Discurso - Vereador Renato Cinco -

Texto do Discurso

O SR. RENATO CINCO – Obrigado, Senhor Presidente.
Senhores vereadores, senhoras vereadoras, senhores e senhoras, como eu já falei anteriormente, estou participando do Conselho Editorial do Contrapoder, que é uma plataforma de comunicação da esquerda socialista e eu pretendo ler os editoriais semanais do Contrapoder aqui na Tribuna.
Eu participo das reuniões do Conselho Editorial e este aqui manifesta o pensamento da nossa plataforma de comunicação, do nosso Conselho Editorial, a ver:

“Não haverá paz!
Enquanto não houver justiça para os pobres não haverá paz para os ricos.

O vigor das manifestações contra a destruição da Amazônia revela a inesgotável reserva de luta dos estudantes e trabalhadores brasileiros. Os reiterados golpes do capital contra o trabalho não arrefeceram a efervescência social e nem estabilizaram a ordem. A razão é clara: a solução liberal-autoritária para a crise, que abala a vida dos brasileiros, agrava todos os problemas responsáveis pelo colapso civilizatório e ameaça o próprio futuro do Brasil como sociedade nacional.
Muito mais que um problema conjuntural relacionado aos desequilíbrios macroeconômicos, a crise econômica é estrutural e tem origem na necessidade de ajustar o país às novas tendências da divisão internacional do trabalho. Ao sancionar o desmanche do sistema econômico nacional, o ajuste neoliberal promove enorme destruição de forças produtivas, vasta eliminação de empregos de qualidade e substancial rebaixamento do nível tradicional de vida dos trabalhadores.
O fim da industrialização por substituição de importações e as estagnação de longa duração destruíram, definitivamente, as bases materiais da mobilidade social. A possibilidade de que o impacto perverso do ajuste neoliberal sobre a classe trabalhadora seja parcialmente atenuado pela retomada do crescimento do emprego fica afastada pelo recrudescimento da crise capitalista.
A crise social latente, condicionada pelas gigantescas assimetrias entre ricos e pobres, foi transformada numa crise aguda. Depois de 2014, mais de 13 milhões de pessoas engrossaram a massa marginalizada do mercado de trabalho, um contingente equivalente a toda força de trabalho da Venezuela. A dimensão da catástrofe social fica patente quando se constata que há mais de dois anos um em cada quatro trabalhadores encontra-se desempregado, desalentado, ou subutilizado pelo mercado de trabalho.
A incapacidade de absorver crescentes parcelas da população economicamente ativa do mercado de trabalho desarticulou o principal mecanismo de acomodação das terríveis contradições de uma sociedade marcada pela segregação social. O aumento do desemprego estrutural, a precarização do trabalho, o arrocho salarial, a escalada da concentração de renda e a elevação da pobreza transformaram o Brasil num barril de pólvora.
O acirramento da luta de classes selou a sorte na Nova República. A democracia restrita, cristalizada na transição da ditadura militar para o Estado de Direito não resistiu à nova ofensiva do capital contra o trabalho. O partido do fora todos reacionário, comandado por Moro, Dallagnol e Rede Globo, trucidou a Constituição Cidadã. A falsa cruzada moralista contra a corrupção desmoralizou o sistema político. A seletividade e a arbitrariedade dos juízes e promotores, patentes na troca de mensagem revelada pelo Intercept, desmoralizaram irremediavelmente o sistema judiciário. A corrupção sistêmica passou incólume pela Lava Jato.
A eleição de Bolsonaro coroou a liquidação da Nova República. O desmanche da Nação virou razão de Estado, e todas as conquistas civilizatórias do povo brasileiro ficaram postas em questão. Sem ter o que oferecer à população, o espectro do autoritarismo ressurgiu como único meio de garantir a ‘paz social’.
Mas as derrotas dos trabalhadores nunca são definitivas. A impossibilidade de superar as contradições responsáveis pela vida infernal dos brasileiros impede a estabilização da ordem. A energia que impulsiona a juventude e os trabalhadores à luta brota do sentimento do profundo mal-estar e revolta contra o avanço da barbárie.
Para que os protestos contra o descalabro nacional não sejam meramente reativos e não sejam exauridos em seu próprio ato, é vital construir força política e horizonte estratégico que permitam a unificação das lutas parciais em torno de um projeto comum da classe trabalhadora que vá além do capital.
O mês de setembro será de luta. No Dia Internacional da Amazônia, 5 de setembro, no Grito dos Excluídos, 7 de setembro, e na Greve Global do Clima, 20 de setembro, estaremos nas ruas portando a bandeira do socialismo como único meio capaz de superar a barbárie capitalista e deter a destruição do planeta.”
Senhores vereadores, senhoras vereadoras, como eu acabei de dizer, amanhã, dia 5 de setembro, é o Dia da Amazônia. Aqui no Rio de Janeiro e em todo o Brasil vão acontecer novas manifestações em defesa da Floresta Amazônica. Aqui no Rio de Janeiro, a concentração será a partir das 16 horas, no Largo da Carioca. E depois será feita uma passeata até o Ibama, que fica na Praça XV. É muito importante, senhores vereadores, senhoras vereadoras, nós entendermos o que está em jogo.
A Floresta Amazônica é um bioma absolutamente fundamental para a sobrevivência da nossa nação. A defesa da Floresta Amazônica não é mero capricho de quem acha bonito ver a natureza ser preservada. Em primeiro lugar, a destruição da Amazônia é a faceta mais visível da barbárie capitalista do território nacional. A Floresta Amazônica é destruída em nome do lucro de meia dúzia de empresários do agronegócio, que fazem expandir a fronteira da agropecuária para onde existe a floresta.
Mas não é só a Amazônia que vem sendo devastada e que ameaça a sobrevivência do nosso país: também a devastação do Cerrado e a devastação da Mata Atlântica são gravíssimas e nos ameaçam.
Senhor Presidente, senhores vereadores, senhoras vereadoras, sem a Floresta Amazônica, a vida é impossível no Sudeste, no Centro-Oeste e no Sul do Brasil. Não somos um grande deserto porque temos a sorte de o clima, no nosso continente, ser determinado pela combinação da Floresta Amazônica com o fantástico paredão formado pela Cordilheira dos Andes.
A Floresta Amazônica forma uma área de baixa pressão que atrai umidade do Oceano Atlântico para o continente. A existência da floresta permite que essa umidade seja transportada até o interior do continente, onde estão as árvores da Floresta Amazônica. Esse vapor fantástico é lançado ao ar pelas árvores, que servem como verdadeiras bombas naturais, que são levadas pelo vento em direção a Cordilheiras dos Andes.
Lá, elas não se perdem no Oceano Pacífico, porque, ao se chocarem com a Cordilheira dos Andes, elas descem e trazem a umidade para o Centro-Oeste, para o Sudeste e para o Sul do nosso subcontinente. Essa chuva se precipita, em grande parte, sobre o Cerrado, que também tem uma importância fundamental, até mesmo para a formação e consolidação da Floresta Amazônica.
As fantásticas árvores do cerrado e suas raízes de até 60 metros de profundidade fazem com que a chuva que vem da Amazônia seja absorvida pelo solo e forme os imensos aquíferos responsáveis pela formação das bacias hidrográficas que alimentam grande parte do nosso território nacional, inclusive os rios da face sul, os afluentes da face sul do Rio Amazonas.
A Floresta Amazônica não sofre por um ciclo anual e natural de incêndios florestais, como ocorre em outras partes do globo, como na Califórnia ou na Península Ibérica. Se hoje é certo falar em tempo das queimadas na Amazônia e no Centro-Oeste, não é o tempo das queimadas provocadas pela ação da natureza, é o tempo das queimadas promovidas pelo agronegócio, promovidas pela mineração. É o tempo das queimadas que existem principalmente para a expansão da fronteira agropecuária.
Destrói-se o mato, destroem-se as florestas para se produzir pasto, para se produzir soja para o mercado internacional, para a exportação de carne ou de ração para o gado de outros países. Essa é a principal razão da destruição da natureza.
O Governo Jair Bolsonaro não inaugurou a destruição da Floresta Amazônica e de outros biomas brasileiros. Na verdade, essa história antiga remete ao próprio projeto de colonização que o Império Português impôs às populações originárias e ao povos africanos trazidos na condição de trabalhadores escravizados para a nossa terra. Esse projeto se renovou sistematicamente, independentemente das mudanças institucionais e políticas que aconteceram no nosso país nos últimos séculos.
A fronteira amazônica, a última grande fronteira do nosso país, começou a ser aceleradamente vilipendiada a partir do regime empresarial militar, que sob a justificativa de um nacionalismo canhestro e em nome de “integrar para não entregar”, começou justamente a promover a entrega da Amazônia à exploração do grande capital internacional, e do capital nacional associado ao capital internacional.
Projetos que continuaram e se intensificaram nos últimos períodos na Nova República, especialmente a partir da aprovação do último código florestal no governo Dilma, aumentando a possibilidade de desmatamento das florestas, inclusive da Floresta Amazônica.
Mas o Governo Bolsonaro é, sem dúvida nenhuma, responsável por um novo nível de aceleração da destruição da Floresta Amazônica e dos outros biomas do país. Isso vem ocorrendo desde a própria campanha eleitoral, quando o agronegócio se torna um dos principais grupos econômicos a aderir à campanha do então candidato Jair Bolsonaro, que, desde os tempos de deputado, já fazia os seus discursos contra a preservação ambiental, contra as reservas indígenas e os territórios dos quilombolas, contra a suposta indústria das multas do IBAMA.
O governo Bolsonaro se inicia dando carta branca para destruição das florestas e, inclusive, com a ideia de extinção do Ministério do Meio Ambiente; quando ele volta atrás em função da repercussão negativa e resolve nomear como Ministro do Meio Ambiente aquele que sofre até processos judiciais justamente por ter atuado contra o meio ambiente, enquanto Secretário em São Paulo.
O Governo Bolsonaro é responsável pela aceleração da destruição do Meio Ambiente do país quando toma medidas administrativas concretas contra o Sistema de Vigilância Ambiental do país; e quando desmoraliza os nossos pesquisadores, ao atacar os números que revelavam de maneira até tímida, como depois comprovou a NASA, a aceleração do desmatamento na Floresta Amazônica.
Senhor Presidente, senhores vereadores, senhoras vereadoras, senhores e senhoras, o desafio de salvar a Floresta Amazônica é o mesmo desafio de evitar o colapso das condições de reprodução da espécie humana, provocado pela crise ambiental gravíssima da civilização capitalista industrial. O desafio é mudar o modelo de desenvolvimento que impera em todo o nosso planeta.
Aqui, no Rio de Janeiro, nós temos a ameaça concreta da destruição da Floresta do Camboatá, sob o injustificável pretexto de construção de um novo autódromo para Cidade do Rio de Janeiro.
Como disse Rachel Carson no livro “Primavera Silenciosa”, de 1962:
“O homem é parte da natureza e sua guerra contra a natureza é inevitavelmente uma guerra contra si mesmo... Temos pela frente um desafio como nunca a humanidade teve, de provar nossa maturidade e nosso domínio, não da natureza, mas de nós mesmos.” - Rachel Carson - Primavera Silenciosa (1962)