Discurso - Vereador Fernando William -

Texto do Discurso

O SR. FERNANDO WILLIAM – Bem, quero cumprimentar a Vereadora Tânia Bastos, cumprimentar os vereadores presentes, senhoras e senhores.

Bom, um dos assuntos que me trazem, hoje, aqui, é um episódio que ocorreu de anteontem para ontem, na Maré, mais especificamente na Nova Holanda, e que nos leva a fazer uma reflexão sobre o momento político que nós estamos atravessando, sobre os discursos de solução de problemas de violência que nós estamos assistindo.

Bom, o que soubemos pelos meios de comunicação é que houve uma ação policial na comunidade. E desta ação policial, resultou a morte de cinco pessoas, entre as quais pelo menos uma delas era um professor de Educação Física que estava passeando com o seu cachorro; uma senhora – tudo leva a crer – que não tinha nenhum envolvimento com o tráfico e outras três pessoas – não há informações ainda se eram ou não do tráfico, talvez muito provavelmente fossem. Além das cinco mortes, tivemos 10 pessoas feridas, entre as quais um jovem adolescente de 14 anos que também – tudo leva a crer – nada tinha a ver com a criminalidade.

O que me traz aqui, então, é tentar fazer uma reflexão sobre o discurso que saiu vitorioso da eleição presidencial. Aliás, tive a oportunidade de acompanhar os votos da Zonal 160, que é exatamente a Zonal da Maré. Lá, no primeiro turno, o Juiz Wilson Witzel ganhou, tendo 50 mil votos aproximadamente; e o Eduardo, que chegou com ele ao segundo turno, teve em torno de 29 mil votos. No segundo turno, o Witzel permaneceu basicamente com os votos que havia tido no primeiro turno; e o Eduardo chegou perto, com 49 mil votos aproximadamente, perdendo por cerca de mil votos.

De uma forma ou de outra, a Comunidade da Maré, constituída certamente em sua grande maioria por pessoas de bem, votou a favor do Juiz Wilson Witzel que, desde que venceu as eleições até hoje, tem falado muito pouco sobre os temas fundamentais que o estado enfrenta. Por exemplo, todos nós sabemos a crise financeira enorme pela qual o estado passa, e eu não ouvi, até o momento, nenhuma proposta efetiva, como, por exemplo, a renegociação da dívida do estado com a União, que chega próximo de 220% das receitas líquidas do Tesouro estadual; o próprio pacto federativo que possibilitou a crise e que tem prazo de duração de dois anos. E a partir de dois anos, o estado fica carente no pagamento de suas dívidas, tendo que pagar não só com os juros anteriores, mas também acrescidos dos valores nesses três anos que não foram pagos.

Não se sabe se ele vai ou não vai privatizar a Cedae. Enfim, o que vai ser feito, efetivamente, para tirar o estado da crise econômica, o que vai ser feito para tirar o estado da situação de um dos piores estados em termos de avaliação do ensino médio, que é uma responsabilidade do estado; portanto, uma questão fundamental na área de educação, que vai, por exemplo, possibilitar que os dois hospitais que foram assumidos pelo município, o Rocha Faria e o Albert Schweitzer, sejam restituídos ao estado.

Enfim, a gente não ouve nenhuma dessas falas, mas ouve todos os dias que vai a Israel buscar o drone que não só identifica os eventuais marginais, mas é capaz de o próprio drone atirar. Enfim, vai possibilitar que a Polícia, suspeitando e identificando o marginal armado, autorize que ele seja abatido, usando esse discurso, que é um discurso que a grande maioria da população votou nele. Não foi por outro motivo que ele venceu a eleição, saindo praticamente do zero para 41% no 1º turno. Ele sabe disso, sabe de que maneira os meios de comunicação e os meios virtuais foram utilizados.

Às vezes, nós achamos que as pessoas que moram nas favelas, nas comunidades, têm uma visão contrária à ocupação policial, muito pelo contrário. Por exemplo, quando as UPPs funcionavam minimamente, Sérgio Cabral, que foi o governador responsável pela implantação delas, tinha uma votação extremamente importante nas comunidades, tanto que ganhou o segundo mandato, no 1º turno, com ampla maioria nas comunidades mais pobres.

O morador da comunidade vê na atuação da marginalidade um risco para a vida dos seus filhos e filhas, um risco de confronto entre quadrilhas e de quadrilhas e policiais, resultando no que aconteceu ontem, na morte de uma séria de pessoas. Eu acho que um governante responsável, primeiro, não deve ficar anunciando o que vai fazer; segundo, é óbvio que ele tem que ter todas as preocupações de prevenir vidas de pessoas inocentes nas comunidades.

Eu trabalhei na Nova Holanda durante vários anos da minha vida e cansei de ver – não foi uma nem duas nem três vezes – crianças, por exemplo, de dois anos, serem mortas em confrontos entre policiais e bandidos. Aliás, a última das pessoas eu vi morrer na porta do posto de saúde onde eu trabalhava. Era o pai de uma criança que estava no Ciep Elis Regina.

Como o conflito estava se estendendo por um prazo muito longo, ele, preocupado com a saída do filho, com a possibilidade de o filho ficar no fogo cruzado, pegou a bicicleta e foi tentar proteger o filho. Indo para o Ciep Elis Regina, ele acabou sendo baleado na cabeça e morreu na porta, literalmente, do posto de saúde. Claro que essas pessoas têm uma preocupação enorme com a violência. Muitas vezes, isso as leva a votar em uma pessoa que pensa como um juiz para depois pagarem o preço elevado de um incentivo sem precedentes à violência nas comunidades.

Eu preciso afirmar de antemão que não tenho nenhum compromisso. Nós sabemos que grande parte dos marginais é consequência da crise social, moral e ética que a sociedade vive e muitas vezes não lhes resta alternativa que não seja o caminho de tráfico. Não estou tentando justificar, estou explicando.

Eu diria hoje que, se o tráfico matar 100 jovens na comunidade, imediatamente o tráfico terá 100 pessoas do exército industrial do tráfico para ocupar o lugar. Nas comunidades, principalmente nessa faixa etária de 16 a 30 anos de idade, os jovens não estudam nem trabalham, estão à mercê do crime, sem renda, sem a possibilidade de comprar qualquer coisa que lhes seja colocada como um bem necessário ou que vai torná-los de alguma forma mais felizes. O caminho que eles vislumbram é a possibilidade de atuação no tráfico. Isso é uma explicação, não é uma justificativa. O que nós gostaríamos é que houvesse políticas públicas, políticas sociais voltadas especificamente a esses jovens.

Eu já disse aqui que, quando fui Secretário de Ação Social, nós fizemos um projeto chamado Jovens Pela Paz e outro chamado Amigos da Comunidade. Nesses dois projetos, havia 12 mil jovens voltados para a cultura da paz, da solidariedade, do atendimento a outras famílias em situação de vulnerabilidade. Quem tiver dúvida, recorra ao Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro ou recorra, por exemplo, ao Disque-Denúncia, no qual verificará que, com esses 12 mil jovens que ganhavam meio salário-mínimo, trabalhando em atividades culturais, em atividades de solidariedade, de busca ativa de pessoas em situação de necessidade, para recomendá-la às Casas da Paz, que nós instalamos nos grandes complexos do Rio de Janeiro, nós reduzimos. Foi o período em que tivemos os menores índices de violência nas comunidades.

Eu quero deixar claro que... Até temos um colega nosso, o Vereador Cláudio Castro, que é uma pessoa por quem a gente tem o maior carinho e respeito... Sabemos que não é uma pessoa violenta nem uma pessoa que está estimulando esse tipo de comportamento, mas que poderia dar um toque, pelo menos, nesse juiz, para que ele entendesse um pouco melhor o que é a realidade das nossas comunidades e parasse de fazer esse discurso.

Esse discurso é motivador, é incentivador. É um discurso que faz com que em uma parcela da Polícia – não é toda, claro – seja colocada, por exemplo, a política do laissez-faire. Agora pode tudo. Se pode tudo, agora, eu posso entrar na comunidade – como foi o caso – às 23 horas, e ficar a noite inteira lá, dando tiro para todo lado. Isso resultou no ferimento de 10 pessoas, muitas das quais nós não sabemos se são ou não bandidos; na morte de uma mulher, certamente uma pessoa inocente; na morte de um professor de Educação Física, que era inocente; e no ferimento grave de um jovem de 14 anos.

É uma comunidade com que eu tenho uma ligação muito forte, onde fui médico, onde trabalhei durante boa parte da minha vida. É uma comunidade pela qual tenho um sentimento muito forte.

Eu penso assim: a Polícia tem que agir com firmeza, não tem que passar a mão na cabeça de malandro, de bandido. Quem optou pela vida do crime sabe que tem que pagar as consequências disso, mas é óbvio que tem que haver inteligência, ações preventivas e cuidados necessários, para que não se repitam ações como aquela, em que a população acaba pagando um preço extremamente elevado.

Ninguém vive em uma comunidade porque gosta, porque quer. Vive porque não tem alternativa. Se tivesse alternativa, não viveria em uma situação como aquela. Era isso o que eu gostaria de dizer.

Muito obrigado.