Comissão Permanente / Temporária
TIPO : DEBATE PÚBLICO

Da Vereador Renato Cinco

REALIZADA EM 08/22/2017


Íntegra Debate Público :
O Complexo do Maracanã – um ano após as Olimpíadas

Às dezenove horas e dezesseis minutos, no Salão Nobre Vereador Antonio Carlos de Carvalho, sob a Presidência do Sr. Vereador Renato Cinco, tem início o Debate Público para discutir “O Complexo do Maracanã – um ano após as Olimpíadas”.

O SR. PRESIDENTE (RENATO CINCO) – Dou por aberto o Debate Público sobre “O Complexo do Maracanã: um ano após as Olimpíadas”.

A Mesa está assim constituída: a Subsecretária de Esportes e Lazer, Senhora Patrícia Amorim; a Senhora Edneida Freire, treinadora do Estádio de Atletismo Célio de Barros; a Senhora Rosângela Lopes, usuária do Parque Aquático Júlio Delamare; o Senhor Lucas Pedreptti, torcedor e usuário do Estádio do Maracanã; o Senhor José Guajajara, da Aldeia Maracanã; o Senhor Demian Castro, integrante da campanha “O Maraca é nosso”.

Antes de começar o Debate, preciso fazer uma explicação. Nós estamos, nesse momento, com uma Sessão Extraordinária ocorrendo no Plenário da Câmara Municipal, está sendo discutido o Projeto do IPTU da Cidade. Por conta disso, nós tivemos que transferir o Debate aqui para cima. E, no momento de votação, já participei das discussões lá embaixo, fiz minha intervenção, e a qualquer momento vou ser chamado no Plenário para votar. Nesse momento, por questões regimentais, vou ter que fazer um intervalo no Debate, porque ele não pode acontecer sem a Presidência de nenhum Vereador e eu não vou poder ser substituído por nenhum outro Vereador, porque estarão todos lá embaixo participando da votação. Infelizmente, pode ser, inclusive, no meio da fala de alguém, vou ter que interromper e a gente faz um intervalo. A votação é rápida e a gente retoma o Debate.

Então, queria passar a palavra, primeiro, ao Senhor Demian Castro, integrante da campanha “O Maraca é nosso”.

Então, tudo bem. A gente vai fazer outra combinação aqui. Vou passar a palavra para a Subsecretária de Esportes e Lazer, Senhora Patrícia Amorim. Agradecendo a presença da Subsecretária e dos outros convidados que compareceram aqui ao nosso Debate.

A SRA. PATRÍCIA AMORIM – Boa noite a todos. Queria começar parabenizando o Vereador Renato Cinco por essa nobre iniciativa. E também saudar todos os integrantes da Mesa e todos os presentes.

Começo falando que tenho participado de todas as Audiências Públicas, do Ministério Público, Tribunal de Contas do Município. Não tenho me ausentado de nenhum debate. Muito pelo contrário. Mas, realmente, a questão do Complexo do Maracanã envolve um sentimento muito diferente em relação aos equipamentos olímpicos específicos, porque o Maracanã é uma marca da Cidade, é um símbolo e é muito representativo esse encontro. Particularmente, jamais, em qualquer tempo, em qualquer circunstância de trabalho ou de posição, serei a favor de destruição de qualquer equipamento esportivo por várias razões. Primeiro, porque é muito difícil e muito caro construir. Destruir é fácil. Manter e construir é muito caro para todos nós. Já que estão prontos, é um absurdo se encontrar no estado em que se encontram hoje.

Mais uma vez, particularmente para mim, tem um fator emocional. Nadei a vida inteira no Parque Aquático Júlio Delamare. Fui muito feliz ali. Ali, se construíram muitas histórias de inclusão social, de descoberta de talentos, de consolidação de carreiras esportivas e isso também no Célio de Barros e assim também no Maracanãzinho.

O Maracanã é uma covardia. Hoje, ele é um equipamento elitizado, extremamente caro, e posso falar como usuária e ex-Presidente de clube. O ingresso é caro, jogar no Maracanã é caro. Então, hoje, é inviável, pelo alto custo de manutenção, porque existe uma empresa privada que administra muito mal esse equipamento. Os clubes e a população ficam em segundo plano, ficam fora dessa discussão.

Não vou me estender, porque acho que um debate é interessante quando todos participam, mas entendo a importância de encontros como este, de marcar posição, de firmar grupos e consolidar apoios. Só dessa forma a gente vai conseguir manter o nosso Maracanã para o nosso povo e a nossa gente.

Imagine que, às vezes, querem fazer do Maracanã e do futebol um modelo europeu, mas, lá, o rico compra ingresso e o pobre assiste à televisão. Aqui é o contrário. A gente insiste em querer fazer com que seja o modelo europeu. Aqui o pobre sempre assistiu ao jogo, e o rico que tem Pay Per View assistia à televisão. Agora, o ingresso ficou caro. Ele não tem Pay Per View, porque não pode ter TV a cabo. Muitas vezes, não consegue acompanhar o campeonato todo, porque os ingressos são muito caros, devido ao custo extremamente alto para se jogar num equipamento desse.

Então, é emergente, fundamental e indispensável a discussão e a coragem de enfrentar o problema. Fugir dele não adianta. Acho que este encontro vai fazer com que a gente saia daqui com propostas e ideias para encaminhar ao Ministério Público ou qualquer entidade que possa corroborar.

Tenham em mim um apoio que não é do cargo, mas é, também, pessoal, por entender que o Maracanã deve ser público. Seria um sonho se ele fosse municipalizado. Adoraria, se tivesse a chance de ajudá-lo. Seria bom se fosse municipalizado, para que pudéssemos conversar com os clubes em sintonia. Esse seria um entendimento de todos e não uma empresa que determina de que forma, quanto custa e como fazer e não tem nem sequer conhecimento de causa. Acho que o erro foi esse, de se fazer uma privatização sem a participação da população, sem ouvir e sem questionar.

Termino dizendo que espero que saiamos daqui com sugestões. Parabéns, Vereador. Muito obrigada a todos que estão aqui, os guerreiros de sempre. São sempre as mesmas caras, sempre os mesmos que estão buscando soluções. Que tenhamos sucesso desta vez! A luta continua.

Muito obrigada.

(PALMAS)

O SR. PRESIDENTE (RENATO CINCO) – Obrigado, Patrícia.

Passo a palavra para a Senhora Edneida Freire, treinadora do Estádio de Atletismo Célio de Barros.

A SRA. EDNEIDA FREIRE – Boa noite, gente. Boa noite a todos da Mesa. Usando a palavra da Patrícia, ela disse que são as mesmas caras das pessoas, das mesmas lutas. A gente, quando entra numa luta dessa, fica muito difícil dar para trás e não querer andar para frente, não querer soluções. Na situação em que a gente se encontra, é complicado ficar parado esperando cair do céu a solução. Mais uma vez, estamos aqui, na luta.

Quero narrar um pouquinho o que é um equipamento, porque as pessoas rotulam: “Pô, vocês está brigando por um equipamento!” Mas é um equipamento que tem vida. É um equipamento que tem história. Que é tombado como patrimônio. Que resgatou muitas vidas. Não é só o equipamento Estádio de Atletismo Célio de Barros, não. Com ele, vem 800 pessoas que o utilizavam das 8 horas às 18h30. Com ele, vêm as famílias de todas as comunidades, de todas as favelas, vamos dizer assim, que desciam para ir ao Célio de Barros resgatar a sua dignidade. Não é só um equipamento não, gente. O equipamento vem rotulado com crianças da Vara da Infância e da Juventude, com crianças de abrigo que, digamos, aquele portão 17 seria a primeira porta que poderia se abrir para ele ou a última. A história de cada um dentro daquele equipamento. É difícil falar de vidas, porque a gente viu isso acontecer ali dentro. A gente tem história daquele que a gente tirou da rua e hoje é profissional de educação física, está aí na UFRJ.

Então, esse equipamento foi violentamente agredido por uma Copa das Confederações, por uma Olimpíada e estacionou muitas vidas. Só no projeto que eu coordenava eram 435 vidas; 435 famílias, que a criança não vem só. A criança do social vem junto com a família inteira. Pedindo ajuda, pedindo uma oportunidade. Então, não é só um equipamento, são vidas. Vidas na nossa Cidade de comunidades sem oportunidades e lá, nesse equipamento, a gente recebia todos sem rotular, sem fazer teste, sem separar quem era o melhor, quem ia chegar numa Olimpíada ou que ia ser somente um cidadão ou um profissional. Então, é muito difícil estar aqui falando de vidas e não lembrar o que a gente sofreu esses quatro anos e seis meses. Nós fomos extremamente violentados, porque a gente viu, em 2007, uma obra do Maracanã para o Pan-Americano e a gente falou assim: “Caramba! Vai sobrar um pouquinho para a gente.” E não sobrou.

A gente viu uma Copa das Confederações, aquelas máquinas gigantescas chegando, invadindo a nossa pista, passando por cima sem nenhum respeito conosco. Nós estávamos treinando ali dentro. Nós fomos empurrados para o canto pelo lixão, o lixão que se tornou o Estádio de Atletismo Célio de Barros. A obra do Maracanã toda foi depositada lá dentro. E, mesmo assim, a gente resistiu. Nós fomos para as arquibancadas. No dia 9 de janeiro, eu nunca mais esqueço essa data, estava lá o portão 17 fechado. Fechado sem nenhuma organização, sem nenhum aviso.

Nosso material ficou no meio do entulho, porque tinha material na pista. Demoliram o “queijo”– o que a gente chama de queijo, que é o prédio de multimídia. Asfaltaram a pista vermelha de tartã, uma pista histórica, uma pista em que o Joaquim Cruz bateu o primeiro recorde mundial juvenil, foi asfaltada. Asfaltada na calada da noite, depois de milhões de pedidos que a gente fez, a gente entrou com mandado, a gente fez tudo o que podia. E mesmo assim, na calada da noite de uma liminar, asfaltaram a pista por cima da instalação elétrica que é caríssima, com o nosso material todo lá dentro.

Depois de seis meses – seis meses! – nós pudemos entrar com a Defensoria Pública, quer dizer, eu não, mas o representante da federação, e nada prestava, gente. Documento de criança, documento das famílias, uniforme, isso não era só eu, Edneida, lá tinham milhões de projetos: das escolas, de universidades, projeto de paralímpico, projeto de qualidade de vida, projeto das pessoas que nos procuravam, que não tinham como pagar para treinar para os concursos públicos e nós recebíamos lá.

Então, quando a gente briga ou quando a gente está novamente num debate ou numa Mesa, a gente não pode deixar de se lembrar disso. Falo do rolo compressor que chegou junto com os megaeventos. Foi prometido que, depois de um ano da Olimpíada, iriam reconstruir o Célio de Barros. Nós ainda estamos brigando na esperança de que esse equipamento ainda seja reconstruído.

Ai a pergunta que quero fazer e deixar para todos: todo mundo está muito preocupado com o que foi construído, com o Parque Olímpico, com todos os equipamentos que foram construídos para a Olimpíada e o que foi demolido? O Parque Aquático, o Célio de Barros, e outros equipamentos que não são citados, mas foram violentamente demolidos. Para que demoliram o equipamento? Num ciclo olímpico, um único estádio de atletismo dentro da Cidade olímpica, funcionando, e os seus usuários perambulando! Perambulando, nossos atletas olímpicos, mendigando, numa Cidade olímpica para chegar à Olimpíada ou para treinar para Olimpíada. E os não olímpicos? Aqueles que ainda têm a caminhada da descoberta de talentos, até chegar a Olimpíada. Esses foram esquecidos, porque aonde a gente ia, chegavam as máquinas das Olimpíadas. Andei o Rio de Janeiro todo com a minha caravana e sei quantos deixei pelo meio do caminho e o quanto isso foi prejudicial para essas crianças, para essas famílias.

Fiquei dois anos no Parque Madureira, treinando lá, usando os banheiros, usando o espaço, um espaço bom, maravilhoso. Mas, infelizmente, nós sofremos várias tentativas de assalto, a violência urbana me fez sair de lá. Fomos para a praça e aconteceu a mesma coisa.

E, hoje, distribuí as 30 crianças e adolescentes que estavam comigo para outros esportes, para outros projetos. Por quê? Como é que vou ficar nessa violência, colocando em risco a minha vida e a deles? Tem pista sim, tem. O pessoal fala assim: “mas tem um monte de pista na Cidade Olímpica!” Tem várias, os projetos dentro das comunidades com pista de 200m e 300m, dentro das comunidades lotadas de gente, onde, se eu entrar com um grupo, o outro grupo não tem mais o espaço. E mesmo assim o risco da violência.

Temos espaço. Tem a pista do Miécimo da Silva completamente abandonada que virou asfalto. Temos várias pistas militares. Mas o que adianta se não posso entrar com um atleta de iniciação. Como é que vou fazer um atleta olímpico? Não posso começar o trabalho da descoberta de talentos, porque nas pistas militares ou você entra pagando ou você só entra se for o melhor do Estado ou os oito melhores do Brasil. Quem não é fica onde? E onde poderemos praticar o atletismo, sem querer ser atleta, mas só um cidadão do atletismo?

Nesse sábado, teríamos uma competição importante para o Rio de Janeiro e foi mais uma vez cancelada porque não temos uma casa nossa. Sobrevivemos do calendário das pistas militares – que é bem caro, não é barato, não, pois, paga-se para ter uma competição. Então, estamos em uma situação de largado olímpico e como digo SOS Atletismo.

Obrigada por essa oportunidade e me desculpe por me estender, porque falar de vidas para mim é bem doloroso. Sabemos o que podemos fazer para transformar essa criançada que vem das comunidades, que precisa e ninguém quer. Só quer quando está lá no olímpico, mas quando está iniciando ninguém quer. Esses que pegamos das ruas, na escola fazendo besteira, que vêm encaminhados pela Vara da Infância e Juventude. Quem quer esses? Ninguém. Mas nós queríamos e continuamos querendo, porque sabemos que o esporte é transformador.

Obrigada e desculpa, gente.

(PALMAS)

O SR. PRESIDENTE (RENATO CINCO) – Nós que te agradecemos, Edneida.

Queria passar a palavra para a Senhora Rosângela Lopes, usuária do Parque Aquático Júlio Delamare.

A SRA. ROSÂNGELA LOPES – Sou moradora do Maracanã e a minha história, apesar de hoje estar tentando fixar mais a luta com relação ao Parque Aquático Júlio Delamare, que também tem o seu lado triste, doloroso... E herança de muitas histórias lindas como o salto ornamental que acontecia ali. Era a única plataforma que tínhamos com elevador aqui no Rio de Janeiro e assim como o Célio de Barros teve também uma derrubada. Quer dizer, eles chegaram sem aviso e saíram derrubando o estádio seco que era superimportante para o atleta se preparar, para o pessoal do nado sincronizado e do balé aquático. Assim como aconteceu com o Estádio Célio de Barros, aconteceu lá também.

Comecei falando disso, apesar de não ser praticante desses esportes, porque acho que o Rio de Janeiro está carente justamente disso, não só o Rio de Janeiro, mas o Brasil. Mais o Rio de Janeiro por quê? Porque é verão sempre aqui. Agora, estamos passando por esse frio, mas aqui é sempre verão. Então, esses esportes tinham, desde o início, que ser cultivados como nossa cultura. Tínhamos de ir para a escola com a obrigatoriedade de já ter isso e também a educação física. E o Complexo do Maracanã era a Escola Friedenreich, que já poderia ter esse programa – teve algum tempo em que aconteceu isso – ter essa relação de esporte, cultura, lazer e saúde.

Aprendi a nadar no Delamare, porque meu filho de um ano e meio, na época, começou a nadar lá. Na época, não era parte de programa social do Governo. Funcionava uma empresa particular, e aí o Governo veio e encampou, na época, e foi ótimo, porque aquilo que abrigava 5.000 pessoas passou a abrigar 10.000, da Cidade inteira. Ali, eu tinha encontro social com pessoas da Cidade inteira. Tínhamos capoeira, natação, balé aquático. Tínhamos o baile do final de semana, dos idosos, da terceira idade.

Então, era um lugar maravilhoso de encontro e, simplesmente, quando chegou o Pan, nós também sofremos. Foi fechado para as obras. Nós achávamos: “Poxa, vamos voltar depois do Pan com tudo lindo, moderno, melhor para nós”. Quando voltamos, inicialmente, já teve um problema com nossos documentos. Nós, usuários. Os documentos haviam sido perdidos. Foi uma luta para muitos se recadastrarem na época, mas passou, e aí começamos. Daqui a pouco, começamos a perceber o desgaste com... O Governo simplesmente colocou uma ONG para administrar o parque, e com a ONG, já começaram os problemas. Conserto de cadeiras não tinha, porque a ONG que era responsável não passava o dinheiro. Depois, os próprios contratados, também não tinha.

Na folha de pagamento, a gente soube de denúncias, que havia pessoas na folha contratadas, que, na verdade, não iam dar aula lá. Na verdade, nós tínhamos professores que davam aula lá já há 20 anos, que eram contratados. E havia aqueles que vinham temporários. Isso foi um problema que a gente via, mas íamos levando, porque, na verdade, o que faltava era isso, a gente estar aqui, correndo atrás de saber quem administra, quem projeta as leis, para que esses projetos possam continuar tendo sucesso.

Só que quando vieram a Copa e a Olimpíada, aí sim, a gente acordou. Por quê? A gente foi tirada de lá, sem promessa de volta dessa vez, porque o Maracanã foi vendido e quem comprou queria derrubar o único parque aquático da Cidade que tinha um elevador de saltos da altura que existe lá no Parque Aquático Júlio Delamare. Queria derrubar um parque aquático onde as piscinas têm uma profundidade que, aqui na área da Tijuca, no Maracanã, a gente não tem, com aquela profundidade. Inclusive, até aula de mergulho nós tínhamos lá. Então, quer dizer, vieram para derrubar sem dizer nada para a gente também. Só violência contra o povo.

Então, a gente se emociona, porque é uma história de vida da gente e de outras pessoas que não podem estar falando aqui agora. Enquanto estou falando, me lembro dessas pessoas. São pessoas que vêm de outras cidades, como Caxias, Maricá. O Parque Aquático Júlio Delamare recebia pessoas do Rio de Janeiro inteiro, Niterói e ainda as pessoas que são moradoras da Tijuca, do Maracanã e redondezas. E o que aconteceu? Simplesmente acabou, está lá abandonado, as piscinas largadas, o mosquito tomando conta. E ainda para ofender a gente, eles colocaram tapumes com a intenção de esconder a história que ali existe. Existe história da gente ali. Existem histórias como a da Patrícia Amorim, que nadou ali. É muito difícil. Tudo que quero de volta é o parque como era: popular, público, funcionando, com bons profissionais trabalhando pela gente, oferecendo para o Rio de janeiro um esporte que é necessário. Água, respiração, natação, hidroginástica, e beleza, porque são esportes de uma beleza extraordinária.

Simplesmente, o Governo esquece a gente. Simplesmente, a gente vai passando os nossos dias e percebendo que a importância deles é arrecadar dinheiro para a Saúde, para, na verdade, embolsar. A verdade é essa. Porque, se quisessem Saúde mesmo, investiam em esporte. Investiam em esporte, em todos os equipamentos de esporte que existem no Rio.

Acabar com aquele espaço ali, como fizeram; destruir o que destruíram é crime. Foi um crime, para mim, inafiançável, porque está abandonado, parado, lá.

Numa dessas audiências que a gente foi, ouvi alguém dizer que nós tínhamos que olhar daqui para frente. É praticamente impossível a gente olhar daqui para frente sem ver os erros de trás. É praticamente impossível, porque, se o dinheiro que foi roubado para essas obras da Copa e da Olimpíada voltasse, algum desses equipamentos, algumas coisas dessas, já estariam funcionando.

Para mim, ainda tem outra parte, que é a briga pelo Maracanã. O Estádio do Maracanã, que virou um caixotezinho agora, e está lá sendo brigado pelos times, também é outra briga que não dá para, simplesmente, separar. Não dá.

O Complexo do Maracanã, para mim, é um complexo, inteiro: estádio de futebol, Estádio Célio de Barros, Estádio Maracanãzinho, Escola Municipal Friedenreich... simbológico demais, educação, cultura, saúde, lazer... Índios da Aldeia Maracanã. Não dá para, simplesmente, separar essa história.

Em todas as audiências que tenho ido tem tentado separar o legado olímpico como uma coisa isolada e não é. A herança que Olimpíada e Copa deixaram aqui no Rio de Janeiro é uma herança de tristeza, é uma herança de dor, de assalto. Assaltaram os cofres públicos e não vão devolver, porque os conluios são muitos. Agora, como arrecadar de novo para levantar o que está caído, tentar projetos para tentar restabelecer a ordem desses lugares?

Há ex-alunos, que entram... Porque a gente criou uma comissão. Essa comissão foi criada, Júlio Delamare, para, justamente, tentar chegar às autoridades, porque elas não querem receber a gente. Quando tinha alguma audiência pública, não queriam receber a gente. Não somos convidados. E, por isso, criamos a comissão para tentar fazer com que a Suderj, na época, nos ouvisse e dissesse “vamos colocar vocês nadando em algum lugar”, “quando acabar a Copa, dia tal, vocês vão voltar”. Depois que a gente cobrou, eles até deram datas, que não cumpriram, mas deram datas.

E algumas pessoas dessa comissão vieram para mim e falaram: “Rosângela, não tava na hora de a gente chegar lá, invadir, ocupar, colocar gente para trabalhar?”. E tem gente disposta a trabalhar. Não é assim que funciona, gente. É um bem público. São os nossos governantes, os nossos vereadores, os nossos deputados, que têm que administrar esses lugares. É nosso.

Eles estão ali para isso, para trazer esses projetos para quê? Para que não haja nenhum acidente. Para que as pessoas possam ir para ali com segurança. São lugares que estão precisando de cuidado.

O Maracanã está tão abandonado, que eu, como moro em frente, agora vejo mendigo dormindo na estátua do Bellini. Gente, moro ali há 20 anos; meu marido, há 40. A estátua do Bellini recebe turistas a noite inteira, a semana inteira. Então, é um lugar, sim, que pode trazer dinheiro para a Cidade do Rio de Janeiro, desde que os nossos administradores estejam dispostos a batalhar por isso.

E é por isso que agradeço ao Renato Cinco, agradeço também à Patrícia Amorim, por estarem aqui. Porque acredito que seja por meio dessas pessoas, que administram a Cidade do Rio de Janeiro, que nós vamos ter de volta o nosso Complexo do Maracanã: popular, público, com segurança, como sempre foi. Quem sabe até, com uma nova geral.

(PALMAS)

O SR. PRESIDENTE (RENATO CINCO) – Obrigado, Rosângela.

Terei que fazer aquele intervalo que a gente tinha combinado. Vou suspender o debate, e volto em poucos minutos.

(Suspende-se o Debate às 19h52 e reabre-se às 19h59)

O SR. PRESIDENTE (RENATO CINCO) – Vamos retomar o nosso debate.

Com a palavra, o Senhor Lucas Pedreptti.

O SR. LUCAS PEDREPTTI – Boa noite a todas e a todos.

Eu ia perguntar para a Edneida se, no futebol, pelo menos, quando tem um jogador da base que é promessa, e que a gente acha que vai virar craque, a gente chama de joia. Não sei se isso é comum em todos os esportes. Talvez, isso explique a ânsia do Sérgio Cabral em atacar os nossos esportes de forma tão profunda. Talvez a Adriana Anselmo tenha confundido as joias.

Antes de tudo, Renato, eu agradeço por você fazer esse Debate, porque, volta e meia, tem aparecido uma notícia na imprensa, ou qualquer coisa do tipo, falando sobre de novidades sobre o Maracanã. Isso mostra que, mais uma vez, o debate está se dando de forma muito pouco transparente e democrática. Então, a gente está aqui na Câmara discutindo essa questão importante para que a gente possa recolocar essa pauta no Debate Público. A gente sabe que está difícil no Rio de Janeiro. Tem muita coisa acontecendo. A gente tem a Uerj, tem os servidores sem receber, tem o exército na rua promovendo um genocídio. Mas, ainda assim, é importante a gente fazer o Debate do Maracanã. Vou tentar levantar alguns pontos, mostrando por que acho importante fazer esse Debate e por que é fundamental a gente discutir o que quer para o Maracanã.

É importante registrar também de onde falo. Na época da organização dos megaeventos, principalmente da Copa e da Olimpíada, a gente sabe que aquilo ali era um grande consenso que envolvia interesses muito profundos das três esferas – Governo Federal, Governo do Estado e do Governo Municipal. A gente sabe que houve um interesse muito profundo das Organizações Globo, das grandes empreiteiras... E aquilo ali se tornou um consenso muito difícil de criticar. E sempre houve grupos que faziam um debate muito qualificado, formulavam críticas muito corretas em relação ao que estava acontecendo. Aí estou falando dos companheiros do Comitê Popular da Copa e da Olimpíada, que tinham o acúmulo do Fórum Social do Pan, que fizeram avaliações que se mostraram muito mais do que acertadas. E, naquele momento, – nunca é demais lembrar – Sérgio Cabral e Eduardo Paes, daquele jeito deles, sempre faziam questão de falar que nós éramos ranzinzas, pessimistas, não queríamos o bem da Cidade, não queríamos ver o Rio de Janeiro brilhando, éramos os que torciam contra...

Agora, a gente sabe muito bem que não era disso que se tratava. Nesse contexto, existiam grupos formulando as críticas em relação aos vários aspectos do que acontecia junto desse contexto de megaeventos. Existia a militarização do cotidiano, as remoções, várias coisas. E, em 2011, mais ou menos, a gente começou a discutir um aspecto muito específico também quando percebeu que os megaeventos iriam aprofundar uma tendência que já estava em curso no Brasil. A gente tinha muita clareza de que, naquele momento, aquilo ia se acelerar de forma muito intensa, que é a tendência de elitização do futebol e dos estádios.

E aí, a gente começou a fazer uma articulação que aconteceu em vários estados no País, envolvendo torcedores apaixonados por futebol, envolvidos ou não em torcidas organizadas – em movimentos organizados – pra fazer esse debate, para resistir a essa ofensiva, essa tentativa de elitização do futebol. Acho que essa elitização tem vários aspectos, mas pode ser resumida na tentativa de se trocar o torcedor pelo consumidor, de se trocar o estádio pela arena multiuso e de se trocar a paixão pelo espetáculo, pelo negócio. Uma tendência que não acontecia só aqui no Brasil. A gente tem na Inglaterra, talvez, o principal caso de elitização do futebol.

Pra gente, particularmente, era muito ruim pensar que isso poderia acontecer aqui, porque, no nosso caso – isso não é novidade pra ninguém –, o futebol chega pelas mãos da elite. O futebol chega ao Brasil, no início do século XX, como um esporte da elite, como um símbolo da civilização, como um símbolo daquele modelo de sociedade que aquela elite queria construir.

Se a gente parar pra pensar que no final da Copa de 50 a gente tinha quase 10% da população do Rio de Janeiro no Maracanã, dá para perceber que alguma coisa aconteceu aí nas décadas seguintes. Isso fez com que aquele esporte, que era o símbolo das elites, se tornasse uma paixão popular, um símbolo da nacionalidade quase, com todos os problemas que isso possa ter. Portanto, assistir a esse processo inverso de transformação do esporte – que era símbolo da paixão popular – novamente num espetáculo da elite era ainda mais grave. Então, a gente se dedicou a construir essa articulação envolvendo torcedores. E no Rio, essa luta ganhou muita força especificamente por causa do caso do Maracanã, da luta contra a privatização do Maracanã.

Enfim, entre erros e acertos, a gente acha que aquela foi uma experiência positiva. E hoje, não queria deixar de citar que há vários grupos, movimentos levando adiante essa tentativa de se levar a política para arquibancada e a arquibancada para a política. Quero aproveitar para saudar o companheiro Diogo, que está aqui, e que representa muitos desses movimentos que têm feito esse debate de disputar internamente a política dos clubes, porque são instâncias muito pouco democráticas. A gente, como vascaíno – não é Flávio? –, sabe quão pouco democrático é o clube como um todo. Existem grupos que têm feito debates do direito ao estádio, do direito ao clube. Por outro lado, também há grupos que têm feito a tentativa de se criar torcidas com uma marca política de esquerda e crítica muito forte, os torcedores pela democracia.

Acho que isso mostra o seguinte: aquela ideia – com a qual imagino que ninguém aqui compartilhe – do futebol como ópio do povo, do futebol como símbolo da alienação, é, na verdade, uma grande besteira. Mas, queria focar um pouco na questão do Maracanã, especificamente. O Maracanã foi construído – acho que todo mundo sabe – no fim da década de 40 pra ser usado na Copa de 50. E isso eu já não sei se todo mundo sabe: foi construído depois de um debate público muito amplo. A gente tinha uma disputa em torno do que seria o estádio do Maracanã.

Havia grupos, setores da sociedade na época, o Carlos Lacerda – sempre do lado errado –, setores da imprensa esportiva que defendiam um Maracanã privado, construído em outros lugares, enquanto outros setores defendiam o Maracanã como um estádio municipal, público e construído na região onde ele foi efetivamente erguido. Na verdade, o Maracanã nasce com essa marca. A gente teve uma pesquisa que ficou famosa, uma pesquisa de opinião que consultou a população sobre o que se queria em termos de um estádio para sediar a final da Copa do Mundo de 50.

E foi ali que o Maracanã nasceu. Ao longo de décadas, esse estádio foi se constituindo como um símbolo muito forte no Rio de Janeiro. E aí, a gente não precisa acreditar naquela versão romântica do Maracanã como espaço extremamente democrático. A gente sabe que a divisão da geral com a arquibancada marca uma divisão de classe muito forte, de qual classe tem direito a ocupar qual espaço no estádio.

Mas, ainda sim, é importante pensar como a gente conseguiu e talvez seja exatamente por isso, na verdade. Exatamente por ele marcar de forma tão profunda essas divisões de classe que ele se tornou um símbolo tão forte. Afinal, nesta Cidade tão profundamente desigual, a gente conseguiu subverter aquela lógica e fazer do Maracanã, efetivamente, um símbolo e um espaço que saiu do plano material e foi para o plano quase do sagrado, do mítico.

Esse aspecto, essa característica do Maracanã é muito significativa. Talvez seja por isso que não foram poucos os esforços de privatização do Maracanã. Não é uma novidade para a Copa do Mundo de 2014. No final dos anos 90, houve uma tentativa de privatização. O Governo do Estado tratava como fato consumado, naquela época, numa situação semelhante à da Inglaterra – usando o acidente que houve no jogo do Flamengo como um dos argumentos –, pra dizer que o estágio estava deteriorado e tinha que privatizar.

Depois, no contexto do Pan-Americano, Eduardo Paes era Secretário de Esportes, essa discussão foi novamente ventilada, mas foi enterrada. No final de 2011, início de 2012, ela ressurge com força total e com o toque de crueldade da destruição do Célio de Barros, do Júlio Delamare, da Aldeia Maracanã e da Escola Friedenreich. Segundo os grandes gestores, os economistas do Governo daquela época, seria fundamental destruir os equipamentos esportivos, destruir a Aldeia, destruir a escola, para garantir a viabilidade econômica do Maracanã. E iriam construir um shopping, um estacionamento e mais não sei o quê.

Nesse período, nesse contexto, a gente começou a encher o saco deles. A gente fez atos na porta do Cabral – antes de ser moda –, a gente ocupou a sede da Odebrecht, a gente fez ato em frente ao Palácio Guanabara, na frente do escritório do Eike Batista, aqui perto. Hoje, não preciso lembrar a ninguém onde eles estão e onde nós estamos, de cabeça erguida e com a consciência muito tranquila. O mais perto que a gente chega de Bangu é quando a gente vai ao Estádio de Moça Bonita ver o Vasco jogar.

O momento mais simbólico daquele processo, eu acho, foi uma Audiência Pública que aconteceu no início de novembro de 2012. Nós fizemos um ato lindo, com as crianças da escola, os indígenas, os atletas, torcedores. O então Secretário da Casa Civil, Régis Fichtner, teve que fazer uma Audiência Pública protegido pelos guarda-chuvas dos seus seguranças, e pretendeu, fingiu, que aquilo tinha alguma legitimidade. No final, ainda teve a cara de pau de falar que se ele não finalizasse a Audiência, se não desse a Audiência como encerrada e como efetivamente finalizada, aquilo seria um atentado à democracia. A gente sabe com muita clareza, hoje, quais interesses estavam sendo atendidos, na medida em que o Governo atropelava daquela maneira a discussão sobre o Maracanã.

O Maracanã não deixa de ser um símbolo muito forte, também, desse momento das consequências trazidas pelos megaeventos. O new-Maracanã, o novo Maracanã, a arena multiuso Maracanã, não sei qual o nome que a gente tem que dar para aquilo, e tudo que envolve os megaeventos também estão presentes ali, como: o enriquecimento ilícito absurdo dos governantes e dos empreiteiros, a destruição de qualquer sentido público das coisas, a expulsão dos mais pobres, a destruição de manifestações artísticas e culturais tradicionais, enfim, tudo isso está presente no caso Maracanã.

Se o Maracanã, que já foi um símbolo tão forte do que é a possibilidade que a gente teve como cariocas, torcedores, brasileiros de se reinventar por meio da cultura, apesar das brutais desigualdades que marcam a nossa sociedade, se hoje ele é esse símbolo tão forte das consequências dos megaeventos, não é exagero nenhum dizer que discutir também o que o Maracanã vai ser no futuro é discutir, de forma muito mais geral, o que nós queremos para o futuro da Cidade, o que nós queremos para o futuro de forma geral.

Afinal, o Maracanã é um lugar de memória. Quando a gente fala de memória, a gente não está falando do passado, mas do que a gente quer para o futuro.

Então, é isso: a gente vai deixar aquele espaço destruído, jogado às traças? Vai transformar aquilo em um shopping, em um estacionamento, em um espaço de festa rave, com todo respeito às festas raves? Ou, então, a gente vai debater seriamente, de forma honesta, tranquila, pública, sobre o que a gente quer? A gente vai debater como é possível transformar e voltar a conceber aquele espaço como um complexo esportivo, educacional, público, popular? Acho que é esse o caminho. Penso que é isso que a gente tem que fazer. Afinal, se é esse o futuro que queremos para o Maracanã, talvez isso possa significar que é esse o futuro que queremos para a Cidade, de forma geral.

Estava relendo algumas matérias, antes de vir para cá, para me organizar...

O SR. PRESIDENTE (RENATO CINCO) – Não será necessária nenhuma interrupção. Vou devolver a palavra para o Lucas, para ele concluir. A gente segue o debate. Daqui a pouco, informo o resultado da votação. Inclusive, estava um tumulto bem grande, lá, embaixo, agora, porque a votação não foi feita no painel, os vereadores foram chamados um a um. E um grupo de vereadores está bastante indignado, dizendo que o painel falhou de propósito, para não ficar o registro dos votos. O negócio estava feio, lá embaixo, agora. Daqui a pouco, digo o resultado para vocês.

Então, devolvo a palavra para o Lucas.

O SR. LUCAS PEDREPTTI – Falei que ia terminar, mas a gente gosta de falar.

Realmente, para concluir, não queria deixar de fazer alguns apontamentos. Estava falando que, para me organizar, recuperei algumas matérias. E uma coisa me chamou muito a atenção do que vem sendo noticiado sobre o Maracanã, neste ano. Tem uma chamada de uma matéria do G1 – acho que, para mim – muito simbólica: “Presidente da Suderj diz que Governo deve fazer nova concessão do Maracanã ainda em 2017”. Qual o problema desse título? É tratar, como se fosse um dado natural, como se fosse um dado irreversível, inquestionável, que o Maracanã vai ser novamente concedido à iniciativa privada. É fazer o mesmo erro da primeira vez: que é atropelar o debate anterior.

Nessa Audiência Pública de 2012, lembro que a gente construiu uma carta, e apresentou, em nome dos movimentos, que era exatamente isso: a gente não reconhece a legitimidade nessa audiência, porque a gente quer enfrentar o debate anterior. Queremos enfrentar o debate sobre qual é a gestão que a gente quer para o Maracanã; e não como é o Maracanã privatizado. Queremos o debate sobre: é efetivamente o Maracanã concedido à iniciativa privada que vai permitir que ele seja novamente um espaço público, popular e concebido como um complexo educacional esportivo? Ou, se ele for para a iniciativa privada, ele vai se tornar uma fonte de lucro?

E, novamente: ninguém impede que o Governo do Estado, voltando a abrir um edital, volte a colocar ali a destruição do Célio de Barros, do Júlio Delamare, da escola e da aldeia, como condição para privatizar o Maracanã. Isso não pode estar fora do radar. Não é à toa que o Júlio Delamare não está reaberto, não é à toa que o Célio de Barros continua concretado. É óbvio que o Governo do Estado continua com o mesmo projeto. São os mesmos que estão lá.

Então, não podemos, novamente, cometer o mesmo erro de não fazer o debate anterior.

E, aí, Subsecretária, acho que é muito bom que você tenha vindo, porque, de fato, é importante que tenha esse peso da Prefeitura falando que quer estar nesse debate, e falando que não vai aceitar que se destruam os equipamentos esportivos e, fundamentalmente, falando que quer fazer o debate da municipalização. Está previsto na Lei Orgânica do Município que a Cidade deveria trabalhar pela municipalização. Não sei, a gente não tem consenso entre os grupos que estão fazendo debate, se esse é o caminho. Mas, a gente quer fazer o debate, – isso é fundamental –, e quer que a Prefeitura esteja aberta para fazer esse debate. E, municipalizando, talvez, a gente possa pensar em formas democráticas de gerir o Maracanã, que envolva os clubes, os atletas, a sociedade civil, um conselho, alguma coisa nesse sentido, mas que permita que a gente volte a ter o Maracanã como esse símbolo da democracia, da participação popular, e não o símbolo desse projeto nefasto de Cidade que foi colocado nos últimos anos. Enfrentar o que vem acontecendo com o Maracanã, é enfrentar esse projeto de uma forma geral.

Se tivéssemos o compromisso da Prefeitura, seria muito importante.

Obrigado.

O SR. PRESIDENTE (RENATO CINCO) – Obrigado, Lucas. Agora, passo a palavra ao Senhor José Guajajara, da Aldeia Maracanã.

O SR. JOSÉ GUAJAJARA – Boa noite para todos. Sou José Guajajara, pertenço ao povo Tenetehara.

Hoje, na luta da Aldeia Maracanã, eu que nasci em Lagoa Comprida, município, hoje, de Jenipapo dos Vieiras, antes Barra do Corda no Estado do Maranhão... A Aldeia Maracanã, hoje, continua sendo o símbolo da resistência, para nós povos originais, a nível nacional.

Estava lembrando agora mesmo, quando o Cinco falava do painel de votação que está acontecendo lá embaixo, que não é muito diferente da tentativa... Renato Cinco, particularmente, eu e os integrantes indígenas e apoiadores da Aldeia Maracanã agradeço a ele. Porque também estava na primeira tentativa de retirada em 2013. Logo na primeira tentativa, em 12 de janeiro de 2013, juntamente com outros vereadores, e outros deputados simpatizantes, e sensíveis à causa ancestral.

A questão indígena, segundo a Constituição Federal, não é só competência da União, do Governo Federal, mas também dos Governos do Estado e do Município. Trata-se de uma questão ancestral. Trata-se de uma questão espiritual acima de tudo, porque quem nos sustenta, na Aldeia Maracanã, agora, é a questão espiritual.

Então, do que estamos falando? De quem estamos falando nesse momento? E para quem estamos falando? Para a resistência estar nesse momento na Aldeia Maracanã resistindo... Estava ouvindo aqui Rosângela falar da sua inquietude ao ver aquela pista, aquela piscina ser entregue, e a própria sociedade que está no entorno, particularmente, não ter o sentimento de pertencer que nós tivemos ali na Aldeia Maracanã.

Ouvir o Lucas relembrando aquelas audiências. Estive na audiência anterior com o então, Presidente do Iphan, que teria que preservar aquele patrimônio, que não é só um patrimônio indígena. Aquele patrimônio Aldeia Maracanã, aquele imóvel que nos dois processos nós não falamos de prédio, nos dois processos falamos de imóvel, é aquele único pedacinho que nos restou, ali, encravado, bem próximo ao Maracanã e não era Maracanã ainda. Nós estamos falando de um patrimônio ancestral, de um patrimônio não só indígena, mas um patrimônio da nação brasileira, da União, do povo brasileiro e que todos têm que defender.

Naquela Audiência, um pouco antes, eu nem sabia o que era Audiência. Fui convidado por ter participado de uma audiência anterior no Ministério Público Federal, na Graça Aranha e esquina com Nilo Peçanha. Fui convidado e estava exatamente com o Presidente do Iphan, que estava ministrando essa Audiência Pública.

E já começava a se discutir a preservação daquele patrimônio tanto o Maracanã – um patrimônio do povo, uma cultura contemporânea –, mas também a questão da preservação do patrimônio dos povos originários. Estávamos debatendo exatamente a questão do sambaqui, a questão do patrimônio, dos cemitérios, da ancestralidade, da memória dos povos originários, estava ali o Presidente do Iphan e eu estava a três ou quatro metros dele.

Então, entendendo um pouco o que é uma Audiência Pública, – depois o nosso advogado que está por aqui veio falar para mim e para os indígenas da Aldeia Maracanã que, por sinal, é indígena o nosso advogado, que acontece apenas para justificar a safadeza do Judiciário, porque já está tudo organizado, já está tudo mancomunado. Então, Audiência Pública é apenas para justificar a roubalheira, apenas para justificar a safadeza que eles do Judiciário, o magistrado, essa corja que manipula. Audiência Pública é para justificar. Por isso, que ele disse que o público tem que estar. Porque o público estando ali vai justificar o que eles já premeditaram.

Então, eu participando daquele momento e era o Presidente do Iphan que estava ali. Procurei o nosso advogado e perguntei: “Doutor, o que para uma Audiência Pública? Ele me respondeu: “Nada para uma Audiência Pública. Só se você pegar um revólver e matar alguém. No mais, nada para uma Audiência Pública, porque já está tudo preparado”. Aí eu passei a entender e falei: “Alguma coisa tem que parar uma Audiência Pública”. Lucas lembrou muito bem quem estava naquela Audiência Pública. Várias pessoas que estão aqui. Ela foi trocada de lugar parece que umas cinco vezes em uma semana só, porque eles sabiam que ia estar ali... Porque essa corja de juízes e desembargadores sabia que a espiritualidade ancestral estaria ali e eles teriam que respeitar, porque eles são contemporâneos que estão nessa terra aqui. É uma cultura espiritual que veio da Europa e ali estava Kaiuré, que é um espírito ancestral, e eles sabiam que tinham que respeitar a Aldeia Maracanã por estar agora espiritual.

Nesse momento, pode não ter indígena nenhum ali, poucos indígenas estão ali, mas Kaiuré está ali, os espíritos ancestrais estão ali, os espíritos que sofreram o genocídio estão ali. Por isso, essa cultura espiritual, e nós estamos falando de uma cultura ancestral, espiritual, tem que respeitar, embora vários não respeitem.

Fui chamado atenção, em diversos encontros como esse, até alguns parentes disseram: “Urutau José Guajajara, você não pode citar nomes, isso é há até uma palavra que falam, uma palavra nova para mim; me falha a memória. Mas quando começaram a me falar: “Isso, Guajajara, é o capitalismo”; “Isso, Guajajara, é a dominação”; “Isso, Guajajara, você não pode citar nomes, porque é antiético”. Mas o que é antiético? Eu não sei o que é antiético. Quando fomos retirados no dia 22 de março de 2013, um certo desembargador, cujo nome me chamaram atenção para não falar: “É um desembargador, Guajajara, brutal. Não pode falar, é antiético”. Um safado chamado Marcus Abraham! Marcus Abraham é o nome dele.

Depois, amarramos o nome dele na boca do sapo em pleno junho de 2013, jogamos num caminhão e botamos para o povo cantar o nome dele: “Marcus Abraham, devolve a Aldeia Maracanã! Marcus Abraham, devolve a Aldeia Maracanã!”, porque ele estava sentado em cima dos nossos processos, os dois únicos que sobraram do Ministério Público Federal, 7ª e 8ª Vara. Ele que deu a imissão de posse, porque, naquele momento, na Aldeia Maracanã, quem estava com a posse éramos nós indígenas, e o Ministério da Agricultura, por meio da Lanagros e da Conab, que estava na posse. E essa bênção, Marcus Abraham, deu a imissão de posse para o Estado e, aí, Sérgio Cabral e seu Secretário Régis Fichtner... Até confundi com a Patrícia, mas não era a Patrícia: naquela época era a Márcia Lins e outros que estavam ali. Isso não me falha a memória, porque não era nenhum indígena que estava ali, era uma ancestralidade.

E houve aquela ação direta... Não sei nem o que houve; nem me lembro mais do que houve naquela época. Uma ação direta que era uma ação espiritual. E, na Aldeia Maracanã, houve várias manifestações espirituais, porque... Lembro muito bem daquele dia. Renato Cinco não era nem vereador ainda, estava tentando ser vereador. Houve, também, uma audiência aqui, e nós penamos naquele dia. E esta Casa de Vereador, além da Alerj, de deputados estaduais, também é responsável por isso. Também é responsável por essa penúria. Também é responsável pelo que chamam de crise. Não é crise: é um projeto. Isso é um projeto dessa corja que ninguém julga. Quem julgou um juiz até hoje? Quem julgou um desembargador até hoje? Ninguém consegue julgar nem juiz, nem desembargador. E nós ficamos nos digladiando, “batendo” no Renato Cinco. Renato Cinco dando porrada em mim, dando porrada em indígena. Pobre brigando com miserável. E eles “de boa”, “de boa” lá em cima. Tudo de “de boa”. Ninguém consegue julgar um desembargador nem um juiz. E nós, aqui embaixo, batendo e brigando.

A Uerj está falida. Mas quem faliu a Uerj? Estávamos lá na semana passada, num debate sobre arte, política e universidade, naquele dia em que era para julgar a audiência pública. Lembro-me muito bem. Ele acabou de falar em painel. Havia uma juventude, uma molecada que estava dentro do Maracanã, que fotografou o painel naquele dia. Depois apagaram, mas já haviam fotografado. E apareceu um vereador que está ali embaixo, não sei se foi reeleito: é um do chapéu preto, que era da Zona Oeste. Passou a deputado federal? É. Esse é o prêmio. Esse é o prêmio. Chegou a deputado federal, como outros vão chegar também. Saímos depois das 23h daqui, penando! Jogaram a questão indígena para o último. E o FDP desse deputado, que hoje é deputado federal, nós o vimos saindo, porque eu estava aqui em cima. Ele saiu, chegou ao Amarelinho, foi tomar uísque. Quando a gente estava saindo daqui, depois das 23h: “E, aí, seus índios, não deu para vocês, né?” Ainda bem que havia um grupo bom – eu não estava junto, não, pegaram ele, deram umas pancadas nele, menos eu. Eu não estava junto, não.

Então, é isso. É disso que estamos falando. Estamos na Aldeia Maracanã agora, porque nós indígenas, da resistência tem aquele patrimônio ali como pertencimento, pertencimento, porque se a pista olímpica, Friedenreich e o Júlio Delamare, se a sociedade tivesse aquela sensação de pertencimento, de pertencerem a eles, teria assumido aquilo ali e a sociedade estaria ali dentro e não teria uma empresa ali. Porque nós estamos na Aldeia Maracanã quebrando o asfalto e o cimento que também a Odebrecht colocou. A gente sabia que era a Odebrecht, tomamos pancada por causa disso. Nós apanhamos por causa disso. Hoje, nós temos uma companheira cuja perna a Guarda Municipal quebrou; nós temos um companheiro que está dormindo na rua, vários companheiros que estão dormindo na rua. Então, é isso. É assim que eles nos tratam. É assim que tratam as populações originárias.

E não é só na questão do Município: nós estamos lidando hoje com uma questão nacional e esse poder não está aqui. Os madeireiros brigam com indígenas, indígenas brigam com madeireiros, porque esse poder nos entregou lá dentro da nossa reserva para proteger e lutar contra essa corja, contra armas, armamentos pesados, que são os madeireiros e o pessoal de mineração.

Então, o marco temporal que aconteceu agora, a gente vem discutindo todas essas propostas de emenda constitucional que estão contra nós originários; que vários, lá no Amazonas, Maranhão, Pará, Mato Grosso, estão sofrendo porque vão perder suas terras. Eles querem o pouco de terra que nos restou, eles querem. A cultura dominante. Essas corporações, megacorporações, transnacionais – nacionais, também –, internacionais, querem o que restou de riqueza da nossa terra.

Estamos na Aldeia Maracanã, naquele microterritório de 14.300 m², tentando a autodemarcação. Estamos tentando até mesmo cercar com arame farpado ou telas ou grades para que a gente fique mais protegido lá dentro. Então, estamos vulneráveis. A Aldeia Maracanã está vulnerável. Tivemos algumas reuniões já; Lucas estava presente e outros também, de pessoas ligadas ao futebol, ligadas ao esporte, que numa ação de proteção também... Por que não dizer de proteção? Porque são jovens que estão muito atentos a essa questão desse poder, do poder do capital, desse poder. Mas esse capital tem nome, esse poder tem nome. E a sociedade que fica aqui embaixo, eles que se acham imortais, uns que acham que são deuses, outros que não acham, têm certeza de que são deuses, que são os desembargadores, que têm certeza de que a sociedade não vai puni-los nunca, nunca.

Mas a questão espiritual que está aí, na Aldeia Maracanã, vai punir culturalmente, espiritualmente. Eles vieram da Europa, são sobrenomes que se veem agora que não se viam antes: quando se fala em Cavendish, em Odebrecht, tremem, as pessoas tremem, porque vieram recentemente da Europa, contemporaneamente são jovens aqui dentro. Não respeitam a questão espiritual, não respeitam. Nós estávamos nos apegando numa desembargadora que nós chamamos de Salete Maccalóz, o nome dela. Era da Corregedoria, porque a única forma de nós, na Aldeia Maracanã, nos apegarmos era na Corregedoria, porque vários desembargadores e juízes, o nosso advogado suspeitou, e a própria corja tentou o tempo todo extinguir o nosso processo.

São dois processos. É uma ação civil pública e outro para desfazer todo esse desmembramento e apagamento da documentação da questão indígena naquele microterritório, a Aldeia Maracanã. E nós da resistência, sabendo disso, toda vez que um desembargador que está sentado parar o processo... O Marcus Abraham, numa das últimas, agora ele passou o processo para frente, já está com outro. Então, nós temos alguns nomes aí, passou para outros: Pedro Calmon; Salete Maccalóz era da Corregedoria, não sei como, ano passado ela faleceu, já estava velhinha. Então, nós estamos suspeitando de novo desse juiz agora que está, o desembargador, com o nosso processo, porque vimos que ele está a serviço da Odebrecht, está a serviço das corporações.

Os juízes e desembargadores que estão sentados em cima do processo da Aldeia Maracanã. É claro que estão a serviço da Odebrecht, estão a serviço das corporações e de construções. E é isso: é o imóvel que eles querem. É terra que eles querem. Não basta só o Maracanã, eles querem todo o entorno. Já estamos acompanhando o que estão entregando aí para outro país, que disse que vai fazer outra cidade em cima daquela cidade. Fala aí qual é o país? Ah, a França. Então, nós estamos acompanhando isso.

Estamos acompanhando no sentido de defender e clamar à sociedade, não só do Rio de Janeiro, mas à sociedade nacional, para defender aquele microterritório como território ancestral. Como território ancestral que, desde a saída do Darcy Ribeiro, teve o apagamento da documentação, queimaram a documentação dali, mas não conseguiram arrancar. Ali embaixo tem os nossos ossos; é a questão espiritual; é a questão ancestral; é a questão arqueológica que nós estamos tratando ali, que está fincada, que está enterrada ali, e a sociedade não fala sobre isso.

Então, nós estamos até comemorando o desmonte do Estado também e a fraqueza em que o Estado está, em relação também ao sucateamento da questão da Educação e da Saúde. Porque se o Estado estivesse forte, junto com as empreiteiras, nós já tínhamos sido retirados novamente, outra vez, que nem em 2003, por várias vezes. Então, nós estamos nos fortalecendo também porque quando o Estado receber uma dose do capital, nós temos a certeza de que vão nos tirar, e aí nós vamos estar ali novamente, pedindo também apoio à população, apoio à sociedade para proteger aquele pequeno território, aquele patrimônio, que é ancestral, é um patrimônio do povo brasileiro, é um patrimônio da União, é um patrimônio indígena espiritual.

O SR. PRESIDENTE (RENATO CINCO) – Obrigado, companheiro.

Então, eu passo imediatamente a palavra ao Senhor Demian Castro, integrante da campanha “O Maraca é Nosso”.

O SR. DEMIAN CASTRO – Boa noite a todas e todos!

Eu queria, antes de tudo, agradecer ao Vereador Renato Cinco pela realização deste Debate. Cumprimento os membros da Mesa; a Secretária Patrícia Amorim; e especialmente, desculpe a indelicadeza, meus companheiros de luta, que estão há bastante tempo nessa batalha do Maracanã. Passamos por muitos atos, muitas audiências, abrimos muitas trincheiras e não abdicamos de lutar em nenhuma delas, e ninguém aqui retrocedeu um centímetro, abriu mão de um milímetro dos seus valores e das suas convicções em prol de um Maracanã público e popular.

Eu vou falar aqui um pouquinho sobre o Maracanã, tentar ter uma missão um pouco inglória de falar por último. Sinto-me bastante contemplado por todas as falas anteriores, então vou tentar ser sucinto e também abrir o espaço para o debate, para as colocações da audiência.

Eu queria também saudar o companheiro Carlos Eller, da Escola Municipal Friedenreich, da comissão de pais também. E participou de vários eventos desses com a gente. Ele esteve em várias dessas trincheiras também, dessas batalhas.

Obviamente vou repetir um pouco, mas tentarei não ser muito repetitivo. Meu lugar de fala nesta Mesa é a campanha “O Maraca é Nosso”, Comitê Popular da Copa, uma tentativa de articulação dessas diferentes lutas. A gente via nessa campanha, e eu acho que esta Mesa aqui expressa um pouco isso, o Maracanã como, vou utilizar uma palavra que foi falada aqui também, um símbolo de um projeto de Cidade. E a gente pode também falar, acredito eu, no Maracanã como um símbolo também das lutas sociais na Cidade contra esse projeto de Cidade também.

Então, a gente teve diversas lutas sociais, que a gente está vendo aqui, que expressam diferentes bandeiras, ratificadas na bandeira contra a privatização do estádio, bandeira principal, que trazia a reboque uma série de violações de direitos.

Então, a gente está aqui num espaço institucional; vamos usar esse jargão do Direito, então vamos falar do direito ao Maracanã como do direito à cidade. Do direito ao Maracanã, não ao estádio, mas a todo o complexo, todos aqui envolvidos no Maracanã. O direito ao Maracanã como o direito à cultura; à história; à nossa ancestralidade, como falou o Guajajara; como direito à educação, na Escola Friedenreich; como o direito ao esporte, à prática esportiva, à iniciação esportiva, ao atleta de ponta ter o lugar para a prática esportiva; e o direito também ao estádio de futebol das classes populares.

Então, a gente tem um processo em torno do Maracanã – Lucas resgatou muito bem aqui, vou falar rapidamente. O Maracanã foi construído, a gente já sabe disso, em 1950, para a Copa de 1950. A gente pode dizer que ele foi construído... Ele já seria construído se não tivesse Copa do Mundo. Tinha sido construído o Pacaembu, em São Paulo, modelo de estádio, que inclui também equipamentos esportivos no seu entorno; um estádio público, o primeiro estádio público do Brasil, e no Rio de Janeiro, a Capital, não tinha. E, ao mesmo tempo, já tinha o estádio São Januário, o estádio das Laranjeiras, e não tinha um estádio público.

Esse modelo Pacaembu inspira a construção do estádio do Maracanã e o processo de popularização do futebol na Cidade, a gente pode falar de uma verdadeira febre esportiva. E, após a Copa do Mundo de 1938, a última Copa antes da Copa de 50 – teve um intervalo ali por conta da 2ª Guerra –, a gente tem um sucesso muito grande da seleção brasileira e, principalmente, em torno da figura do Leônidas da Silva. Então, emerge no futebol uma força também de disputa do sentido e de projeto de País, de pensar um Brasil que dava certo, um projeto de Brasil mestiço, que algumas pessoas pensavam – idealizavam, vamos dizer assim , naquele momento ali, e de pensar também o esporte como um viés desse projeto de País também.

O Maracanã é construído dando vazão a esse projeto, de um País que se fazia ser representado via futebol e de um País que queria ser grande; já era grande no futebol, e construíram um estádio na sua monumentalidade para representar essa grandiosidade, na sua arquitetura, na sua engenharia, de um País que estava se colocando para o mundo, geopoliticamente. O Maracanã traduzia isso. E o Maracanã foi apropriado pelas massas nesse processo, que o Lucas colocou bem aqui também, por diversas classes sociais, de forma fragmentada, segmentada, mas dentro do estádio.

E na década de 1980, a gente tem um processo inédito, de que vale à pena falar aqui também, para tentar falar alguma coisa um pouco diferente, que é o de tombamento do Maracanã. O Iphan abre um processo de tombamento do Maracanã. O único tombamento de estádio de que se tem registro no País; nenhum outro estádio foi tombado. Esse processo começa na década de 80. Na década de 90, com o processo de que o Lucas falou, com a primeira tentativa de privatização, os grandes estádios do Brasil foram sendo construídos com o modelo do Maracanã, durante o regime militar. Em cada pedaço do Brasil, um estádio diferente, um estádio grande, para legitimar o futebol, pelo viés da... Enfim, não vamos entrar nesse debate do nacionalismo que se construiu na época, mas esses estádios começaram a se deteriorar por falta de manutenção, para justificar a entrada de um modelo inglês aqui de comercialização do futebol, chamado de modernização do futebol. Então, na década de 1990,a gente tem uma primeira tentativa de privatização, de transformação do Maracanã. E aí volta à tona o projeto de dentro do Iphan, alguns arquitetos trazem novamente a bandeira de um projeto que estava guardado lá, meio que esquecido, de luta dentro do Iphan para tombar o estádio de fato. E eles conseguem tombar o estádio.

O estádio do Maracanã, o parecer muito bonito até do arquiteto que o fez, esqueci o nome dele agora... Enfim, a palavra que ele usa para caracterizar o Maracanã, ele fala da monumentalidade das massas. Enquanto a monumentalidade dentro do Iphan traz em si um poder, a maior parte dos projetos monumentais tombados pelo Iphan tem na sua magnitude o poder estabelecido e representado na paisagem fisicamente na arquitetura. O Maracanã traz a massa na sua monumentalidade. E aí ele vai falar também de características da arquitetura, da sua marquise emblemática e, num parecer também etnográfico, da festa da arquibancada. Ou seja, tudo que foi destruído com o processo de reforma do Maracanã.

O que é interessante também desse projeto é que o tombamento de qualquer bem pelo Iphan tem o tombamento do entorno também. O entorno é uma categoria patrimoniológica que tem objetivo de preservação do bem tombado em si.

Então, você preserva o entorno para garantir as características desse bem. E, como eu estava falando anteriormente, como o Maracanã era inspirado em um projeto que via no esporte uma regeneração da ideia de nação, que inclusive já tinha sido aplicado no Pacaembu, ele tem já no seu projeto original a construção de vários equipamentos esportivos. Entre eles, que foram de fato construídos, o Célio de Barros e o Julio Delamare. Então, a gente tem um tombamento do Maracanã e do entorno. Esses bens foram tombados somente em nível municipal, mas eles têm uma característica de tombamento de entorno do bem em si.

Mas o que a gente percebe, que eu queria destacar aqui, é que nada disso foi considerado durante todo o processo. Quando a gente olha para o Maracanã e para o que aconteceu no Maracanã; quando a gente entende o projeto de Cidade, qual que é o marco? A chegada da Copa do Mundo, da Olimpíada. A gente precisa pensar esse projeto em várias escalas ao mesmo tempo. Porque a gente tem agentes sociais e econômicos que atuarão aqui no Rio de Janeiro, na Cidade do Rio de Janeiro, no Governo do Estado, no Governo Federal e agentes internacionais também.

Então, esse novo Maracanã é resultado de um padrão Fifa de estádio, do estádio de todo mundo sentado, all-seater stadium, o estádio de controle do torcedor. Esse padrão, que começa via uma justificativa da Fifa, volta a um projeto de País que se quer grande, quer se representar em uma escala internacional. Atrai esses megaeventos para mostrar para o mundo que é um País moderno capaz de realizar esses grandes eventos e precisa mostrar para o mundo estádios modernos que destroem todos esses direitos de que falei aqui no começo – o direito à cultura, o direito ao esporte, o direito à história, o direito à educação –, que violam tudo isso.

Então, conforme a gente estava vendo aqui, cada um desses espaços possui histórias próprias; são lugares de referência de histórias de vida, história para um monte de gente. Então, se a gente pensar na importância do prédio do antigo Museu do Índio, da Aldeia Maracanã, para a história indígena brasileira... Não é para história indígena do Guajajara: é para historia indígena brasileira, um espaço de referência da historia indígena brasileira.

O primeiro Museu do Índio da América latina, o espaço onde se constituiu o Serviço Nacional de Proteção ao Índio... Marechal Rondon, Darcy Ribeiro, figuras de referência trabalharam ali dentro. Indígenas do Brasil inteiro sempre convergiram para esse espaço para pensar na política indígena do Brasil. Enfim, uma rede de articulação que se tecia a partir dali também.

Vejam a importância da Escola Friedenreich. O colega que está aqui, Professor Isaac, fez a tese dele sobre educação. Só 4% das escolas brasileiras possuem infraestrutura básica para funcionar. Infraestrutura básica é laboratório de ciências, laboratório de informática, água, luz e quadra de esportes. Só 4% das escolas brasileiras possuem isso. A Escola Friedenreich tem muito mais do que isso, além de um projeto pedagógico que envolve pais, comunidades – o Carlos está aqui, representando essa articulação dos responsáveis. Então, a gente tem muito mais referência e memória daqueles que atuarem ali. E é uma escola que tem uma infraestrutura que poucas escolas do Brasil possuem.

A importância do Parque Aquático Júlio Delamare – a gente tem a Patrícia Amorim, aqui, dando o seu depoimento. O César Castro disse para a gente que a piscina em que ele saltou em Londres não era tão boa... A piscina que ele treinava, no Júlio Delamare, era melhor do que a piscina em que ele saltou em Londres. A plataforma de saltos foi destruída.

Então, a gente está falando de formação de atletas e de congregação de histórias de vida. O César Castro foi treinar no Canadá. A Mônica foi treinar nos Estados Unidos. Era vizinha do Maracanã. Treinou lá a vida toda. Chegando o ciclo olímpico na cidade dela... O depoimento da Edneida; sempre me emociono. A gente vê as histórias de vida que são entrelaçadas nesses espaços. E a gente, numa articulação de um projeto que envolve Poder Público, empresários – então, a gente precisa falar disso. O Lucas colocou aqui. O Guajajara falou muito bem também.

A gente estava falando de agentes econômicos que... Em 2012, o movimento ocupou a Odebrecht. Para que ocupou a Odebrecht? Para mostrar à sociedade que o que a Odebrecht estava fazendo com o Maracanã não tinha o menor sentido. A Odebrecht ganhou dinheiro na obra do Maracanã – uma obra que não se justificava – e, depois, ganhou dinheiro com a gestão do Maracanã – uma gestão que não se justificava. Não tinha sentido nenhum privatizar o Maracanã, sem nenhum debate público; sem nenhuma responsabilidade com o entorno, com os equipamentos.

Eike Batista foi outro agente que fez o estudo de viabilidade econômica – a empresa dele faz o estudo de viabilidade econômica; depois, participa da licitação. Onde tudo isso é permitido? Não é possível que só a gente visse esse processo e achasse isso um escândalo, em 2012. Hoje, em 2017, a gente vê, conforme o Lucas falou, o que era óbvio; demorou cinco anos para cair a ficha das pessoas.

Então, o que eu acho importante, tentando amarrar e concluir as coisas, a gente teve esse processo de enfrentamento bastante difícil. A gente está falando de grandes grupos econômicos – o Eike Batista, que era o empresário mais bem sucedido, na época; a Odebrecht, que era uma das maiores empresas deste País; a Fifa; governos de diferentes escalas articulados, de diferentes matrizes ideológicas, PT, PMDB, tudo junto, aqui, do Rio de Janeiro ao Governo Federal. A gente teve um enfrentamento muito duro, muito difícil, com todos os meios de comunicação, pautando essa agenda de defesa do que viria a ser o sucesso desses megaeventos; defendendo essa agenda de modernização, de privatização.

E nós, é importante que se diga, conseguimos vitórias. Vitórias parciais, obviamente. Por exemplo, o Maracanã, apesar de ter tido a sua marquise destruída e a arquibancada também; o entorno, Célio de Barros está fechado, mas a sua arquibancada ainda está de pé. O Júlio Delamare, a escola não saiu; continua funcionando. O prédio da Aldeia está lá ainda. Algumas coisas que eram “inevitáveis”, do processo, não foram tão inevitáveis assim. Então, eu acho que essa articulação, este debate aqui, tem uma grande importância.

O Guajajara colocou bem quando falou que são os processos de resistência que constroem esses freios que resistem de fato, esse trator. Somos poucos, mas, no começo, poucas pessoas acreditavam que era possível frear essa avalanche que veio. De fato, conseguimos algumas vitórias, e acho importante pontuar isso. Acho que este debate aqui hoje tem essa importância de colocar na agenda a proposta de outro Maracanã. O Maracanã não tem que ser privado: pode ser público, foi assim durante muito tempo; e principalmente tem que ser popular.

Isso só vai ser possível com o controle social desse espaço. Precisamos pensar juntos esse modelo de controle social. Qual a ideia da Prefeitura para participar do Maracanã? Qual a ideia com relação ao Maracanã? É pensar o Maracanã privado? É pensar o Maracanã no controle social? Qual é a ideia da Prefeitura para os esportes – e isso inclui o Júlio Delamare e o Célio de Barros, inclui manter a Escola Friedenheich ali, inclui um diálogo de respeito à autonomia com o prédio da Aldeia Maracanã?

Tudo isso precisamos debater, e acho que este debate tem esse papel fundamental de pautar novamente o Maracanã. É um debate que está um pouco sumido, fala-se somente em qual o clube vai assumir, se vai ter uma nova concessão, e não se debate o modelo. Falta um debate prévio que é sobre qual Maracanã queremos. Certamente, queremos um Maracanã público e, principalmente, queremos um Maracanã popular que represente essas diferentes demandas da sociedade acho que muito bem representada aqui na Mesa.

Muito obrigado, boa noite, agradeço a atenção de vocês.

O SR. PRESIDENTE (RENATO CINCO) – Obrigado.

Bom, pessoal, em função do horário temos de fazer algumas adaptações. Peço desculpas novamente pelo atraso e interrupção, foi algo fora do nosso controle.

Em primeiro lugar, vou abrir mão da minha fala. Quero fazer só dois registros: o primeiro é reafirmar o apoio do nosso mandato e o compromisso com a luta pelo Complexo do Maracanã público e popular, gerido democraticamente. Reafirmo meu compromisso pelo Célio de Barros, Júlio Delamare, Aldeia Maracanã e Escola Friedenheich: são todas lutas que há muito tempo travamos juntos e temos de seguir dessa maneira.

Queria apenas registrar também, e faço questão disso, que o nosso apoio à Aldeia Maracanã foi desde o primeiro dia de ocupação – era assessor do Eliomar Coelho quando houve a ocupação da Aldeia Maracanã em 2006. A primeira vez que entrei na ocupação foi, mais ou menos, uma hora e meia depois da ocupação tinha começado. Eu estava presente também nas desocupações. Então, temos compromisso com essa luta desde o primeiro momento e vamos manter esse compromisso.

Outra coisa que queria dizer é que todos aqui sabem – a secretária também – que sou da oposição à Prefeitura do Crivella, mas fazemos uma oposição programática. Fico muito feliz em ouvir a subsecretária dizer aqui que o sonho dela é a municipalização. Acho que temos de aproveitar este encontro e tentar construir uma agenda em que possamos reunir a Subsecretaria, os movimentos sociais, nosso mandato, outros mandatos para refletir sobre todas essas questões de como tratar essa municipalização. Se for o objetivo do movimento conquistar essa municipalização, quero participar dessa aliança entre os movimentos e a Prefeitura para conquistarmos essa municipalização.

Bom, outra mudança que teremos de fazer ao que estava previsto é que recebemos um áudio da Mônica Lima denunciando as agressões que ela sofreu pela Guarda Municipal e as ameaças que ela vem recebendo em função dessas denúncias, mas, em função do horário – o áudio dela é de cerca de sete minutos –, eu queria me comprometer aqui: a gente vai fazer uma edição no áudio da Mônica e eu vou reproduzi-lo na Tribuna da Câmara; vou me inscrever e fazer a divulgação desse áudio da Tribuna da Câmara. Inclusive, acho que a repercussão vai ser maior do que a gente ouvir esse áudio agora. Então, em função do tempo, a gente vai ter que fazer dessa maneira.

E aí nós também vamos ter que limitar as inscrições. Nós temos três pessoas inscritas para falar. Vou pedir para que elas tentem falar em dois minutos e, antes de chamar o primeiro, que é o Jair Baiano, eu queria chamar o companheiro Diogo Leal para ler aqui para nós o manifesto por um Complexo Esportivo do Maracanã público, popular e gerido democraticamente.

O SR. DIOGO LEAL – Obrigado, Cinco. Boa noite a todas e todos.

Na verdade, nosso papo aqui anteriormente era até no sentido de a gente, poupando tempo, talvez não ler todo o manifesto e falar um pouquinho sobre essa história aqui, porque eu estou aqui representando o Coletivo Tricolores de Esquerda e participo de uma série de outras frentes de luta dentro do futebol.

Então, pegando um pouco o gancho do que o Lucas falou, eu acho que, neste momento, está nascendo uma nova frente de luta social dentro do futebol e de dentro das arquibancadas. Essas frentes estão contando com o apoio dos interessados, e estamos totalmente abertos a essas articulações; não tenho dúvida de que, muito em breve vocês ouvirão muito falar dessas frentes. Talvez essas frentes sejam o novo ator dessa luta que está vindo lá de 2013. Muito se falou das mesmas caras, e acho que é isso mesmo.

O engajamento não é uma coisa que acontece de forma viral, não é todo mundo que vai se engajando em tudo que é luta, mas existem esses novos atores que estão saindo de dentro das arquibancadas de futebol e têm nos dado muita esperança. E, nessa linha, essas frentes, em geral de esquerda, mas populares, nós aderimos ao manifesto proposto, inicialmente pelo “Maraca é Nosso”, com a participação de uma série de outros atores, alguns ligados ao futebol, outros não, mas na luta pelo Complexo Esportivo Público popular e gerido democraticamente.

Eu vou, para poupar o tempo aqui de todos e todas, e da Mesa também, restringir-me à leitura de quem está assinando o manifesto, mas já digo que, a partir de amanhã, esse manifesto estará disponível na internet e está aberto à assinatura dos demais movimentos que se interessarem pela luta.

Aqui, pela lista, nós temos assinando o manifesto a Associação de Atletas e Amigos do Estádio Célio de Barros; o Coletivo Futebol, Mídia e Democracia; Comissão de Pais e Responsáveis de Alunos e Ex-alunos da Escola Municipal Friedenreich; Comissão pelo Parque Aquático Júlio Delamare; Comitê Popular de Lutas Comuna Rubro-Negra; Fla Diretas; Fluminense Antifascista; Instituto Pacs; Justiça Global; Movimento Nação 12; Flamengo Antifascista; Movimento Ocupa Maraca; O Maraca é Nosso; Torcedores pelas Diretas Já; Torcida Bravo 52; Tricolores de Esquerda; e alguns mandatos aqui: Vereador Tarcísio Motta; Talíria Petrone; Deputados Estaduais Flávio Serafino e Marcelo Freixo; Vereadores Reimont e Renato Cinco.

Então, esses são, inicialmente, os que foram aglutinados para esse manifesto, e queria conclamar já aqui, aproveitando a deixa do Vereador Renato Cinco com relação à agenda, todos e todas que tiverem interesse. Acho que a gente está no momento de construir essa agenda, de aglutinar forças e, com o apoio dos mandatos e do engajamento de quem está pensando os projetos, quem sabe, botar esse assunto na pauta novamente, porque a Cidade precisa e a população também. Acho que o caminho é esse.

O que a gente está pedindo aqui é a reconstrução imediata e reabertura imediata do Célio de Barros, Júlio Delamare e Maracanãzinho, com o detalhe do Maracanãzinho de que precisa ser cobrado o Comitê Rio 2016, na pessoa do Presidente Carlos Arthur Nuzman, que desapareceu do mapa e deixou o Maracanãzinho do jeito que está; e o Maracanã transparente, com a abertura dos contratos de concessão, que encarecem absurdamente a operação do Maracanã atualmente.

Eu acho que é isso. Dei o recado e conclamo a todos e todas para a gente poder se reunir em torno dessa causa.

(PALMAS)

O SR. PRESIDENTE (RENATO CINCO) – Obrigado, Diogo. Então, agora passo a palavra para o Jair Baiano, só pedindo a compreensão para falar dois minutos.

O SR. JAIR SEIXAS RODRIGUES – Boa noite, gente.

É complicado falar sobre isso, mas a realidade tem que ser dita: nós fomos ridicularizados, discriminados, literalmente, entendeu? Batemos de frente com o Município. Continuamos batendo ainda no Estado, indireta e diretamente.

E esta questão: como vai parar tudo isso? Por que quebraram a perna da Mônica com fratura exposta. Eu estou respondendo a processo ainda porque ocupamos dois espaços... A Fist, na época, porque eu fazia parte da Fist. Ocupamos dois espaços do Eike Batista e conseguimos, não é?

Temos problemas por causa da Lanagros, que foi feita em cima de território indígena. Então, essa é a questão: onde a gente vai parar? Porque nós agora fazemos parte de quê? De quê?! Se a gente está sendo massacrado o tempo todo, ridicularizado o tempo todo! A quem a gente vai pedir? Ao Papa? A quem, Cinco? Então, essa é a questão. Ser ridicularizado o tempo todo. A gente sai na rua e é massacrado, ridicularizado. Para quê? Até quando?

Então, essa é a questão.

Primeiramente, muito obrigado pelo apoio. A gente vai continuar ainda fazendo a resistência. Infelizmente, devido a diversas guerras e conflitos, eu também não posso me expor muito, devido aos últimos processos e essas coisas que estão acontecendo.

E é isso. Como é que a gente faz, como é que é? E precisamos realmente ver o que vai acontecer. Próximo ano é eleição, não é? E aí? Será? Vamos... Precisa morrer alguém para poder ser solucionada essa perseguição, não só municipal, não só estadual, não só federal... Até quando, não é?

Muito obrigado.

O SR. PRESIDENTE (RENATO CINCO) – Obrigado, Baiano.

Agora, o Gustavo Bueno. Infelizmente, são dois minutos só, Gustavo.

E o próximo é o Carlos Sanches...

O SR. GUSTAVO BUENO – Boa noite a todos e todas.

Não vou gastar nem dois minutos. Na verdade, me inscrevi para falar para fazer uma pergunta para a Patrícia Amorim a respeito da municipalização nas suas considerações finais. Eu realmente perdi a fala dela porque fui lá acompanhar a questão do IPTU... Então, eu só ia reforçar esse pedido, que eu acho que é um caminho possível, já que o IPTU parece que vai ser aprovado. Vai ter um caixa, um incremento de caixa em torno de R$ 600 milhões. Acho que não vai faltar dinheiro para, de repente, a Prefeitura colocar um projeto de municipalização de todo o complexo, na verdade.

E a outra coisa que eu queria dizer é que quem participou dessa luta desde o início sabe o quanto sofremos, o quanto corremos, o quanto apanhamos, o quanto de gás nós respiramos. Tem que ver que ainda tem gente na resistência, tem gente que não desiste. É muito importante. Como a Edneida falou, muitas crianças, muitas pessoas que podiam estar no esporte. Tem criança aí que está no crack, que é caçada nas ruas como pivete, como menor abandonado e que poderia ter uma iniciação esportiva.

Então, acho que é importante deixar esse registro e agradecer ao mandato do Cinco e a todos aqui presentes neste Debate.

Obrigado! Boa noite!

(PALMAS)

O SR. PRESIDENTE (RENATO CINCO) – Obrigado, Gustavo.

O próximo a falar é o companheiro Carlos Sanches e, depois, o Fernando.

O SR. CARLOS SANCHES – Boa noite, Patrícia. Boa noite a todos.

Eu ia seguir um roteiro, aqui, mas não vou mais, Renato Cinco. Eu vou falar só sobre esse legado desastroso que ficou – pelo menos naqueles espaços ali, em que está a Aldeia, o Parque Júlio Delamare, Célio de Barros, Friedenreich... Enfim, foi um legado desastroso, e nós temos que refletir muito, Secretária, sobre esse conceito de legado.

Como a Rosangela falou: “Vamos pensar daqui para frente”. Mas eu acho que não tem como nós pensarmos daqui para frente. Pensar daqui para frente, sim, mas temos que pensar também no passado, porque esse passado desastroso criou toda essa condição nefasta por que, hoje, o Rio de Janeiro está passando. Então, não tem como esquecermos a roubalheira que houve ali no Maracanã. A princípio, seria um gasto de R$ 350 milhões. A obra final ficou em R$ 1 bilhão, mais o desgaste físico, emocional, afetivo por todo aquele entorno que tem ali. Meu recado é esse.

A Prefeitura é um processo. É – como o Renato Cinco falou – uma possibilidade a municipalização daquele espaço ali. Mas o mais importante é ouvir quem realmente utiliza aquilo ali, a quem realmente se interessa por aquilo ali, participa. Minhas filhas estudaram no Friedenreich. Mas eu estou na briga desse Friedenreich para sempre, porque nós temos uma comissão de alunos e de ex-alunos, de responsáveis atuais e “ex-responsáveis” por aquilo ali. Então, temos que olhar com carinho para aquele espaço e consultar essas pessoas que, realmente, fazem o dia a dia daquele espaço acontecer. Está bem, Secretária? Obrigado.

(PALMAS)

O SR. PRESIDENTE (RENATO CINCO) – Obrigado, Carlos. Agora é o Senhor Fernando Luiz. Dois minutos, está bem, Fernando?

O SR. FERNANDO LUIS – Boa noite a todos.

Já estou falando e andando para não perder tempo, porque já deixando claro que um debate como este, de um tema não complicado, tão complexo – já que esse nome “complexo” foi naturalizado – não cabe em tão pouco tempo. Nós, para podermos formular propostas efetivas, para discutir esse espaço, vamos precisar de uma discussão ainda muito mais aprofundada. Então, eu queria falar, a princípio, dessa naturalização que fazemos em torno desse nome “complexo”, porque o nome “complexo” só surgiu junto com esse processo de privatização. Ele não existia antes, não é?

Aliás, se quisermos entender a complexidade daquele território, o nome “complexo” apenas simplifica, porque torna tudo aquilo que é uma escola municipal, um território indígena – que, em tese, é federal – uma proposta de municipalização. Ou seja, existem entes administrativos muito diferenciados para transformar aquilo em um plano só. Isso é uma perspectiva abstrata de poder hierárquico, que consegue simplificar essas coisas para dar uma solução político-administrativa que, muitas vezes, não contempla as perspectivas público-comunitárias que estão ali colocadas: indígenas, usuários desportivos amadores, usuários esportivos profissionais, escolares... São coisas de gestão completamente diversas. Essa unificação é um reducionismo incrível.

Então, às vezes, a política, por ter que dar soluções político-administrativas rápidas, acaba reduzindo a vida das pessoas a questões que não têm nada de complexo nessa proposta, não é? Ali é um território que tem um aspecto multiterritorial que tem que ser contemplado com que se pensa naquele espaço, inclusive, historicamente. Porque se você pensar qual é o significado histórico da Aldeia Maracanã, quando ela surge historicamente com o Duque de Saxe, é justamente quando existe uma reemergência da questão indígena na história do Rio de Janeiro.

O SR. PRESIDENTE (RENATO CINCO) – Dois minutos.

O SR. FERNANDO LUIS – Até então, entendia-se que os índios tinham sido exterminados. De repente, quando no processo de devastação colonial do Estado do Rio de Janeiro há uma crise hídrica por falta de chuvas e resolve-se reflorestar o Rio de Janeiro, aquele espaço era o espaço de pesquisa de sementes. Então, esse é o significado simbólico e histórico daquele espaço. A Aldeia é abandonada justamente na mesma década em que ocorre a revolução verde, dos transgênicos. Esse é o significado histórico, político, ecológico daquele espaço. Esse é o projeto de sociedade daquele espaço, que é muito diverso do projeto sociedade do estádio, que não é Maracanã. Oficialmente, é Estádio Mário Filho. Por que esse nome “Maracanã” é tão recorrente na história do Rio de Janeiro?

O SR. PRESIDENTE (RENATO CINCO) – Fernando, conclua, por favor.

O SR. FERNANDO LUIS – Por que o povo se recusa a chamar aquilo de Mário Filho, ou qualquer outro nome, e chama de Maracanã, que é o nome indígena? Qual é a história indígena daquele território? Isso não é discutido. Então, para nós podermos fazer uma discussão em profundidade, nós temos, sim, primeiro, que dar um passo atrás e avaliar qual o sentido histórico da produção social daquele espaço, daquele território. Essa discussão é colocada para debaixo do pano, porque é preciso reduzir as complexidades para achar um projeto político-administrativo que se torne uma proposta política, que se torne uma utopia, para que ela possa se encaixar num programa de governo, mas o povo é muito mais do que isso.

Então, eu queria fazer esse apelo, primeiro para que não se esqueça do passivo, porque é o passivo que faz com que essas empresas, que antes tinham interesse no complexo do Maracanã, abandonem esse interesse: porque há um passivo jurídico não questionado, e esse passivo não será esquecido, tanto do ponto de vista dos usuários do Célio de Barros e do Júlio Delamare quanto do ponto de vista da Aldeia Maracanã.

Para concluir, existe essa questão de que a discussão histórica tem que ser retomada como pré-condição para qualquer projeto que se queira para pensar aquele espaço.

O SR. PRESIDENTE (RENATO CINCO) – Obrigado, Fernando.

Pessoal, de novo quero pedir desculpas pelos problemas que aconteceram para a gente fazer este Debate hoje; quero pedir desculpas às pessoas que pediram inscrição e eu não vou poder conceder a palavra hoje, mas hoje foi uma tentativa de reanimar esse debate, de reacendê-lo. Não é a última atividade que nós vamos realizar; nós precisamos fazer essa movimentação, tomar conta da nossa Cidade para que possamos ser vitoriosos.

Eu gostaria, como foram feitos muitos questionamentos à Subsecretária Patrícia Amorim, de encerrar a atividade devolvendo a palavra à Subsecretária. Peço desculpas também ao resto da Mesa por não poder devolver a palavra, e em breve nós vamos nos encontrar novamente para continuar essa discussão.

A SRA. PATRÍCIA AMORIM – Boa noite a todos.

Sendo muito breve, agradeço pelo convite e quero dizer que voltarei sempre, a qualquer dia, qualquer hora e qualquer lugar.

A questão da municipalização, lógico, demanda um cuidado grande, mas o que posso adiantar é que o Poder Público Municipal não pode, não vai e não deve, em qualquer tempo, se ausentar dessa discussão. Parece-me muito razoável, num curto espaço de tempo, a municipalização, até que se chegue a um conceito definitivo. Mas enquanto esse conceito não chega, esse modelo, enfim, essa definição do que é melhor... Porque acho que temos que debater amplamente, existem muitos interesses além do nosso, que somos pessoas que conseguem ter discernimento sobre algumas coisas. Mas é importante ouvirmos todos e não sermos excludentes nessa discussão.

É bastante razoável imaginar que, enquanto não chegamos a esse modelo ideal, o Município possa ocupar, sim, por que não? É difícil receber alguns parques sem recursos, mas nem por isso a Arena está fechada. Nós fechamos sete parcerias com as federações, que também estão quebradas, mas juntamos esforços, pegamos equipamentos, imobilizamos e está funcionando, os campeonatos estão acontecendo, e isso é uma corrente que começa a se movimentar. Daqui a pouco vem um patrocinador, enfim... Quando o filho é feio, ninguém quer ser o pai, mas quando ele é bonito... E ele está ficando bonito. É uma engenharia financeira complicada, mas nós temos os vereadores, temos a Câmara, temos a importância do equipamento, o que ele representa não só esportivamente, mas culturalmente: é a cara da Cidade do Rio de Janeiro.

Então, é preciso entender a importância desse Maracanã, desse complexo, e temos que buscar orçamento para isso, mas, enquanto não tem, podemos ocupar, sim. Por que não? São tantos projetos, são tantas demandas, e essa é uma prioridade da Cidade. Não consigo imaginar um legado sem o Maracanã. A gente pode imaginar o Parque Radical, com suas corredeiras, com seu circuito de BMX, que será reaberto; a Arena, com suas lutas, handebol, futsal, ginástica, campo de golfe... Mas o futebol, o Maracanã, tudo o que ele representa; o Júlio Delamare; o Célio de Barros; a Aldeia Maracanã e tudo o que envolve são um patrimônio do qual a gente não deve se afastar.

Então, eu posso tranquilamente, sem polemizar, sem ser um discurso de esquerda ou de direita... Acho que, se o esporte pode contribuir, é não estigmatizar isso, para que a gente tenha a adesão de todos. Ele pode ser de esquerda, ele pode ser de direita, mas, na verdade, queremos ganhar o jogo. E para ganhar o jogo, precisamos de todos – dos 11 ou dos seis ou dos cinco, dependendo do esporte. É importante que a solução venha.

Posso dizer que o Prefeito Crivella – com toda a diferença que tem, sem querer puxar nenhuma sardinha – é bastante simpático a isso. Então, eu sou uma defensora enquanto sobreviver aqui. Não sei se eu duro muito tempo, porque sou um pouco polêmica. Vou encaminhar, vou participar de todos os encontros. Acho que vocês têm um representante aqui na Câmara, que faz um belíssimo trabalho. Não é fácil tratar de temas polêmicos, mas é preciso coragem. Não preciso dizer a vocês que coragem também não me falta.

Para finalizar, além de agradecer, quero dizer que hoje eu entendo muita coisa. Estava falando para você... Porque toda essa engenharia de Odebrecht, enfim… Eu paguei um preço muito caro, principalmente no clube que eu presidi. Eu nunca respondi sequer a um processo e alguns foram presos. Isso não é indício, não é… Foram presos. Então, eu consigo compreender tudo o que eu passei. Mas isso é outra história. Aí, me associo a vocês para fazer com que essas coisas não se repitam e que esse poder do capital não prevaleça em razão da necessidade pública de utilização.

O Maraca é nosso! Boa noite a todos.

(PALMAS)

O SR. PRESIDENTE (RENATO CINCO) – Eu agradeço a presença de todas e todos. Agradeço à equipe do nosso mandato e à equipe técnica da Câmara Municipal, que viabilizaram esta atividade. Agradeço pela presença de todos os convidados aqui na Mesa.

Dou por encerrado o nosso Debate. Obrigado!

(Encerra-se o Debate Público às 21h32)