Discurso - Vereador Leonel Brizola -

Texto do Discurso

O SR. LEONEL BRIZOLA – Obrigado, Presidenta.
Senhoras e senhores vereadores, mais uma vez presenciamos, no estado e na cidade do Rio de Janeiro, ações covardes daqueles que têm a responsabilidade de cuidar da segurança do povo do Rio de Janeiro, mas que infelizmente fazem o contrário. O mais grave ainda é contar não só com o apoio, mas com a participação do próprio Governador do Estado. Eu acho que só existe um paralelo da filmagem do Governador Wilson Witzel no helicóptero atirando a esmo na cidade de Angra dos Reis, com aquela famosa foto do jornalista do Jornal do Brasil na estrada Grajaú-Jacarepaguá, em que ele ali estava e ouviu um burburinho, tirando aquela foto premiada que tinha vários negros acorrentados por uma corda como se estivessem no tempo da escravidão. Talvez só com essa foto eu consiga um parâmetro e tente entender essa ação fascista desse Governador.
Senhoras e senhores, é estarrecedor que, depois de atirar na população pobre, o Governador vá se hospedar no Hotel Fasano, um hotel de luxo, onde a menor diária custa R$ 1.600, senhoras e senhores vereadores. Quer dizer, atira em pobre e, depois, comemora com champanhe em um hotel de luxo. Os responsáveis pela condução da política têm que ter responsabilidade com suas falas e seus atos, pois suas falas e seus atos podem legitimar a barbárie.
Dias depois, dois dias exatamente, na Vila do João, na Maré, um helicóptero saiu atirando a esmo na população. Ver as crianças saírem correndo da escola e o helicóptero atirando de cima foi uma das cenas mais repugnantes, canalhas e calhordas que nós assistimos na Cidade do Rio de Janeiro. Eu não tenho outra visão igual. Não consigo imaginar tamanha barbárie.
Agora, uma pergunta se faz necessária neste momento a todos aqueles que, inclusive, trabalham com segurança pública. A eles, eu tenho uma questão. Quer dizer, precisou atirar de helicóptero no condomínio de luxo, onde, inclusive, o Presidente mora e em que acharam 117 fuzis na casa do vizinho dele? Precisou fazer isso ou a polícia usou a inteligência para descobrir essa coleção macabra de armamento? Por que em condomínios de luxo usa-se a inteligência e na favela a botinada e o fuzil?
A explicação é que a extrema direita tem ódio aos negros, tem ódio aos pobres e aos homossexuais. Falar em direitos humanos e denunciar essa prática de guerra e terrorista no Rio de Janeiro é fundamental para a mobilização. Vereador Messina, poderia falar só um pouquinho mais baixo que Vossa Excelência está me atrapalhando? É fundamental para a mobilização de todos aqueles que defendem a democracia. O direito à moradia, o direito ao lazer, o direito à educação, à cultura e, principalmente, o direito à vida são inegociáveis e inalienáveis.
A eficiência das políticas públicas na área de segurança não é medida pela quantidade de cadáveres apresentados, mas sim pela quantidade de cadáveres que são evitados. E aqui cabe um dado estarrecedor no nosso país: a polícia mata por ano em nosso país quase 6.000 brasileiros. Quase 6.000 por ano. É a que mais morre também, Paulo Pinheiro. Mais de 1.000 policiais ao ano. Ora, a polícia como braço armado do estado deve ser entendida uma prestadora de serviço à comunidade, que pode usar a força em situações específicas. E não venham aqui os defensores do extermínio dizer que nós defendemos bandidos. O que defendemos aqui é o mesmo tratamento que a polícia dá aos moradores da Zona Sul e não dá aos moradores da favela. Ou seja, na Avenida Atlântica vale um direito, na favela não vale nenhum. É esse o tratamento que nós queremos; a igualdade desse tratamento.
O ex-governador Leonel Brizola dizia que a morte não pode ser um método policial. Está correto. Só que, infelizmente, é o que está consagrado hoje nas práticas e nos discursos tanto do governo federal quanto do governo estadual. Onde está o Ministério Público? Cadê o Ministério Público? Aliás, e a Procuradoria-Geral da República, cadê? E o Ministério da Justiça, onde está?
Aliás, o silêncio do Sérgio Moro é muito revelador, Vereador Reimont, muito revelador. O seu pacote anticrime legitima essa prática de terror que vimos, assistimos no Rio de Janeiro. E, concluindo, a lógica beligerante da política nacional e estadual só vai trazer mais confrontos. Olha o Rio de Janeiro, é confronto todo dia. Matam-se oito hoje; matam-se nove amanhã; matam-se 17 no dia seguinte. Insisto: essa política leva a mais insegurança e a mais mortes. Insisto: foi uma ação covarde. É hora de a esquerda acordar. Ou nos unimos agora, todos os partidos de esquerda – PDT, PT, PSB, PCdoB, PSOL –, ou nós vamos ser massacrados. O que está em jogo é a democracia. Não precisamos de sectarismo. E muito menos, muito menos, senhoras e senhores, de crise freudiana, muito menos. Devemos nos unir agora, ter o amadurecimento. O que está em jogo são a democracia e a vida humana; ou isso aqui vai se transformar numa barbárie.
Muito obrigado.