Discurso - Vereador Fernando William -

Texto do Discurso

O SR. FERNANDO WILLIAM – Senhor Presidente, senhores vereadores, demais cidadãos presentes.
Como sempre, eu tento abordar temas da municipalidade e, se possível, veiculá-los, ou não; mas tratando também de temas nacionais que interessam à cidade do Rio de Janeiro.
Hoje, eu gostaria de começar tratando de um tema municipal que revela um pouco a face da Prefeitura do Rio de Janeiro. Nós, no ano passado, votamos aqui e houve uma pressão muito grande do Prefeito para que os vereadores destombassem a área que havia sido concedida pelo município, há muitos anos, para a instalação de um clube esportivo, com várias atividades, mas que é também um clube de futebol.
Na oportunidade, o argumento utilizado pelo Prefeito é que ele havia feito uma visita a casas ao redor do campo que estavam em situação de risco. E que ele gostaria, então, que o campo fosse destombado para que fossem feitas construções naquela área destinada ao campo de futebol.
Argumentamos que tal medida não deveria ser aprovada por vários motivos. O primeiro dos quais é que há, no entorno daquela região, até pelos índices elevados de violência, uma série de empresas que faliram, saíram daquela região. E seriam áreas perfeitamente disponíveis para serem desapropriadas pela Prefeitura.
A Prefeitura não gastaria um tostão, porque empresas saíram, deixaram de pagar os seus impostos e, no que nós chamamos de ação de pagamento, a Prefeitura trocaria os impostos pela incorporação dos terrenos.
Estes terrenos, que são planos, inclusive, na mesma altura da rua, poderiam ser perfeitamente utilizados para remoção daquelas famílias para o local bem próximo de onde moravam. Quem conhece a Avenida Itaoca, quem conhece aquela região do entorno do Morro do Alemão sabe bem do que estou falando.
Argumentávamos também que o campo de futebol, por ter 65 anos de história, tem tradição. Dali, saíram vários jogadores de futebol. Poderia citar, por exemplo, mais recentemente, o jogador Vitinho do Flamengo, e outros tantos.
Mais do que isso, é a única área esportiva disponível para diversão e geração de oportunidade para jovens que querem praticar esporte, especialmente futebol; uma esperança para esses jovens no entorno de uma das regiões mais violentas do Rio de Janeiro, que é o Morro do Alemão. Argumentávamos ainda que esse campo fica cerca de 1,5 m abaixo do gradil da rua, da Avenida Itaoca, no caso; e qualquer construção habitacional ali exigiria que fosse feita uma elevação do gradil, do térreo do campo até o equivalente da rua. Claro, sob pena de que – como em qualquer chuva o campo já enche bastante – as casas ali instaladas também seriam alagadas.
Bom, a decisão da maioria dos vereadores foi pelo destombamento, a maioria dos quais, sem sequer ter ido ao local, sem conhecer a história e sem conhecer os argumentos que justificariam a decisão que estavam tomando. Logo a seguir, até por nossa orientação, os diretores do clube entraram na justiça, ganharam uma liminar e a Prefeitura ficou sem ter oportunidade de levar a diante o destombamento, durante determinado período.
Há uns 10 dias, a Procuradoria-Geral do Município conseguiu na justiça que a liminar fosse cancelada e é claro que restaria ao clube o nosso apoio; e entrar com recurso em outras instâncias para ganhar tempo até que alguém com bom senso verificasse que aquilo ali certamente não pode ir adiante, e se for adiante será um crime contra o clube, contra os participantes do clube, contra as muitas pessoas; especialmente jovens que se beneficiam daquela estrutura.
E certamente haveria dificuldades de implantação de qualquer projeto habitacional pelos argumentos que já utilizei aqui. Mostrando que ao contrário daquela aparência de tranquilidade, bom senso e equilíbrio que demonstra em todas as suas entrevistas, o Prefeito determinou que no dia seguinte da derrubada da liminar, máquinas da Prefeitura fossem lá e destruíssem todo o campo de futebol, destruíssem as áreas construídas que custaram dinheiro, inclusive, aos que construíram, destruindo a história de 65 anos de um clube de futebol.
E foi algo que eu tenho certeza absoluta que não seria feito com nenhum clube desses mais poderosos do Rio de Janeiro, que são, na maioria das vezes, implantados em terrenos da Prefeitura; ainda mais numa atitude como esta. Quem conhece, vai lá e vê o que resultou daquilo.
Enfim, se o entendimento fosse: “Vamos destruir e vamos iniciar imediatamente a construção das casas populares”, mas não é isso que ocorrerá. Não há sequer licitação prevendo implantação daquelas casas que o Prefeito se comprometeu a oferecer à população que mora na área de risco. Não há nenhum motivo concreto para se tomar uma atitude como aquela a não ser uma espécie de vingança. “Eu vou me vingar daqueles que votaram contra. Eu vou me vingar do clube de futebol que reagiu, que foi para as galerias defender a sua permanência. Eu vou me vingar daqueles que de uma forma ou de outra confrontaram o administrador regional, que é um, enfim, uma dessas figuras menores que querem ser maiores do que são na prática e demonstrarem ao prefeito sua fidelidade canina.”
Isso tudo é uma demonstração clara de que a Prefeitura, especialmente na figura do Prefeito, não é exatamente aquilo que, muitas vezes, se esforça para parecer. Quando tem sua imagem apresentada aos meios de comunicação, é uma figura serena, sensata, equilibrada, boazinha; que pode ser um incompetente total, um péssimo administrador, mas é uma figura boazinha.
Eu tinha essa impressão do prefeito, que não era uma pessoa do mal. Não era uma pessoa capaz de fazer maldades com ninguém, mas depois do que vi acontecer lá no Clube Everest mudou minha opinião.Acho que o Prefeito é uma pessoa vingativa. Se não é uma pessoa vingativa, ele se deixou levar por aqueles que agem dessa maneira. No final das contas, acaba sendo tudo a mesma coisa.
Com relação à questão do governo federal, o que eu gostaria de tratar rapidamente − certamente não haverá tempo, e eu respeitarei, a não ser que haja alguém inscrito a seguir – é sobre a questão da ida e vinda do Presidente da República em relação à crise do aumento de combustíveis. Numa demonstração de que a gente não está aqui apenas para fazer uma oposição radical, rasteira, vulgar, superficial, eu ontem disse que aplaudia, num certo sentido, a decisão do Presidente da República de avocar a si, como o principal representante da população – gostemos ou não – e do país, a decisão tomada pelo Presidente da Petrobras, Senhor Roberto Campos, de aumentar em 5,78% o preço dos combustíveis.
É óbvio que uma decisão como essa, baseada no argumento de estar alinhado aos preços internacionais de uma empresa estatal brasileira, cria um impacto significativo na inflação, porque do combustível deriva uma série de outros produtos; cria também uma situação de impacto na inflação, que já tem um viés de alta – a inflação do último mês foi 0,75% −, superior na média ao que vem sendo avaliado nos 24 últimos meses. Então, no meu entendimento, foi acertada a decisão do Presidente de avocar a si a decisão tomada pelo presidente da empresa, que é indicado por ele, e fazer uma avaliação técnica dos prós e contras de uma decisão como essa.
Como eu disse, uma coisa que nós precisamos avaliar – quando digo nós, são todos os políticos de direita, de esquerda, de cima, de baixo – é a atitude do chamado “deus mercado”. Com base na decisão do Presidente, como se numa sinalização a dizer o Presidente quem manda neste país, houve uma queda das ações da Petrobras de 8%, uma queda que significou uma perda de valor da empresa em R$ 32,2 bilhões, uma queda da Bolsa de Valores da ordem de 2,8% e uma crise instalada de proporções alarmantes.
É óbvio que a Petrobras, que tem milhares e milhares de acionistas, não teve esse impacto negativo por conta da grande maioria dos acionistas que sabe que as ações podem crescer e diminuir, mas que a Petrobras tem um potencial enorme de crescimento, inclusive com base nas reservas de petróleo do pré-sal. Todo o modesto investidor ou conhecedor de economia sabe que investir na Petrobras, a longo prazo, é uma grande vantagem.
Então, não foram os acionistas, os pequenos acionistas que tomaram essa decisão, foram aqueles grandes acionistas, parte deles, inclusive, internacionais, que decidem literalmente sobre a economia de um país, que impõe goela abaixo de um presidente as decisões que lhes são de interesse, que dizem claramente, através do mercado, por onde o presidente deve ou não ir.
Como resultado disso, claro, houve um corre-corre muito grande. O ministro Paulo Guedes, que é uma espécie de porta-voz do mercado... Aliás, uma coisa que me chama atenção – desculpem-me estou indo além do tempo – é que essa história do mercado... Quando a gente ouve o ministro Paulo Guedes falar, e ele é muito inteligente, é muito competente, não é à toa que estudou na Escola de Chicago. A Escola de Chicago que tem, se não me engano, 8 ou 11 prêmios Nobel de economia. Então, não se despreza a inteligência e a capacidade do senhor Paulo Guedes. Os que conhecem economia sabem por onde caminha a Escola de Chicago, sua orientação para o capitalismo em nível mundial.
Mas uma coisa que chama atenção nessa versão do capitalismo é exatamente o fato de que parece que eles não lidam com o ser humano. Parece que o ser humano, as pessoas, o cidadão, os que vão pagar o preço e as consequências do aumento dos combustíveis, por exemplo, do gás de cozinha que já ultrapassou 70%, não entra nesse jogo. O ser humano entra como um dado secundário; o que importa é o caminho que a economia vai tomar, e se não for o caminho que interessa aos grandes investidores, que normalmente não produzem um prego, um par de sapatos, uma camisa, sendo na verdade como jogadores de um cassino que investem, retiram, aplicam seus recursos e ganham volume imenso de dinheiro, gerando inclusive um capital fictício, porque o valor somado das bolsas de valores do mundo inteiro hoje supera em trilhões a soma do PIB de todos os países do mundo, o que vai criando uma bolha que em qualquer momento, mais cedo ou mais tarde, irá explodir.
Então, fica aqui minha crítica e preocupação com relação a essa hegemonia política, econômica e até cultural do capital financeiro, do tal mercado, que impõe decisões a países e que trazem custos, como eu já disse.
Mas ontem o Presidente voltou atrás e tomou decisões como liberar crédito para os caminhoneiros, R$ 2 bilhões para a construção de estradas, algumas coisas que até são boas e interessantes, mas que no fundo quem vai pagar é a população através de impostos. Bom, fica aqui então minha opinião.
Muito obrigado.