Discurso - Vereador Leonel Brizola -

Texto do Discurso

O SR. LEONEL BRIZOLA – Obrigado, Presidenta.
Quero parabenizar os discursos dos Vereadores Fernando William, Renato Cinco e Babá, em contraponto à posição política do Vereador do Partido Novo, Leandro Lyra. Aliás, esse Partido Novo já nasce mais velho do que a República Velha.
Comentando o escárnio que foi domingo, fazendo uma análise, de fato, teve muita adesão da população. O que houve, de fato, foram as câmeras de televisão apontadas de maneira estratégica, parecendo que havia centenas. Na verdade, quem estava ali, como foi muito bem relatado aqui, tanto pelo Babá, pelo Renato Cinco e pelo Fernando William, era uma elite branca oriunda do engenho.
Agora, vamos ao fato. Aquela população que saiu à rua, Babá – e que foi muito pouca – dá uma demonstração ao Presidente da seguinte questão: que ele não pode fazer tudo o que pensa. As pessoas foram comemorar o quê? Os 20 campos de futebol desmatados, por hora, na Amazônia? Sabe quanto dá, por mês, de desmate na Amazônia atualmente? Mais de 15 mil campos de futebol por mês desmatados na Amazônia. E esse cálculo é para o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O Ministro do Meio Ambiente diz que o Inpe não sabe fazer pesquisa. Foram comemorar o quê? Os R$ 7 bilhões de corte da educação pública, da escola do povo? Comemorar o quê, Senhora Presidenta? Os 61 milhões de desempregados e desalentados sem rumo nem futuro? Comemorar o quê? A venda do nosso patrimônio da Petrobras e da Eletrobrás? Sem Petrobras não há desenvolvimento nacional. Comemorar o quê? O aumento da miséria e da fome? Com as famílias cozinhando com carvão porque não têm dinheiro para comprar o gás? Comemorar o quê? A entrega das nossas terras para empresas estrangeiras? Não só as terras, como a água. Comemorar o quê? A extinção de um programa revolucionário de medicina que se chamava Mais Médicos e que atendia milhões e milhões de brasileiros? Aliás, eu vou fazer minha fala amanhã, às 15h40, sobre o programa Mais Médicos e o que, de fato, estava por trás disso, inclusive com falas de vereadores aqui, falas equivocadas e falas canalhas.
Comemorar o quê? Os trilhões de perdão de dívidas das petrolíferas estrangeiras? Quem não se lembra da Chevron aqui na nossa costa, que esta Casa aqui, equivocadamente, não votou considerando a Chevron persona non grata? Os executivos andaram até aqui por dentro desta Casa, cheios de malinhas. Os executivos da Chevron andaram aqui por dentro. Comemorar mais o quê? O perdão da dívida dos ruralistas pago com dinheiro do Fundo de Proteção ao Meio Ambiente? A destruição das leis trabalhistas e, principalmente, a destruição das normas de segurança de trabalho? Não era essa a grande revolução para melhorar o trabalho? Era preciso fazer a reforma trabalhista que impedia o empresário de dar mais emprego? Olha o que está acontecendo com o carioca: de manhã ele vende quentinha; de tarde, o mesmo carro em que ele vende a quentinha, ele usa como Uber; na madrugada, ele recolhe patinete elétrico das multinacionais, que pagam R$ 7 para cada patinete elétrico carregado, para poder sobreviver. Isso é o quê? A precarização total do trabalho.
Vamos aplaudir o quê? A entrega de uma base inteira para os Estados Unidos em solo brasileiro? Onde é que está o patriotismo que eles tanto evocam? Que bandeira é essa que eles flamulam na rua, que é a entrega total do nosso patrimônio e a destruição da família brasileira? Comemorar o quê? A liberação das armas no país que mais mata, onde sua polícia além de ser a que mais mata no mundo, é a que mais morre? Eu chego a ficar aqui de boca aberta com os discursos de alguns vereadores, dizendo que isso vai aumentar a segurança. Se um policial, capacitado, que tem a sua arma, morre, é assaltado, você imagina com o cidadão comum o que vai acontecer. Imagina você armar advogados e caminhoneiros, vereadores – estou esperando o bangue-bangue aqui dentro, estou pensando até em comprar uma arma, Vereador Alexandre Isquierdo. Aí, com esse pacote do Moro, se matei alguém aqui dentro por forte emoção, não vou receber culpa alguma; foi forte emoção. Ou se Vossa Excelência, em uma discussão acalorada, saca o revólver e mata alguém. Está aliviado. Forte emoção, Vereador. Você não vai responder por homicídio.
Comemorar o quê? O aumento da concentração das terras? A criminalização dos movimentos que lutam por reforma agrária? E aí cabe um parênteses, que eu gostaria de debater uma hora nesta Casa, sobre a verdadeira reforma agrária do presidente João Goulart, apeado do poder por essa mesma turma revanchista de 64. A reforma agrária de Jango era uma reforma capitalista, 10 km da BR-101. Qual era o grande objetivo dessa reforma agrária, além de distribuir campo e renda? Não era tirar a propriedade de quem tem, pelo contrário, era justamente para desenvolver o país, porque 10 km da BR-101, você leva a eletrificação. Só que, através da eletrificação, não é só eletrificação. Através da eletricidade você tem a televisão, você tem o rádio, a geladeira, a máquina de lavar, o ferro de passar roupas. Isso é indústria nacional, isso é desenvolvimento da nossa indústria, isso é distribuição de renda, isso é crescimento econômico para o país.
Vamos comemorar o aumento do veneno de agrotóxico no prato da comida do povo brasileiro, gerando câncer, doença, produtos esses proibidos na maioria dos países desenvolvidos, mas aqui, aqui tem a sua acolhida – mais veneno!
Agora, vereadores, vocês gostam de comer arrozinho orgânico, não gostam? Sem veneno! Pois saibam que o MST, esse movimento que vocês chamam de terrorista, é o maior produtor de arroz orgânico da America Latina!
Estamos terminando.
Comemorar mais o quê? A destruição da pesquisa científica e a formação de novos cientistas sem tecnologia, sem investimento nas universidades? Não há desenvolvimento nacional, não há emprego, o que há é uma “uberização” do trabalho. É o que a gente vê na Cidade do Rio de Janeiro hoje em dia. Os trabalhadores da Baixada Fluminense dormem no centro da cidade para serem entregadores do iFood, com bicicleta alugada do banco Itaú, patrocinador do vereador que gosta de falar da reforma e punir os mais idosos e, principalmente, os mais pobres. Eu gostaria até de perguntar para o Vereador se ele conhece alguma favela no Rio de Janeiro ou se ele, algum dia, subiu alguma favela. Tenho dúvidas, porque eu acho que ele não conhece sequer o nome dos garçons que servem café a ele todo dia aqui.
Ora, comemorar o aumento do racismo, da intolerância, da homofobia, do aumento da violência contra as mulheres e das crianças? Ora, não há nada o que comemorar! Estamos diante de um governo com um pensamento obscuro e medieval. O que está em risco neste país é a democracia. Ou unimos todos aqueles que ainda acreditam na democracia ou nós seremos dragados por esse autoritarismo que começa a colocar as manguinhas de fora.
As placas de manifestação eram placas autoritárias, antidemocráticas e de setores privilegiados da economia há 500 anos no nosso país. Eu desafio qualquer defensor dessa nefasta reforma da previdência que me aponte quem são os privilegiados que vão perder o seu assento? Vejam, 80% da reforma vão atingir quem ganha dois, três salários mínimos.
E essa questão de idade mínima, eu começo a questionar. Pergunta lá para o velho da Havan quantos funcionários ele tem com 50 anos de idade! Quantos, Vereador Leandro Lyra, o senhor tem no seu gabinete com 50 anos de idade? Zero! Nenhum! Então, que conta matemática é esta, se o jovem começa a só ter estabilidade no emprego com 28 anos de idade e aos 50 não encontra mais emprego, como é que ele vai contribuir por 40 anos?
Olhem, eu teria que descrever aqui um dicionário maior do que o Corcovado para definir essa cambada que defende aí essa reforma draconiana. São aqueles que têm a mão lisa, macia, que nunca souberam o que é acordar 3 horas para pegar um ônibus, um trem. Ter que trabalhar em um, dois, três empregos.
Por isso, senhoras e senhores, eu fico muito triste de ver o que está surgindo no Brasil, muito triste! Mas há um patrocínio por trás disso tudo! Quanto custou esse patrocínio das bandeirinhas marcadas, dos trios elétricos? Porque cada trio elétrico deles, nós sabemos que não custa menos de R$ 100 mil. Quanto que custou cada camiseta, cada bandeirinha? Diferente do que aconteceu no dia 15 e o que vai acontecer no dia 30.
Então, Senhora Presidente, encerro o meu discurso aqui. Quero dizer que por mais que tentem, é a mesma cantilena, foi assim na reforma trabalhista, não gerou emprego, pelo contrário, aumentou a precarização e aumentou os desempregados. É a mesma cantilena na reforma da previdência. Não vai resolver o problema da família brasileira, não vai resolver os mais de 60 milhões de desempregados deste país.