Discurso - Vereador Leonel Brizola -

Texto do Discurso

O SR. LEONEL BRIZOLA – Saúdo a turma maravilhosa que veio visitar essa Casa aqui. Parabéns pela visita! Sejam sempre muito bem-vindos!

Senhor Presidente, senhoras vereadoras, senhores vereadores, boa tarde!
A história é uma construção do presente, está sujeita as mais diversas interpretações e reinterpretações. Entretanto, em que pese essas reavaliações, episódios que ocorreram não podem ser negados ou simplesmente omitidos. Não podemos dizer, por exemplo, que o holocausto simplesmente não existiu, assim como não se pode negar que houve tortura e morte na ditadura militar de 1964 a 1985. Não tem como negar.
Os fatos documentados e comprovados estabelecem limites para as revisões históricas. Somente tempos obscurantistas, anti-intelectualistas reeditam horrores do passado com uma nova roupagem interpretativa. Mas, essa nova roupagem nada mais faz do que fundamentar a superficialidade de discursos que têm por objetivo cultivar e por em prática políticas de ódio.
O filósofo Hegel dizia que o todo é a verdade. Para entendermos nossa conjuntura, temos que analisá-la em sua totalidade. Os mesmos interesses que movimentaram a opinião pública contra Vargas, Jango e Brizola, transformando-os em pessoas odiosas, são os mesmos, apenas com atores diferentes, que disseminaram na mídia o horror a qualquer tipo de proposta de esquerda. O fio da história é implacável contra os traidores da pátria.
Há relação que liga os xingamentos nas redes sociais, ou seja, médicos indicando procedimentos, por exemplo, para matar a esposa do Lula, quando ela estava em coma – “Olha como você aperta esse nervinho e ela morre; manda para o capeta”. Não era assim, quando ela estava internada? –; a pediatra que maltratou uma menina de dois anos de idade, apenas por ser neta do Luiz Inácio Lula da Silva; a prisão do próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva; a ascensão deste picareta chamado Olavo de Carvalho, Guru do Governo Federal; a eleição do Crivella e do e os 80 tiros que soldados do Exército dispararam contra um carro onde estava uma família inteira, e acabou vitimando, de maneira covarde e assassina, mais um negro na Cidade do Rio de Janeiro.
Leon Trotsky dizia que é muito difícil fugir do espírito de uma época. A materialização do ódio se dá nessa crença de que o adversário político ou ideológico é um inimigo a ser eliminado, e não para debater. Essa é a tática que está aí. É a destruição do próximo; a difamação do próximo. Não interessa a essa gente o debate de ideias.
Estamos não oficialmente, mas na prática, legitimando a volta da famigerada Doutrina da Segurança Nacional, onde a segurança interna foi posta na repressão àqueles considerados como subversivos, depois passou para os presos comuns e depois para os pobres nas periferias e favelas.
A máxima que sintetiza esse momento é: “Bandido bom é bandido morto”. Cansamos de escutar aqui dentro desse Plenário, Vereador Fernando William e Vereador Paulo Pinheiro, presentes nesse horário. Sendo que a categoria “bandido” é acionada para legitimar o extermínio e ganhar o aplauso de boa parte da opinião pública.
As autoridades responsáveis pela gestão municipal, estadual e federal têm responsabilidade, sim, nesses assassinatos. Todo agente público tem que ter responsabilidade com o que fala. Não vou imputar aqui diretamente a eles, mas indiretamente, pelo que falam.
Não quero dizer que a culpa dos 80 tiros seja do governador Witzel – que não fez juízo de valor, embora tenha feito, e agora faz uma espécie de mea-culpa. Mas você vê que age totalmente diferente. Na chacina que teve aqui em Santa Teresa, ele logo parabenizou a Polícia, usando como justificativa um prévio resumo da Polícia Civil no fato ocorrido. Na família fuzilada por 80 tiros, também tinha o mesmo relato, sendo que de um delegado, comprovando, de fato, o que aconteceu ali. E ele se omitiu. Então, é a culpa da mensagem que passam para a sociedade. O ministro da Justiça Sérgio Moro quer aprovar um pacote anticrimes que simplesmente dá licença para matar, simples e claramente. O presidente eleito teve como uma de suas bandeiras a liberação do porte de armas. Agora, a Alerj faz essa tremenda... não consigo nem dizer o nome que isso representa, querer armar os deputados. Eu achava que a maior arma de um parlamentar era o microfone, mas pelo visto não é. O que mais vejo, Presidente, são vereadores cheios de seguranças, de polícia; não consigo entender de onde vem esse medo. Segurança de que e para quem?
Será por que estão distantes e divorciados do povo e estão com medo do próprio? Esse assassinato... Aliás, recapitulando: o presidente eleito teve como uma de suas bandeiras a liberação do porte de arma e o principal símbolo era fazer arminha, não é? É o que, de fato, representa bem esse governo.
Esse assassinato em uma covarde ação do Exército não pode ficar impune e a cultura da violência não pode triunfar sobre a democracia e os direitos humanos. Todos somos iguais perante a lei e não é um soldado da PM ou do Exército que pode julgar quem é humano e quem não é. Os direitos humanos, ao contrário do que dizem, não defendem bandido, Fernando William, pelo contrário.
Concluindo, Senhor Presidente, é um instrumento imprescindível para que não caiamos na barbárie. A morte não pode se transformar em método para alcançarmos a segurança em nossa sociedade.
Senhor Presidente, meu muito obrigado.