Discurso - Vereador Paulo Pinheiro -

Texto do Discurso

O SR. PAULO PINHEIRO – Senhor Presidente dos trabalhos, Vereador Rocal, senhores vereadores presentes. Espero, Vereador Rocal, que tenhamos amanhã um belo relatório da Comissão Processante, e vamos ver se esse relatório passa por Campo Grande em algum momento.
Eu queria conversar aqui. O Vereador Fernando William, na quinta-feira, falou a respeito do Hospital Pedro II, e eu queria falar, mas não a respeito do Hospital Pedro II. Eu queria falar sobre aquilo que outro dia eu até citei num momento em que me entrevistaram na televisão: eu falei que esta cidade, que esta Câmara está vivendo um momento que é o “samba do Crivella doido”. Isso pode ser exemplificado claramente pelo que vem acontecendo no Hospital, na rede de saúde.
Nós tivemos um caso posterior a outros já mais graves, na última semana, de um paciente adolescente que foi ao Hospital Pedro II no dia em que a televisão estava fazendo uma matéria. Ele foi entrevistado pela televisão, sentado num banco na porta do hospital ao lado da mãe, reclamando de falta de ar, de muito cansaço, e dizendo que foi atendido e que o mandaram embora. Vejam: um adolescente, ele foi embora para casa, mora na Baixada Fluminense, foi para casa; chegando em casa passou mal, a família levou para o UPA e ele faleceu. Que caso esse paciente tinha de tão grave que ninguém conseguiu ver no Hospital Pedro II? Mandaram ele para casa com uma receita. Pasmem, senhores: esse cidadão morreu de tuberculose. É inacreditável nos dias de hoje alguém morrer de tuberculose. Mas morre. E, no Brasil, morre muita gente.
O que aconteceu com esse paciente? Mal atendido na rede primária da Baixada, mal atendido na rede secundária e na rede terciária do Estado e da Prefeitura. Não é possível que alguém não tenha visto que esse menino estava cansado, com a respiração ofegante. Será que, com os exames feitos, o hospital continua dizendo que esse paciente não tinha indicação de internação no hospital? É um caso, dos inúmeros que acontecem sobre tuberculose, que nós não podemos aceitar. Depois, a família mostra uma receita com um medicamento que não tem nada a ver com tratamento de tuberculose; utilizaram Clavulin, inclusive, com nome errado. O profissional que escreveu ali o fez com o nome errado – não escreveu Clavulin, escreveu alguma coisa parecida com isso, que não era Clavulin. Ele não tinha nenhum tipo de informação se já tinha sido prescrita ou não a medicação para tuberculose.
Esse é mais um caso que junta o mau atendimento que a rede pública brasileira dá as pessoas que, sem culpa, acabam tendo tuberculose, como mostra como funciona mal aquele hospital em Santa Cruz. Os senhores não podem esquecer que, há alguns meses, uma gestante teve o filho no chão do térreo do hospital, ela mesma fazendo o parto com uma auxiliar de enfermagem ajudando naquele momento. Nós não temos dúvida de que o atendimento oferecido pelas Organizações Sociais na rede hospitalar é da pior qualidade. Nós estamos vendo e não é possível que, num país como este, o Rio de Janeiro é onde existe o maior número de casos de tuberculose, onde existe o maior número de mortalidade por tuberculose – Rio de Janeiro, Estado e Município.
Não é possível que a sociedade brasileira não tenha um pouco de indignação por, num país como este, nós termos a tuberculose matando pessoas. Mas também é preciso entender que a Prefeitura do Rio não pode continuar fazendo o que está fazendo. Provavelmente esse rapaz, como todos nós da cidade, dias antes de morrer, assistiu na televisão a um filme dessa propaganda ridícula que a Prefeitura vem fazendo – uma propaganda cheia de mentiras. Ele deve ter assistido e outras pessoas como nós assistimos, uma propaganda do Governo Crivella dizendo que agora, na saúde, acabou a brincadeira com as OSs, que aquelas que não saíram eles vão acabar tirando. O que eu acho ótimo, parabenizo a Prefeitura se pensar assim. E mostra um filminho, que aparece dizendo o seguinte: agora, quem vai gerenciar esses hospitais que eram por OS é a Rio Saúde, como já está fazendo no Hospital Rocha Faria e no Hospital Ronaldo Gazolla, em Acari. E mostra o terceiro hospital: aparece um filme mostrando a Prefeitura tomando a administração do Hospital Pedro II da OS SPDM e entregando a gestão para a Rio Saúde.
Eu lembro até que o Vereador Leandro Lyra estava fazendo um levantamento muito bem feito sobre os gastos da Prefeitura e chamava atenção sobre o Hospital Pedro II, que ele ainda falava que era gestão quando todo mundo sabia que era gestão da Rio Saúde. A propaganda disse isso, Vereador, só que, por motivos não conhecidos, a Secretaria de Saúde resolveu suspender o que tinha feito. O que ela tinha feito? Mandou a OS entregar aviso prévio a todos os funcionários. Mais de 1.500 funcionários já tinham, há uma semana, recebido o aviso prévio, iam ser demitidos para que fossem substituídos pela Rio Saúde. Voltou atrás, sem nenhuma explicação maior, com uma explicação que não cabe.
A explicação que eles deram para suspender o contrato da Rio Saúde é quase a mesma que eles dizem que não é impressão digital do Crivella no impeachment. É quase a mesma que dizer que não há responsabilidade do Crivella na CPI do SisReg. É quase a mesma que eles mostram que não há responsabilidade do Prefeito na CPI da Comlurb, quando o Prefeito aparece na Estácio de Sá com os adesivos de seu filho. Eles dizem o seguinte: não há dinheiro na Prefeitura para pagar as rescisões de contrato das outras OSs – Viva Rio e IABAS –, então eles estavam retirando a Rio Saúde da gestão do Pedro II e recolocando a OS SPDM.
Mas qual é o problema disso? É porque ele, há uma semana, divulgou no Diário Oficial o levantamento que eles fizeram sobre o trabalho das OSs – e apresentou o trabalho dessa organização social (OS) como péssimo.
Vários e vários itens que eles apresentam, numa avaliação da própria Prefeitura, mostrando que essa empresa não tem condições mais de atender naquele hospital. Ou seja, eles dizem que a empresa não serve, tiram a empresa, botam a RioSaúde. De repente, retiram a RioSaúde e devolvem à empresa, sendo que num problema maior ainda, recolocam a empresa pagando um valor contratual maior do que vigia antes. A empresa, antes de ser retirada, recebia R$ 11 milhões por mês; agora passa a receber R$ 14 milhões por mês, ou seja, é absoluto “samba do Crivella doido”. Não tenho dúvida! Ou seja, tudo absolutamente confuso, tudo sem explicação.
Faz uma propaganda, eles mesmos classificam a propaganda como mentirosa, porque ela acabou não sendo mais real, e eles se esqueceram de tirar do ar antes de fazer a mudança. Esse hospital, como outros da cidade, como outras unidades, vem sendo absolutamente destruído por esta administração terceirizada por Organizações Sociais. Está claro, não há mais dúvida sobre isso!
O que me preocupa, Senhor Presidente, é este clima que toma conta aqui, pelo menos da Câmara, de que é possível dizer às pessoas aquilo que nos interessa. É possível dizer que o Prefeito aparece numa festa na Escola de Samba Estácio de Sá, que os motoristas da Comlurb trouxeram caminhões e caminhões de pessoas para participar dessa reunião eleitoral e, no final, a CPI diz que não conseguiu ver culpa do Prefeito nisso.
Eu sei que o Prefeito é muito querido por muitos vereadores – é verdade. E a gente respeita a opinião. Agora, o que não pode é tentar idiotizar a população, não pode a gente estar neste caso. Não há dúvida alguma de que a Prefeitura cometeu um grave equívoco ao colocar a RioSaúde no Hospital Pedro II e retirar, para colocar de volta a mesma OS, que ela mesma diz que não funciona bem. E o que chama a minha atenção é que não existem argumentos, hoje, entre aqueles que acham que o Prefeito tem razão, esses argumentos não aparecem.
Portanto, é preocupante, porque nós não trabalhamos apenas dentro dessa sala aqui deste Plenário. O que nós discutimos, as nossas opiniões, as nossas condutas, a nossa coerência, ela é avaliada lá fora – por todos! E é estranha a maneira como algumas pessoas aqui na Casa tem se portado. A sensação, muitas vezes, é que o sujeito entra na estrada errada, sai para estrada que ele acha que é certa, depois volta para estrada que ele achava que era errada, e agora está certa – e isso tem um preço, Senhor Presidente, isso tem um preço muito grande.
A nossa preocupação é que esta Casa não pode ser mais uma vez desmoralizada. Eu espero que os ares que estamos respirando sejam de melhor qualidade nos próximos dias.
Muito obrigado.