Comissão Permanente / Temporária
TIPO : DEBATE PÚBLICO

Da Vereadora Marielle Franco

REALIZADA EM 11/13/2017


Íntegra Debate Público :
DEBATE PÚBLICO REALIZADO EM 13 DE NOVEMBRO DE 2017

(Direito da favela: a resistência ao racismo)


Presidência da Sra. Vereadora Marielle Franco
Às dezenove horas e vinte e sete minutos, no Auditório Vereador Aarão Steinbruch, sob a Presidência da Sra. Vereadora Marielle Franco, tem início o Debate Público sobre Direito da favela: a resistência ao racismo.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Boa noite a todos e todas. Declaro aberto o Debate Público. Desculpem o atraso. Hoje é mais um dia histórico, de luta e de encontros. Como as nossas vidas importam – a vida nas favelas, a vida das mulheres –, nós também ocupamos as ruas contrários a essa Proposta de Emenda Constitucional (PEC) n.º 181, mas o nosso lugar de favelados é o nosso lugar de responsabilidade deste mandato. Garantimos e mantivemos a nossa atividade, mesmo sabendo das dificuldades com as agendas. Quero agradecer muito o esforço e a presença de todas e todos. Daqui a pouco, comporemos a Mesa.

Quero dizer que esta é uma construção coletiva. O tripé do mandato, hoje, é formado pelo debate da favela, pelo debate da negritude e pelo debate de gênero. Esta é uma iniciativa muito impulsionada pelo coletivo do mandato, que é favelado, que é favelada e fala das lutas na favela. É fruto do seminário Direito à Favela, que ocorreu há alguns meses, lá no Museu da Maré, quando ocupamos tudo. Se ocuparmos tudo, temos que ocupar com o nosso corpo preto, com o nosso corpo favelado esta Câmara Municipal. Isso não é secundário.

Sem mais delongas, quero agradecer mais uma vez à equipe e a todos os que estão aqui. Quero iniciar com o vídeo Direito à Favela, produzido pelo coletivo da Maré, o Núcleo Audiovisual Favela.

(É feita a exibição do vídeo)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Parabéns a toda a equipe. O vídeo ficou lindo! Tantos cortes, tantas formas de fazer, mas com muita construção coletiva, uma das nossas atividades do primeiro semestre.

Como nós, para nos fortalecermos na luta, não fazemos nada sozinhos, quero chamar as pessoas que vão compor a Mesa: Ana Paula Oliveira, companheira, mãe de Manguinhos, mãe do Jonathan e da Maria Eduarda – desceu da Maria Paula –, mãe desse lugar de moradora de favela. De Manguinhos, pulamos para a Maré, novamente. Venha para cá, Marilene Nunes, do Museu. Também trabalhamos juntas há algumas décadas. Hoje, no lugar do Maré Resiste, no Museu que resiste. Da Maré para o Borel, venha para cá, Diego Santos, jovem jornalista, cria do Borel. Diego fala da juventude negra, desse lugar dos companheiros. Nós nos encontramos em todos os lugares, não é, Diego? Do Borel, para a nossa querida Zona Oeste, venha para cá, Hellen Andrews, do Quilombo Urbano. Se pegarmos, do Bonde de Uganda, lá no Bosque das Caboclas, para compor aqui esta Mesa, desse lugar das mulheres negras que vêm antes, que compõem...

Bom, como vocês viram no vídeo, a nossa disputa é simbólica, mas é uma disputa objetiva. Queremos estar com o nosso corpo preto favelado aqui, mas queremos uma política pública qualificada. Não é à toa esse convite para as mães de Manguinhos.

Agradeço também a presença da Fátima Pinho, porque nos encontramos na linha de frente com a família, no chá de bebê com as crianças, não é? Agradeço também a presença da Irone também, mãe do Vítor, da Maré, desse lugar das mães que resistem.

Agora, passo a palavra para a Ana Paula Oliveira, para começar. Acho importante começar com a força das mulheres pretas. Vamos para cima.

A SRA. ANA PAULA OLIVEIRA – Boa noite.

Para quem não me conhece, sou Ana Paula Oliveira, fundadora do Movimento das Mães de Manguinhos, junto com a Fátima Pinho.

Nós tivemos nossos filhos assassinados pela Polícia Militar na favela de Manguinhos. O meu filho foi assassinado no ano de 2014. O filho da Fátima, o Paulo Roberto, foi assassinado no ano de 2013. Apesar de morar na mesma favela, a gente não se conhecia. Nós acabamos nos encontrando por causa dessas perdas dos nossos filhos.

O Paulo não foi o primeiro jovem a ser assassinado em Manguinhos, depois da chegada da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). A UPP chegou lá em outubro de 2012, já fazendo suas vítimas, e quem foram essas vítimas? Os jovens negros que habitam ali.

A gente foi acolhida por várias pessoas. O primeiro coletivo que nos acolheu foi o Fórum Social de Manguinhos, e foi assim que eu me encontrei com a Fátima. A gente sentiu a necessidade de criar um movimento onde outras mulheres pudessem se identificar mais com a gente, mães que tiveram seus filhos assassinados pelo braço armado do Estado, mães que tivessem filhos no sistema socioeducativo, no sistema prisional, porque a gente sentiu essa necessidade de levar todas aquelas informações que a gente acabou adquirindo no meio dessa caminhada em busca de luta, em busca da justiça e da verdade, além de compartilhar também os nossos abraços, nosso apoio e nossa força, mas a gente está falando aqui também de resistência e de racismo.

Apesar de ser uma mulher negra, moradora de favela, eu só comecei a entender o porquê de o meu filho ser assassinado depois começar a me encontrar com outras mães. Com isso, pude ver que a maioria das mães é formada por mulheres negras, moradoras das favelas. Daí sai aquela necessidade de gritar, não é?

A gente acabou se unindo, dando as mãos, porque essa luta é muito importante, essa caminhada em busca da justiça e da verdade, porque nossos filhos têm família, nossos filhos não podem ser apenas números nas estatísticas dessa violência. E aí, quem melhor que uma mãe para falar pelos seus filhos, para gritar pelos seus filhos?

É assim que a gente tem caminhado, querendo mostrar quem são esses jovens. São jovens comuns, que gostam das mesmas coisas. Nossos filhos podem ser moradores de favela, mas gostam das mesmas coisas que os filhos da elite. Eles têm sonhos, igualmente, e esses sonhos foram arrancados.

Nós tivemos nossos filhos arrancados do nosso convívio da maneira mais covarde, mais brutal e mais injusta. Se voltarmos aos nossos ancestrais, veremos que sempre foi assim. As mulheres negras e pobres sempre sendo impedidas de exercer sua maternidade, sempre sendo impedidas de conviver com seus filhos, porque os filhos das nossas irmãs eram arrancados dos seus seios. As mulheres negras eram impedidas de amamentar seus filhos, para dar o seu leite e o seu sangue aos filhos dos brancos.

Hoje, somos impedidas de conviver com os nossos filhos por causa de uma dita paz, por causa de uma dita segurança. Paz para quem? Segurança para quem? Não podemos deixar que isto continue ocorrendo: sermos impedidas de exercer a nossa maternidade por causa disso. É por isso que hoje, eu e outras mães, fazemos força para estar nessa luta, porque todos os dias são dias de luta por sobrevivência, sem os nossos filhos, mas vemos essa luta também como uma luta por toda essa juventude negra, de favela e de periferia.

Vemos, nessa nossa luta e nessa busca por justiça, uma forma de continuar cuidando dos nossos filhos. É uma forma de continuar cuidando da nossa maternidade, e isso, só a favela e a periferia entendem.

Muito obrigada.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Ana. A gente fala de juventude, fala desse dia a dia, acompanha, vai para a porta do Tribunal de Justiça e fala dos nossos corpos, por essa luta do direito à vida, porque as nossas vidas importam. Dos jovens com sonhos, passo a palavra para a Marilene Nunes, pela luta do direito à memória, pela luta do direito à cultura, para fazer também a sua fala e a sua consideração.

A SRA. MARILENE NUNES – Boa noite. Meu nome é Marilene Nunes. Moro na Comunidade da Maré, em Nova Holanda. Trabalho no Museu da Maré, especificamente na Biblioteca Elias José.

Nessa biblioteca, eu desenvolvo um trabalho de incentivo à leitura com as crianças. Agora, estou trabalhando a literatura negra, porque não vendem muito, não é isso que oferecem para nós, é só a literatura dos brancos. Então, estou trabalhando mais essa questão da literatura negra com as crianças.

Trabalho no museu, que é um lugar de memória, um lugar de preservação da história local e da memória local. Entrei no museu – fui trabalhar no Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré por intermédio de Vereadora Marielle Franco, trabalhávamos juntas – e fui fazer uma oficina de contação de história. Não é uma contação de história qualquer, é uma contação de história local, de um livro chamado “Contos e Lendas da Maré”. São narrativas colhidas por jovens, e daí surgiu esse livro.

O museu é um lugar que trabalha a memória local por meio de fotos, documentos – é o primeiro museu comunitário em uma favela –, e objetos. O museu tem o tempo da água, onde vemos como era difícil, antigamente, a água na Maré. Eu sou uma pessoa que carregou água, lata d’água na cabeça, puxou rola-rola... Eu vendia água também, para ter um dinheiro para o meu sustento, e ajudava a minha família, a minha mãe, vendendo água.

Tem o tempo da migração, que fala do povo que migrou do Nordeste, fugindo da seca, e veio para o Rio de Janeiro em busca de trabalho – na Maré, moram muitos nordestinos. Tem o tempo da casa. Dentro do Museu da Maré, temos uma palafita que mostra como as pessoas moravam antigamente, o tipo de moradia, um barraco sobre a água. Tem o tempo do trabalho, que fala do mutirão, da união entre as pessoas, fazendo seu chão, batendo prego na madeira. E por aí vai...

Tem o tempo da fé, tem o tempo da resistência, que fala um pouco da ditadura e um pouco de uma época dura na Maré, um tempo mais difícil na Maré. Tem o tempo da religião, tem o tempo da criança, tem o tempo do comércio... Houve uma obra no museu, e ele ficou fechado por nove meses. Então, a gente ampliou, pegou o tempo da feira e juntou com o tempo do comércio.

Inclusive, lá no tempo do comércio, temos um bar com algumas doações feitas pelo avô da Vereadora Marielle Franco. Ele tinha uma venda, que se chamava birosca ou tendinha antigamente. Fomos lá e catamos. Até o caderno dos fiados está lá nesse tempo...

O museu ainda tem o tempo da criança. Criado para quê? Eu levo as crianças lá e pergunto: “Quem tem um celular”? Alguém diz: “Eu, tia!”. Hoje em dia, as crianças brincam com celular. O tempo da criança mostra esta pode ter um celular, sim, mas tem que brincar. Lá temos uns brinquedinhos antigos. Criança tem que brincar. Criança não tem que ficar brincando com celular. Criança tem que brincar como eu brinquei na Maré, com pé de lata. Eu ia à venda do Senhor Maroto comprar café com pé de lata, para não pisar na lama.

O Museu da Maré é um lugar de memória, é um lugar vivo, e assim as crianças tiveram o acesso. Muitas crianças não conheciam um museu. O primeiro museu que conheceram foi o Museu da Maré. Hoje em dia, as crianças já conhecem outros museus. Elas se sentem importantes por morarem em uma comunidade que tem um museu que é delas, é o museu da comunidade. Eu digo sempre assim: o museu da Maré poderia ter sido construído em outro lugar, porque, na Maré, as pessoas vão muito lá, fazem suas pesquisas, e tal... Mas, não, o Museu da Maré foi construído ali.

O que acontece? O Museu da Maré, além da exposição permanente, tem biblioteca, tem aula de teatro, tem capoeira, tem artesanato... Isso quase nos foi tirado, não é? A gente está em uma resistência. Por quê? Em 2014, quando o Exército entrou na Maré, o Grupo Libra – que é dono do prédio do Museu da Maré, da Dona Celina – ligou para lá, pedindo que a gente saísse do Museu, e a gente começou uma luta de resistência. Como sair do Museu da Maré?

A gente fez uma Caminhada Cultural, em 2014. A Vereadora Marielle Franco participou. Assim, a gente está resistindo até hoje. Sair como, dali? Como eu vou pegar os meus livros, as minhas crianças? Vou para onde? A gente vai pegar todas aquelas fotos, aqueles objetos e vai botar onde? Então, a gente está em uma luta. Houve uma reunião com o Eduardo Paes, em 2014, mas não se resolveu nada, entendeu?

Estamos aí, aguardando, resistindo sempre, porque não podemos sair dali. Estamos ali há 13 anos. Eu digo sempre assim: o Museu da Maré resiste! O Museu da Maré tem que resistir. A gente não pode sair daquele lugar. É um lugar de memória, memória. Quem não conhece o museu deve ir lá e vai ficar apaixonado.

Obrigada.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Marilene. O Museu da Maré resiste.

Da Maré, a gente pula para o Bonde do Borel, para falar dessa juventude – a gente se reinventa, se reencontra – e do jornalista também que compõe esse lugar da política para a juventude, da política feita nas solenidades. Com a palavra, o companheiro Diego Santos.

O SR. DIEGO SANTOS – Boa noite a todos e todas. É um prazer enorme estar aqui nesta Mesa com quatro mulheres que são exemplo, referência. A gente acaba se encontrando em outros espaços, e isso é muito importante. É muito bom ter a possibilidade de ver o debate avançar quando a gente fala de juventude negra, de favela.

Logo no começo, eu dizia que as pessoas antes ficavam muito presas a uma lógica que era: ou favela ou asfalto. Depois, a gente passou a discutir o que a favela era na Cidade. Agora, a gente está aqui discutindo o nosso direito à favela, discutindo nosso direito a esse território, porque pensar a realidade da vida na favela – posso falar a partir da experiência também da juventude, de pensar a política pública para a juventude – é também pensar a experiência de ser jovem nesse território. A gente está aqui à Mesa, com a Ana Paula, para ouvir a história de tantas outras mães que não convivem mais com seus filhos e para pensar que experiência é essa que tem o jovem negro, o pobre no território da favela.

A gente não pode negligenciar ou deixar de lembrar. Parece, às vezes, que é repetitivo, porque a gente volta em espaços parecidos, encontra alguns outros rostos, mas não pode deixar de pensar que a gente está debatendo e discutindo diante de um cenário de genocídio, de extermínio. Nós estamos sendo exterminados nos territórios das favelas, nas capitais brasileiras. Isso não é um caso isolado do Rio de Janeiro.

A gente não pode negar que existe um dado muito concreto: de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 pessoas são pretas. Quando a gente para para analisar ainda mais, metade desse número é formada por jovens negros, homens. Aí, a gente vai pensar nessa experiência que a gente quer debater, construir.

Hoje, o repórter, logo no começo, perguntou: “Qual a importância de você discutir isso aqui, na Casa do Povo, nesta Casa de construção de leis?”. Quando a gente pensa a realidade da Cidade, a Câmara de Vereadores é o que está mais próximo da nossa vivência cotidiana. Debater isso e lembrar, aqui neste espaço, que estamos morrendo tem muita importância.

A gente deve pensar que experiência é essa, porque direito à favela é também direito ao Estado. A gente precisa debater o direito à política pública, à vida, à cultura, à existência, à educação, ao trabalho... Direito à favela é também garantir o espaço no Município, no Estado ou no âmbito federal.

A Vereadora Marielle Franco disse que este Debate é também para partir para a prática. Agora que a gente avançou no debate, a gente entende também que pode ter direito ao território, porque a gente tem o direito a esse lugar. A gente também quer o Estado nesse lugar, mas não em forma de polícia. A gente quer o Estado nesse lugar garantindo o direito à educação, à circulação na Cidade, garantindo o direito à vida, à existência, ao trabalho e à resistência.

Quando a gente fala que o Museu da Maré resiste – um espaço de cultura, de memória –, a gente está também pensando em sobrevivência, que não está garantida no papel da polícia, que mata. Garantir o direito à favela é garantir lugar no Estado. Essa é a minha contribuição, por enquanto.

Obrigado.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Diego. Contribuição da juventude, mas do lugar do jornalista, dessa composição de quem está lá na favela.

Vou passar a palavra para a companheira Hellen Andrews, dos Quilombos Urbanos, para dar sua contribuição do protagonismo das mulheres negras. A gente se reencontra e quer homenagear, quer fortalecer.

Quero chamar a atenção à sua fala e à sua figura aqui. Se essa mulherada preta resiste, resiste há muito tempo e nos dá força. Então, agradeço muito a sua presença aqui.

A SRA. HELLEN ANDREWS – Boa noite. Estou me sentindo realizada por ter conseguido, depois de tanta luta, de tantos anos, quase desanimando.

Eu pertenço ao Bosque das Caboclas. Hoje é Bosque das Caboclas... Vou ter que contar uma historinha, senão, não chego lá. Em 1995, fui convidada para fazer parte de uma ocupação urbana. Na época, nem precisava tanto assim de moradia, eu tinha até uma moradia, e pensava que fosse minha. Então, passamos a noite no mato, lá na Estrada dos Caboclos.

Fui, peguei meu violão, uma amiga minha levou um balde e, lá, batuquei a noite toda, para as pessoas não dormirem. Existiam lá 200 famílias, a maioria de mulheres. Eram pouquíssimos homens. Eu me interessei muito em ajudar também, estar presente, porque o meu objetivo ali era eu estar em um lugar onde eu pudesse ensinar às pessoas tudo aquilo que aprendi no mundo. Lá é um lugar muito humilde. A maioria é de nordestinos, são pessoas excluídas pela sociedade. Sejam brancas ou negras, são excluídas. Ficamos a noite toda lá, fazendo música. Acabou que ganhei uma terra lá. Nessa noite, eram 250 mulheres, e ganhei um pedaço de terra.

Continuei cantando, ganhando meu dinheirinho, e me reunindo com as amigas, para ajudar as outras senhoras, porque eu tinha muita força muscular, porque fazia musculação, então, eu tinha mais estrutura física e entrava no mato, pegando pedaços de madeiras, cortando pedaços de árvores para fazer os barracos das pessoas.

Surgiu lá uma associação de moradores, formada por mulheres também. Mulheres foram pedreiras. Eu fui servente, porque, na época, eu não tinha a capacidade de fazer um traço de massa.

Surgiu uma associação de moradores com uma minoria de homens apoiando. Nessa associação de moradores, diziam o que tinha que fazer, era melhor para nós pedirmos os benefícios... Então, por meio das mulheres, conseguimos iluminação, fizemos um prédio, que é melhor até do que o meu casebre.

Qual era o meu objetivo lá? Eu não era nada. Eu não era a moradora, era simplesmente fundadora do lugar. Reuniram lá uma diretoria, de pessoas de pele branca, e ficaram lá dentro e não nos deixaram participar de nada que fizessem. Eles faziam churrasco, mas o povo ficava do lado de fora – e eu também –, depois da associação pronta e, em 1995, obrigaram todo mundo a pagar R$ 5,00 de associação, e tudo mundo pagava.

Quem contava esse dinheiro, depois de todos os eventos, era eu, porque eu era a cantora do espaço. Quando a associação foi construída, ficou fechada, cheia de poeira. Tinha uma médica do Rio da Prata, Doutora Dolores, que dava consulta lá. Uma vez por mês, ia alguém lá e limpava, e o povo do lado de fora não participava de nada.

Um belo dia, em 2004, mudaram a diretoria – sem eleição, porque ninguém era capaz de competir com eles –, e a menina falou assim: “Dona Hellen, vamos entrar para a associação agora. Vai sair essa equipe e vai entrar outra”. Eu disse: “Bom, tudo bem”. Ela respondeu: “Ah, Dona Hellen, a senhora é tão forte, a senhora pode carregar terra, carrinho de pedra, a senhora pode ficar lá capinando”.

Eu capinava o bairro todo, plantando, fazendo, assim, jardins. Ela perguntou se eu queria, e eu disse que iria pensar. E disse: “O que você vai ser nisso aí?”. A menina: “Vou ser secretária. Ela vai ser vice”. Eu disse: “Tudo bem. Então, tá. Eu vou pensar”.

No dia seguinte, ela me perguntou: “A senhora já pensou? Dona Hellen, não adianta a senhora tentar, porque não tem ninguém capacitado para competir conosco”. Aí eu falei: “Então, bota o meu nome. Eu tenho carrinho de mão, tenho o meu cachorro e tenho meu machado e minha foice”. Ela disse: “Dona Hellen, a senhora vai perder”. Eu falei: “Não tem problema. Precisa ter eleição, porque aqui nunca teve”.

Aí, eu fui às biroscas. Gosto de tomar um goró? Gosto! Peguei um papel de pão que uma senhora me deu e um lápis, e fui anotando a identidade e o CPF. Fui tomando goró com todo mundo que eu encontrava na birosca. Eu tomava goró de limão com cachaça, tomava uma caipirinha ali e dizia: “Eu preciso montar uma chapa, porque, no domingo, tem um negócio lá e eu tenho que entregar”. Quando diziam que não sabiam fazer, eu respondia: “Ela me disse que todo mundo aqui é incapaz. Eu vou entrar para perder”.

Eles me deram os nomes. Somente faltou o tesoureiro. Botei um negão. Era todo mundo preto e todo mundo pobre. Encontrei um negão lavando o carro e disse: “Amigo, me ajuda aqui. Eu estou com esse negócio aqui. Não sei nem do que se trata, mas ela falou que é todo mundo incapaz aqui. Eu quero entrar aqui nesse negócio”. Ele falou: “O que é, Dona Hellen?”. Eu disse que tinha ali aqueles nomes e faltava um tesoureiro. “Oba! É comigo mesmo. Bota meu nome aí”, ele disse.

Minha amiga, peguei meus trocadinhos – não sei se eram R$ 10,00 na época, não lembro bem. Mandei fazer aquela carta e saímos entregando de porta em porta, porque a perninha estava boa ainda. Houve a eleição. Na semana da eleição, fizeram um vodu bravo lá para mim. Fiquei doente e fui internada no Rocha Faria. Diziam: “Ah, vai morrer. Essa dona vai ser igual ao Tancredo”. Fui para a casa da minha filha e fiquei uma semana lá. No dia da eleição: “Vamos embora pra casa”. Minha filha: “A senhora quer mesmo?”. “Quero. Vamos embora”. Foi um me segurando de um lado e outro do outro, e botaram uma maquiagem, para ninguém perceber que eu estava amarela.

Eu ganhei a eleição. Colocaram lá 10 caixas de cerveja, para os bonitos lá beberem mais tarde. Estava todo mundo chorando. Eu ganhei de uma maneira que tirou todo mundo que estava lá há anos. Depois eu conto o restante, porque tem muita história. Eu prometo. Aí, eu fiquei de presidente.

Agora, sim, eu luto pela saúde, a cultura e a educação, porque eu sabia algumas coisas e queria ensinar às pessoas. Eu não vou passar toda a informação para vocês, vou ficar devendo, mas uma coisa eu conquistei: eu sou presidente há 13 anos. Sou fundadora do Bosque dos Caboclos. Tenho aqui uma senhora da mesma época, há 23 anos. Conquistei lá, por meio do Centro de Referência de Assistência Social, por meio do Pré-Vestibular do Caboclo... Botei um pré-vestibular gratuito no Caboclo, com janta, lanche e café da manhã. Tudo por conta da luta das mulheres.

Estou, nesse ponto, realizada, porque as coisas que eu queria no Caboclo eram saúde, cultura e educação. Todo mundo sabe que a saúde está complicada, mas nós vamos chegar lá. Uma associação de moradores que tem meninas fazendo agricultura urbana, tem aulas de pré-vestibular – eu mesma sou a explicadora de inglês – e tem aulas de espanhol, teclado e violão, está bem na sociedade. Quando eu ganhei, botei o povo todo lá dentro. Todos entraram no escritório. Todo mundo olhou tudo. Em suma, acabei com aquela coisa ruim de estar em uma situação em que você não vive, não convive com a vida de outras pessoas.

Todas essas pessoas que estavam lá saíram. Um daqueles líderes já faleceu. Eu gosto muito de falar o que está se passando, porque muita gente não imagina. Fica titubeando: “Ah, eu não vou não. Eu não vou conseguir”. Eu consegui. Sou respeitada. Hoje me chamam de Dona Hellen. Não fui capinar nada. Fui, sim, lutar em prol dos seres humanos. Isso aí é nossa obrigação. Todos nós que sabemos um pouquinho temos que passar informações para a frente, para aqueles que não sabem.

Da minha parte, é só obrigada.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Só isso? Obrigada, Dona Hellen. Obrigada, Presidente. Isso não é somente simbólico, é objetivo.

Enquanto nos preparamos para conceder a palavra aos possíveis e prováveis oradores, quero muito dizer deste lugar de nossos encontros e reencontros. Fui anotando aqui. Se me esqueci de alguém, iremos conversando, porque acho que é um momento de nos encontrarmos e nos abraçarmos.

Quero agradecer a presença de Crislaine, querida companheira. Agradeço ao Deputado Federal Chico Alencar, na presença da Maura também. Agradeço ao bonde das Amigas Igrejeiras da Luta que está aí. Também agradeço à Monica Cunha, da Comissão de Direitos Humanos e também do Movimento Moleque, desse lugar das resistências múltiplas.

Citei, mas gostaria também de agradecer ao Itamar Silva, do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), esse companheiro nosso de longa data; ao Setorial de Favelas, na figura de nossa querida companheira Pâmela; às Mulheres da Zona Oeste, minha querida Rose, desse lugar da mulherada que ocupa tudo. Já que nos encontramos lá no ato, em franca atuação para lá e para cá. Também agradeço ao Núcleo de Mulheres da Defensoria Pública.

Falei de Fátima e falei de Irone, mas quero falar também dessas, a partir de Dona Hellen, para as mulheres que estão também há muito tempo na luta.

Fabíola semana nesta falava da homenagem à gaúcha e a essas mulheres que estão em todos os espaços. Por isso quero falar também da juventude, não é, Milena?

Quero começar a conversar e pensar um pouquinho. Temos um horário para entregar o Auditório, mas, neste lugar de aconchego é que a gente ocupa, sim, esta Casa. Se alguém quiser fazer uma saudação, deixo aqui o microfone aberto. A palavra será franqueada por vez. Ninguém precisa correr, mas quero chamar aqui para fazer algumas falas.

Aliás, quero agradecer às profissionais aqui da Câmara, da Taquigrafia e do Cerimonial, que nos ajudam e nos orientam. O que é dito aqui fica registrado no Diário Oficial da Casa. Então, quando alguém for falar, diga seu nome e sobrenome para que a gente tenha garantido o registro lá.

Agora concedo a palavra a Rosineide Freitas.

A SRA. ROSINEIDE FREITAS – Boa noite a todos. Faço parte do Coletivo Popular de Mulheres da Zona Oeste. Cito aqui Sandra e nossa companheira Dona Hellen. É sempre é um prazer ouvi-la e a todos os companheiros da Mesa. Algumas eu já conhecia e outras não. Diego eu já conhecia de uma fala brilhante em uma atividade na Pontifícia Universidade Católica (PUC).

Quero falar da importância e do simbolismo de ter aqui representada na Mesa e homenageada Dona Hellen que, para nós da Zona Oeste e para a Estrada das Caboclas, é uma referência. Não é qualquer referência. Ela é uma referência histórica que cada mulher preta, cada jovem preta, uma matriarca de luta por vida, de luta por garantir nossa vida de modo pleno e por nos ensinar os caminhos de resistência e de existência nessa realidade dura, principalmente para nós, mulheres pretas, nessa sociedade racista e machista.

Quero falar da importância – e não falo somente por mim, mas por um monte de mulheres que compõem o nosso Coletivo que, infelizmente, não puderam estar aqui –, mas estão em alma, estão e coração, mente e resistência neste espaço.

Sabemos que é complicado estar neste dia, neste horário, aqui neste espaço. Quero deixar aqui nossa saudação à nossa organização, e digo que minha fala representa a fala de tantas outras mulheres que, em Campo Grande, na Zona Oeste, fazem resistência e política.

Obrigada.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Rosineide, querida.

Quero, também, citar a companheira professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, Jaqueline Gomes de Jesus, que esteve aqui conosco, a Professora Pamela Passos. A mulherada preta está presente.

A SRA. PAMELA GOMES – Primeiramente, quero cumprimentar a Mesa. É o motivo de muita alegria, muita honra ver tantas mulheres negras, faveladas, falando de seu local de fala mesmo, do território.

Vou falar um pouquinho, também, do setorial de favelas, que temos construído junto com a Vereadora Marielle Franco, que é um espaço em que temos disputado as pautas da favela para dentro de tantas outras opressões, tantas outras pautas existentes. Precisamos disputar esses espaços. Não é fácil para nós, na condição de mulheres faveladas, estar disputando a política dentro de um partido, condição esta que viemos disputando amadurecendo, porque a maioria é homem, branco, heterossexual, enfim...

Estamos dando essa diversidade, voz às favelas, disputando pela base mais popular, adentrando as favelas por meio dos núcleos sociais existentes. Temos feito uma construção muito boa, consistente na Providência, na Rocinha, na Maré, em Manguinhos. Virá o seminário de favelas também. Estamos colocando agora e foi aprovado pelo Congresso um encontro municipal também do PSOL. Então, temos que disputar em todos os espaços, em todos os lugares, porque a favela tem que ter voz.

É realmente difícil estar aqui, em uma segunda-feira, vindo da favela, vindo da Zona Oeste, vindo de tantos lugares. Inclusive, algumas mulheres que se propuseram a estar aqui foram impedidas por tiroteio em sua comunidade. Mas é importante estarmos aqui, ocupando e colocando nossos pés onde isso sempre nos foi negado, sempre foi inacessível.

Eu mesma, antes desse mandato maravilhoso – e aí eu faço menção à Vereadora Marielle Franco mesmo – nunca tinha pisado aqui. Nunca estive neste local. Então, estar aqui hoje e em várias outras ocasiões, depois desse mandato, porque agora venho aqui até para visitar mesmo, porque virou minha Casa também. Venho para disputar problemas. Chegou a barraqueira, é isso mesmo, a favelada.

Acho que temos que estar, sim, temos que fazer esse esforço mesmo de estar ocupando este espaço, porque é aqui que eles não nos querem. Então, é isso aí. Vamos que vamos construir esse mandato por mais esses anos à frente. Temos muita coisa boa a fazer, a conquistar.

Obrigada.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Pamela.

A SRA. SIMONE – Boa noite. Eu sou Simone, moradora da favela da Carobinha, na Zona Oeste. Cumprimento esta Mesa e agradeço a resistência de vocês. O reflexo de tudo o que vocês fazem, em pontos diferentes da Cidade, é ouvido lá onde não temos voz. Nós só temos a milícia nos mandando calar. Assim, sem desmerecer as entidades, ao contrário: saudando. Que bom que tantas entidades possam estar aqui. Quero saber se mais alguém veio aqui sem representar entidade. Além de mim, mais alguém veio?

Vou contar meu histórico rapidamente. O Jardim Nossa Senhora das Graças foi a primeira ocupação urbana depois da ditadura militar. Ela foi pensada por um grupo político clandestino e resistiu durante muito tempo sem favelização – naquele sentido que os outros usam, não é? – e sem bandidagem. Durante muito tempo, tudo era resolvido nas assembleias de quadra.

É um histórico muito bonito, que pode perder-se a qualquer momento, por conta da milícia. Nós sabemos que oprime muito, não conseguimos mais nos reunir na condição de organização política, formação política da juventude. Existe somente espaço para o baile e para o tráfico. Não se tem espaço para os debates políticos, não é?

No caminho para cá, vim pesando em encontrar alguém que nos oriente. Quando eu vi Prefeito Crivella entrando em uma favela e nomeando as ruas de “Aleluia”, de “Glória a Deus”, não sei o quê, isso me assustou muito. Temos uma preocupação de nomear aquelas ruas, desde época, da resistência em que nossa organização foi criada. No ano que vem fará 30 anos da ocupação.

Fiquei muito preocupada, porque há muito tempo temos tentado dar nome às nossas ruas, e nos dizem: “Não, mas aí as pessoas não saberão mais esses nomes, não conhecerão mais o porquê desses nomes”. Temos, inclusive, uma rua que tem o nome de um morador que foi assassinado por causa da luta da terra. Enfim, é uma história muito grande, muito bonita, muito cheia de conflitos.

Meu marido – não sou ocupante, fui morar lá depois – e a companheira dele foram ameaçados de morte. Tiveram que sair de lá. É uma história bem difícil que se viveu na Carobinha, mas é muito importante de ser resgatada. Quando li “Direito à Favela”, pensei: quem sabe lá encontraremos resposta, ajuda e apoio para enfrentarmos, mesmo que seja de forma comendo pelas beiradas? Será uma coisa muito um passo muito importante.

Quero agradecer isso tudo que vocês fazem porque reflete lá para nós.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Simone.

A SRA. FÁTIMA PINHO – Boa noite a todos. Meu nome é Fátima Pinho. Sou moradora de Manguinhos. Sou uma das mães de Manguinhos também. Quero agradecer à Mesa pela presença de vocês, por estarem aqui também.

O que tenho que falar é que o preconceito social e racial tem como alvo preferencial os moradores de favelas. Jovens que são moradores de favelas, e entre esses mais aqueles que têm passagem pelo sistema prisional. Também mães que têm mais de um filho são criticadas por ter cinco, seis, sete, oito, nove filhos, que moram em favelas. Então, o racismo é muito grande por sermos moradores de favela, por tudo que aconteceu e acontece com nossos filhos.

O negócio é lutar por nossos direitos, não apenas porque moramos em favela, mas temos direito de ir a e a vir. Nossos filhos têm o direito de ir aonde eles quiserem. Nossa luta é por nossos direitos, pelo direito à vida plena, independentemente de ter feito coisas erradas. Quem pagou por seus erros, tem o direito à liberdade. Por tudo que tenha feito, se está livre, tem que viver. Tem que curtir a vida, ainda mais o jovem. Por mais que falemos várias coisas com eles, mas eles querem curtir a vida. Nossos pais nos orientavam, mas seus conselhos entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Todo mundo quer curtir a vida.

É isso. É luta por direito, luta por uma escola boa, que não temos. Direito à saúde, cuja assistência é cada dia mais precária. É isso, quem puder lutar, vamos lutar. Porque temos nossos direitos de lutar por tudo aquilo que queremos.

Obrigada.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Com a palavra, o Salvino.

O SR. SALVINO – Boa noite. Eu me chamo Salvino e moro na Cidade de Deus. Quero agradecer à Mesa, a todo mundo aqui presente, porque é fantástico estar dividindo um espaço como esse e ver que a favela tem a cada dia, mais voz e poder de se identificar com cada protagonista de cada favela. É uma experiência ótima.

Quero fazer sugestão a todos aqui presentes. Este espaço é extremamente importante, mas que esse debate não aconteça somente fora das favelas, mas que seja também dentro das favelas, como aconteceu a Virada da Maré. Quero convidar todo mundo a participar disso na Cidade de Deus. Deixarei aqui meu contato para quem quiser pensar a respeito, para que possamos ocupar, cada vez mais, espaços, dividir cada vez mais isso.

É exatamente para conseguirmos construir uma rede e estar cada vez mais em contato direto com os favelados, entende? É para conseguirmos disputar os espaços dentro e fora da favela. Acho que minha contribuição é essa e quero agradecer a vocês por esse momento aqui.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Passo a palavra à Monica Cunha.

A SRA. MONICA CUNHA – Somente para registrar uma situação que gosto sempre de colocar e ter essas duas juntas, Ana Paula e Fátima Pinho, para mim é muito importante, porque percebi que, quando a Ana Paula perdeu seu filho, no grito da Ana Paula por justiça e reivindicando direito à vida dela, da família e do filho, também deu voz às reivindicações da Fatinha.

Eu não ia falar nada, mas o fato de Fatinha ter pegado o microfone e colocado sua posição, para mim, é muito importante. Fatinha está falando de uma situação que se relaciona diretamente comigo. Também tive um filho que passou pelo sistema e foi assassinado. Então, a forma de lidar com um absurdo desses é colocar isso, mostrar-se e pedir respeito. Seu filho era adolescente, autor de ato infracional sim, mas não podia ser punido com a vida. Tenho direito também de falar e de gritar. É racismo o que fizeram com a Ana Paula e é racismo o que fizeram com meu caso. A Fatinha reflete isso claramente.

Esta é apenas uma fala de agradecimento e de orgulho por vocês existirem e resistirem. É isso aí.

Obrigada.

A SRA. PAMELA GOMES – Como falar depois de Monica? Vou falar rapidamente, porque escutei todas essas pessoas da Mesa e fiquei pensando nesta semana tão difícil para nós. A gente saiu de um ato das mulheres, 18 contra uma, de uma semana em que temos de novo a favela em São Gonçalo, no Salgueiro, criminalizada, chacina, funk, pobreza o tempo todo sendo estigmatizada, sendo alvo dessas políticas irresponsáveis. Fiquei pensando refletindo as palavras de Ana Paula que falava da amamentação, do direito do leite, e como controlam nosso ventre até hoje.

Como não nos contam, por isso é tão importante o trabalho do Museu da Maré – sou professora de história –, como não nos contam a nossa história, como nos apagam dos livros. Esse espaço é o espaço do ouvido à favela, porque a favela tem muita voz. A favela o tempo e vocês estão falando. A Dona Hellen nos ensina que há muito tempo há mulheres na política e haverá ainda mais. Não retrocederemos, e como dissemos lá fora: se não pode com formiga, não atire no formigueiro.

Parabéns a todas e todos da Mesa também.

Obrigada.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Com a palavra, Marilene Nunes.

A SRA. MARILENE NUNES – Sobre a fala dela, quando ela disse: “Eu nunca entrei aqui. Eu nunca havia entrado antes”, muitas mulheres pensam da mesma maneira. Precisou uma mulher preta e favelada ser eleita para abrirem as portas para a gente entrar, porque é um direito nosso. Esta Casa é um direito de qualquer pessoa, onde qualquer pessoa pode entrar, mas precisou uma mulher favelada negra ser eleita para abrirem as portas para as outras mulheres entrarem.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Tem que acampar mesmo. Vou passar a palavra para a Ana e o Diego rapidamente, para depois a gente fechar com a Dona Hellen, para as considerações finais.

A SRA. ANA PAULA OLIVEIRA – É a minha primeira vez aqui também, gente.

Complementando a fala de Fátima, a gente quer que nossos filhos, que a gente, nós favelados, periféricos, tenhamos direito não só à favela, mas a todos os espaços. Sei que a Monica comentou a respeito do filho de Fátima, porque a gente vê o quanto é racista também esse sistema do Judiciário. Pelo fato de o filho de Fátima já ter tido passagem pelo sistema, estava apenas havia 15 dias em liberdade, foi assassinado e precisou que eu e ela déssemos as mãos para mostrar que não havia diferença, que todos os dois tinham direito à vida. Nenhum dos dois tinha que ser assassinado.

O SR. DIEGO SANTOS – Quero agradecer a oportunidade e dizer que vai ser uma maravilha ler o Diário Oficial amanhã, ou na próxima edição, e ver tantas vezes as palavras “favela”, “pretos”, “pretas”, “negros” e “negras”, porque esse é um debate que fica ausente desta Casa muitas vezes.

Que bom que temos a Vereadora Marielle Franco aqui. É um prazer para nós. Acho que a gente tem realmente que partir daqui para novos encontros, para mais possibilidades. A Cidade de Deus, nas últimas semanas, também está sofrendo com a questão da violência policial. É uma realidade que enfrentamos. Então, a gente precisa partir mesmo para o espaço da disputa. Acho que este mandato é uma chave importante para a gente disputar esse espaço na legislação e garantir, quem sabe, novos dias, dias melhores, para nós e para nossos territórios.

É isso. Obrigado.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Diego.

Antes de passar para a Dona Hellen – porque ela tem a consideração final na fala, nas mãos, na música –, quero firmar e reafirmar alguns compromissos importantes deste lugar, seja na Zona Oeste, seja na Cidade de Deus, que a gente construiu. Por isso, hoje é o momento de ocupar a Câmara com nossos corpos, com o lançamento da cartilha “Direito à Favela”, esse trabalho coletivo, desse lugar que conta um pouco do que foi essa virada política. Cada um vai ganhar, porque este mandato é meio, não é fim da política.

Fico muito tranquila e serena com nossa responsabilidade pública aqui dentro, principalmente quando falamos de trajetória, em que muitos de nós já nos encontrávamos, mas da responsabilidade do compromisso que temos firmado. Sou a vereadora, mas temos que colocar lá o todo, todos os nossos corpos.

Apenas para dividir com vocês, como temos feito isso além da nossa cartilha? A cada fala no Plenário, a cada dia de escola fechada em favela, a cada homem e mulher assassinados, do minuto de silêncio à fala no Plenário, à reivindicação das políticas, temos pautado nosso direito à vida.

Acho que algumas sínteses são importantes, Simone, e podemos trocar juntas, de fato, a realidade da Cidade do Rio de Janeiro, que não é a mesma em todo o seu conjunto. O lugar, hoje, das denúncias, seja aqui, como Presidente da Comissão de Defesa da Mulher, seja na Comissão de Defesa dos Direitos Humanos, também parceira, das ameaças, das denúncias com relação a esse estado paralelo, com relação às milícias não diminui...

Ainda temos denúncias gravíssimas nesse sentido da negação de direitos dessa população favelada. Então, não apenas a equipe de favela, mas colocando todo o mandato à disposição, para pensarmos as ruas, o Jardim Nossa Senhora das Graças, a conversa, a atividade, no lugar em que sou muito pautada pelo coletivo de mulheres da Zona Oeste. Qual é o melhor lugar para pensar uma roda de conversa, uma intervenção, uma atividade, para proteção de vocês?

No último sábado, falamos do busto do Zumbi na Vila Aliança e em um lugar, em outra área, lá em um ponto chique, lá onde o povo acha que não chega, e aí o mandato tem que chegar. Enfim, esse é um lugar que é meio. Não é fácil.

A vida aqui não é fácil. Não aprovamos nada com facilidade, não temos nada de mão beijada, mas reivindicamos direitos. Nós conquistamos e é isso que estamos apresentando aqui de maneira coletiva com essa produção do mandato, para que todas as iniciativas deste mandato com relação à política pública de saúde, de educação, de cultura, de urbanismo, com relação aos nossos corpos, tenham esse lugar, das mulheres, das mulheres negras e das mulheres negras faveladas, porque é isso que dá sentido.

É muito importante, Marilene, Fátima, Ana, Paloma, ocupar esse espaço, mas temos que saber que vai haver orçamento público qualificado para isso. Temos que saber que vai ter atendimento. Vamos ter que saber que nossos direitos não são negados e precisam ser, na verdade, valorizados. Então, esse é um compromisso. Acompanhem-nos e nos pautem, para construirmos juntos.

Vou passar a palavra, sem mais delongas, à nossa companheira Hellen, com todo o seu histórico, para fazer a sua fala, e já emendar, porque há uma surpresa para todas e todos nós.

Muito obrigada pela presença e que todo mundo ganhe as cartilhas que representam o trabalho desenvolvido lá no Bosque das Caboclas.

A SRA. HELLEN ANDREWS – Eu gostaria de convidar a todas e todos para celebrar e fortalecer o Encontro da Consciência Negra, dia 20 de novembro, a partir das 10 horas, no Bosque das Caboclas, em Campo Grande. Lá, vocês vão conhecer mais um pedacinho da história.

Vamos fazer uma música aqui. Obrigada.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Enquanto a Hellen está arrumando o som, a Monica vai fazer outro convite também.

A SRA. MONICA CUNHA – No dia 17 de novembro, na próxima sexta-feira, na Candelária, vai haver a Campanha Enquanto Viver eu Luto, que é um banner que a gente vai colocar lá na Candelária com todos os nossos rostos – o meu, o da Ana, o da Irone, o da Fatinha e o de outras. Serão 31 mulheres. A gente vai aproveitar o mês para falar que esse racismo, principalmente contra nós mulheres negras, acontece todos os dias e o ano inteiro. Tristemente, parece que todo mundo somente está acordando para isso no mês de novembro. Então, na sexta-feira, a partir das 15 horas, na Candelária, quero contar com todos. Porque a gente precisa desse apoio para, de fato, viralizar as nossas lutas.

Obrigada.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Peço aos presentes para depois darem uma olhada nas redes sociais. Teremos dois grandes eventos de ocupação aqui da Câmara. Um será dia 23 de novembro, contra esse racismo religioso institucional. Vamos ocupar o espaço, dando homenagem ao povo de santo. O outro será no dia 30 de novembro, quando teremos o encontro Mulheres na Política, na Associação Brasileira de Imprensa. Espero que, por meio das redes sociais, consigamos convidar todo mundo e dizer que nossa vida importa. Estarei lá na sexta-feira, dia 17 de novembro.

Infelizmente, tivemos problemas. Peço desculpas. A apresentação será feita somente com voz, sem violão e sem teclado.

A SRA. HELLEN ANDREWS – Com voz e violão seria bom, mas ficarei devendo essa.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Ela estará aqui dia 23 de novembro. Fica a dica.

A SRA. HELLEN ANDREWS – Vamos de “Andança”? Não? Ela quer voltar às origens da música africana, é isso? Tudo bem.

(Ouve-se a canção)

A SRA. HELLEN ANDREWS – Essa música foi uma homenagem a todas as mulheres mães. Agora, vamos de “Andança”.

(Ouve-se a canção)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Ouvimos a canção que celebra o trabalho das mulheres pretas do Bosque das Caboclas. Espero que possamos ocupar tudo levando as nossas cartilhas.

Declaro encerrado o Debate Público.

(Encerra-se o Debate Público às 20h40)