do Complexo já vão fazer, talvez, a segunda geração depois de vocês, que virá orgânica e já lastreada, inclusive, por essas instituições elitistas que estão em transformação. Então, acho que podemos pensar muito nessas articulações, porque elas são bastante poderosas.

Voltando, acho que há algumas experiências que já são feitas. Eu lembro que estive na Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura (MINC) durante um ano e meio, com o ministro Juca Ferreira. E nós tivemos algumas experiências inspiradas em 2009, quando começamos a pensar o que seria esse conceito de mídia livre. E o bacana é que são termos – mídia alternativa, comunitária, livre – que pegaram. Naquele ano, fizemos o Fórum da Mídia Livre, em que propúnhamos articulação, rede e sinergia entre os grupos, verba publicitária dos governos para a mídia livre. Aliás, foi uma das primeiras verbas que foram cortadas nas Secretarias Especiais de Comunicação Social (SECOM), na era Temer; as verbas publicitárias para os pequenos veículos. Só ficaram as grandes corporações. Então, democratização das verbas publicitárias e formação livre, ou seja, articulação, mobilização entre os grupos, formação e sustentabilidade.

A gente vem pensando esses temas desde muito antes, mas, em 2009, fez essa experiência do I Fórum de Mídia Livre, do qual saíram várias propostas. Entre elas, uma de financiamento público. Foi uma experiência incrível. No mesmo ano, saiu o primeiro edital e mais de 1.000 propostas foram recebidas para receber R$ 60 mil por um ano. Vejam só; muito pouco. Mas um tipo de recurso que, em um pequeno grupo, faz explodir a produção.

Fizemos um mapa, tivemos uma visualização das experiências de mídia índio, mídia preta, mídia feminista, mídia ligada ao território, à periferia, mídia ribeirinha. Ou seja, todo mundo produz mídia. Os grupos mais diferentes... Produção de mídia ligada ao teatro, às artes, à cultura; todo mundo produz mídia. A mídia hoje não é só informação, não é só notícia. Entendemos que a comunicação é uma forma de organização.

E vou dar um exemplo bem radical, do campo conservador. Temos um movimento como o Vem Pra Rua, que começou com um hashtag no Facebook e virou um movimento político. O Movimento Brasil Livre (MBL) começou com uma página do Facebook, produzindo notícia, difamando, detratando, fake news. E hoje é o movimento que está pautando o Brasil. Então, vejam como uma página no Facebook com um milhão de seguidores faz um estrago.

Eles são um grupo de mídia que entendeu que comunicação é a nova forma de organização. Talvez seja uma das formas novas de organização e de mobilização. Não é à toa que Gizele lembrou muito bem disso, dizendo que não faz só mídia e notícia, mas que organiza, faz a mobilização, organiza reivindicações. O Papo Reto também tem hoje um protagonismo político. Por quê? Porque ele tem um poder de mídia, fala com o The New York Times e uma série de agências.

Então, essa formiguinha, Vereador Leonel Brizola, tem um potencial enorme, todo mundo deixou muito claro. Não é só a necessidade, porque efetivamente nunca tivemos políticas públicas para esse campo. Fizemos essa experiência dos pontos de mídia livre. Tivemos cerca de três editais. Quando voltamos, agora, à Secretaria de Cidadania e Diversidade, lançamos de novo, não só o prêmio de mídia livre, mas um segundo prêmio, que era a segunda capa de articulação desse campo: o Cultura de Redes. Ou seja, para um grupo receber um apoio, ele tinha que estar com mais cinco, ou seis, ou três, ou dois. O que estávamos fazendo? Induzindo a construção de redes. Então, Barão de Itararé, você só receberá esse recurso, se você se articular com o Papo Reto, com O Cidadão e com a ANF. Aliás, já temos aqui uma formação de rede.

Ou seja, o que estávamos fazendo? Entendíamos que, no momento de crise, pouco recurso e pouco dinheiro, não é o meu projeto, do “eu sozinho”, que já é bacana. Seria incrível podermos fomentar as ações individualmente, mas na precariedade e na não existência de tais recursos, em rede fica mais barato e mais veloz. E mais do que isso: a rede organiza essa demanda que estamos trazendo aqui, do por que não temos pauta. Uma vez por dia, por que não temos pelo menos um post que seja de um mesmo tema ou ação? Isso produz sinergia, onda, uma percepção de questões.

Esse tipo de articulação é possível. Óbvio que dá trabalho, temos diferenças, cada um vai para um lugar; mas acho que esse é um desafio. Aliás, é um desafio para a mídia livre, as esquerdas e os parlamentares se articularem em rede, para ter uma incidência maior. Como falei, sou otimista, porque acho que estamos nesse lugar em que essas janelas de oportunidades se abriram de uma maneira muito importante. Acho que os relatos aqui são todos nesse sentido. Há uma transformação radical do cenário nessa linha das oportunidades.

Voltando à discussão da sustentabilidade, acho que não há qualquer grupo de mídia livre, alternativa e comunitária que seja sustentável a partir de uma única fonte de recursos. Então, aqui se falou de emenda parlamentar. Emenda parlamentar é um recurso que não é acessado por esses grupos. Ele é legítimo e existe. Acho que temos que pensar em redes de mídia livre para apresentar a Vereador, a Senador, enfim, de novo, aos apoiadores da mídia livre.

Quem são, afinal de contas? Onde estão os apoiadores da mídia livre, os advogados, amigos e apoiadores? Porque precisa de advogado. Ou seja, articulação, mobilização, sustentabilidade e fundos. O Raul citou alguns fundos internacionais. Temos vários fundos aqui no Brasil, organizações internacionais que estão sendo a salvação da lavoura. E as políticas públicas. Você trouxe o exemplo de Niterói, que eu ia citar também, porque ele já está virando uma referência.

Quando você tem uma lei, ela tem que ser cumprida. Eu estava gerindo o Programa Cultura Viva, dos pontos de cultura, e ele só não foi dizimado completamente porque se tornou uma política de Estado.

Bolsa Família não é uma política de Estado, para vocês terem uma ideia. Os pontos conseguiram se articular e propor uma lei, que se chama Lei Cultura Viva, em que o Estado brasileiro é obrigado a apoiar, fomentar, estimular essa produção de cultura vindo da base, da periferia; de baixo para cima. De certa maneira, ainda estamos precisando pensar a articulação nesse nível. Por isso, eu acho muito bacana a gente estar aqui na Câmara dos Vereadores, porque, mais do que nunca, precisamos falar não só entre a gente, mas com advogado, parlamentar, instituições de formação.

Para concluir, volto às experiências que nós fizemos nesta área. Sempre fui uma defensora do fim do diploma. Aliás, uma das poucas coisas boas que o Gilmar Mendes fez foi dar a palavra final que acabou com a obrigatoriedade do diploma de jornalismo. Por que digo isso? Já briguei muito com o Sindicato dos Jornalistas, e o sindicato já brigou muito comigo. Há mais de 10, 15 anos, tínhamos esse entendimento de que não poderia haver reserva de mercado para o jornalista diplomado, justamente pelos exemplos como o da Gizele, que nunca passou por um curso. Já passou, depois, não é? Mas, enfim, quando ela começou a suas ações de “midialivrismo”, de mídia alternativa e comunitária, ela precisaria ter um diploma para exercer.

A gente achava que era antidemocrático, diante desse contexto de formação. Por que alguém, para produzir mídia de qualidade, precisa passar por uma universidade? E olha que eu sou diretora da Escola de Comunicação, há oito anos. Estou voltando para a Direção e defendo a formação universitária com bastante vigor, mas estávamos entendendo que esse jornalismo cidadão pode ter uma formação livre de qualidade. E, se ninguém consegue entrar, se a universidade ainda é funil, mesmo com as políticas públicas, mesmo com as cotas, precisamos criar experiências de formação livre de qualidade, nas quais as universidades entrem como parceiras. Aí, nesse sentido, eu acho que essa experiência de formação é decisiva.

Todo mundo que está aqui nesta Mesa é formador, porque vocês não só produzem mídia, mas formam as pessoas que estão em torno de cada um desses projetos. Como é que sistematizamos isso? Qual é a experiência de formação livre do Papo Reto? Quais são as metodologias de formação livre do Barão de Itararé, do O Cidadão, da ANF? A ANF faz cursos. Aliás, vão começar um agora, em parceria e dentro da Escola de Comunicação de Formação para Mídia Comunitária. Então, essas experiências são experiências potentes.

Articulação e mobilização em rede, formação e sustentabilidade: acho que, se pegarmos esse tripé, que, de certa maneira, já foi colocado aqui, explanado de maneira muito bacana, e mais a discussão dessa mídia livre no território em relação à segurança... Como é que criamos essa capa de proteção para o comunicador popular? Porque, realmente, ele é o equivalente ao nosso correspondente de guerra. Ele está no front, na linha de fogo, como foi muito bem colocado aqui.

Então, temos que pensar juntos. Com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), com as instituições ligadas aos direitos humanos, com a Anistia Internacional, com os grupos internacionais. Acho que é esse esforço de articulação com o qual fiquei muito feliz, para começar. Acho que isso tem que ser levado em consideração. É isso. A mídia somos nós. Nossa força, nossa voz!

Obrigada.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Obrigado, Ivana Bentes. É uma honra poder fazer este Debate aqui. Acho que podíamos levantar também o acesso à internet. Porque, hoje em dia, o acesso à internet é como fosse abrir ruas antigamente, é parte da infraestrutura do País. E, infelizmente, nas comunidades, nas favelas, ela está concentrada, às vezes, em uma questão complicadíssima.
A SRA. IVANA BENTES – Vereador Leonel Brizola, posso dar uma informação?

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Claro, Ivana.

A SRA. IVANA BENTES – Estamos fazendo uma experiência, que é o Laboratório de Inovação Cidadã, e é muito bacana. Um dos projetos é internet comunitária. Eles estão fazendo em Niterói. Aliás, Niterói está na vanguarda, está fazendo uma experiência territorializada com 200 famílias, com uma rede de internet livre.

Então, mais uma vez, como é que se monta uma rede? Tecnologicamente não é complicada. O recurso é pequeno. Existem as grandes pautas que vamos montar: internet grátis, democratização dos meios de comunicação. Mas estou, cada vez mais, apostando na solução territorial, que nem a mídia comunitária: territorial, local, porque, muitas vezes, é de onde começa essa revolução municipalista e comunitária. Vamos também trazer essas experiências. De repente, colocar na Mesa, e fazer um encontro no qual conheçamos as experiências.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Claro, até como fórum de política pública, porque sem a Eletrobras, a ser privatizada, fica mais difícil ainda.

A SRA. CARLA SANTOS – E ainda tem o problema das operadoras. As pessoas não têm controle algum. Elas compram pacotes de dados que voam, e as pessoas não sabem qual a velocidade que está sendo oferecida, tanto da internet a cabo quanto dos pacotes das operadoras. É um caos!

A SRA. JULIANNE GOUVEIA – Especificamente nas favelas, há um problema sério de sinal. Há lugares em que não pega, não existe sinal.

A SRA. CARLA SANTOS – Não tem infraestrutura. Não tem cabo, antena nem satélite.

A SRA. JULIANNE GOUVEIA – Você consegue ter alguma coisa com Wi-Fi, se puder.

A SRA. IVANA BENTES – Lembro que fizemos uma matéria sobre a periferia e as comunidades inventaram a Favela Tech – apropriação de tecnologias. Eles disseram: “Criamos o plugadinho”, que era dividir o sinal. “Depois do puxadinho, tem o plugadinho que, em vez de cada um pagar R$ 300,00 para a Net, pagamos um sinal e dividimos com quatro, cinco ou seis pessoas.”

Vejam só, em um primeiro momento, tentaram criminalizar isso, mas o sinal é meu e, se eu quiser abrir, a ANATEL não poderá impedir. Às vezes, são mudanças de mentalidade e de comportamento, em que um grupo pode compartilhar uma internet muito mais barata. E, de novo, voltamos à rede compartilhada.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – A inventividade do brasileiro é genial.

Quero passar a palavra ao Plenário, caso alguém queira fazer alguma pergunta. Vou pedir para que seja em poucos minutos, porque, infelizmente, temos tempo para entregar aqui. Os trabalhadores também tem que fazer os seus retornos.

Quem é o primeiro? Você pode fazer a inscrição e organizar essa parte?

A SRA. INÊS ESTRADA – Quando eu cheguei aqui, estava com uma pergunta na cabeça que era a seguinte: como fazer para que os jornais comunitários se comunicassem entre eles e pudessem falar para fora, para os não favelados? Essa troca seria muito boa; seria muito bom que os de fora da favela também soubessem o que se passa nas comunidades. A resposta, eu tive logo no princípio, nos projetos lançados pela Ivana. Acho maravilhoso, sou inteiramente a favor e gostaria muito de participar.

Eu acho muito importante o que ela falou sobre diploma, porque eu não tenho diploma e nem sou formada em jornalismo. Eu trabalhei nos grandes jornais do Rio de Janeiro, como o Correio da Manhã e o Jornal do Brasil, em uma época em que os jornais que a gente torcia e saía sangue eram O Dia e O Povo. Tinha um que colocava o título “Cachorro fez mal a menina” e, na verdade, era um cachorro-quente que a moça tinha comido e a fez passar mal; era nesse nível. Mesmo sendo uma empresa da família do jornal O Globo, era um pouco menos agressivo do que é hoje.

Trabalhei com política internacional, aprendi muito e conheci pessoas maravilhosas – dentro e fora do jornal. Depois de anos no jornalismo, eu me formei em filosofia. Com tudo isso, eu dei aula de jornalismo no Centro Unificado Profissional – CUP –, que era em Jacarepaguá. Tinha uma aluna para a qual eu falava sobre moradia, morava na Cidade de Deus e disse: “Eu não posso dizer que moro na Cidade de Deus, porque não arrumo trabalho.” Já era assim naquela época.

O único jornal comunitário em que trabalhei, durante a ditadura, não era como hoje em dia. Foi um jornalzinho chamado Independência ou Morte, que durou muito pouco, porque o grupo foi todo preso e respondeu a processos, na época. De qualquer forma, foi uma imprensa alternativa na qual eu tive uma experiência.

Eu já me interessava muito em trabalhar com isso, porque comunicação é fundamental para tudo: para democracia e o entendimento entre as pessoas. Parabenizo vocês por essas iniciativas e, em particular, a Ivana por esse projeto, que eu espero que dê certo. Quando precisarem de mim, estou aqui para participar com muito gosto.

O SR. FÁBIO LEON – Boa noite a todos e a todas. Meu nome é Fábio, sou jornalista do Fórum Grita Baixada. Vim de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, que, infelizmente, não faz parte da jurisdição política da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, mas, enquanto militante da comunicação comunitária e periférica, eu não poderia deixar de participar desse importante Debate. Quero parabenizar a iniciativa da Agência de Notícias das Favelas, que foi excelente.

Infelizmente, eu vim com duas provocações que talvez sejam um pouco incômodas, mas são necessárias, no momento em que relativizam a democracia dentro do plano da comunicação. Muniz Sodré, no livro “O Social Irradiado: Violência Urbana, Neogrotesco e Mídia”, frisa o termo “periferia das periferias”. Nós temos muitas iniciativas de comunicação comunitária na Baixada Fluminense, como o Mate com Angu e o Buraco do Getúlio, esse último que é um coletivo de cineclubismo que promove exibição de filmes na passagem da estação de trem, em Nova Iguaçu. São iniciativas muito interessantes, porém, nós também temos potencial de comunicação nas comunidades de Queimados, Japeri e, principalmente, em Nova Iguaçu, na Lagoinha.

Não podemos pensar em potencialidade sem pensar na questão de segurança dessas pessoas, porque são zonas periféricas dominadas pelo tráfico ou pela milícia. Então, como podemos pensar em liberdade editorial para esses produtores de conteúdos locais, sem antes pensar em que repercussão isso pode gerar? Que tipo de denúncia esses polos de comunicação periféricos podem fazer, sem representar um perigo de vida para essas pessoas?

Não adianta falarmos em emenda parlamentar e política pública para comunicação comunitária, se não mudarmos o aspecto estrutural de como a periferia é tratada pelo Estado. Se não houver uma mudança com relação à questão da violência e segurança pública, a gente não pode falar sobre democratização e direitos humanos aplicados à comunicação comunitária. Se isso já acontece na Maré e no Complexo do Alemão que, de certa forma, já têm todo um conteúdo histórico, imagine na Baixada, em que somos invisibilizados midiaticamente, todo santo dia?

Não estou querendo fazer disputa de miséria ou vitimismo, mas temos que pensar um pouco nisso. sobre como o Estado vai contribuir para a produção comunitária pensando, também, na segurança.

Eu sou militante de jornal comunitário e fui editor, de 2004 a 2006, de dois jornais: Grande Tijuca e Folha do Centro. Essa discussão de emenda parlamentar existe desde essa época, porque eu tive contato com a Associação de Jornais de Bairro de São Paulo – AJORB –, na gestão da Marta Suplicy, e houve essa ideia para a verba orçamentária da Prefeitura de São Paulo. Era o mesmo processo: pegar 20% do orçamento e destinar a jornais comunitários ou outras produções comunitárias, nesse sentido. O que, na época, foi muito complexo de se discutir e inviabilizou a possibilidade da emenda parlamentar, em São Paulo, foram amarras ideológicas que, em função dessa verba publicitária, eram direcionadas aos jornais comunitários.

Eu louvo essa ideia, sou particularmente favorável ao financiamento público e emendas parlamentares para as mídias comunitárias. Acho de extrema importância, mas, em São Paulo, houve esse problema. Alguns jornais denunciaram que eles tinham, de certa forma, que separar um percentual de suas edições louvando os trabalhos da Prefeitura em suas comunidades.

É apenas um alerta que faço, não estou propondo qualquer determinismo, mas acho que é um caso a se pensar. Como esse tipo de construção pode cair no perigo e reverter a outros tipos de problemas, se não for muito bem organizado? E também se não pensarmos nas amarras políticas e em pretensas amarras ideológicas que podem surgir, através da vinculação dessa emenda parlamentar.

Muito obrigado.

A SRA. KAREN GARCIA – Boa noite. Eu me chamo Karen, sou da Costa Verde, no Sul Fluminense. Eu fui criada em Angra dos Reis, mas sou nascida em Resende. Vivo no Rio de Janeiro por conta dos estudos e por essa coisa de ocupar o espaço de comunicação.

É muito bom aprender com vocês que estão na Mesa. Quando a Gizele fala na questão de lutar pela vida, eu fico muito inspirada, porque eu penso nos meus companheiros que estão na ilha Grande. Eu não tenho condição de falar de revolução tecnológica e formação em comunicação popular, porque não há energia elétrica. É gerador, então, como você vai falar disso? Lá, ele está disputando um território em que se ele reforma a casa, é convidado a se retirar desse espaço. Mas se o milionário constrói nesse espaço, ele paga uma multa e está tudo certo.

Esse território também não está na jurisdição da Câmara Municipal, mas é muito bom estar aqui e poder ouvir e dialogar sobre isso. Na Ilha Grande, eu colaboro com o jornal local O Eco – Jornal da Ilha Grande, que tem todo esse desafio de se entender, buscar seus objetivos, resistir e subsistir também. Há essa tentativa de sobreviver para poder ter reconhecimento, porque senão ninguém te ouve, ainda mais sendo mulher.

Há algumas semanas, em um seminário de jornais do interior, só se viu homem, idoso, que tem condição de viver com isso porque já tem uma seguridade, e o espaço de fala completamente limitado. Enquanto estudante, eu penso muito na qualidade de formação do comunicador, tendo que estudar em escola particular, porque escola pública é restrita.

Dentro das outras gerações que vêm para desenvolver esse “midialivrismo”, pensar em um posicionamento muito mais de cooperação do que competição. Embora as demandas lutem para todo mundo falar, a dificuldade de manter essas iniciativas é tamanha; acho que podemos somar, em vez de dividir. Acredito que a proposta de uma associação fortalece e encaminha isso, para que a gente se ajude. Se eu consigo um pro bono jurídico, eu posso oferecer para a Gizele. Se eu consigo um espaço na mídia internacional, eu posso compartilhar isso.

A mídia tradicional tem esta questão: “Não fala que você é de jornal”. Quando somos entrevistados, não podemos falar que somos de jornal, da ONG e etc. Faço questão de copiar as matérias de diversos portais de comunicação em que acredito, colocar a fonte e publicar naquele espaço, porque senão o morador, o caiçara, não teria acesso. Existe essa coisa de memória, de fazer trabalho de escola. Hoje, não temos mais o impresso, então, é difícil falar de jornalismo digital em um espaço que não tem tanto acesso. Queria trazer essas questões da dificuldade de desenvolver essa comunicação comunitária.

Ivana, mande os seus alunos para Ilha Grande. Vamos construir também. Nós viabilizamos a logística. Quem quiser pode ir para lá, para ver esse território além do turismo e da beleza natural; a história desse povo; a luta e todo o desafio. A cada cinco anos, temos zoneamento de área de produção ambiental, unidade de conservação. É difícil entender e conseguir disputar esses espaços.

Muito obrigada.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Com a palavra, Wladimir Loureiro.

O SR. WLADIMIR LOUREIRO – Já fui bem representado pelas outras falas. Atualmente, acompanho o trabalho do Jornal Abaixo-Assinado de Jacarepaguá, mas gosto de mudar de assunto. Vou mudar de assunto. Em outros países, em um ponto de TV digital, você consegue ter, ao mesmo tempo, 150 canais naquela faixa de frequência de 2 MHz a 20 MHz. Eu não assisto à televisão há seis anos, então, não sei como ficou. Acredito que os 150 canais que nós tínhamos foram divididos entre os seis “latifundiários das comunicações”. Agora, estão para vir a FM e AM digitais.

A SRA. CARLA SANTOS – Na verdade, não vai ter mais AM, vai ser tudo FM.

O SR. WLADIMIR LOUREIRO – Há um mês, o líder do Jornal Abaixo-Assinado, o Almir, promoveu um seminário sobre comunicação popular e apareceram pessoas de rádio pirata. É bom nem falar nisso, porque existem uns vereadores e deputados que, quando veem alguém que é dono de rádio pirata, levam a polícia até lá. Aquele Arolde, quando pessoas da mesma fé dele faziam rádio pirata, ele arrumava um encontro e já levava a Polícia Federal lá.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Ele foi agente do Serviço Nacional de Informações (SNI)...

O SR. WLADIMIR LOUREIRO – Pois é.

Ainda está viva essa questão de rádio. Acho que essa é a oportunidade de não deixarmos passar, porque nós perdemos a TV. Era para ter uma TV para a Câmara, outra para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), outra para a Universidade Federal Fluminense (UFF), mas são 60 para a Globo e 10 para a Record. Acho que não vão usar todas essas faixas, é mais por safadeza.

Não gosto nem de citar o nome desse povo, mas foi falado aqui sobre o MBL e o movimento Vem pra Rua. Esses caras receberam muito dinheiro lá de fora. Acho que não é bom pensarmos que foi apenas garra, força de vontade ou uma sacada inteligente. Ao mesmo tempo, temos que ter esperança para agir com os recursos que temos, que são poucos.

Era isso o que eu queria falar.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Com a palavra, Leonardo Amaral.

O SR. LEONARDO AMARAL – Boa noite a todos. Eu me chamo Leonardo. Quero agradecer a Vossa Excelência, porque fui criado dentro de um Brizolão, graças à obra do seu avô, Vereador Leonel Brizola. Quero agradecer a todos os representantes do nosso jornal ANF. Cumprimento a Ivana e, só complementando, digo que já temos a internet disponível à população em Niterói, mas é limitada, infelizmente, até certo espaço, porque é aberta à população; é uma rede Wi-Fi liberada pela UFF.

Temos o apoio da Praça da Cantareira, internet liberada em determinados lugares. Infelizmente, em outros, não podemos acessar, porque, até então, o avanço da criminalidade está muito grande e os bandidos têm como monitorar o que você fala ao telefone e eles também têm como bloquear a internet para a população. Eles nos limitam a acessar aquele espaço.

A primeira coisa que quero dizer é que, hoje em dia, temos que lutar com aquilo que temos a nosso favor. Penso que estamos vivendo a verdadeira ditadura moderna, porque nossos pais, que lutaram naquela época, não tinham tantos recursos a seu favor. Hoje em dia, temos tudo a nosso favor, mas infelizmente o ser humano não sabe usar a ferramenta que tem, que seria a tecnologia, porque qualquer zoeira que colocam se torna uma coisa grandiosa na internet.

O que precisa ser visualizado é a mídia, porque, hoje em dia, é esquecida pela população. Nosso País é escasso em questão de cultura. Muitas pessoas passam por nós e fingem que não estão nem aí, mas não sabem do que aquele projeto é capaz de fazer por meio do conhecimento, porque tudo é uma ideia ou uma conversação.

Hoje, sou representante de uma das maiores comunidades do Rio de Janeiro, que é o Chapadão, mas estou tendo oportunidade, através desse jornal, de mostrar que não somos um bicho de sete cabeças. O mais grandioso evento que fizemos foi em 2013, na vinda do Papa ao Rio de Janeiro, quando fui um dos guardas reais do Papa. Trabalhei ao lado do Papa e, falando espanhol, tive a oportunidade de ver que a população lá de fora não é nada daquilo que eles relatam. Por quê? A mídia deles relata para nós que eles são um bicho de sete cabeças, mas não são. São pessoas maravilhosas. Graças a eles aprendi a falar espanhol, muito pouco, mas aprendi e vi que eram totalmente diferentes.

Dentro da favela não tem só troca de tiro; dentro da favela não tem só a pessoa que mata, que pega; também temos os projetos sociais que estão avançando aos poucos. Nossa voz precisa ser ouvida por meio desse trabalho.

Quero agradecer àquela pessoa ali. Inclusive, temos também perto dela a Usina de Campeões. Já saíram pessoas da Maré para lutar em diversos lugares graças à ajuda do Vasco e do Pedro Rizzo. É um projeto interessante por quê? A ANF veio com força total no mercado para mostrar que estamos aqui e sabemos fazer a diferença.

Muitas pessoas julgam pela aparência. Estou com 26 anos de idade e aprendi que nunca se julga um livro pela capa, mas, sim, pelo conteúdo, porque, muitas vezes, ele pode nos surpreender.

Muito obrigado. É só isso que tenho a dizer.

A SRA. JULIANNE GOUVEIA – Leonardo é o nosso distribuidor do Jornal A Voz da Favela, é bom pontuar. Você esqueceu de mencionar isso.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Com a palavra, Cláudia de Abreu, por favor.

A SRA. CLÁUDIA DE ABREU – Boa noite. Já que se falou da TV digital, acho que é um tema importante – e vocês já comentaram – e essa não é uma luta perdida ainda; pelo contrário, é uma meta e temos que correr atrás dela. No processo de digitalização, aconteceu o que ela já disse: boa parte do espectro foi concedida aos empresários de forma gratuita e sem nenhum tipo de retorno. Porém, existe um espectro que foi separado para a sociedade e que seriam os canais da sociedade civil e da educação.

A legislação não foi revogada. O que falta é corrermos atrás e formalizarmos isso. Lá na Bahia, por exemplo, o pessoal de Salvador conseguiu colocar no ar e o Canal da Cidadania está funcionando, porque correram atrás. Nós, da sociedade civil, temos que correr atrás. É compromisso de quem faz comunicação comunitária abraçar essa causa, porque TV aberta não é brincadeira, não.

Eles não vão falar isso para nós, temos que correr atrás disso. É inclusive uma indicação para a Câmara – que no passado estava correndo atrás disso – voltar a fazer a cobrança. A Prefeitura, no caso, tem que fazer um pedido de liberação de sinal para o Ministério das Comunicações, mas é apenas uma formalidade, porque todas as garantias já estão colocadas na lei, que é do segundo Governo Dilma.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Infelizmente, tenho que encerrar aqui e vou passar para a conclusão da Mesa por conta do horário. Vamos começar daqui?

A SRA. CARLA SANTOS – Muito obrigada mais uma vez. Sou grata por este momento tão especial que tivemos, nesta noite de quinta-feira.

Quero reforçar o que a Cláudia estava falando, dialogando com a fala do Wladimir, de Jacarepaguá. Parece simples Cláudia, mas nem tanto, porque temos que fazer o Crivella solicitar ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações atual, porque a Cidade do Rio de Janeiro tem um Canal da Cidadania que tem quatro faixas: uma para o Governo e três para os movimentos sociais, a partir de um conselho paritário.

O projeto é lindo. Aqui no Rio de Janeiro – acho importante lembrar –, o Arthur William, professor de Jornalismo da Unigranrio, em Caxias, abraçou isso e correu o Brasil inteiro falando do Canal da Cidadania. Ele é uma figura que domina muito esse assunto. Concordo com a Cláudia, temos que voltar a pautar isso. Afinal de contas, é uma possibilidade real que temos de ocupar a TV aberta, embora saibamos que o Crivella e esses canais religiosos não tendem a ter nenhum interesse, porque já existem os canais de televisão e rádio deles. Diga-se de passagem, esse número é cada vez maior.

O avanço das religiões sobre a política, no sentido inclusive de desrespeitar e conviver com a diversidade religiosa no Brasil, é muito grande. Aqui, no Rio de Janeiro, estamos sofrendo isso na pele com a criminalização do Carnaval, dos artistas de rua, das religiões de matriz africana, que já são historicamente perseguidas, e o Vereador Leonel Brizola pode dar mais dados, porque vive essa realidade todo dia na Câmara de Vereadores e deve ouvir muita reclamação. Nós, como artecomunicadores e mídiativistas que somos, também estamos sofrendo com isso. É importante esse chamado que a Cláudia fez, é importante lembrar.

Fiz aqui duas provocações e vou fazer uma sugestão para concluir minha fala. Amanhã, dia 10 de dezembro, é dia nacional de lutas e paralisações, pelo Fora Temer, contra a reforma trabalhista que já está entrando em vigor. Faltam poucos dias para mulheres grávidas trabalharem em locais insalubres; para dividirem as nossas férias em três vezes ao ano; para diminuírem nosso horário de almoço de uma hora para 30 minutos; para aumentarem nossa jornada de trabalho de oito para 12 horas; ou seja, é a institucionalização do trabalho escravo no Brasil.

O movimento sindical e os movimentos sociais enfrentam uma série de limitações, mas precisamos persistir. A última coisa que podemos fazer nesse momento, como a Ivana chamou a atenção aqui, é desistir. A Gizele, o Raul, a própria Julianne, o André, o Vereador Leonel Brizola e muitos de vocês que estão aqui são exemplos de que lutar vale a pena. Quem luta conquista, e o pouco que temos é fruto da nossa luta e persistência.

Minha proposta é pautar isso nos nossos veículos amanhã e dar visibilidade com o nosso olhar; e enfoque a partir da nossa realidade. Vamos dar visibilidade para o que estiver acontecendo amanhã no Brasil. Haverá uma manifestação às 16 horas, na Cinelândia, e deve terminar às 20 horas. É importante estar na rua e mostrar o nosso colorido e a nossa diversidade para fecharmos o ano com chave de ouro apesar de tudo, unidos, celebrando a luta e a possibilidade dessa frente ampla para resistir a tudo o que está aí.

Muitíssimo obrigada. Mais uma vez, parabéns à ANF. Estou à disposição para o que der e vier. Acredito que vamos mudar essa realidade. A vida é feita de ciclos, esse é só mais um. Estamos fechando os 100 anos da Revolução Russa. Outros outubros virão, sem dúvida alguma, e somos protagonistas desta história.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Com a palavra, Gizele Martins.

A SRA. GIZELE MARTINS – Agradeço o convite para estar aqui, compartilhando essas experiências da comunicação comunitária. Vimos aqui que temos muita coisa para compartilhar, trocar, amarrar e melhorar. Anotei várias sugestões. A ANF, como um grupo e uma mídia que hoje está “bombando”, como sempre esteve, agora traz outras formas de atuar nessa comunicação.

Melhorando essa comunicação, também podíamos ter como compromisso nos reunirmos novamente. Por exemplo, haverá o ato amanhã, como você lembrou, mas não estamos organizados como comunicadores, jornalistas, formadores de opinião para fazer a cobertura. Quem tira a foto? Quem faz uma transmissão ao vivo? Quem escreve uma matéria? Não estamos bem divididos nesse momento do Rio de Janeiro. Os comunicadores populares já conseguiram se organizar dessa forma. Muitas vezes, dividíamos as pautas e tínhamos o compromisso de compartilhar as notícias, como já foi colocado aqui, e hoje não estamos organizados para isso. Isso é muito ruim.

Em um momento como este, em que estamos sofrendo censura e perseguição... Tem a galera da Baixada Fluminense, inúmeros coletivos de comunicação e está faltando a troca, o compartilhamento de notícias. Vi, aqui, o quanto estamos perdendo coisas. Hoje, escrevi uma matéria. Por que ela não está por aí, sendo compartilhada com outras redes e outros públicos? Estamos em um momento muito bom de comunicação comunitária; inclusive, estamos aqui neste momento, em um lugar como este, compartilhando experiências, sugerindo pautas das nossas vivências na comunicação, mas precisamos ainda nos organizar. A ANF, como uma mídia de referência, pode nos ajudar nisso. Estou aí também, para compartilhar e apoiar essa experiência.

Muito obrigada.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Obrigado Gizele. Com a palavra, André Fernandes.

O SR. ANDRÉ FERNANDES – Quero agradecer a todas e todos os que investiram seu tempo aqui, hoje. Estamos começando um processo, e vou reafirmar que é muito importante reunir as mídias alternativas e comunitárias pelo Brasil. É óbvio que essa ideia surgiu na América Latina, mas sendo claro e avaliando, se temos algo com o nome do Brasil e percorremos os estados trazendo esse pessoal todo, temos um poder de barganha e proteção.

Respondendo àquilo que você falou sobre a representatividade diferente do que nunca tivemos na realidade, porque estamos por aí, cada um fazendo seu lado... Fico até arrepiado de falar isto para vocês agora. Não tem esse negócio de que será uma associação, vamos esquecer isso, deixar esse negócio de lado: “Ah, não gosto de fulano, de beltrano, do modelo”.

Precisamos nos proteger e crescer. Estamos vivendo um momento de declínio dessa hegemonia da mídia e temos que ocupar os espaços. Essa associação é algo legítimo, que vem para ocupar um espaço que nunca teve, ou seja, juntar todas as iniciativas, organizações e veículos. A ANF inclusive se coloca à disposição.

Hoje, a ANF tem um comercial em Brasília. Há 15 dias, fechamos um comercial em São Paulo e agora um comercial no Rio de Janeiro. Nós da ANF não acreditamos em uma mídia contra-hegemônica que seja meramente ideológica. Não é só a nossa ideologia que é diferente daquela da mídia hegemônica. Temos que partir para cima nos números também. Ontem, o Carlos Bruce Batista, o Guti, falou que começamos como um jornalzinho, mas são 50 mil exemplares.

Hoje, não existe no País outro jornal que circule dentro das favelas com 50 mil exemplares; mas queremos 500 mil circulando no Brasil. Queremos uma TV aberta, uma rádio e, se a legislação para as rádios comunitárias não mudar e não pudermos ter publicidade em uma rádio comunitária, vamos partir para uma rádio normal.

Vamos lá, rádio favela e vamos partir para cima! É muito importante essa iniciativa que estamos tomando. Digo “nós” porque já consigo vislumbrar dezenas de organizações que podem participar dessa associação. Não vamos parar aqui, Gizele, vamos nos reunir e estar juntos. Reafirmo o pedido para vocês assinarem a lista que está passando. Estão passando duas listas, uma da Casa e outra para quem quer realmente participar dessa associação.

Agradeço, mais uma vez, pelo tempo investido e principalmente ao Vereador Leonel Brizola. Para quem não esteve aqui, ontem, ganhamos o Conjunto de Medalhas de Mérito Pedro Ernesto, por iniciativa do Vereador Leonel Brizola, uma pessoa com quem, até então, nem tinha essa intimidade. Provavelmente, devo ter encontrado e conversado com ele umas três vezes em toda a minha vida. Não foi uma coisa que pleiteamos ou algo que conseguimos por conta de uma ligação política, seja qual for.

Agradeço mesmo por essa iniciativa e também por essa abertura. Sendo neto de quem é, não poderia esperar menos que isso. Pelo contrário, temos muita coisa para fazer juntos.

Agradeço a todas e todos. Obrigado.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Julianne.

A SRA. JULIANNE GOUVEIA – Gostaria de agradecer a oportunidade, o espaço que estamos tendo para podermos pensar essa questão que sempre pegou firme para mim. Sempre houve esse questionamento sobre o motivo da não interação. As pessoas não interagem, não trocam e ficam muito mesmo cada um em seu quadradinho na sua comunidade.

Se a favela é potência, imaginem essa potência multiplicada por 10 mil. É isso que podemos alcançar juntos; e acharemos uma maneira de criar um cordão de proteção e defesa dos nossos interesses que, no fim das contas, é o interesse das pessoas em levar para as ruas e batalhar para que lembremos que a comunicação é um direito de todos, não pode estar na mão de seis famílias bilionárias do Brasil. Tem que estar em todos os buraquinhos, na Lagoinha, na Rocinha, no Alemão...

Não sei se o que vou dizer vai ser meio ofensivo, espero que não, mas Maré e Alemão são “favelas vitrine”, digamos assim. São espaços que têm um grande aporte de educação principalmente. Sabemos que existem comunidades que não têm um projeto social e que têm vida própria, ali dentro, também.

Eu acho que quando a gente se une se fortalece enquanto grupo e fortalece as outras comunidades também. Mas, enfim, no geral é isso. Obrigada pela oportunidade, obrigada pelo espaço, obrigada por vocês terem ficado aqui até as 21h30. Estamos juntos!

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Raul.

O SR. RAUL SANTIAGO – Bem, anotei algumas coisas aqui rapidamente, acho que a provocação que Carla fez foi muito importante.

Depois, Fábio e Karen, brilhantemente trazendo a conexão. Antes de vir para cá eu estava na ONU gravando a campanha Vidas Negras, chamando a atenção para o genocídio grave, o extermínio da população preta, da juventude das periferias deste Brasil. Logo depois, emendei um papo com a ONU, exatamente falando da importância de a gente tratar a internet como parte dos direitos humanos.

Hoje, grande parte da juventude está online, mas não está usando essa ferramenta para fazer militância social, simplesmente pelo relacionamento e grande parte do País ainda está offline, não está nessas redes. Então, garantir a internet como um direito em um cenário em que atualmente o lobby das televisões fechadas e das grandes empresas tentam cercear o acesso a esse recurso.

As brigas no alto escalão são para que, cada vez mais, só possa usar muita internet quem pode pagar por muita internet. Ou seja, só rico com boa internet, o pobre que se ferra. E, aí, acaba com todo esse processo de potência que a gente usa.

Como Carla trouxe, é muito importante a gente discutir essas redes, porque a maioria da luta social está acontecendo em espaços que teriam um dono, uma pessoa que manda naquele espaço, que nos “hackeia”, que nos escuta o tempo inteiro.

E, atualmente, no Brasil, há 13 milhões de pessoas analfabetas ainda. Quando você passa para a linguagem algorítmica, para conhecimento tecnológico direto, desenvolvimento, produção de conteúdo, é uma das minhas grandes preocupações. Na escola da classe média, o filho da pessoa rica está aprendendo robótica, está desenvolvendo aplicativo. Então, em pouco tempo, se a gente não se mobilizar para pressionar também por essa liberdade de acesso ao conhecimento, qual será o próximo analfabetismo da população?

A SRA. CARLA SANTOS – Tem que ser uma emenda com a Prefeitura, que destina para a Secretaria de Cultura, que faz a parceria.

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Até chegar lá...

A SRA. CARLA SANTOS – Essa emenda do prêmio foi aprovada em 2012. Em 2017...

O SR. PRESIDENTE (LEONEL BRIZOLA) – Então, companheiros, para finalizar, quero agradecer. Para mim também foi uma aula. É uma honra poder colocar essa questão. O que foi tratado aqui, são muitas vertentes... É uma luta diária pela comunicação no País, num momento sombrio, em que forças reacionárias, de fato, golpearam a democracia e estão impondo uma agenda de desmonte do Estado brasileiro.

Talvez o povo comece a ter uma percepção quando começar a sentir na carne um trabalho intermitente, quando você vai ganhar nem R$ 200,00 por mês. Você vai trabalhar num McDonald’s, num Subway da vida e vai ganhar nada... Já há uns anúncios nos jornais, se vocês acompanharem, pagando R$ 4,45, R$ 4,25 a hora; para trabalhar sábado e domingo. Assim, você não vai ganhar nem R$ 200,00 por mês. Isso é trabalho escravo, podem ter certeza.

Então, disponibilizo a Câmara, André e todos, para que a gente possa, cada vez mais, fazer esse debate, que é riquíssimo e importantíssimo para a sociedade, para a democracia e, principalmente, neste momento que vivemos.

Muito obrigado a todos. Boa noite. Resistimos.

Está encerrado o Debate Público.

(Encerra-se o Debate Público às 21h34)