Discurso - Vereador Renato Cinco -

Texto do Discurso

O SR. RENATO CINCO – Obrigado, Senhor Presidente, Vereador Rocal. Senhores vereadores, senhoras vereadoras, senhores e senhoras, boa tarde.
Confesso que estou um pouco perdido aqui, porque as reuniões da equipe do meu mandato acontecem toda segunda-feira, às 14 horas. Nós reunimos a equipe, debatemos como vai ser a nossa atuação durante a semana, inclusive tiramos a orientação para os discursos que faço aqui ao longo da semana.
E quando fizemos, anteontem, a reunião da equipe e discutimos os discursos da semana, ainda não tinha acontecido a tragédia que se abateu sobre nossa cidade – a tragédia ambiental. Tragédia fruto do nosso racismo institucional, já tinha acontecido na véspera, quando uma unidade do Exército massacrou uma família com 80 tiros de fuzil na Estrada do Camboatá.
Estava avaliando que ontem eu faria o discurso sobre a tramitação do processo de impeachment do Prefeito Crivella, e hoje falaria sobre o massacre da família na Estrada do Camboatá e sobre a Marcha da Maconha. A Marcha da Maconha de 2019 – que está marcada para o dia 4 de maio, com concentração a partir de 14h20, no Jardim de Alah, com caminhada a partir de 16h20, em direção ao Arpoador – tem como slogan: Contra o abate nas favelas, legaliza, com o Supremo, com tudo. Esse slogan da Marcha da Maconha, mais uma vez, traz para a sociedade brasileira que não existe uma guerra às drogas no nosso País, que a guerra às drogas tem servido como instrumento para criminalização da pobreza, para manter fora do Estado Democrático de Direito os territórios ocupados pelas pessoas mais pobres do nosso país. É uma guerra aos pobres disfarçada de guerra às drogas e, por isso, vamos marchar pela legalização da maconha no próximo dia 4 de maio.
Mas é impossível, Senhor Presidente, senhores vereadores, senhoras vereadoras, não mudar o planejamento em função dessa tragédia que se abateu sobre a Cidade!
Em primeiro lugar, quero dizer, do fundo do meu coração, que acho que o Prefeito Crivella deve ter a humildade de reconhecer que ele não quer ser Prefeito do Rio de Janeiro e deve renunciar ao seu mandato. As entrevistas que o Prefeito Crivella deu a respeito das enchentes são claramente entrevistas de alguém que está incomodado por estar ocupando o lugar que ocupa.
Prefeito Marcelo Crivella, o povo do Rio de Janeiro não quer que o senhor continue na Prefeitura. O senhor tem, provavelmente, um dos índices de rejeição mais altos da história da nossa cidade. O povo do Rio de Janeiro pode até interpretar, neste momento, o gesto de renúncia como um gesto de grandeza, de reconhecimento. Aliás, o Presidente Jair Bolsonaro, esta semana, também reconheceu que não nasceu para ser Presidente, mas para ser militar. Também podia assumir suas convicções e seus desejos mais íntimos e seguir o rumo de voltar para casa. Também já mostrou que não tem competência nem capacidade de ser Presidente da República – mas neste momento a situação do Crivella é mais dramática. E o Prefeito Marcelo Crivella, ao renunciar, poderia ajudar a estancar este fantasma que ainda ronda a Câmara Municipal, com os corredores que não param de noticiar que haverá, sim, nova tentativa de acabar com as eleições diretas para prefeito, ainda este ano! O Prefeito Marcelo Crivella podia encerrar este golpe hoje.
Prefeito Marcelo Crivella reconhece que não quer ser prefeito da cidade, reconhece que não tem essa vocação para administrar uma cidade, ainda mais uma Cidade do tamanho do Rio de Janeiro, porque vai satisfazer o povo do Rio de Janeiro com esse gesto, e ainda pode ajudar a estancar o golpe que assombra esta Câmara Municipal. Porque caso o Prefeito Crivella renunciasse hoje, estaríamos caindo no que estabelece a Lei Orgânica, que diz que, em função do falecimento do vice-prefeito, ficaria vaga a Prefeitura e seriam convocadas novas eleições imediatamente. Agora, se o Prefeito Marcelo Crivella pretende continuar à frente da Prefeitura do Rio de Janeiro, podia começar, então, a governar.
Hoje a realidade é que uma parcela significativa da nossa população está com sua casa debaixo d’água. O drama que começou anteontem ainda não acabou! E eu não vejo e ninguém vê nas ruas desta cidade uma mobilização de servidores públicos, de máquinas, de terceirizados, na dimensão que deveria estar sendo vista diante do tamanho da tragédia. O Prefeito admitiu, em plena televisão, que não foi prudente, que não agiu de acordo com as responsabilidades do seu cargo, que não tomou as medidas necessárias para pelo menos minimizar essa tragédia. O Prefeito não apresenta para a sociedade um plano consistente, um plano condizente com o tamanho da tragédia que ainda afeta centenas de milhares de cariocas que estão na inundação.
Agora, Senhor Presidente, eu não vou me estender no ponto, mas o Prefeito Crivella não pode ser responsabilizado sozinho. Há décadas que quem determina as políticas urbanísticas da nossa cidade é a especulação imobiliária. Poucos foram os prefeitos que sequer tentaram impor os interesses da população sobre os interesses da especulação imobiliária. Há décadas também que o poder público ignora as condições geológicas e hídricas da nossa cidade. Somos uma cidade que anualmente é atingida por grandes chuvas que, se não causam o caos como a de anteontem causou, causam problemas para boa parte da nossa população que vive em territórios que inundam sem precisar da tragédia de anteontem. São décadas ignorando que nossa cidade possui três maciços com encostas que deslizam. Essas encostas são atacadas de toda maneira pela especulação imobiliária, pela derrubada de árvores, pela mudança do ambiente da cidade que, ao se transformar em metrópole, muda muito seu ambiente.
Por fim, Senhor Presidente, senhores vereadores, senhoras vereadoras, a tragédia de anteontem no Rio de Janeiro também chama a atenção para a importância de debatermos os efeitos do aquecimento global sobre a nossa cidade. Se não podemos afirmar que a chuva de anteontem é fruto do aquecimento global, podemos suspeitar disso, principalmente quando se tratou da terceira tempestade catastrófica atingindo a nossa cidade apenas este ano: uma tempestade em fevereiro, uma tempestade em março e outra tempestade em abril. Mesmo que isso não seja fruto do aquecimento global, a ciência diz claramente que uma das consequências do aquecimento global será o aumento dos eventos extremos, como o frio recorde que atingiu o hemisfério norte no último inverno; os devastadores incêndios florestais, que nunca atingiram com tanta gravidade nem a Califórnia nem a Península Ibérica; a tempestade que arrasou Moçambique; enfim, muitos são os sinais de que as mudanças climáticas vão afetar duramente a nossa cidade, e isso tem que ser objeto das nossas preocupações.
Por fim, só queria dizer “Viva!” ao povo do Rio de Janeiro, que agiu por si mesmo. No momento da tragédia, foi o povo pelo povo. Foram centenas de ações de heroísmo para resgatar vidas, mesmo por pessoas sem nenhum tipo de preparo no resgate. A Prefeitura não passou no teste, a Cidade do Rio de Janeiro não passou no teste, mas o povo do Rio de Janeiro passou no teste da solidariedade e do heroísmo.
Viva o povo carioca!