Discurso - Vereador Fernando William -

Texto do Discurso

O SR. FERNANDO WILLIAM – Senhora Vereadora Presidente, Tânia Bastos; meus colegas vereadores presentes; aqueles que se encontram em seus gabinetes; boa tarde.
Bom, antes, eu gostaria até de aproveitar a oportunidade, por uma questão de educação, de respeito, também, para agradecer ao Prefeito, a manifestação de pêsames que formulou em função do falecimento do meu pai, no domingo. E acho que nós brigamos aqui, confrontamos ideias, mas não trato quem quer que seja como inimigo. Gostaria de, rapidamente, falar um pouco deste acontecimento. Pode parecer um pouco... enfim, não sei como é que as pessoas podem interpretar isso... mas, assim, eu passo, neste momento, claro, por um sentimento de profunda tristeza, porque eu sempre reconheci na figura do meu pai um homem extremamente simples, um homem que escolheu viver, praticamente, toda sua vida, da forma mais modesta, mais humilde. Mesmo quando tinha oportunidade de, por meio dos seus filhos, morar em locais melhores, em ambientes melhores, sempre escolheu morar no interior do interior de Minas, em uma casa extremamente modesta, extremamente simples.
Aquela pessoa absolutamente humilde, aquela pessoa adorada por todos e uma referência, em todos os sentidos, para mim. Uma pessoa a quem eu devo exatamente tudo que sou, em todos os sentidos. E uma pessoa que, assim, nos momentos em que eu tinha dúvida sobre qualquer coisa, mesmo já com muita idade, eu recorria a ele para perguntar o que deveria fazer. É um homem que mal sabia ler e escrever. Ele tinha sempre uma resposta absolutamente sensata, arcada pela sua visão humanista e sua sensibilidade, até pela sua profunda formação religiosa cristã. É impressionante a sua capacidade de perdoar, de reconhecer o outro e entendê-lo. Tudo isso foi fundamental na minha formação.
Então, quero aproveitar esses poucos minutos iniciais para prestar uma homenagem a mais do que ao meu pai, a uma figura humana dessas que a gente já não encontra mais praticamente. É interessante. Às vezes, fico imaginando que o meu pai, sem saber ler nem escrever, talvez pudesse dar palestras para muita gente letrada, para muita gente que se supõe conhecedora de tudo, se supõe entendedora de todas as coisas. Se ele tivesse essa possibilidade, acho que ele convenceria a muita gente de que existem outros caminhos que não seja o caminho da busca da solução dos problemas pela via da individualidade, da confrontação, da disputa, do “se eu resolver o meu problema, os outros que se danem”.
Mas é vida que segue. Vamos tocar. Fica aqui esta homenagem não só ao meu pai, mas a um ser humano com quem tive a oportunidade de conviver, de conhecer, e que foi fundamental para mim e para muita gente. Tenho vários irmãos de criação. Ele tinha essa característica: quando encontrava alguém que ele pudesse ajudar, levava para a nossa casa. Inclusive, através do seu viés religioso, levava para a igreja. Quanta gente tirou do mundo das drogas, do mundo do vício, da violência, pela sua tranquilidade em lidar com os problemas, pela sua forma de lidar com quem se vê na marginalidade, muitas vezes pelo abandono, pela dificuldade de entender a vida e de se relacionar com ela.
Queria mudar de assunto, mas uma coisa tem a ver sempre com a outra. Não sei se os que me assistem aqui, os que me veem e ouvem tiveram a oportunidade – talvez a maioria não tenha tido – de assistir, no YouTube, a um debate entre as duas principais figuras – as duas principais claro que não, mas duas das principais figuras do mundo político, do mundo filosófico, do mundo psicológico –, que foi o debate entre um esloveno que é filósofo, psicanalista, hoje uma referência para a chamada esquerda no mundo, Slavoj Zizek, e um psicólogo canadense, que também deu aula nos Estados Unidos, e que, na verdade, é a origem do movimento conservador direitista nos Estados Unidos, no Canadá e hoje em vários países do mundo, que é o psicólogo chamado Jordan Peterson. O debate entre esses dois, que aconteceu num auditório no Canadá, um dos maiores auditórios do Canadá, foi muito concorrido. Era um auditório para mais de 10 mil pessoas. Venderam-se os ingressos para aqueles que queriam participar, e os ingressos acabaram logo no primeiro dia. Havia até cambistas vendendo ingresso para participação nesse debate, que se esperava ser o debate do século entre direita e esquerda. Na verdade, foi um debate muito interessante e inteligente. A gente pode dizer que não é necessariamente o fato de as pessoas serem de direita que significa que sejam ignorantes ou idiotizadas, como também não é correto afirmar que as pessoas que são tratadas como radicais de esquerda devam ser vistas como esquerdopatas ou coisas que o valham.
Primeiro, o comportamento entre ambos foi de muito respeito. Segundo, o que se verificou – e eu trato desse tema para que a gente entenda um pouco o que está acontecendo no Brasil e no mundo – é que há uma preocupação da parte do Jordan Peterson – ele vem manifestando isso desde o final da década de 70 e início de 80, já tendo escrito vários livros a esse respeito – sobre a mudança de comportamento humano de grande parcela da população do planeta, o que ele, naturalmente, considera como desvios graves de comportamento. Desvios esses que são fruto do afrouxamento, digamos assim, das normas de exigência em relação à conduta, das normas de exigência em relação à cobrança da moral, em relação à cobrança do comportamento do ser humano e que, segundo ele, produziu uma sociedade degenerada, sem limites, que se desorganiza, que perde seus valores judaico-cristãos e que perde, enfim, os seus valores religiosos e os seus valores morais. Ele é um pregador sistemático, contundente, de uma espécie de retomada de uma forma de construção social que tenha como parâmetros o que, de um modo geral, a gente enxerga no debate dos conservadores. É preciso ter cuidado com os movimentos identitários, é preciso ter cuidado com os movimentos que, no entendimento dele, vão desfazendo o tecido social, desorganizando a sociedade.
Slavoj Zizek coloca, baseado em princípios de natureza marxista, mas já com algumas modificações e adaptações que, na verdade, o que vem acontecendo no mundo, inclusive, a violência – ele tem um livro específico sobre isso, sobre a questão da violência – é fruto desse cenário de mudança no modo de produção mundial que leva milhões e milhões de pessoas a se encontrarem em situações... Isso não é um fenômeno do Brasil. No Brasil é muito mais grave, porque aqui a situação da educação é muito precária, mas esse é um fenômeno mundial: o desemprego, o subemprego, a miséria dos países mais pobres, especialmente da África, do Oriente Médio, que migram inclusive para Europa, buscam uma migração para Europa e são vistos pelos setores mais conservadores, os setores que mais reagem a essa migração, como se fossem uma forma de distorcer os parâmetros da sociedade e da civilização ocidental cristã, mas que segundo Slavoj Zizek... Na verdade, aquelas pessoas, e isso é fácil constatar, não estão fugindo das guerras civis, não estão fugindo da fome e da miséria. Elas não estão indo buscar na civilização europeia a solução dos seus problemas materiais, existenciais ou subexistenciais. Elas estão indo porque não têm outra alternativa. Elas estão indo e vão influenciar com aquilo que têm como arsenal cultural.
Então, o que o Slavoj Zizek coloca é assim: na verdade, a violência que se instala na Europa, que se instala em países como o nosso, e toda a evolução de uma série de condutas e comportamentos que nós vamos percebendo como se estivessem, digamos assim, aumentando na sociedade moderna e que são vistos pelos conservadores como uma destruição de valores, que nos levará à destruição da sociedade humana, essa violência é fruto de uma outra violência. Ou seja, da violência estrutural de mudança do modo de produção que gera as tragédias do continente africano, gera o desemprego nas sociedades do mundo ocidental dito civilizado. E também é decorrência de uma juventude ou de adultos que perderam as suas referências ou vão perdendo as suas referências.
Logo, não adianta nós tentarmos controlar essa violência – e isso é dito pelo Slavoj Zizek – sem controlar a violência que antecede a essa. Ou nós criamos um mundo que seja igual em oportunidades, que seja igual em direitos, que seja capaz de elevar a educação e, fundamentalmente, fortalecer a cultura dos povos, ou não será robustecendo o superego ou os conceitos morais que nós vamos consertar o mundo.
Ou seja, se há conserto para as diversas dificuldades que se avolumam no mundo contemporâneo, elas não vão depender de frases de efeito. Elas não vão depender de pregações, sejam elas de que natureza forem, ideológicas, religiosas ou de qualquer outra natureza. Elas vão depender da nossa capacidade de fazer com que o mundo seja um mundo onde todos possam ter o mínimo para a sua existência ou para a sua subsistência e onde todos tenham capacidade de se educar e de entender a realidade em que vivem e buscar, a partir de suas capacidades, construir um mundo diferente e melhor.
Faço esse comentário aqui porque ainda sou aquele que acredita que o amor, que o entendimento, que o confronto de ideias pode superar o ódio que se avoluma em nossa sociedade. Fica aí o alerta porque, dentro desse conteúdo do ódio está uma série de decisões sem o menor sentido. Eu fecho colocando duas basicamente: uma é essa questão da reforma da previdência. Já cansei de dizer que sou a favor de uma reforma da previdência como sou a favor de todas as reformas e acho que a primeira delas deveria ser a reforma tributária. Sou a favor da reforma da previdência, mas que levasse em conta a relação fundamental que é a relação contribuição x beneficiário, no sentido de aumento da expectativa de vida por um lado e da diminuição daqueles que ingressam no mercado de trabalho de outro.
Como é que nós resolvemos essa equação? O PDT, inclusive, apresentou uma proposta neste sentido com a qual eu concordo inteiramente. A outra questão, claro, é que, quando se investe violentamente, como ocorreu agora, contra a educação se retirando mais de 30% das verbas...

A SRA. PRESIDENTE (TÂNIA BASTOS) – Queira concluir, Vereador.

O SR. FERNANDO WILLIAM – Obrigado. Desculpe. Eu estava esperando que você dissesse isso.
Então, quando se faz um corte de 30% das verbas da educação em geral, que afeta, inclusive, a educação básica – e o ministro dizia antes que não ocorreria –, especialmente, a educação universitária, muito especialmente as áreas de humanas, isso é um crime! Literalmente um crime que se está praticando contra a sociedade como um todo. Não é apenas contra os estudantes, contra os professores, é contra a universidade como um todo, e eu disso não tenho a menor dúvida. Terei oportunidade, quem sabe, de demonstrar isso no futuro.
Obrigado.