Discurso - Vereadora Tânia Bastos -

Texto do Discurso

A SRA. TÂNIA BASTOS – Muito boa tarde, Senhor Presidente; senhoras e senhores vereadores.
Quero, aqui, agradecer ao carinho, à atenção, não só dos vereadores desta Casa, mas também dos funcionários, dos amigos que me enviaram mensagens, desejando-me saúde. Realmente, é muito bom ter saúde. Quero, aqui, agradecer ao imenso carinho de todos. Realmente, eu passei por uma fase bem complicada, mas estou de pé. Sou um soldado, e o soldado sabe que, na guerra, mesmo ferido, ele tem que estar pronto. Então, quero aqui realmente agradecer a todos vocês por tudo – pelas orações. E quero me colocar também à disposição de todos.
Senhor Presidente, também não posso deixar de falar, aqui, a respeito das famílias de Muzema. Agora, mais um episódio triste, no centro da cidade, onde uma jovem morreu eletrocutada. Quero aqui, também, ser solidária com toda a família. Todo o meu respeito e reverência a essas pessoas que estão sofrendo com a perda dos seus entes queridos.
Eu, exatamente, vim de azul, porque nós estamos ainda no mês de abril e o dia 2 de abril é o Dia Mundial do Autismo, e o mês a gente estende aí para fazermos diversas ações, diversos debates, fóruns muito importantes.
Eu recebi de uma amiga – e aqui eu quero deixar registrado o nome dela, que é uma querida, a ex-Deputada Estadual Graça Pereira, que me enviou uma mensagem de uma mãe chamada Camilla Viveiros de Castro Picozzi. Essa mãe encaminhou para a Graça Pereira uma carta desabafando, falando sobre todo trabalho, tudo aquilo que ela vem enfrentando, todas as coisas que ela sonhou, enfim...
Ela se debruçou sobre um papel e ali redigiu, de uma forma bastante emocionada, de uma forma que ela expressou tudo o que sente, o que passa. E me chamou atenção tal carta. Por isso que eu quero aqui ler esta carta na íntegra, para que fique registrado nos anais desta Casa. Ela diz o seguinte:
“Receber um diagnóstico de autismo de um filho não é nada fácil! Ninguém em sã consciência planejou ter um filho com autismo. Tanto é que os terapeutas definem o período de descoberta do autismo como um período de luto, onde o filho planejado "morre" e a família recebe um filho diferente, longe do que esperava e imaginava. Receber esse filho é como ter que ler uma enciclopédia em mandarim da noite pro dia. Você não faz ideia de como agir, do que fazer para ajudar o seu filho. A única coisa que os médicos te orientam é que você tem que correr contra o tempo. Afinal, intervenção precoce é fundamental para um melhor desenvolvimento do seu filho.
A partir desse dia, não importa a sua especialização, você tem que engolir, junto com as suas lágrimas, várias siglas e nomenclaturas que nunca fizeram parte do seu conhecimento: ABA, PECs, TO, floortime, Denver Model etc. Cada terapeuta te orienta pra um lado. É um tal de: “Seu filho precisa de integração sensorial. Se você fizer uma abordagem comportamental, ele vai agir igual a um robô” – ou: “Sensorial? Pra que isso? Vamos focar no comportamental, que é o que tem comprovação cientifica!.
Os médicos também não te orientam linearmente. Parecem que nem falam a mesma língua, nem mesmo o “mandarim”. A grande maioria deixa na sua mão a decisão de que lado seguir. Aí você se vê numa fogueira de vaidades, num circo armado entre pessoas idôneas e milhares de charlatões, tendo que guardar sua dor no bolso e decidir, friamente, o que é melhor pra seu filho.
Até alvejante é vendido como promessa de cura, acreditam? Não dá tempo de viver o tal luto. O tempo não perdoa. O relógio não para. “Intervenção precoce” – lembra? Dói pegar a sua dor pelo pescoço, assumir a rédea, dominar seus monstros e seguir em frente. Alguns amigos cansam de te ouvir, afinal é a mesma "ladainha" de sempre. Muitas escolas fingem incluir. Outras famílias fingem aceitar, mas não convidam seu filho. Melhor deixar quieto o esquisito; o que faz barulhos estranhos. Afinal, é muito mais fácil convidar o amigo que fica no quarto jogando videogame com seu filho, assim não dá trabalho. Por isso, e não menos que isso, é necessário ter o dia de conscientização do autismo. É necessário expormos nossa dor.
Não! O preconceito e a discriminação não são sofridos por todas as crianças! Não é a mesma coisa.
Não é porque seu filho não foi convidado para aquela festinha especifica que consegue entender a mãe de um autista que vive isso no seu dia a dia – não!
A dor de uma mãe de autista não é em nada comparável a dor de uma mãe de um filho com desenvolvimento neurotípico.
Não é vitimismo! É a realidade como ela é! É a verdade, nua e crua! Por isso, precisamos sair dessa zona de conforto tão conveniente e abrir os olhos para o diferente. Precisamos nos colocar no lugar do outro, sem hipocrisia. Vai doer – e muito! Mas é necessário.
Vamos abrir nossa cabeça. Não deixemos famílias de autistas viverem seus lutos sozinhos. Esse luto e essa luta têm que ser de todos!

(Assinado: mãe de um autista)”.

Quero parabenizar a Camilla por este belo texto, por este desabafo, porque realmente não é fácil.
Às vezes, Senhor Presidente, a gente ouve críticas de pessoas que não entendem o significado dessas caminhadas a que o Brasil a fora hoje está aderindo. Às vezes, recebemos críticas porque acham que há uma vontade enorme de se exibir, de se mostrar. Mas só quem sabe da dor e dos problemas dessas famílias que realmente necessitam de políticas públicas é a própria família que filho autista.
Recebemos, durante o decorrer do mês de abril, várias ações, ações louváveis. E não importa de onde venham. O importante é que cada um está fazendo a sua parte.
Quero parabenizar a Prefeitura do Rio de Janeiro, que, por diversos anos, vem, cada vez mais, abraçando essa causa – e atuando. E não só a Prefeitura, como também o Governo do Estado do Rio de Janeiro. Os dois juntos, de mãos dadas, estão cada vez mais empenhados em fazer com que o autismo tenha o seu lugar respeitado aqui nessa sociedade.
Precisamos acabar de vez com todo preconceito. E é por via da conscientização que iremos conseguir fazer com que todas as famílias das crianças e das pessoas com autismo sejam verdadeiramente respeitadas.
Muito obrigada, Senhor Presidente.