Comissão Permanente / Temporária
TIPO : DEBATE PÚBLICO

Da VEREADOR REIMONT

REALIZADA EM 06/21/2018


Íntegra Debate Público :

DEBATE PÚBLICO REALIZADO EM 21 DE JUNHO DE 2018
(RACISMO RELIGIOSO E CULTURAL)


Presidência do Sr. Vereador Reimont.

Às dezenove horas e trinta e oito minutos, no Plenário Teotônio Villela, sob a Presidência do Sr. Vereador Reimont, tem início o Debate Público sobre “Racismo Religioso e Cultural”.

O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Boa noite! Este, hoje, é um encontro celebrativo. Embora, tecnicamente, a designação seja Debate Público, nós estamos dizendo que se trata de uma celebração, de um encontro para refletirmos sobre racismo religioso e cultural, o qual dou por aberto.
A Mesa está assim constituída: Excelentíssimo Senhor Deputado Estadual Carlos Minc; Senhor Raimundo Santa Rosa; Senhor Celio, mestre de capoeira; Mãe Roseane Rodrigues de Yemanjá; Mãe Mara de Yemanjá; Senhor João Paulo de Xangô; e Mãe Helena de Gbessem.
Quero fazer a abertura e quero, de fato, falar muito pouco, porque quero ouvi-los. A gente vai fazer aqui um momento bonito de celebração que, na verdade, já começou lá fora.
Quero fazer a leitura de uma poesia de Chico Buarque, “As Caravanas”, que é também cantada para iniciar as nossas conversas e intervenções.

“É um dia de real grandeza, tudo azul,
Um mar turquesa à la Istambul enchendo os olhos
Um sol de torrar os miolos
Quando pinta em Copacabana
A caravana do Arará – do Caxangá, da Chatuba

A caravana do Irajá, o comboio da Penha
Não há barreira que retenha esses estranhos
Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho
A caminho do Jardim de Alá
É o bicho, é o buchicho, é a charanga

Diz que malocam seus facões e adagas
Em sungas estufadas e calções disformes
Diz que eles as têm enormes
E seus sacos são granadas lá das quebradas da Maré

Com negros torsos nus deixam em polvorosa
A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta o populacho
Pra favela, ou pra Benguela, ou pra Guiné

Sol, a culpa deve ser do sol que bate na moleira,
O sol que estoura as veias,
O suor que embaça os olhos e a razão
E essa zoeira dentro da prisão
Crioulos empilhados no porão
De caravelas, no alto mar...

Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria
Filha do medo, a raiva é mãe da covardia
Ou doido sou eu que escuto vozes
Não há gente tão insana nem caravana do Arará
Não há, não há!”

Sejam todos bem-vindos e bem-vindas a esta Casa que, mesmo que não pareça, é casa de cada um e de cada uma de vocês. É a Casa do povo do Rio de Janeiro, a Câmara Municipal.
Viva a celebração da vida! Viva a celebração daqueles e daquelas que lutam e que brigam e que não abrem mão de lutar contra o racismo religioso e cultural!
Passo a palavra para o nosso querido Deputado Carlos Minc.

O SR. DEPUTADO ESTADUAL CARLOS MINC – Boa noite a todas e a todos!
Este é um dia importante no qual esta Câmara de Vereadores, sob a Presidência do meu camarada e parceiro, Vereador Reimont, se enche com as cores do povo, com as religiões que em muitos lugares são discriminadas e até mesmo sofrem violência. Porém, hoje, nós vimos a celebração, vimos a lavagem da escadaria, e está aqui este Plenário repleto de pessoas que têm uma história, que têm uma tradição, que honram sua cultura, honram sua religião e mostram orgulho e determinação. Que isso nunca seja aviltado, que isso nunca seja humilhado!
E isso nos enche de alegria, Reimont, ver essa composição aqui toda, quiséramos nós que, todos os dias, a Câmara estivesse com essa grande representação das cores do Brasil, das religiões do Brasil, do povo do Brasil – nem sempre é assim.
Reimont, eu fico muito contente de estar mais uma vez contigo, na parceria. Nós temos várias parcerias, por exemplo, na questão das cooperativas de catadores e catadoras de material reciclado; na questão do samba, das diretrizes, do reconhecimento. Você aprovou uma lei importantíssima aqui na Câmara de Vereadores, uma lei que exalta, engrandece a história do samba, da música popular. Nós estamos com um projeto idêntico que já passou em primeira votação, será também aprovado na Assembleia. Recentemente, estivemos juntos na questão da população de rua, você tem um trabalho enorme, estávamos lá com a pastoral, a OAB, a Defensoria – são os excluídos também. E tantas outras parcerias: na saúde mental, na humanização da saúde mental e na questão ambiental também. Em suma, não é a primeira, não é a segunda, não é a terceira e não será a última parceria contigo!
Eu queria dirigir a todos também uma palavra rápida. Eu sou daquela geração que passou pelas prisões do Brasil, conheci a Ditadura pelo lado pior, o lado do pau de arara, preso, torturado, como toda aquela geração. O lado, Ivani, democrático da Ditadura era pancada em todo mundo, raça, religião, cor, era tudo igual. É incrível que tenha hoje gente que não conhece o que aconteceu e que clama pela volta da Ditadura, como se não tivesse corrupção, não tivesse censura ou violência. Na verdade, tinha muita corrupção, mas o jornalista que descobria isso era pendurado no pau de arara no Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), por isso não saía no jornal. Essa era a diferença.
Bem, eu tenho uma relação muito forte com a luta contra a discriminação. Eu sou de uma família de judeus, perdi dois tios-avós cremados em campos de concentração, então eu sei o que é isso. Eu sou branco, tenho olho azul, mas tenho familiar que foi transformado em cinza em forno crematório do Hitler. Então, sei de família o que é isso. E eu, atualmente, presido a comissão contra o racismo, a intolerância religiosa e a homofobia na Assembleia. Fizemos várias audiências, várias das lideranças religiosas que estão aqui estiveram em algumas dessas audiências. João Paulo de Xangô esteve em várias, Ivani esteve, vários estiveram.
Recentemente, nós aprovamos uma lei sugerida pelo movimento das lideranças religiosas mais oprimidas, de matriz afro, a Umbanda, o Candomblé. É uma lei que obriga as delegacias a registrarem como intolerância religiosa as agressões que têm esta natureza, porque, muitas vezes, você via a menina de branco, com colar, saindo, levar uma pedrada e não estava a origem do fato que gerou essa covardia, essa agressão. Agora, é obrigado a registrar, a fazer estatística e fazer a política preventiva.
Fizemos uma audiência, dezenas e dezenas de denúncias foram feitas e fomos – e João Paulo de Xangô foi conosco – à chefia do Ministério Público, Procurador-Geral de Justiça, Doutor Gussem, levar e exigir apuração das denúncias que foram feitas na audiência, e não foram poucas. Muitas, em escolas na Zona Oeste, na Baixada Fluminense, em Nova Iguaçu, muitas; muitos terreiros depredados, símbolos religiosos, muitos. Isso não é aceitável. Então, nós vamos continuar resistindo.
Você não acaba com o racismo por lei, não acaba com a intolerância por decreto, é um movimento permanente, cultural. Cada teatro, cada livro, cada tese de doutorado, tudo isso vai somando. Você tem que criar uma nova cultura. Eu dizia, companheiro e amigo Reimont, por exemplo, que nós fizemos uma lei recente dizendo que a escola tem que estudar a Lei Maria da Penha. Por quê? Porque você combate o machismo e a cultura do estupro desde os bancos escolares. Ninguém nasce machista, ninguém nasce racista, ninguém nasce homofóbico ou intolerante. São coisas que vêm de uma sociedade preconceituosa, que herdou a cultura do escravismo colonial, uma cultura racista e machista que vai criando esse tipo de gente, que depois você olha e vê um monstro.
Mas isso foi criado, foi produzido também pela mídia, é bom que se diga. Então, temos que resistir. E eu entendo, Reimont, que essas homenagens que vamos fazer hoje, aqui, você recitou uma música linda do Chico Buarque, que fala dos bairros do Rio, mas que fala dos navios negreiros, que fala do ódio, como se a culpa fosse do sol, mas nós sabemos que a culpa não é do sol, a culpa é de alguma coisa que vai impregnando.
Então, eu entendo que esse ato de hoje é uma celebração, é uma confraternização, mas é um momento de enaltecer. Várias pessoas serão homenageadas hoje, todas deveriam ser, escolhemos algumas para representar todos e, sobretudo, entendo eu que é um ato de resistência, resistência cultural, resistência religiosa, resistência democrática.
Encerro dizendo o seguinte: nós estamos vivendo no Brasil um momento de obscurantismo, de barbárie, de retrocesso das conquistas dos trabalhadores. Na área ambiental, cada dia é um retrocesso: agrotóxico, acabar com terra indígena, um horror! Mas, apesar disso, nós temos conseguido algumas vitórias. Uma delas foi derrubar aquele decreto do Temer, da Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), que ia entregar uma grande reserva para as mineradoras na Amazônia. E o outro, que diz respeito a todos nós aqui, foi derrubado também, um decreto que flexibilizava a questão do trabalho escravo, a forma mais vil de exploração.
E esse Temer teve coragem de fazer um decreto tolhendo as mãos da fiscalização e impedindo de classificar o que era realmente trabalho escravo como tal, a pedido da bancada ruralista. Houve uma reação tão grande do movimento negro, do movimento religioso, dos artistas, dos juízes do Trabalho que esse decreto foi retirado. Ou seja, nós estamos na defesa, nós estamos debaixo de pancada, mas a resistência é necessária, porque mesmo num momento como esse, conseguimos vitórias, derrotando, por exemplo, esse vil decreto do trabalho escravo.
Encerro aqui dizendo: que bom ver as cores da liberdade, que bom ver as religiões ocupando um Plenário que, muitas vezes, é ocupado por pessoas... Claro, o Reimont está do nosso lado sempre, mas por pessoas que representam interesses muito diferentes dos da população brasileira. Penalizam o servidor, votam maracutaias de tudo que é tipo.
Na Assembleia não é diferente, é a mesma coisa, é uma minoria que resiste. E é uma minoria que resiste porque existem movimentos como esse movimento todo de vocês, de resgate de religião, de cultura, de raiz. É isso que faz pessoas minoritárias como o Reimont e eu conseguirmos aprovar leis importantes, graças a essa força. Que essa força seja cada vez mais forte, mais livre e mais consciente. Contra o obscurantismo, pela liberdade!
Um grande abraço ecológico e libertário a todos vocês.

O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Obrigado, Deputado Minc.
Quero, claro, saudar a todos e todas, mas passando a palavra para o João Paulo de Xangô, eu quero também mandar um abraço ao meu amigo Ivani dos Santos; ao Marcelinho, Marcelo dos Santos; e a todos e todas. Que nós nos sintamos muitíssimo bem aqui. E, como diz o Minc, que a liberdade repouse sobre nós, bata as suas asas sobre nós. E nós somos os responsáveis por fazer esse movimento de liberdade.
No dia de ontem, para se ter uma ideia, nós tivemos aqui na Câmara essas duas galerias lotadas, lotadas! Não cabia mais ninguém. Lá em cima e aqui embaixo, onde os vereadores foram apreciar um projeto de lei do Marcelo Crivella que taxa os aposentados. Fomos 20 vereadores votando contra o projeto, mas 28 outros vereadores votaram favorável ao projeto. A luta do povo pobre, a luta do povo trabalhador é a nossa luta. Nunca podemos perder de vista isso!
Com a palavra, o querido João Paulo de Xangô, que foi quem nos procurou com o movimento Não Mexa na Minha Ancestralidade. João Paulo, que prazer ter você aqui! Agradecido.

O SR. JOÃO PAULO DE XANGÔ – A bênção a todos. A bênção aos meus abás, a bênção aos meus irmãos do Candomblé, aos meus irmãos do samba. O prazer é meu. Obrigado por ter aceitado a nossa demanda, a demanda que nós trouxemos. Agradeço aos meus irmãos por esse chamado, mais uma vez, para que a gente possa lutar em favor da nossa ancestralidade, da nossa religiosidade e cultura. Estamos em tempos sombrios, sim, na Cidade do Rio de Janeiro e, se nós não abrirmos os olhos, esses tempos sombrios poderão vir a ser algo em nível federal.
No ano passado, nós estivemos aqui, no dia 24 de agosto, por conta do Decreto nº 43219, em que o Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro, que é ainda bispo, diz ele ser licenciado, mas foi fazer uma viagem à África para fazer um culto religioso... Então, não é licenciado, mas bispo licenciado de um conglomerado religioso que é a Igreja Universal do Reino de Deus, onde ele submetia as religiões.
E nós sabíamos quem seriam as vítimas fatais: as religiões de matrizes africanas a fazer o seu culto religioso caso não tivessem o alvará definitivo, somente com alvará temporário, porém com autorização do gabinete do Prefeito. Porém, passou-nos despercebido que o sistema que ele estava utilizando para as pessoas entrarem com a solicitação de alvará, seja ele definitivo ou temporário, ele, na verdade, já tinha criado um gargalo. Ele criou uma lei para submeter a pessoa a fazer uma solicitação nesse sistema do alvará temporário ou definitivo. Porém, no próprio sistema, já havia um gargalo para que templos religiosos que ficam em regiões residenciais e em fundos de imóveis não tenham autorização, seja temporária ou definitiva, para poder fazer o seu culto – e também para poder retirar seu alvará.
Nós soubemos disso por meio de uma demanda que chegou para a gente de duas casas de Candomblé e uma de Umbanda, que tiveram suas solicitações indeferidas com a definição de que eram casas que incomodam o entorno daquele bairro, daquela rua, daquela comunidade e por serem casas de fundo de quintal, templos de fundo de quintal. É assim que nós somos designados. Fora isso, ele já vem, há um bom tempo...
Dona Vilma Nascimento é uma porta-bandeira atuante e já foi uma pessoa que lutou pelo samba; foi a única porta-bandeira a fazer um luto em protesto dentro da Avenida Marquês de Sapucaí. A bênção a Dona Vilma por esse ato de coragem. Bem, ele vem seguindo a cultura africana, não vem liberando alvará temporário para as rodas de samba, em alguns casos para roda de capoeira e, inclusive, vem perseguindo as escolas de samba do Rio de Janeiro. Isso em todos os grupos.
Então, nós do movimento paramos para estudar – nós somos 26 pessoas e alguns integrantes se encontram aqui – e nós começamos a debater e enxergar que o problema real de tudo isso é nada mais nada menos do que um racismo que existe contra a religião e a cultura que nasce de dentro da religião. Porque o samba nasce dentro da casa de candomblé, de Mãe Ciata de Oxum, entre outras manifestações, como o Afoxé.
E hoje nós viemos aqui questionar o porquê desse racismo. Se hoje nós temos esse prédio lindo e maravilhoso, que nós temos que ocupar – nós somos 56% da população deste país –, este espaço é nosso! É temos que tomar conta disto aqui. Cerca de 56% da população é negro fenótipo, ora negro genótipo. Então, não há um porquê.
Foram nossos ancestrais que construíram todos esses espaços para essas pessoas usufruírem e hoje até fazerem leis contra nós. Eles não têm o menor direito de atingir a nossa ancestralidade. Nossa casa de Candomblé, nosso templo religioso não é fundo de quintal. Ele abraça as pessoas. A minha casa de Candomblé é uma família, e eu me orgulho de dizer que hoje eu estou numa casa de Candomblé que é uma família. Os irmãos se abraçam. As pessoas se socorrem. Esse é o cunho do Candomblé. O nosso culto não é de fundo de quintal. Ele incomoda o vizinho o qual eles lobotomizaram, para que venha a ser contra nós, para que venha a atacar os nossos templos religiosos. Nós não somos merecedores disso.
Os nossos ancestrais morreram nesta terra. Eles morreram, inclusive, no transporte de tumbeiros, para chegarem neste país e serem massacrados. Um holocausto do povo israelense tem um quantitativo, nós não temos. Quantos dos nossos morreram nesta terra e foram mutilados por conta da nossa religiosidade, principalmente, e por sermos negros? A cor da nossa pele neste país pesa, mas temos que fazer o seguinte: eles dizem que nós fazemos vitimismo. Não, vitimismo é nos ajoelharmos e aceitarmos tudo isso, como cordeiros de sacrifício, e nós não somos.
Nós temos que lutar, nós temos que resgatar a nossa ancestralidade, explicar às pessoas na rua o que é o Candomblé, o que são as religiões de matrizes africanas, o que é o samba, o que é o acarajé, o que é capoeira, porque isso tudo é culto à ancestralidade e merece o maior respeito. A partir do momento em que essas pessoas rejeitam a sua ancestralidade, elas aprendem a se rejeitar, elas rejeitam o seu cabelo, elas rejeitam o seu nariz, elas rejeitam o seu lábio, elas rejeitam a cor da sua pele.
Nós viajamos em um transporte público nesta cidade que não é nada diferente do navio negreiro que trouxe nossos ancestrais para morrer neste solo. Não é nada diferente. Quantos dos nossos estão morrendo dentro das comunidades e por meio de um racismo real, um racismo de pele, um racismo racial, que eles dizem ser na verdade preconceito de classes? Não é, porque a maior parte do povo preto está abaixo da linha da pobreza. Então, não é um preconceito de classe. É, sim, um racismo totalmente ligado à cor da pele da pessoa. E nós temos o direito total, porque nós construímos este país, foi o sangue dos nossos ancestrais!
Então, hoje nós estamos aqui para questionar esse racismo. O porquê de o prefeito ir à inauguração de um monumento ao povo de Israel e não ir ao Cais do Valongo, onde nosso povo foi obrigado a entrar nesta terra. Por que é que esse mesmo prefeito rejeita qualquer evento de natureza africana e vai a um rock, que também tem origem africana, mas foi embranquecido?
São perguntas que nós temos que fazer e nós temos que lutar pelo nosso direito. Nós temos que ocupar esses espaços de poder. Esses espaços são nossos. Tudo isto aqui é nosso. Quem construiu isto aqui foram os nossos ancestrais. Não foram eles que saíram de lá, da sua mordomia, da cama deles, do sofá deles, da rede onde eles deitavam para construir esses palácios dentro desta cidade. Foram os nossos que construíram. Então, nós temos direito sim. E Não Mexa na Minha Ancestralidade! Enquanto o sangue correr na veia de cada uma dessas 26 pessoas, vamos lutar até o fim pela religiosidade africana. E eu tenho fé em Exu, porque eu acredito em Exu, que nada vai parar o Movimento Não Mexa na Minha Ancestralidade e todos os outros movimentos organizados que lutam pelo povo preto. A bênção a todos.

O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Obrigado, João Paulo, bela fala.
Eu quero chamar o Mestre Celio para ele, se quiser, usar o microfone ou, se ele quiser, o berimbau com sua capoeira. Você escolhe aí o que você quer fazer ou as duas coisas, ou uma seguida da outra. Mestre Celio, com você.

O SR. MESTRE CELIO – Boa noite para todos. Minha bênção.
Para quem não me conhece, como já se falou, sou Mestre Celio, mas além de mestre de capoeira também sou Ogan. Eu sou do Ilê Axé Oni Oyá. Sou filho de Mãe Márcia. Pratico capoeira desde criança. E sempre ouvi falar que a capoeira era coisa do povo preto, eu sempre acreditei nisso. Eu tenho me espantado, porque há invasão – nada contra pele branca, até porque, a ideia não é essa –, mas há invasão de pessoas que estão deturpando a capoeira, a verdadeira capoeira, digo, a capoeira de fundamento, a que eu faço que é a capoeira Angola. Essa capoeira é totalmente relacionada com a religião de matriz africana.
Na verdade, historicamente, todos nós sabemos que, toda vez que havia qualquer movimento contra o povo de Candomblé, quem estava lá na resistência era o povo da capoeira. Infelizmente, as pessoas estão criando políticas para tirar essa relação que a capoeira e o Candomblé sempre tiveram. Ou seja, as pessoas estão falando: “Ah, capoeira na religião, não é?” Mas quando eles falam da capoeira na religião eles falam com uma certa maldade, uma certa malícia. Exatamente para que quando a gente for falar de capoeira, a gente não possa falar da nossa ancestralidade. E o tempo todo que você fala de capoeira é impossível você não falar de ancestralidade!
Então, a gente está passando por um problema muito grave, no meio, até infelizmente, da capoeira, porque estão criando aí a capoeira gospel – não sei se vocês já ouviram falar. E esse grupo de capoeirista, infelizmente, eles estão meio que criando um motim para bater de frente exatamente com o histórico real que a capoeira nos oferece.
Inclusive, a gente tem a liberdade, por essa relação que a capoeira tem com o Candomblé, das cantigas, por exemplo, Samba de Boiadeiro, que a gente canta muito: “Ponha lá, vaqueiro, ponha jaleco de couro. Ponha jaleco de couro na porteira do curral.” Isso é cantado direto na capoeira. Uma cantiga de preto velho que a gente gosta muito é: “É preto, é preto, é preto, ô, Calunga. Calunga é preto.” Isso é natural para a gente. Então, o que a galera está querendo fazer é tirar, falando que a capoeira não é religião. E aí, em cima disso, eles querem tirar essa herança que eu acho que é superimportante.
Eu, particularmente, não consigo jogar capoeira se o cara não souber tocar um berimbau legal, não souber cantar um corrido que me inspire realmente. Então, essa ancestralidade que o capoeirista tem, ou seja, o verdadeiro capoeira tem, infelizmente, estão querendo tirar. Esse é o meu protesto. Inclusive, eu estou até conversando aqui com o João Paulo para a gente tentar fazer um movimento maior aqui para se falar sobre isso. Porque, infelizmente, a questão da evangelização na capoeira está quebrando e está confundindo, está confundindo a cabeça dos novos adeptos.
Primeira coisa que as pessoas perguntam: “A sua capoeira é aquela que tem...?” Aí fica querendo dizer: “aquela que é macumba, vamos dizer assim, ou a capoeira de agora?” Então, a gente tem que estar o tempo todo relutando e falando que a capoeira é cultura preta. Não é?
Pode qualquer um querer fazer capoeira, isso não tem nenhum problema, mas acredito que as pessoas que não conhecem capoeira, as pessoas que estão vindo para a capoeira, têm que se pôr no lugar delas, têm que respeitar o que já está, o que já se encontrou.
Então, eu, particularmente, tenho visto essa agressão, essa agressão cultural. Por exemplo, há roda de capoeira que o camarada não canta uma ladainha, ele já entra num corrido. Corridos são esses pequenos versos. Porque se você canta uma ladainha, você na hora de “Eh! Viva meu Deus!”, você tem que louvar todo um ancestral. Você vai falar de Mestre Pastinha, você vai falar de Mestre Bimba, mas você vai de Ogum, você vai falar de Iansã. Não é? Então, infelizmente, há um pessoal que está tentando vetar essa ideia.
Eu achei engraçado, esses dias, conversando com um amigo meu, ele falou que uma criancinha cantou para ele na escola: “Zum, zum, zum, capoeira mata um.” Porque tem uma música que canta assim, isso é bem antigo. Aí quando ele pediu, a criancinha veio cantar para ele: “Zum, zum, zum, Jesus Cristo salva um.” É até meio cômico isso, não é? Mas, infelizmente a gente está passando por isso.
O embranquecimento na capoeira, muitas vezes, vem de dentro. Porque, às vezes, a gente pega um desinformado. Pastores aí que fazem capoeira, alguns que eram capoeiristas, entraram para a capoeira e aí eles criam uma ideia de se fazer culto. Eu me lembro, cara, de que é natural, é natural, você acabar uma roda de capoeira, você fazer um samba de roda, você fazer um ijexá, você cantar algo ligado ao orixá, isso é natural. Agora, o pessoal está fazendo roda de capoeira, depois daquele intervalozinho ele faz o culto. Está deturpando totalmente a nossa crença, posso dizer assim.
E, particularmente, para mim, especialmente, para mim capoeira é religião. Porque antes de eu sair para o jogo, em vez de eu fazer o sinal da cruz, que é um sinal católico, eu saúdo meu orixá, eu saúdo meu Pai Ogum. Entendeu? Então, eu vou cantar uma ladainha aqui, como a gente tem essa liberdade de criar, falando de nossos ancestrais, eu vou cantar aqui rapidinho, para depois passar para a Mamãe aqui.
Na verdade, é isso que eles não querem que a gente cante. Eles querem que a gente cante “Atirei o pau no gato”, mas não querem que a gente cante dessa forma que eu vou cantar.

(Ouve-se a ladainha)

(PALMAS)

O SR. MESTRE CELIO – Então, é isso que eles querem tirar de nós!

O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Obrigado, Mestre Celio. Passo a palavra para Mãe Helena de Gbessem.

A SRA. MÃE HELENA DE GBESSEM – Boa noite. Sou Helena de Dan. A bênção aos meus mais velhos, aos meus mais novos. Estamos aqui por uma luta. Eu falo por mim e pela minha casa e por tudo que já foi falado e ainda vai se falar, eu não gostaria de ser muito longa para não ficar repetindo o assunto. Sou mulher, sou negra, sou de religião africana, sou jêje. Eu e nós todas somos a própria resistência, fazendo valer a luta dos nossos ancestrais e pedindo o favor às outras religiões para que nos respeitem e que não mexam com a nossa ancestralidade.
É isso o que eu tenho a dizer e pedir que tenhamos sucesso frente à lei e que o nosso Deputado está nos oferecendo.
É o que posso falar a todos, que tenhamos boa sorte!

(PALMAS)

O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Obrigado, Mãe Helena!
Chamo Mãe Mara de Yemanjá.

A SRA. MARA DE YEMANJÁ – Boa noite, Excelentíssimo Senhor Presidente Vereador Reimont e às demais autoridades. Boa noite a todos!
Aurê meus ebomis! Aurê meus aburos! Boa noite, meus irmãos!
Sou Mara de Yemanjá, sou ialorixá, sou negra, sou mãe, mulher, esposa, avó. Sou uma mulher que acredita na mulher e acredita na ancestralidade! Quando fui chamada pelo João para vir aqui, eu confesso que eu não sabia que iria estar sentada nesta mesa, hoje. Mas, já que estamos aqui, quero aproveitar esta oportunidade e pedir licença ao Excelentíssimo Senhor Deputado Carlos Minc que, inclusive, é uma pessoa que eu aprecio e respeito, mas, entre o que já foi falado e ouvido por mim, há algumas coisas que eu gostaria de pedir licença para salientar. Me perdoem porque vou tentar ler e estou sem óculos porque fui pega de surpresa.
Em primeiro lugar, nós temos uma lei que entrou em vigor em 15 de janeiro de 2018. O Governador assinou essa lei. E já que ela existe, penso que já está mais do que na hora de nós exigirmos que ela se faça valer. Muito do que acontece é maquiado, como também é maquiado o fato do Brasil ser um país laico. O Brasil só é laico na Constituição Federal! Na prática, deixa muito a desejar. Essa laicidade não existe, na prática! Nós, povo preto, sentimos isso, alguns com um pouco mais de facilidade, por uma questão apenas de melanina!
Eu sou negra, neta de negro africano, avó e mãe de negros e vejo a diferença, a intolerância, o desrespeito que existe para com os meus próprios familiares! Independentemente dos meus familiares de Orixá, a família que eu constituí com o meu suor e dignidade, eu vejo ser vilipendiada por alguém que não tem esse direito porque ele não é absolutamente nada mais do que eu! E nada mais do que nenhum daqueles que fazem parte da minha família!
Nós estamos num momento muito sério e precisamos fazer com que não nos deixemos levar para onde eles querem nos colocar! Aliás, onde eles nunca nos deixaram sair: dentro das senzalas! Nós estamos na senzala, independentemente da abolição da escravatura que é outra história muitíssimo mal contada!
Está na hora da gente abrir o olho e não ter medo de falar! Eu não quero que amanhã, a minha neta negra de 15 anos tenha medo de andar na rua, mas eu a vejo hoje assustada! Eu vejo meus filhos de santo, jovens, com medo por serem negros, quando saem à rua, depois de certa hora, eles não são bem-vistos. Eu constato isso dentro da condução pública! Eu uso ônibus, trem, metrô e vejo a atitude das pessoas muitas vezes quando um negro entra e senta ao lado de um branco. Depois as pessoas vêm com essa maquiagem sutil dizendo que todos são iguais! Não! Todos deveriam ser iguais, mas não são! É hora de a gente começar a olhar isso com mais seriedade! Não adianta dizer: “Esse é o meu irmão negro!”. Não é o seu irmão negro, não! O negro é muito bom desde que ele não case com a filha do branco!
Hoje, além do problema do racismo, nós sofremos de uma intolerância fora do normal! Não é apenas intolerância, mas desrespeito, desacato, ofensa! É continuar tirando a identidade do povo de matriz africana que foi negada desde que eles chegaram aqui! Desde o momento em que fizeram com que ele esquecesse a sua identidade, toda a sua história! Tiravam o nome que eles traziam da mãe África e lhe colocavam um nome cristão! Isso não é de agora, essa perseguição não é de hoje!
Como hoje existe uma lei que nos favorece, eu acredito que seja hora de nós começarmos a exigir um pouco mais, a partir do momento que serão enquadrados, obrigatoriamente, desde que haja crime de intolerância religiosa, no art. 208 do Código de Processo Penal. Ótimo! Vamos fazer com que, quando acontecerem as intolerâncias, os crimes, os desacatos, as barbáries dentro de nossas casas de candomblé – na minha ou na do meu irmão, porque o candomblé tem senso coletivo e se acontece com o meu irmão, acontece comigo também –, que a atitude seja realmente tomada, para que não se fique apenas na palavra da lei, mas que se torne realmente um ato, para que esse crime deixe de ser visto como briga de vizinhos e passe a ser realmente olhado como um crime e que não haja nenhum tipo de acordo que faça com que não sejam penalizados aqueles que vão a um templo religioso e façam o que hoje em dia eles fazem!
Ouvi o meu irmão João falar a respeito do Bispo Crivella – e me perdoem de estar nesta Casa e chamá-lo de bispo, porque ele é o prefeito, é autoridade aqui. Mas, não sou mulher medrosa! Eu não conheço a palavra medo e por isso vou chamá-lo de bispo, sim – Quando, então, o meu irmão João disse que o Prefeito, o bispo, não vai ao samba, não vai à nenhuma cerimônia que seja ligada a nós porque ele é de uma matriz religiosa que é incompatível com a nossa, sinceramente, eu não acho que tem que mudar porque eu não faço questão nenhuma da presença dele perto de mim! Nenhuma!
Eu não preciso dele para ser candomblecista! Eu não preciso para ser carioca! Eu não preciso dele para ser empoderada! Eu não preciso dele para ser mulher! Se ele não me quer, se ele não nos quer, ótimo. Fiquemos sem ele. Mas que ele não nos incomode, que não faça leis que adentrem nossas casas, porque se ele é bispo de um templo religioso, eu sou sacerdotisa do meu templo, tanto quanto ele!
Aqui temos um parágrafo de uma lei assinada pelo Governador do Estado do Rio de Janeiro que diz que se entende como instituição religiosa todo e qualquer local onde ocorre a celebração de fé, independentemente de sua origem e orientação, denominações, credos, crenças, cultos e métodos, nós estamos incluídos nisso. E se estamos incluídos nisso, não importa se a casa do Candomblé é na frente ou nos fundos da residência. Ela é templo e tem que ser respeitada, porque tem muita igreja evangélica de garagem, tem muita igreja evangélica de fundo de quintal. Elas deixam de ser de garagem e de fundo de quintal porque o dinheiro aparece; Deus opera mais com eles do que com a gente. Então, eles têm mais dinheiro e é mais fácil.
Mas eles não têm o direito de entrar nas nossas casas até porque independente de qualquer coisa – me corrijam se eu estiver errada – pelo que eu aprendi, pouco sei e aqui tem tantas pessoas muito mais gabaritadas e abalizadas do que eu, como meus ebós que aqui estão, pessoas com muito mais experiência do que eu, que viveram um tempo de Candomblé que eu não vivi, que têm experiência de vida maior do que a minha, mas aprendi, inclusive com eles, quando a minha casa está em função nem a polícia pode entrar. Enquanto eu estiver com a minha função, num ato sagrado meu, ninguém pode adentrar a minha casa, ninguém pode interferir no meu ato sagrado.
Então, eu acredito que nós possamos mudar sim tudo isso, mas precisamos que o Poder Público nos olhe com seriedade, que não bata no nosso ombro e diga: “Mais tarde, porque isso não é para vocês.” Precisamos ser olhados como pessoas de bem, dignas, decentes, que lutam, que trabalham, porque somos cidadãos. Eu pago impostos. Todos nós aqui pagamos. Então, temos que ser olhados com o mesmo respeito com que são olhados o padre, o bispo, o pastor, porque não somos diferentes deles. Apenas somos de uma religião que é mais feliz. Nós cantamos, somos alegres, dançamos, mas nem por isso oramos menos, nem por isso praticamos menos nossa religiosidade, nem por isso deixamos de ajudar nosso próximo.
Fazemos aquilo que toda religião deve fazer: Amar o outro. E nós amamos, porque acolhemos, abrimos os braços, não apontamos para dizer “você é isso, ou aquilo”, abrimos as portas das nossas casas e deixamos entrar. Damos de comer, abraçamos, botamos no seio da nossa família. Quem pode deter as atitudes que temos, se nossas atitudes, Senhor Bispo, são as atitudes ditadas pelo seu Deus: “Amai o outro como eu te amei”. Como não? Como vai me deter?
É hora de começarmos a pensar com muita seriedade. Nós, candomblecistas, irmãos, precisamos ter o olhar coletivo. As eleições vêm aí e é nossa hora também de darmos uma resposta.
Terminando, eu acredito, sim, que quando esses crimes contra nós acontecem, muito do que não é feito, muitas dessas penalidades que não são sofridas pelos criminosos se devem também ao fato de nós nos encolhermos. Muitas vezes, nós não chuta
mos o balde, não botamos a boca no trombone. A verdade é que fomos, durante tanto tempo, calados pelo opressor, que hoje temos medo de falar. Mas acontece que precisamos tirar isso de nós. Vamos botar a boca no trombone, sim! Vamos reclamar, sim; Vamos exigir, sim! Eu sou cultuadora de ancestralidade e, cada vez que uma mulher ou um homem mais velho do que eu é desrespeitado, a minha ancestralidade chora. E se a minha religião cultua a ancestralidade, eu não posso deixar o meu Abá chorar, não posso deixar meu Abá ser aviltado por ninguém. É obrigação minha, responsabilidade minha. Então, não mexam com a minha ancestralidade, porque vai pegar fogo! E é isso o que temos que pensar. Conto com vocês!

(PALMAS)

O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Muito obrigado. Que mensagem forte, real, positiva e firme. Com a palavra, Mãe Roseane Rodrigues de Yemanjá.

A SRA. ROSEANE RODRIGUES DE YEMANJÁ – É muita Yemanjá nesta Mesa. Vocês sabem que isso dá tsunami!
Primeiramente, quero agradecer a João Paulo, que me pegou de surpresa na escadaria da Câmara. Eu não estava preparada para estar aqui hoje, mas agradeço também ao Vereador Reimont ao Carlos Minc e pedir a bênção aos meus mais velhos e aos meus mais novos.
Ao contrário do bispo que governa esta Cidade, eu não sou esquizofrênica, porque eu não divido as minhas personalidades. Então, hoje eu vou falar aqui na condição de assessora de Ações Afirmativas, Equidade e Diversidade da Universidade Federal Fluminense e como Ialorixá do Ilê Axé Omi Layó; Como mãe, como vítima de intolerância religiosa, como ativista e como pesquisadora no Doutorado da UFF, em Antropologia, onde tenho pesquisado sobre crimes violentos contra pais de santo no Nordeste do País.
Tenho me deparado com assassinatos brutais de homens que são mortos a tiros, a facadas, têm partes do corpo decepadas, incendiadas, são arrastados, enfim todos esses crimes acontecem em terreiros. Essa é a minha pesquisa.
Obviamente, vocês imaginam que eu sou uma pessoa de Iemanjá, viu Mãe Mara, e a gente de Iemanjá, não costuma ter medo. Iemanjá é muito boazinha, mas eu sou da tsunami e tenho muita dificuldade em manter esse padrão de calmaria.
Ao contrário do que o senhor propõe, Vereador, a gente não tem o que celebrar. Nenhum de nós aqui neste Plenário, seja da Umbanda, do Candomblé, do Xambá, da Capoeira, do Samba, a gente não tem absolutamente nada a comemorar, nada a celebrar. Todos os dias um terreiro é invadido nesta cidade, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Todos os dias uma mãe de santo ou um pai de santo é vítima de violência perpetrada por traficantes evangélicos. Todos os dias neste estado um terreiro de Candomblé ou de Umbanda fecha. Eu quero dizer para o senhor que na cidade de Barra de São João não existe mais nenhum terreiro de Umbanda, nem de Candomblé.E as pessoas comemoram. Não temos o que comemorar. Não temos o que comemorar porque as nossas crianças, todos os dias, sofrem racismo dentro da escola. Não temos o que comemorar porque os nossos familiares doentes também sofrem intolerância dentro dos hospitais, dentro dos fóruns, dos cartórios, das filas de emprego.
Então, não temos o que comemora, nem na hora de morrer. Porque agora, talvez o senhor não saiba, no cemitério do Pechincha, no cemitério de Ricardo de Albuquerque, que tem agora os palanques, as casinhas de oração da Igreja Universal do Reino de Deus. Então, para entrarmos no cemitério de branco, estamos passíveis de sofrer violência. Não estou falando de intolerância. Intolerância cabe para católico, judeu e muçulmano neste país. Para nós, umbandistas e candomblecistas, o que nós estamos sofrendo é genocídio.
Nós não somos iguais. Nós não somos iguais aos judeus, nós não somos iguais aos católicos, nós não somos iguais aos evangélicos. Em outros contextos nacionais, é possível se pensar o mínimo de igualdade. No contexto brasileiro não é. Porque, ao contrário do que diz Nelson Mandela, na África do Sul, onde ele dizia que ninguém nasce racista, no Brasil aprendemos a ser racista na barriga da mãe. Aqui nascemos racistas, sim! Porque o Estado Brasileiro nasceu racista. O Estado Brasileiro se constituiu para nos manter no nosso lugar de povo preto, para nos manter na senzala. Foi para isso que o Estado Brasileiro se constituiu: foi para manter a elite branca, essa mesma elite que é a que mexe o mercado financeiro.
Não estou preocupada porque o bispo que governa esta cidade foi eleito. Ele não foi colocado naquela cadeira. E muitos de nós sabemos que muitos dos nossos irmãos votaram nele. É lamentável, mas faz parte da estrutura que nós vivemos. É lamentável, mas, inclusive nós, aprendemos a ser racistas.
Não basta discurso. Para enfrentar o racismo é preciso prática. E eu vejo isso, aliás, tenho visto isso com a juventude. Hoje, na coordenação das bancas de verificação da Universidade Federal Fluminense, eu me deparo com meninos e meninas que, ao terem que escrever a autodeclaração para dizer se são negras e porque são negras, ou porque são indígenas, viram para nós e perguntam: “Professora, o que eu escrevo?” Essas pessoas apenas são. Então, precisamos ter prática.
Talvez, essa seja a quinta ou a sexta audiência pública – e eu acho que é bastante bonito ver o povo de santo ocupar o Plenário –, mas estou cansada de ser massa de manobra! Estou cansada de ver o povo sendo levado como gado! E temos sido levado como gado ao matadouro! Porque é muito discurso bonito. Eu só quero saber onde estão as práticas.
E aí, quero dizer a vocês que a Prefeitura do Rio de Janeiro, comandada por um bispo que tem o maior empreendimento comercial – maior do que o McDonald’s –, a Igreja Universal do Reino de Deus tem mais franquia do que as lojas do McDonald’s no mundo, gente! E nós estamos aqui denunciando que esse empresário da fé é um bispo. Primeiro, ele não é esquizofrênico, ele é um bispo e vai continuar sendo bispo – porque eu sou mãe de santo aqui, na universidade, dentro da minha casa. Porque não dá para ser esquizofrênico.
E aí quero dizer para os senhores: eu sou jovem, eu tenho muitos mais velhos e mais velhas, pessoas das quais me orgulho e tenho como exemplo. Mas a minha casa de candomblé não precisa de alvará, está na Constituição Federal! É direito, meu direito, se eu quiser. E esse direito não me pode ser negado. Mas ninguém pode impedir minha casa de candomblé de tocar, porque não tem alvará.
Isso é constitucional. E eu vou dizer para o senhor uma coisa, Vereador, e também para o senhor, Deputado: o dia em que minha casa de candomblé não puder tocar, eu venho fazer meu xirê na porta de vocês, eu venho tocar meu candomblé na porta da Câmara Municipal! Porque vocês vão ter que dizer para mim que isso aqui não é Casa do Povo e que manifestação religiosa não pode ser feita em praça pública. Porque aí vocês vão ter que admitir que a gente não tem um Estado Democrático de Direito! Porque o que está em jogo aqui é a legitimidade, inclusive, dos mandatos que apoiam as causas do povo preto. Vocês todos estão em xeque. Não é só o candomblé e a umbanda que estão em xeque, não. É a legitimidade do mandato de cada vereador, de cada deputado, de cada senador que se propõe a ser progressista. É disso que nós estamos falando.
Nós estamos falando de algo muito caro, que é o Estado Democrático de Direito, do qual o meu povo nunca fez parte, do qual a gente só ouviu falar e leu em livro bonitinho. Então, era esse o meu recado. Eu espero ter contribuído e acho que a gente precisa ter prática. Porque de discurso... Aliás, o bispo faz discursos excelentes. Obrigada!
(PALMAS)

O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Agradecer à Mãe Roseane. Passar para o Senhor Raimundo Santa Rosa e manter-me aqui na linha de falar menos para errar menos.
Com a palavra, Raimundo Santa Rosa.

O SR. RAIMUNDO SANTA ROSA – Agô, agô, agô. Bênção, bênção, bênção. Não posso ficar sentado para tomar a bênção de vocês. Tenho que estar de pé para pedir agô, pedir licença a vocês. Posso? Agô.
O que me sustenta, quem me mantém são diversos eguns que estão aqui presentes. Diversos que passaram, mas continuam aqui. Porque na África diz que só morre aquele que não é lembrado. Cada nome que eu disser aqui, eu gostaria que vocês me ajudassem, respondendo axé, se vocês se lembrarem de algum nome desses aqui, está combinado? É somente para saudar, porque eles estão aqui. Todos eles estão aqui nos vendo.
Tia Carmem do Timbuca, Tia Ciata, Mãe Nitinha, Mãe Beata de Iemanjá, Mãe Irene Bamboxê, Baiano, Mãe Menininha de Oxum, Mãe Senhora, Eduardo Ijexá, João Alabá, Mãe Mirinha de Portão, Zezinho da Boa Viagem, Pai Ninô, Mãe Regina Bamboxê, Encarnação.
Tem vários tantos que estão aqui do nosso lado. E são eles que me sustentam. Mas estão sim. São eles que nos protegem. E com eles eu aprendi, ou ouvindo histórias deles, ou convivendo com eles! E continuo convivendo com eles!
E o que mais eu aprendi deles é uma coisa que a gente precisa resgatar muito entre nós: solidariedade! Nitinha, que foi minha yalorixá, ou melhor, ela continua sendo minha yalorixá, ela foi amparada pelas tias! Amparou minha mãe carnal! Amparou tantas pessoas! Muitas! Amparou Beata! Porque quando Beata estava trabalhando na poderosa, na Globo, ficava com medo de largar aquele empreguinho e assumir a responsabilidade que iemanjá determinou para ela! E Nitinha falou: “Beata, enquanto existir 16 búzios, seus filhos jamais vão deixar de ter o que comer! A sua casa, jamais, deixará de ter pilar, enquanto você tiver 16 búzios, que sua mãe Olga lhe deu.”
Ela chorou! Peço desculpas por me emocionar em alguns momentos! Sou chorão, mesmo! Mas, ela chorou e largou tudo! E hoje Adailton está dando continuidade ao que ela iniciou.
Então, essa solidariedade precisa estar entre nós! Porque hoje – e aí peço licença, Minc e Reimont – que é importante, inclusive, citado no final do discurso do Minc, que é muito importante, respeitando os nobres Parlamentares. Mas, o que eu quero dizer é que eu quero disputar com eles, tá? Eu quero que nós venhamos a disputar com eles, porque eu preciso de gente preta nesse Plenário! Eu preciso de gente preta nessa Casa!
Eu preciso de gente que fale a nossa língua, ainda mais aqui dentro! Temos candidatos ao senado, não é Ivanir? Não é Marcelo? Então, povo de axé, a solidariedade começa daí!
A gente criou um grupo de... Um coletivo de fotógrafos negros! Aí, o pessoal ficou desesperado: Por que coletivo de fotógrafos negros? Sabe por que a gente fez isso? Eu, Januário, Zezinho, Ierê e tantos outros? Porque ninguém tem o olhar igual ao nosso! Ninguém vai ver a nossa pessoa na rua, o nosso pessoal andando e registrar, como nós registramos! Ninguém tem o mesmo carinho pela gente, como nós temos! E ninguém vai legislar – embora, respeitando todos os Parlamentares – como a gente, para a gente mesmo! Então, precisamos aprender com essas senhoras e esses senhores, que eu citei, aqui! Que todos eles nos ensinaram o que essa religião sempre nos ensinou: é ser solidário! Iyá falou aqui: “Juntos, a gente é muito mais forte!”
Então, a gente precisa fazer isso! Deixaram-me uma responsabilidade muito grande, que é falar depois! Depois dessa criatura, aqui, como é que eu vou falar depois dela?! Tenho que pedir a bênção mil vezes e me abaixar! Eu estou sentado do lado dela! Abusado! Porque, se Nitinha está aqui, eu tomo um beliscão! Levante! Foi assim que eu vivi! Foi assim que eu aprendi a respeitar o axé!
Eu recebi um prêmio, agora, em Bogotá. E aí começaram a dar problema! Porque eu botei no Facebook a seguinte mensagem: “Agradeço esse prêmio, à minha família, à minha família de axé e meus orixás!”
Teve um monte de gente que montou tudo o que eu boto... Lá teve mais de 600 mensagens. Mas, teve um monte de gente que não falou nada! Por quê? Por que será? Por que eles não mandaram, lá, as mensagens?! Aí, manda salmo, manda um monte de coisa...! Não mandou nada quando eu falei de orixá!
Você sabe quem fala de orixá? É quem ama orixá! É quem vive o dia a dia de orixá!
Olha, só, os nossos construtos precisam ser cuidados! Você sabe onde é a Vila Olorum? Quem sabe onde é a Vila Olorum, aqui? Ninguém sabe, não é? Se vocês pegarem o Quatro Rodas que tenha lá os mapas, você vai ver que essa vila fica perto da casa do falecido Zezinho da Boa Viagem! Tinha casa, tinha ruas! Tinha a Rua Ogum, Rua Oxossi, Rua Xangô, Rua Ewa, Rua Obá; e agora a gente deve ter três ou quatro ruas. Por quê? Os evangélicos legislaram em causa própria e modificaram o nome das ruas! Cadê a gente legislando para manter esse bem, que não é um construtor nosso? Cadê a gente dentro das Casas necessárias para chegar lá e dizer: “Aqui, não! Não vai mudar!” A gente está onde?
É por isso que eu comprei um trailer, numa rua, numa praça, e final do mês que vem a gente vai inaugurar a Praça Mãe Nitinha, em Nova Iguaçu! E a gente precisa fazer mais isso mais vezes! E por isso que a gente precisa disputar espaço dentro das Casas de Poder! A gente precisa ter disputa correta dentro da Casa de Poder, para que a gente possa cuidar das nossas coisas. Se assim não for feito, a gente vai sempre poder só ficar reclamando, por que isso, por que aquilo, por que aquilo não aconteceu! Mas, enquanto a gente ouvir essas reclamações e não tomar uma posição, a gente vai precisar fazer atividades, pegando carona, de bom grado, respeitando é claro os espaços, mas que não são os nossos espaços!
Com certeza, Reimont vai institucionalizar esse dia! Porque na segunda-feira, quando eles entrarem aqui vão falar assim: “Olha, eu não sei o que aconteceu, mas essa Casa está mais cheirosa, está com astral bonito, está com mais coisas...” Porque entrou gente de axé aqui dentro!Olha só! Sobe aquela escada, ali, agora! Veja o que vocês deixaram? Não foram só as flores, não! Foi energia! Foi egrégora da gente nossa, que deixou aqui dentro!
Então, esses caras estão perdendo muita coisa! Não só estão perdendo tempo, não! Discriminando a gente, eles só têm muita escuridão na vida! Eles só têm muitas derrotas na vida, que vão já, daqui a pouco, vão começar a vir!
Mas, para a gente vencer esse pessoal, eu peço, mais uma vez, relembre essa listagem, que a gente leu, aqui, do nome dessas pessoas! Relembrem essas pessoas que estão aqui e o que elas fizeram! Se você pegar história de Ciata, como que ela fez? O que João Alabar fez, ali, naquela área do outro lado? O que Meninazinha fez junto com Nitinha, junto com Beata, ajudando todas as outras?Então, a gente precisa resgatar isso! Viu, Damião!?
Eu aposentei pela Light, gente! Foram 35 anos ininterruptos trabalhando lá! Sabe por que eu voltei? Por que lá dentro não tem ninguém para defender as nossas questões! Não vai ninguém querer subir morro para eletrificar favela! Não vai ninguém levar o mesmo benefício que as igrejas têm para as casas de candomblé!
Vocês sabiam que a gente tem 30% de desconto na conta de energia elétrica por ser casa de culto? Quem não souber, procure-me! Tem aquele, ali, que sabe fazer tudo! O Jairo! Levanta a sua mão, porque você é filho de Nitinha, também! Não levante só a mão, não, fique em pé! A você eu posso pedir, porque você é meu filho!
Então, a gente precisa saber como é que as coisas estão acontecendo, para a gente ter ação, para ter direito às coisas que estão aí! Que estão funcionando! As nossas casas têm direito a ter muitos benefícios que nos são tirados!
E aí Iaiá falou aqui muito bem, todo mundo falou muito bem! Eu não quero ser retórico de continuar falando, e mais: falar com essa emoção toda, aqui, só esse povo! Eu só quero pedir para a gente aprender com elas! Aprender com os mais velhos. E a coisa que eu mais aprendi é ser solidário!
Então, eu estou à disposição! Eu quero ajudar! Não quero ser Parlamentar! Não quero pedir voto para mim, porque eu não vou me candidatar! Mas, quero que a gente se una, porque unidos a gente pode fazer muito melhor!Axé!
(PALMAS)

O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Obrigado, Santa Rosa.
Eu quero convidar para fazer uso, ali, da Tribuna, o nosso querido Ivanir. Depois do Ivanir, o Marcelo; depois do Marcelo, a Dolores. Microfone aberto para o Ivanir, então, para fazer sua saudação.

O SR. IVANIR DOS SANTOS – Eu quero, antes de saudar a Mesa, como muito bem lembrou o ogã Raimundo, invocar os nossos ancestrais...

O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Ivanir, me permita, só para que fique gravado, diga seu nome e sobrenome.

O SR. IVANIR DOS SANTOS – Meu nome é Ivanir dos Santos. Sou iniciado para orixá há quase 40 anos e iniciado em ifá na Nigéria. Sou doutor. Agora é moda, virei doutor, não é?
Mas eu queria, antes, louvar os nossos ancestrais, Raimundo lembrou bem, e, no caso, Olodumare – o nosso criador. Para uns Maoliçá, para outros, Zaniapombo, para outros das nossas tradições várias que estão aqui. E ifá é o conjunto de sabedoria divina.
Primeiro, eu ouvi bem as falas, muito emocionantes todas elas, em um momento tão difícil que nós passamos. Eu queria, primeiro, dizer a vocês do meu lugar de fala. É muito comum isso. Na academia, a gente tem falado “lugar de fala”.
No dia 25 passado agora, eu defendi minha tese de doutorado em história comparada que é “Marchar não é caminhar”. Então, sou um estudioso, virei um especialista em intolerância religiosa. E eu dediquei essa tese, eu tenho falado isso, algumas pessoas têm ouvido, a uma prostituta da Praça Onze, porque Pai Baiano tinha uma barraca lá. Uma prostituta da Praça Onze que, quando seu filho tinha cinco anos de idade, arrumava seu filho, trazia naquela comunidade e tinha uma amiga dela, uma baiana, que dizia assim: “Da Bahia, esse é o meu bebê”. E Dona da Bahia dizia: “ele é inteligente, ele é esperto”. Ela dizia: “ele vai ser doutor”. Quando essa criança fez oito anos de idade, foi raptada pela polícia da mão da mãe e foi colocada no SAM. Os antigos aqui sabem o que era o SAM, posteriormente, a Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (Funabem).
Com 14 anos de idade, ele volta à Praça Onze e descobre que essa mãe tinha morrido. A versão oficial era que ela tinha se suicidado, se tocado fogo com álcool. Mas, posteriormente, na fase adulta, ele vai descobrir que não foi isso; que ela foi assassinada por um policial da Invernada de Olaria, os mais velhos aqui sabem o que é isso, que deu o esquadrão da morte e que jogou álcool nela e tocou fogo. Essa mulher era minha mãe.
O que me levou, na minha vida toda, a ser solidário ao drama das pessoas não foi porque era um drama pessoal de cada um; é porque tinha a ver com a minha vida, com a minha história. Eu sei o que é uma mulher, o que ela passou, saber que tinha um filho desaparecido e não saber onde esse filho estava. E sei muito bem o que é hoje ter uma pessoa enterrada em um lugar que eu não sei nem onde é para lhe fazer reverência. As pessoas não sabem o que é isso. Cada um tem um drama maior do que o outro e acha que o seu é o mais importante. E uma coisa que eu aprendi na vida é não ter mágoas, rancor. Isso não ajuda a construir. Rancor que faz discurso forte, faz discurso maravilhoso, mas você não consegue enxergar e construir alianças importantes para nos tirar do lugar em que estamos. Essa é a nossa dificuldade.
Então, nós temos que, em um processo político, entender quem pode ser nossos aliados. E aí tem que reconhecer que Reimont e o Minc são aliados; sempre foram. A gente bate onde não tem que bater. Isso é muito comum entre nós. Os nossos problemas têm a ver com isso também. Nós nos dividimos muito, falamos muito mal um do outro, desrespeitamos o outro. Não é assim. Não reconhece o poder do outro, a capacidade, o que o outro contribuiu. Um é melhor do que o outro. Essa que é a nossa divisão.
O Raimundo falou uma coisa interessante que, quem tem educação de axé sabe muito bem como a gente tem que reverenciar o outro, não só a solidariedade, mas tem uma coisa que é mais importante que é a gratidão. Uma pessoa ingrata é pequena, ela não consegue entender a grandeza do gesto outro.
Nós reproduzimos entre nós o pior dos valores que tem na nossa sociedade. Dizemos que somos um povo de axé e que tudo é bonito, mas as relações são mesquinhas, são de despeito, são de inveja, o que não tem a ver conosco.
Então, é por isso que, ao ser convidado, eu nem pensei que ia aqui falar, eu pensei em me dirigir a vocês nesse sentido: não podemos ficar disputando entre nós. Cada um tem um caminho, quem tem jogo sabe disso, tem o seu odu que vai levar ao seu destino. As pessoas não acreditam nisso. As pessoas querem ser igual. Eu não posso ser igual ao meu Pai Ícaro. A ele deu o destino de ter a casa cheia que ele tem, o axé que ele tem e esse é o papel dele. Talvez, o meu vai ser outro. Mas as pessoas têm inveja do outro, porque acham que não está no lugar dele.
Gente, esse é um momento de muita unidade entre nós. Vivemos um momento muito difícil e nós temos que enxergar quem são os nossos verdadeiros inimigos. Não estão aqui nessa sala. Eu brinco, todo mundo sabe que sou um pré-candidato ao Senado e que o Marcelo é outro, eu digo: é bobagem, vocês têm dois votos, porque ficar criando uma confusão de outro, quem é o mais ou o menos importante?” Primeiro, é não entender o que é o processo eleitoral, é não ter maturidade e experiência política. Porque o processo eleitoral, quando ele anda, nós, rapidamente, vamos descobrir o que vai acontecer. E nós temos que ter uma capacidade, se puder, um dar a mão ao outro e empurrar o outro.Mas se não tiver, tem que ter humildade suficiente de empurrar aquele que pode ter condições de ganhar para que possamos não perder. E, às vezes, nós não sabemos fazer isso, não sabemos. Eu vejo no Facebook o que se fala. Agora, acabei de saber que eu sou casado com uma loura americana. Quero até saber quem é para poder esposar mesmo. Será que ela tem dinheiro, tem dólar? Eu não sei. Porque é assim que acontece.
E estou diante de dois setores que são importantes estrategicamente para nós. Tanto o Reimont, que é um cristão progressista, como Carlos Minc, que é um judeu. Nós não somos maioria. O discurso radicalizado é bom, nos comove, mas ele nos coloca no gueto, porque nós temos que saber construir alianças.
Em política, tem uma coisa chamada hegemonia e contra-hegemonia. Se você não fizer alianças que possam ser contra-hegemônicas, nós não saímos do lugar. Vocês viram o que aconteceu com o Padre Fábio de Melo. Lembra disso? Alguns disseram que era bobagem e eu escutei tudo aquilo. Hoje, vocês viram o artigo que eu escrevi com ele, na verdade, é escrito por mim, mas era importante que entrasse ele, e hoje o Sérgio Malafaia, que é o Pai de Santo, me liga e diz que ele ligou para botar um dinheiro na conta para ajudar a reconstruir a casa. Hoje muita gente faz crítica, mas quase nenhum de nós, para não dizer ninguém, meteu a mão no bolso para ajudar a casa dele. No entanto, fizeram discursos maravilhosos no Facebook. Deu para entender?
Se nós não temos ainda uma maturidade para poder socorrer o outro, porque a gente cria uma situação de tentar desqualificar o gesto de outro o tempo todo?
Para encerrar, estamos em um momento eleitoral, momento importante. Eu espero que essa vontade toda... Nós não precisamos gostar do outro, não precisa, mas se nós não estivermos juntos, vai todo mundo para a fogueira. Então, este é o momento de darmos as mãos para sair do buraco em que estamos.
Então eu peço a vocês, e aí sou muito honesto com vocês, eu quero o apoio tanto do Minc, como do Reimont, eu já pedi, eu quero o segundo voto deles, porque sozinho um senador não se elege. Vocês sabem quantos votos são necessários para um senador se eleger? São de três a quatro milhões de votos. Nós, sozinhos, vamos conseguir isso, se a gente não consegue eleger um vereador?
Então, só se constrói com alianças, se não fizermos aliança, vamos sempre reclamar. Vamos fazer discursos maravilhosos que serão importantes, mas não vamos conseguir barrar essa onda conservadora que cresce. Um axé para todos vocês e vamos juntos, porque ainda temos muito que andar ainda.
(PALMAS)


O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Obrigado, querido Ivanir. Passo a palavra ao Marcelo Monteiro para fazer também a sua saudação, já agradecendo ao Marcelo por sua presença aqui conosco.

O SR. MARCELO MONTEIRO – Boa noite a todos e a todas, a bênção a todos e a todas, saudando aqui a Mesa na pessoa de minha Mãe Mara, Roseane, minha Mãe Helena. Desculpem os homens, mas como diz a Dolores, minha mulher, ela diz sempre que “saudar as mulheres é saudar a todos, porque todos saímos das mulheres”. Então, estou aqui saudando a todos.
Eu preciso dizer para ficar gravado, Marcelo Monteiro, eu sou o Ogan Marcelo Monteiro. É um prazer muito grande estar aqui e dizer parabéns ao João, parabéns a todos vocês, que se dispuseram a estar aqui neste dia, como hoje esta Mesa, nada acontece por acaso, viu Roseane? Não é à toa que você foi pinçada lá na escada e dizer que, quando eu digo parabéns a vocês, é porque, como disse Raimundo, como disse Ivani, Mãe Mara, nós estamos num momento de reflexão, de união e num período eleitoral e, quando digo período eleitoral, é porque na vida a gente se prepara para tudo, menos para o período eleitoral. Não é à toa que, no Brasil, temos Copa do Mundo no ano de eleição, não é à toa que tivemos agora recentemente a visita de um rei organizada por um pastor, num período em que estamos nos preocupando no poder, em nos empoderarmos, não é à toa que acontece uma série de coisas que o estado cria para nos manter alienados. É fato que a solidariedade é fundamental, a união é fundamental.
Eu tenho um amigo, amigo de todos nós, Jairo Pereira, que um dia ele disse assim e eu coloquei lá – quando constituímos o pepelê – as palavras dele: “Nós só seremos respeitados, quando estivermos unidos politicamente” e essa é de fato uma reflexão importantíssima para esse momento de eleição no Brasil para presidente da república, governador, deputado, senador, em que nós precisamos sair, refletir e pensar que nós temos três meses para trabalhar, três meses para mudar essa história, se nós quisermos. É comum as pessoas dizerem, o povo do terreiro não se une, o povo do terreiro não se elege, mas se nós nos conscientizarmos de que tudo o que é criado, que o estado cria, é simplesmente para nos manter alienados, a Copa está aí.
Então, eu penso que é um momento realmente de reflexão e de empoderamento do nosso povo. Eu, Raimundo, estava ontem assistindo a uma palestra de Mangabeira Unger e ele fez uma fala muito interessante, que a gente tem falado na construção dessa campanha. Nós não precisamos de um salvador da pátria, ou de um salvador do nosso povo, nós precisamos que este povo queira se salvar de fato, nós precisamos disso, precisamos que cada um de vocês entenda que sozinho nós podemos chegar. Como diz Milton Guran, a maior manifestação religiosa que existe no nosso povo é 31 de dezembro, nas praias, onde nós temos artistas, políticos, todos lá colocando flores para Iemanjá. Podemos chegar sim, mas se nós, de fato, quisermos chegar.
Quando nós falamos de solidariedade, Mãe Mara, eu saio de um patamar. É preciso aproveitar esta oportunidade e dizer para vocês, é uma pena, queria eu que esta sessão tivesse sido passada ao vivo, porque eu entrei ali na Rio TV Câmara, mas está fora do ar. É uma pena, está sendo gravada para que... Não sei, mas seria bom que estivesse no ar, ao vivo, para que o mundo estivesse tomando conhecimento dessa manifestação do compromisso do Reimont, que o Carlos Minc e que vocês, que saíram das suas casas mais distantes para estarem aqui hoje até essa hora. Para nós, Pai Ícaro, que saiu lá de São Gonçalo – Niterói, outro que saiu de Queimados, seria bom que estivesse ao vivo, é uma pena, não sei por que, fica sem resposta, é melhor, fica para reflexão.
Nós andamos 27 estados para unir o nosso povo numa legenda única, fizemos sem dinheiro, com ajuda dos nossos ancestrais, fizemos uma fusão com Pátria Livre e colocamos cada um do nosso povo, não criamos secretarias, nem setoriais do negro, nem de igualdade racial. Fizemos com que os nossos presidentes, em 14 estados, sentassem na executiva estadual como vice-presidentes. Estamos lançando candidatos do nosso povo em 14 estados, fora aqueles que não fizeram a fusão, e no Rio de Janeiro, até janeiro, Minc, pela primeira vez na vida, nós, eu não, nós tivemos uma cara preta macumbeira no jornal como pré-candidato à Presidência da República e talvez muitos dos senhores não souberam disso.
Declino dessa posição em nome de João Goulart, João Vicente Goulart, filho daquele que sofreu o golpe de 1964, porque achava que ele realmente era uma pessoa preparada para nos representar e aceito o desafio de sair candidato ao Senado pelo Rio de Janeiro, porque 20mil, 30mil votos talvez eu estivesse eleito como deputado estadual para resolver o meu e o problema de poucos. Mas com a responsabilidade que tenho sobre os 24 estados em que nós andamos, os 14 estados com quem fizemos a fusão e com os candidatos que estamos lançando, eu aceitei o desafio de sair de 30mil para quatro milhões, como disse meu irmão Ivani, por acreditar que nós estamos plantando, como diz Ifá e Odu Irosun, o homem tem que acreditar e não pode errar, se ele tem a onisciência de que ele propõe e olodumare dispõe e é o que nós estamos fazendo. Nós estamos propondo mostrar aos nossos filhos e netos que esse espaço, Raimundo, esta Casa, João, o Senado Federal e a Câmara, o Congresso, pertencem a nós também.
Tenham a certeza de que uma organização política e um mandato não é só ser vereador, deputado ou senador; em todas as instâncias de cargos executivos e judiciários, têm o dedo do parlamentar. Portanto, nós estamos fazendo uma grande revolução nesse Brasil e eu quero dizer para vocês: uma vez, Mãe Glorinha, eu saí do Rio de Janeiro e fiz cinco estados em quatro dias, peguei dois aviões, Mãe, e tinha um carro me esperando em Minas para me levar a 150km de Ituiutaba, não sei quem era o motorista que estava lá me esperando, não sei, peguei ele confiando em Exu, como diz o João, e em nossos ancestrais. Depois peguei outro motorista para me trazer de volta ao aeroporto me levar e peguei mais dois voos para Alagoas, fiz o trabalho que tinha que fazer em Alagoas e peguei dois voos para João Pessoa.
Em João Pessoa, peguei um ônibus para Recife, porque são 150km e aí, perdoem por me alongar, o ônibus pegou fogo, Mãe, eu me vi sozinho na estrada, no meio do mato, do nada, depois de seis voos, pensando assim: graças a Olodumare e Exu, foi o ônibus, porque poderia ter sido o avião e eu perguntei a mim mesmo, longe da minha família, longe dos meus irmãos, longe dos meus filhos: “Será que é isso que o nosso povo quer? Será que eu errei em não perguntar a eles se era isso que eles queriam, que eu fizesse esse sacrifício? Largar minha família, largar meu estado, largar 21 anos de serviço público, jogar fora 21 anos de serviço público para me dedicar à defesa, ao resgate, à preservação das tradições culturais?”
Hoje, me orgulho do Cais do Valongo, patrimônio da Unesco, que foi dado por mim na época da revitalização do Cais do Porto numa palestra e eu disse: “Nós precisamos cavar aqui e achar o cais” e depois, um dia, encontraram. Estive recentemente com o Átila e disse a ele: “Muito obrigado por você ter criado a delegacia, que foi uma proposta feita por mim nos 120 anos da Abolição inconclusa que Gilberto Palmares me convidou para falar. E no final de tudo eu disse: “Eu quero deixar registrado o pedido de que essa Casa encaminhe a proposta de criação de uma delegacia de combate ao racismo, discriminação e intolerância nos moldes do que é a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi)”.
Muito obrigado, Átila. Apesar de eu ter feito várias cartas de agradecimento a você, você nunca respondeu. Claro que eu criei para você, porque você é quem é o parlamentar, eu não sou parlamentar. Muito obrigado. E dei novamente a ele, Minc, e quero que você saiba disso e nos ajude nisso, se é que ainda é uma proposta.
Disse a ele lá na casa de Mãe Margareth de Oxum, Mãe Mara estava lá presente: “Vou lhe dar mais uma oportunidade, mais uma dica, eu olhar a lista de delegacias que tem na Cidade da Polícia, é mole, mas você é parlamentar. O Legislativo tem a competência de fiscalizar o Executivo também”, não é isso? E eu disse a ele “Peça a lista das delegacias que tem na Cidade da Polícia, já que o Governo diz que não tem dinheiro, não tem recursos humanos, peça e você vai encontrar lá Delegacia de Comunicação, Delegacia de Telecomunicação, Delegacia de Crimes de Informática, delegacia para delegacia, enfim, enxuga essas coisas por um compromisso político e cria por fim a delegacia que foi criada enquanto lei, que é a Decradi”.
É isso que nós fazemos ao longo do tempo e digo a vocês “Meus filhos, nossos filhos, nossos, porque nós somos do tempo em que filho de preto era filho de toda a comunidade, nós somos desse tempo, como Ivani certamente contou uma história triste, que eu sempre me emociono, mas certamente encontrou algum negro que disse, mesmo que fosse lá dentro da casa, eu vou te ajudar”.
Portanto, o que nós estamos fazendo é para os nossos filhos. Quando eu digo nossos é porque os filhos de vocês são meus filhos também. Muito obrigado.
(PALMAS)

O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Obrigado, Marcelo. Com a palavra Dolores Lima e, depois da Dolores, Marcelo Reis.
Depois do Marcelo Reis, tem uma última inscrição para a Tribuna, que é Ogan Jaçanã.

A SRA. DOLORES LIMA – Boa noite. Quero cumprimentar toda a Mesa, cumprimentando as minhas mais velhas, os meus mais velhos, quero aqui louvar a iniciativa, e aí o guerreiro João Pedro vem buscando demonstrar aquilo que a gente já sabe há muito tempo, para esse espaço, para aquele outro lá, a gente vivencia um momento a cada tempo, a cada ciclo em que o racismo se transmuta e busca separar o imagético para que a gente se confunda e não tenha ferramentas para lutar contra isso, mas nós somos de orixás Inquices e Voduns Encantado e uma hora aparece uma lança, um oxê, um abebê, alguma ferramenta que nos coloca diante do desafio e também diante de uma nova etapa.
Quero aqui dizer que tudo o que a gente está falando aqui, do balaio de gato que o racismo coloca ele, a gente só tem apenas mais um fazendo uso disso, que é o Prefeito dessa cidade, que é a pessoa que vem colocando, mais uma vez esfregando na nossa cara que é e vai ser o instrumento de perpetração do racismo nessa cidade. Claro que cabe a nós decidir a vida dele, seja daqui a pouco ou daqui a dois anos, cabe a nós decidir isso; cabe a nós também saber que ele não tem que vir aqui buscar parcerias. E a gente sabe muito bem, daqui a dois anos, como a gente já elencou na Alerj, quem são os 39 que não têm que ser eleitos.
Estamos muito mais de olho nessas coisas neste momento e a cada ano que isso se passa. Nós temos visto a perseguição, já há algum tempo, da bancada evangélica aliada a uma série de outras bancadas a nossa forma tradicional de nos alimentarmos, a nossa forma tradicional de nos vestirmos, a nossa forma tradicional de colocar o papel da mulher, especialmente da mulher negra nesse lugar de destaque em que a sociedade patriarcal, eurocêntrica, judaico-cristã coloca apenas os homens. E nós, de tradição de matriz africana, relativizamos isso o tempo todo. Nós relativizamos na relação com o mais velho, com a mais velha. E essa relação, no recorte de gênero, tem outra compreensão do que é na nossa tradição.
Enfim, a perseguição que nós sofremos em vários desses espaços e, na verdade, é só fruto do racismo estrutural que a cada dia se reedifica. Nós estamos aprendendo e reaprendendo todos os dias, escutando o mais velho, aprendendo com a juventude e refazendo caminhos para poder lutar contra isso.
Estamos aqui, neste momento, diante da Comissão de Cultura em que precisamos rever algumas coisas do que já está acontecendo aí, que é notório para todo mundo. As rodas de samba cassadas, parece que estamos voltando ao século XVIII, as rodas de samba, as rodas de capoeira, todas as rodas. Roda é a nossa forma de viver, a circularidade que nossa ancestralidade nos ensinou. Então, cassar isso é colocar o racismo à frente de tudo. Quero dizer aquilo que não é novidade para esta Casa, que esse Prefeito é racista, esse Prefeito está cassando aquilo que é, para nós, o mais caro. Eu não estou falando nenhuma novidade, estou chovendo no molhado, mas precisamos transformar cada momento desse aqui em uma alternativa. Nós estamos aqui, neste momento, na ausência de representante do nosso povo dentro desta Casa, buscando organizar a Frente Parlamentar em Defesa dos Povos Tradicionais de Matriz Africana, Fórum de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana (FONSANPOTMA) a partir de uma iniciativa que estava nas mãos da companheira Marielle, que não foi possível acontecer no tempo dela, mas que estaremos dando encaminhamento. Tenho certeza de que já passou pela mesa do Vereador Reimont. E ela tem o papel de fazer e ser nosso escudo, ser Ogum aqui, ser Exu aqui dentro. Aquilo que botar em cima da mesa que for contra nós, esses vereadores, essa bancada, essa Frente tem o dever de travar onde ela estiver.
Então, eu quero dizer que a gente vem, a todo momento, reinventando formas de luta. Os nossos ancestrais fizeram isso e a minha mais velha que esta aqui não desistiu. Quem sou eu para desistir? A bênção.

O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Muito obrigado, Dolores. Marcelo Reis está aí? Eu vou chamar então Ogã Jaçanã, mas antes vou passar a palavra aqui para o Santa Rosa.

O SR. RAIMUNDO SANTA ROSA – Vou ficar de pé de novo, porque quando a gente fala de pessoas que a gente respeita muito, não pode ficar sentado. Eu vou ficar até descalço, porque esse nome é pesado. Hoje é 21 de junho, nessa data uma pessoa faz aniversário. Ele não gosta dessa data, desse dia, desse aniversário dele, porque aconteceu um fato muito especial. Eu estava junto com ele nessa data, convivo com ele desde meus 13 anos de idade. Então, esse menino que está fazendo 98 anos, 99 anos, 98 foi no ano passado. Eu já perdi a conta de ficar… Meu Deus do céu, 99 anos. Vou pedir a vocês encarecidamente que fiquem de pé um instante, não para bater parabéns, mas para aplaudir Pai Bambala.
Que xangô permita que estejamos perto dele nos 99, nos 100, nos 101, e que apertemos o braço dele, ouça a voz dele cantar, porque foi quem me ensinou a tocar candomblé, dobrar rum e saber as cantigas no momento certo que devem ser cantadas. Foi ele que puxava minha orelha e me botava sentado. Falava: “Moleque, sente aqui.”
Então, a ele eu quero agradecer e pedir a xangô que dê muitos anos de vida e saúde.
(PALMAS)

O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Com a palavra, o Deputado Carlos Minc.

O SR. DEPUTADO ESTADUAL CARLOS MINC – Eu queria apenas fazer um pequeno comentário, bem curto e objetivo, porque está muito tarde, todo mundo já falou tudo que deveria falar, já nos emocionamos, já lembramos, já denunciamos. Eu queria fazer um pequeno comentário. Eu vi a Mãe Mara de Yemanjá atenta à lei, lendo pontos da lei, questionando o cumprimento da lei. E eu queria fazer uma pequena observação sobre isso.
Quando apresentamos esse projeto de lei, a bancada evangélica apresentou 30 emendas para obstruir e destruir o projeto. Eu nem vou falar todas, vou falar apenas uma delas, que eu comentei com o Ivani. A emenda dizia o seguinte: que essa defesa toda valeria para aquelas religiões registradas que tivessem CNPJ, ou seja, as religiões afro estavam completamente excluídas disso aqui. Foi uma guerra, não queriam aprovar de jeito nenhum. E uma vez aprovada, a primeira coisa que fizemos foi uma audiência para começar o cumprimento da lei. E aproveito para dizer isso também, e você tem muita razão, muito mais difícil do que fazer uma lei é fazer uma lei ser cumprida. Parece que no nosso país as leis têm uma inexorável vocação para se tornarem alimento de cupim na gaveta dos burocratas e dos poderosos de plantão. E as leis têm que ver com direitos; por isso, as pessoas receberam esse caderninho chamado cumpra-se. É exatamente o que você disse. Aqui está a briga para fazer cumprir as leis.
A maior parte das pessoas sequer as conhece, portanto, um dos elementos do cumpra-se é as pessoas conheceram seus direitos, brigarem por eles. E aí tem o lado da prática, que não é fazer a lei, é ir para a rua brigar pelo passe livre, por eleição direta, para brigar contra o racismo, o machismo, a homofobia e a intolerância. Aí esse cumpra-se está na 22ª edição, todo ano nós fazemos. O que acontece? Aqui diz quais leis estão sendo cumpridas, quais parcialmente e quais não. E algumas demoraram sete, oito anos para serem cumpridas e salvaram milhares de trabalhadores de contaminação dentro das fábricas. Portanto, muito mais difícil do que fazer uma lei é brigar para ela ser cumprida. Isso vale para as leis contra o racismo, contra a intolerância e as outras leis também pelos direitos de cidadania.
Então, era esse esclarecimento que eu queria fazer, agradecendo, que prestou muita atenção, viu e cobrou uma coisa sensacional, que é brigar pelo cumprimento, o que fazemos há mais de 20 anos. E vou dizer: nós dedicamos muito mais tempo para que uma lei seja cumprida do que o trabalho para aprová-la, sendo que para algumas, como essa, tivemos a bancada evangélica em peso obstruindo. É bom que se diga que, na bancada evangélica, havia inclusive negros e estavam lutando contra essa lei, porque tinha alguma coisa que, além da sua raça, desviava, que é uma religião que, infelizmente, acaba pregando o ódio e a intolerância, uma coisa que nenhuma religião poderia ou deveria pregar.
Então, era esse esclarecimento que eu queria prestar a todos e homenagear e conclamar a todos para brigarem para cumprir as boas leis, não só essas, mas as leis que garantem direito de cidadania,terra, passe livre, educação e tantos direitos que estão sendo ameaçados num momento como esse.
(PALMAS)

O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Obrigado, Minc. Ogã Jaçanã, deixa eu lhe dirigir a palavra antes de você falar. Nós vamos entregar algumas Moções e também temos uma Moção que foi organizada e pensada pelo Não Mexa na Minha Ancestralidade, que também vai ser entregue a você. Aí, nesse momento, você usa da palavra.
Eu quero chamar para receber a Moção. Eu vou descer ali, o João Paulo desce comigo e o Minc também. Quero chamar a Mãe Glorinha de Aziri, Mãe Rosinha de Oxossi, Mãe Mimi vai ser representada, Mãe Helena estava aqui. Vem cá embaixo, Mãe Helena. Alguém do Cerimonial a conduza, por favor?Mãe Marli de Xangô, Pai Ícaro de Oxossi, Tat’etu Sessemeã Tumbenganga, Pai Beto d’Oxaguian, Ogã Jaçanã Gonçalves.
(Entregam-se as Moções)

O SR. DEPUTADO ESTADUAL CARLOS MINC – Bem, nós, em combinação aqui com o João Paulo de Xangô e com o Reimont, votamos na Assembleia cinco homenagens. A Flor está trazendo as outras, das quais duas pessoas estão aqui presentes. Mas vamos mencionar as outras, que vão receber algum dia a homenagem.
Então, quero deixar claro que essas homenagens foram combinadas em conjunto, por sugestões do João Paulo de Xangô e do Reimont, não foi uma coisa individual de cada um de nós. São Moções de Aplausos, Louvor e Congratulações às seguintes pessoas: Mestre Dionísio, Compositor Nelson Sargento, Compositor Aloísio Machado. E, presentes aqui, o Mestre Célio Luiz de Paula Gomes, a quem vamos entregar.
Por último, a porta-bandeira Vilma Nascimento, conhecida como Cisne da Passarela, tantas vezes vencedora do Estandarte de Ouro como porta-bandeira da Portela.
Quero entregar para a Vilma. Vilma, é uma honra, um prazer entregar aqui esta Moção que foi votada e aprovada. Eu sei que você já recebeu muitas homenagens. É mais uma, você merece todas.

A SRA. VILMA NASCIMENTO – Nunca é demais, que seja bem-vinda. Eu só tenho que agradecer a vocês todos, porque essa luta é muito boa, porque eu luto pelo samba. Cada um luta pelo seu ideal, eu luto pelo samba. Não estou satisfeita com o Prefeito, porque não pudemos fazer, no ano passado, o ensaio técnico. O Carnaval foi um desespero. O público é sofrido, então tem que ter uma coisa para alegrar, e o Carnaval é uma das coisas. E o Prefeito consentiu de fazer culto lá no nosso lugar, na avenida, que aquilo é nosso. Muita gente não sabe, nem os sambistas, mas quem pediu para fazer a Passarela do Samba fui eu e meu marido, que pedimos ao Brizola, que era nosso amigo.
Então, hoje aquilo é do samba, não é do culto do Prefeito.

O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Hoje é aniversário da morte de Brizola.

O SR. DEPUTADO ESTADUAL CARLOS MINC – Temos que lembrar sempre Brizola, Darcy Ribeiro e tantos outros que lutaram.
Quero então trazer aqui a Moção de Aplauso, Louvor e Congratulação ao Mestre Célio Luiz de Paula Gomes. Nascido em 1970, mestre de capoeira e educador cultural, teve o primeiro contato com a arte da capoeira em 1980, tendo o Mestre Poeira como primeiro professor.
Tem muita coisa escrita aqui, é uma história de vida, uma história bonita e é muito merecido. Está aqui seu diploma.
Professor da Monique Prado, olha lá. Uma assessora nossa, afinal, quando viu, falou: “É o meu professor.”

O SR. CÉLIO LUIZ DE PAULA GOMES – Mais uma vez queria agradecer ao João Paulo. Realmente, eu não esperava, foi espontâneo, nós nos conhecemos pelo Facebook, no movimento, o primeiro movimento que teve, o ato Não Mexa na Minha Ancestralidade. Eu, como mestre de capoeira, me sensibilizei e reuni uma galera. Acho que foi bem legal. Estamos juntos e fizemos um movimento bem legal aqui.
Então, eu vou fazer um toque de iúna. Esse toque de iúna é tocado para os grandes mestres de capoeira. Então, vou homenagear os mestres e as mestras presentes, ialorixás e babalorixás presentes.

O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Os fotógrafos já tiraram todas as fotos? Já, não é?
Vai lá, toca, é contigo.

(Faz-se a apresentação)

O SR. CÉLIO LUIZ DE PAULA GOMES – Mojubá, motumbá.

O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Jaçanã. Vamos ouvir agora então o Ogã Jaçanã. Está aberto, Jaçanã, para você.
O SR. JAÇANÃ GONÇALVES – Olá! Sou Jaçanã Gonçalves, Presidente do Centro Espírita Caridade Eterna. Quero começar saudando os membros da Mesa: Deputado Carlos Minc – acompanhei, durante muito tempo, a brilhante carreira parlamentar dele –, o Vereador Reimont e agradecer pelo espaço e pela significativa homenagem ao nosso povo. Quero agradecer também ao Excelentíssimo Senhor Bessen, aqui representado por Mãe Helena Didã. Quero saudar também Excelentíssimo Senhor Sobo, representado pelo João Paulo; Excelentíssimo Senhor Azansu, representado pelo meu irmão Genésio de Azauani; as senhoras iemanjás, que estão à Mesa, representadas por Mãe Mara e Mãe Roseane.
Quero saudar também os 50 anos do Oxossi — eu vi, sábado passado, na Casa de Pai Ícaro. Quero saudar cada vodum, cada orixá, cada inquice, cada caboclo, cada preto velho, cada exu que são os povos que trabalham nas nossas casas. Quero saudar os meus irmãos ogãs, minhas irmãs equedes, os ojés, babalaôs, babalorixás, abians e a todos aqueles que, de uma forma ou de outra, contribuem para o desenvolvimento, sustentação e a manutenção dos nossos saberes, da nossa religiosidade e da nossa fé.
Falar de racismo cultural e religioso, hoje em dia, é uma redundância frente ao volume imenso das violências, das atrocidades que estamos enfrentando tanto do ponto de vista moral, como dos terreiros incendiados, dos pais e mães de santos assassinados. Sou de uma época em que as pessoas tinham vergonha de ser consideradas reacionárias. Sou de uma época em que as pessoas tinham vergonha de ser consideradas racistas. E hoje, as pessoas estão se orgulhando, em redes sociais, de serem reacionárias e racistas.
O recrudescimento desse pensamento que não é apenas um pensamento conservador, mas é para além disso. O recrudescimento desse pensamento fascista, nazista, obscurantista, na minha análise de conjuntura, atribuo ao movimento neopentecostal que se instalou no Brasil, na década de 80. Esse movimento, hoje, possui programação fixa, regular e permanente em oito canais das TVs abertas. Esses templos movimentam um volume de dinheiro que é uma coisa absurda e que, em função de uma lacuna na legislação, são isentos de pagamento de imposto de renda. Esses movimentos neopentecostais, hoje, fazem campanhas xenófobas, feminicidas, fazem campanhas de intolerância e de ódio religioso se escondendo atrás da liberdade de expressão e da democracia.
Quem é de candomblé, quem é de umbanda, quem é de catimbó, quem é de religião de matriz africana, sabe exatamente o que é privação da liberdade, sabe exatamente o que é racismo, sabe exatamente o que é intolerância religiosa. A questão que se coloca para nós, hoje, não é mais a da formulação da lei – lei a gente tem – tampouco é uma questão do cumprimento da lei. O que se coloca para a gente, hoje, os povos de matriz africana, é o acesso, é conseguir disputar o poder com os nossos inimigos – não são adversários, são inimigos – de igual para igual. A lei existe e, hoje, a gente sabe que o Estado é conivente com esse tipo de violência porque, até hoje, não há ninguém no Brasil preso por intolerância religiosa.
É inacreditável, numa sociedade minimamente democrática, que os bandidos, traficantes de drogas se autointitulem evangélicos, expulsem sacerdotes, incendeiem terreiros, quebrem assentamentos, e nenhuma denominação evangélica vem à sociedade dizer: “Não! Nós não concordamos com isso”. Eles não são evangélicos. Eles não têm autorização para fazer isso. Ao contrário, o que a gente observa é que essas denominações se calam diante da publicidade de que traficantes são evangélicos.
Nós vamos, em pouco tempo, falta pouco tempo, ter as eleições mais fundamentais do nosso país. Nós vamos ter a oportunidade de botar para fora de verdade esse canalha, o Temer; nós vamos ter a oportunidade de trocar os senadores. Eu, graças a xangô, já tenho dois candidatos ao Senado: o Marcelo e o Ivanir. Estou resolvido nesse campo. Vamos mudar o Governador, botar para fora o Pezão. Nós vamos mudar a Assembleia Legislativa – espero que o Minc continue. E vamos mudar o Parlamento Nacional.
A questão é a seguinte: a gente está há muito tempo reclamando de tudo isso. Eu sou oriundo do Congresso de Reconstrução da UNE/79, em Salvador, do movimento estudantil, do movimento de bairros, movimento cineclubista. A gente lutou contra a ditadura. E quem lutou contra a ditadura, sabe exatamente o preço que é a falta de liberdade. Quando essas pessoas desavisadas começam a dizer e a defender a volta da ditadura, elas certamente não sabem do que estão falando. A falta de liberdade é como a falta de oxigênio para a gente viver. Nenhum cidadão vive bem sem liberdade. A essência da nossa alma é essa liberdade.
Logo em breve, a gente vai ter nas mãos o poder e a possibilidade de transformar esse país. E aí, confesso aos senhores que não me importa muito se ele é católico progressista, se ele é judeu progressista, se ele é macumbeiro progressista, se ele é azul, verde ou preto. Não importa a fé que ele professe. Como ogã e cidadão, como religioso e cidadão, o que me importa é se esse sujeito tem, efetivamente, um comprometimento com a bandeira da democracia e da liberdade. Porque sem democracia e sem liberdade, não tem preto nem branco. Sem democracia e liberdade, não tem azul nem verde. Sem democracia e sem liberdade, não tem candomblé, não tem neopentecostal, não tem judeu, não tem cristão, não tem ecologia, não tem água limpa, não tem ar puro.
A liberdade é a essência da nossa alma; no entanto, a gente não pode deixar de prestar atenção nos diversos candidatos de axé que estão sendo lançados pelo Brasil inteiro. Mas eu já soltei esse alerta e volto a repetir aqui para concluir, para a gente não demorar muito: não basta ser de axé, não basta ser preto. Tem que, antes de tudo, ser comprometido com a expectativa de uma sociedade igualitária, democrática e livre para homens e mulheres, para pretos e brancos.
É isso. Muito obrigado. Boa noite!
(PALMAS)

O SR. PRESIDENTE (REIMONT) – Jaçanã, muito obrigado por sua fala, fechando o nosso encontro.
Eu quero agradecer a todos e todas que me permitiram participar desse momento e me desculpar por algum encaminhamento incorreto.
Quero me dirigir ao João. João Paulo, dirigindo-me a você, que foi quem nos demandou esse espaço, quero dizer que viemos com muita simplicidade para esse espaço, com muita abertura.
Eu queria, dirigindo-me a você, lembrar de duas demandas que a Cidade do Rio de Janeiro tem muito claras, muito presentes. Demandas essas que eu toco aqui na cidade, que o nosso mandato toca aqui na cidade desde 2009. Uma delas é a demanda da moradia adequada. E a Cidade do Rio de Janeiro convive com 140 mil famílias sem moradia, convive com remoções – só na era Eduardo Paes foram 67 mil remoções. O Prefeito Marcelo Crivella, se não fosse a intervenção da luta do povo da Comunidade do Rio das Pedras, teria verticalizado a favela num projeto que ele queria importar da China. É muito clara, é muito nítida a visão que temos quando nos encontramos com esse povo das remoções. Esse povo tem cor, esse povo é marcado pelo racismo.
Quero falar de outra demanda da qual estou muito próximo, desde 2009, diretamente no Parlamento, mas ligado umbilicalmente desde sempre na minha vida, que é a luta do povo da rua. Eu queria lhe contar um caso que me aconteceu há mais ou menos dois meses. Eu estava no Engenho de Dentro, numa celebração de publicação da Lei nº 6.350, uma lei municipal, de autoria do nosso mandato, que trata da política pública para a população em situação de rua. Naquele dia, Santa Rosa, eu tive a curiosidade de contar. Eram 70 homens. Na sua maioria homens, porque o número de mulheres é menor como população em situação de rua. E elas são duplamente marginalizadas. Dos 70 que estavam nessa celebração entre homens e mulheres, na sua maioria homens, apenas três não eram negros. Três não eram negros.
Então, hoje, o que estamos fazendo aqui é relembrando esse processo e dizendo que nós não temos o direito... O Jaçanã falava isso há pouco. Ele dizia exatamente isso: “Precisamos construir a democracia e precisamos construir a liberdade”. Ontem, aqui neste Plenário, num determinado momento, quando os servidores do município viraram as costas para os oradores que queriam taxar os aposentados – e estão taxando os aposentados em 11% –, daqui desta Mesa surgiu um pedido: “Respeitem o orador da Tribuna”. E o povo se virou de frente e gritou: “Respeitem o servidor do Município do Rio de Janeiro”.
Então, podemos fazer aquilo que é a nossa obrigação. Eu compreendo que o parlamentar – e o Marcelo falava isso – tem a função de legislar e fiscalizar, mas tem outra função para fazer a fiscalização e a legislação. Se ela não acontecer, a sua ação será estéril, vai fiscalizar com esterilidade e vai legislar com esterilidade, que é a de ter o vínculo no meio do povo.
Nesse sentido, é preciso compreender vivemos num parlamento burguês, que é um parlamento branco, hétero, um parlamento de homens. Sabemos de tudo isso, mas precisamos reverter isso – claro –, mas o que temos também é a chave para abrir essa porta. E quando o Parlamento não quiser abrir essa porta, o povo negro do Rio de Janeiro, que é constituinte da condição de ser carioca... É bom lembrar que 18 milhões de homens e mulheres saíram da África. Desses 18 milhões, 6 milhões ficaram entre os seus grupos e o portão do adeus. E do portão do adeus até a travessia morreram mais 6 milhões, foram assassinados mais 6 milhões. E desses 6 milhões que chegaram, Damião, 2 milhões, sabemos, aportaram no Cais do Valongo, no Rio de Janeiro. Então, o Rio de Janeiro não tem o direito de não se dizer constituído pelo povo negro.
Assim, faço essa fala para agradecer a vocês o que me ensinaram nesta noite e dizer que estamos inteiramente abertos para as demandas que trouxerem. Usem e abusem porque é direito de vocês e obrigação nossa!
Está encerrado o nosso encontro, o nosso Debate Público.

(Encerra-se o Debate Público às 22 horas)