Discurso - Vereador Fernando William -

Texto do Discurso

O SR. FERNANDO WILLIAM – Senhora Presidente, senhores vereadores, ouvi a fala do Vereador Babá, por quem tenho profundo respeito, carinho e admiração, e ele, como fez uma citação ao PDT, não cabe a mim, é claro, entrar na discussão interna de outro partido – o que me cabe é respeitá-la –, mas a discussão que o Vereador Babá trouxe é muitíssimo importante. Num certo sentido, ela revela uma certa crise que a esquerda enfrenta no país hoje, uma crise meio que de identidade: quem nós somos e para onde vamos.
Devo dizer, de antemão, que o Deputado Marcelo Freixo, por quem também tenho profundo respeito e admiração, procurou a direção do PDT, não para nada que não fosse debater a eleição, discutir a eleição, as possibilidades eventuais de aliança, ouvir o presidente do nosso partido, aqui no Estado do Rio de Janeiro, saber qual a posição do nosso partido em relação à questão do estado, à questão nacional. Nós, do PDT, vimos essa busca do debate como algo extremamente positivo.
Concordo com algumas considerações que foram feitas pelo Vereador Babá, não no sentido de que um partido pode se contaminar ao praticar alianças, muito pelo contrário, as alianças na política são feitas para que o partido chegue ao poder, para que o partido tenha oportunidade de governar, para que o partido busque colocar em prática suas proposições. Aliás, a essência do partido político é a busca do poder. Um partido político que existe pura e simplesmente para fazer denúncias das coisas que considera erradas, graves, que não deveriam ser feitas, tem lá sua importância, certamente, e é um partido crítico, mas que, na minha opinião, vai se manter como o PCO, que propõe aliança, ou como é o PSTU, que propõe aliança, que, na verdade – desculpem dizer dessa forma, pois tenho profundo respeito por esses companheiros e acho que deveriam estar mais inseridos na política nacional –, não têm uma representação em nível nacional, em nível municipal e estadual. Ficam parecendo aqueles evangélicos radicais que ficam nas praças públicas pregando, pregando, pregando, pregando para o vazio.
Então, ao contrário da posição do Vereador Babá – não sei como funciona a estrutura interna do PSOL, nem me interessa, isso é algo que compete a esse partido –, vejo como extremamente positiva essa busca do contato, essa busca do diálogo, do entendimento. Penso que a gente, inclusive, deveria aproveitar a oportunidade para reunir todas as forças políticas que pensam de forma humanista, que pensam o ser humano como base, essência de toda nossa atividade – não só atividade humana, mas como atividade política, fundamentalmente. Nós deveríamos reunir esse campo, sim. Aliás, fazer uma autocrítica, coisa que a gente tem o mau hábito de não fazer, tentar reconhecer os erros que cometemos.
Eu, por exemplo, concordo com muitas críticas que foram feitas aqui pelo Vereador Babá ao PT e já disse isso aqui em outras oportunidades. Um dos grandes problemas na relação com o PT é que não vejo o PT fazer algo que não custa nada. Todos nós erramos, não é? Quem se acha puro, quem se acha divino... Às vezes acho que essa divindade, essa autodivindade, tem de ser uma marca, mas esse é um comportamento também da extrema-direita. A extrema-direita acha que eles foram, por uma luz divina... Então, eu dizia que essa imagem de autopureza, autodivindade, é algo que tem a marca da extrema-direita também.
Aliás, o professor Darcy, ao se referir ao PT, lá no início, ele dizia que era uma espécie de UDN de macacão, porque tinha um discurso muito semelhante ao que a gente ouviu aqui do nosso querido Vereador Babá.
A UDN era um partido conservador, um partido de direita, cuja essência era a defesa da moral, dos bons costumes, da luta contra a corrupção. Da UDN, vieram figuras como Sarney, Antônio Carlos Magalhães e tantas outras que terminaram, ou estão terminando, da forma que nós assistimos aí. Carlos Lacerda, por exemplo, que era um dos maiores expoentes da UDN, terminou como um dos donos do Banco Boavista, por exemplo.
Então, é certo que o Governo Lula cometeu muitos erros, alguns, aliás, apontados aqui pelo Vereador Babá; mas cometeu também muitos acertos. No somatório de erros e acertos, talvez tenha cometido mais acertos do que erros, tanto que terminou com 80% de aprovação – ótimo e bom. Se não me engano, 9% de regular, e o restante entre aqueles que não sabiam ou que achavam o governo ruim.
É um governo que, se a gente listar aqui o conjunto de ações que foram realizadas pelo PT na época do Lula, foram muitas; inclusive, no próprio início do Governo Dilma. Talvez o grande erro do PT tenha sido não ter o cuidado necessário com os desvios de recursos públicos, que, num primeiro momento, eram justificados para o caixa 2 de campanhas e foi evoluindo, evoluindo e acabou se transformando nisso que nós assistimos; e este foi o mote para a direita acabar elegendo o atual presidente, com toda a tragédia que está se impondo ao país, por conta dessa eleição.
Então, este foi um erro. Muitos foram cometidos. Autocríticas precisam ser feitas, mas isso não significa, naturalmente, afastar o partido como um todo. É possível que ainda exista no PT, se eles não aprendem nada com a história, alguns que poderiam voltar a cometer os erros que cometeram no passado. Mas eu, pessoalmente, acredito que devam ter aprendido.
Da mesma maneira, no próprio PDT, tiveram muitos erros, e têm muitos erros ainda hoje. Eu procuro estar no partido criticando. Não trago para fora do partido, porque acho que lavar roupa suja a gente lava em casa, fundamentalmente. Mas as críticas são feitas. Aliás, fazia desde o tempo do Brizola. Eu era um dos poucos que, quando via coisas erradas, como, por exemplo, o Brizola manifestando apoio ao Collor, eu ia lá e dizia: “Com isso, eu não concordo. Não há acordo nesse tipo de relação”.
Então, eu faço aqui esses comentários, porque eu vejo, nesse tipo de fala do Vereador Babá, algo extremamente perigoso para o PSOL. Não é para o PDT, é para o PSOL; porque esse tipo de discurso parte do pressuposto de que não se chegará ao poder. Porque, se chegar ao poder, mesmo no presidencialismo... Nós estamos assistindo a isso neste momento, a partir da relação entre o Legislativo e o Executivo. O responsável pelo Executivo governa sem participação, sem a maioria no Legislativo.
Então, não se limpa a carvoaria sem entrar na carvoaria. Tem que entrar na carvoaria para poder tentar limpar. E ninguém entra na carvoaria de branco e sai purinho, arrumadinho. Alguns chamuscos de cinza acabam acontecendo.
E quanto a essa postura do meu companheiro Babá – volto dizer, por quem tenho profunda admiração –, quando ele coloca as coisas da forma que coloca, o que acontece é que, quando chega a eleição, uma parte da sociedade pensa assim: bom, se votarmos no Freixo, que vai se isolar e se inviabilizar, vai criar toda uma série de dificuldades para governar. Então, eu vou votar em outro candidato.
Eu vi muito isso na eleição do Crivella com o Freixo, vou votar em outro candidato, em quem eu até nem acredito, não concordo, tenho profundas divergências. É o que fica como opção. Nós vimos isso, agora, na eleição do Bolsonaro e isso é extremamente trágico.
Eu acho que a gente precisa encontrar os caminhos daquilo que nos une, que certamente há muitos pontos de vistas que unem a nossa atuação; em relação à própria questão da previdência; ao corte de verbas da pré-educação; a uma série de outras medidas que vêm sendo anunciadas; ao pacote do Ministro da Justiça, que chega a ser trágico, pois estimula ações como, por exemplo, a que foi dita pelo próprio Vereador Babá, sobre esse cidadão que governa o Estado do Rio de Janeiro, hoje, o Senhor Witzel; que apareceu como um palhaço num helicóptero, incentivando que atirassem de qualquer maneira.
Ontem, inclusive, vimos um episódio semelhante na Maré e depoimentos de professores que protegiam as crianças, dizendo que não há nenhuma ação coordenada para atingir de forma específica e planejada o bandido, como eles costumam dizer. Ao contrário, houve tiros que foram direcionados à própria escola na Maré e aparece lá o Governador como um palhaço, dentro de um helicóptero, se manifestando de forma que seu único objetivo é tentar passar para esse segmento conservador da nossa sociedade que ele está matando todos os bandidos; que vai matar todos e acabar com a violência dessa maneira. Claro, doce ilusão, grande bobagem.
Hoje eu trabalho em prol da unidade de todas as forças políticas. Eu acho que essa é uma unidade dialética, é uma unidade móvel, é uma unidade onde nos unimos, onde os pontos são comuns. Onde não são comuns, nós vamos debater as divergências. Se pudermos chegar a um consenso, melhor. Se não pudermos, vamos tentar ultrapassá-las de outra forma. Claro, existem alguns princípios sobre os quais nós não podemos abrir mão. Uma é a questão ética, a conduta ética, a questão moral, e disso a gente não pode abrir mão.
E a outra, é claro, são as alianças que eventualmente pudermos fazer, que poderiam dar continuidade a esse modelo que aí está, de fazer com que o Estado sirva aos interesses do grande capital, especialmente do capital financeiro, contrariando os interesses da grande maioria da população. Nisso não há negociação, mas eu creio que certamente não é o que defende o PDT, nem o que defende o PSOL, nem o que defende o PT, o PSB, o PC do B; não é nenhum desses partidos.
Então, fica aqui a minha manifestação de apoio a todos aqueles que, indistintamente, estão nesse momento buscando dialogar, encontrar fórmulas de unir as forcas políticas que pensam diferentemente daqueles que estão no governo. Se não para enfrentá-los, se não para combatê-los, se não para derrotá-los politicamente, no viés democrático, no campo da luta democrática, pelo menos para reduzir os danos que essa política que vem sendo implementada no Brasil pode impor ao nosso povo. Muito obrigado.