Discurso - Vereador Fernando William -

Texto do Discurso

O SR. FERNANDO WILLIAM – Boa tarde, Senhora Presidente, senhores vereadores, cidadãos aqui presentes, os que nos assistem nos seus gabinetes.
Eu começaria a minha fala, hoje, citando, mais uma vez – eu já fiz isso aqui em outras oportunidades –, o famoso dramaturgo brasileiro, Nelson Rodrigues. Ele dizia que os idiotas, não por serem mais competentes ou inteligentes, acabariam chegando ao poder, porque eles serão e seriam a maioria. É o que nós estamos assistindo neste momento. Hoje, pela manhã, com as galerias cheias, com o Plenário cheio, alguns vereadores – não poucos – e eu discutimos, com bastante dados, o orçamento da Cidade do Rio de Janeiro, especialmente para a área da Saúde. E, aí, não tivemos a presença, ou assistimos àqueles que insistem em superficializar o debate, levar para as trelas aqueles que conseguem enxergar para convencer os incautos de suas verdades.
Certamente, se perguntassem a esse vereador o que discutimos pela manhã, a importância do que discutimos pela manhã, enfim, um significado para o interesse real público de termos um orçamento mais adequado para a saúde, com seriedade, levando em conta – como foi colocado, aqui, pelo Vereador Paulo Pinheiro o resumo histórico do Orçamento da Saúde nos últimos anos –, por exemplo, que, no ano passado, nós tivemos uma receita real de algo em torno de R$ 25,5 bilhões e, aos trancos e barrancos, conseguimos concluir o ano com todas as clínicas funcionando, os hospitais funcionando, ainda que mal, ainda que com atraso etc.
Este ano o orçamento foi de R$ 25,5 bilhões para – deve chegar, tudo leva a crer que chegará – algo em torno de R$ 28 bilhões. Portanto, são R$ 2,5 bilhões a mais no orçamento, por conta de uma série de medidas que a Câmara, aos trancos e barrancos, lutou – inclusive eu – para melhorar as receitas da Prefeitura. Se nós aumentamos em R$ 2,5 bilhões a receita da saúde, nada mais natural, para quem discursa que o seu lema principal de campanha era governar para todos, que se dote saúde, educação, assistência social de um volume maior de recursos no orçamento.
Quando nós analisamos os gastos objetivamente, nós verificamos que os gastos, praticamente, não foram aumentados. O que é disponibilizado para este ano é cerca de R$ 4,9 bilhões, e o que se apresenta para o ano que vem é R$ 5,28 bilhões. Portanto, é algo em torno de R$ 300 milhões a mais, quando, para o ano que vem, além dos R$ 2,5 bilhões que arrecadamos neste ano, tudo leva a crer que, entrando a segunda etapa da revisão da planta de valores do IPTU, a Prefeitura arrecadará algo em torno de pelo menos R$ 400 milhões a mais. Se a Prefeitura conseguir negociar e se for firme, se for contundente, a transferência dos dois hospitais que recebeu do Estado para um governo que diz que vai arrumar a casa falando uma série de bobagens... Enfim, se arrota caviar, deve ter condições de assumir aquilo que lhe é de direito, que são os hospitais Rocha Faria e Pedro II, o que implicaria quase R$ 350 milhões a mais no Orçamento.
Temos observado, por exemplo, um aumento de royalties de petróleo, por conta do aumento do petróleo no mercado internacional. Isso impacta nas receitas do Rio de Janeiro. Até contra o meu voto, mas aprovado por esta Câmara, a cobrança de tributos dos inativos, que também vai impactar positivamente a receita.
Então, não tenho a menor dúvida de que, na pior das hipóteses, deste orçamento encaminhado à Câmara de R$ 3,8 bilhões, estaremos arrecadando algo em torno de R$ 29 bilhões. Portanto, um bilhão a mais do que arrecadamos neste ano, praticamente R$ 3,5 bilhões a mais do arrecadamos no ano passado.
Aumentamos R$ 3,5 milhões no orçamento global, e estejamos prevendo, no orçamento da Saúde, para o ano que vem, somente R$ 300 milhões de aumento, já indicando uma série de cortes. Cortes nos programas de atenção básica à saúde, cortes em programas de atenção secundária e terciária, redução do número de equipes da família, o que implicará mais de mil trabalhadores demitidos num cenário de crise em que estamos. Deveríamos estar mais preocupados em aumentar empregos, em gerar atividade econômica, atendendo, do ponto de vista da atenção básica, a uma parcela da população, que, se atendida corretamente na atenção básica, estará evitando que essa mesma população vá ser atendida na atenção secundária e na atenção terciárias, que são muito mais caras. Citei aqui um exemplo: um diabético, se cuidado adequadamente na atenção básica, ele tem custo mínimo. Se não atendido adequadamente na atenção básica, vai custar muito mais caro no hospital, com uma perna amputada, com um pé amputado, com um sacrifício muito maior para aquele cidadão que, muitas vezes, vai deixar de trabalhar, sendo remunerado pela previdência, e ainda gastar muito mais no serviço terciário.
Então, primeiro, faço um apelo a todos os vereadores, inclusive aos da base do governo. Vamos analisar com calma esse Orçamento. Há possibilidades reais de aumentarmos o orçamento da Saúde, sem prejudicarmos outras áreas e sem criarmos impedimentos para o governo em outras áreas. Acho que se está induzindo o prefeito a um erro grave. Citei exemplos aqui de situações que vivi, na semana passada e nesse final de semana, de pacientes a quem fui visitar, por exemplo, no Coordenação de Emergência Regional (CER) Professor Nova Monteiro. Lá chegando, encontrei um profissional médico para atender a mais de 30 pacientes no CTI. A gente pode imaginar o que isso significa. Os pacientes estavam maltratados e mal acompanhados naturalmente, porque um médico só, num CTI... Se, por ventura, três pacientes entrarem em uma situação de maior gravidade, ele não tem como atender aos três de uma vez só. Certamente, terá que fazer “a escolha de Sofia”, e dois acabarão morrendo. E o tratamento do paciente a quem fui visitar era equivocado, não era um tratamento adequado, até porque aquele médico, além de não ser especialista, é um médico que está ali passando medicação de forma apressada.
Queria aproveitar para dizer que o que nós discutimos hoje de manhã e nos próximos dias, quando estaremos discutindo o Orçamento, o futuro da nossa Cidade, como os recursos deverão ser aplicados, de onde podemos arrecadar esses recursos. Parece que há três projetos de interesse do Governo que deveremos votar esses dias, sobre os quais devemos nos debruçar de forma correta e, em vez de discutirmos isso, ficamos debatendo algo que já passou.
Essa história, por exemplo, de Escola sem Partido. Isso é uma idiotice. É óbvio que pode haver um ou outro professor que coloque um símbolo do PT, PSOL, PTB, PDT ou, agora, certamente vão encontrar professores do PSL, que farão essa bobagem de tentar fazer propaganda político-partidária na sala de aula. Mas o que se pretende, está no bojo dessa discussão em Brasília é até se retomar na ciência o criacionismo, que já foi amplamente superado pela ciência. Não estamos aqui discutindo a crença, a fé, a confiança das pessoas. Nada disso. Estamos discutindo ciência. É como se, por exemplo, fôssemos deixar de discutir em história o que foi o significado da Revolução de 1930, do período Getúlio, do período Juscelino, do período da ditadura. Não se pode mais falar nesses temas, porque, segundo algumas cabeças mais fragilizadas, para não usar termos mais duros, seria induzir as pessoas a esse ou aquele partido.
A história, a filosofia, a sociologia, o conhecimento faz com que as pessoas evoluam, cresçam. Quando se diz que o debate se estabelecerá sobre cada um desses temas, aquela menina que aparece com um porrete na mão, dizendo “política dos manos”, até foi eleita, pode perfeitamente defender a ditadura militar na sala de aula. Nada impede justificar a ditadura militar, justificar a tortura, justificar os assassinatos e desaparecimentos, usar a frase que foi usada pelo nosso futuro presidente, que quem procura osso é cachorro. Tudo isso ela pode dizer. Não será impedida, nem ela, nem ninguém na educação. E a educação é a essência do crescimento do ser humano, porque é o saber, o conhecimento.
Eu acho que nós devemos ter mais cuidado, e foi decisivo nessa eleição, é com algo que a mim preocupa seriamente: a transformação de igrejas em comitês políticos. Nós vimos nessa eleição determinadas igrejas em que o pastor falava alguns poucos minutos sobre a Bíblia, alguns poucos minutos sobre temas religiosos e largo tempo tratando de questões de natureza política, fazendo propaganda aberta de determinados candidatos.
Eu, por exemplo, estava fazendo campanha na Vila Cruzeiro. Nas caixas de som da Vila Cruzeiro, ouvia-se um pastor, não vou citar o nome aqui para não ferir suscetibilidades, dizendo: “Não vote em candidatos da esquerda.” Um pastor, dizendo numa rádio dessas que atende toda a população, fazendo uma pregação política aberta, clara. Aliás, o mesmo pastor que cobra dízimo de pessoas desempregadas, propondo que essas pessoas imaginem quanto vão arrecadar até o final do ano catando latinha, vendendo bala na rua, que deve dar à igreja 30% do seu recurso previsto. Porque, se der 30% do seu recurso previsto, ou seja, um recurso que ela não tem, provavelmente pedindo dinheiro emprestado ao banco, ela vai resolver seus problemas econômicos e de subsistência.
Enfim, o que eu proponho, já que meu tempo conclui, é que comecemos, a partir de agora… A eleição acabou, esse discurso superficial, idiota, precário, o kit gay… Agora, o “kit gay” acabou, nem entra mais em discussão. O Escola Sem Partido, agora, é assunto secundário, o “direito dos manos”, isso agora acabou, nós vamos ter alguém que vai pensar de forma contrária.
Vamos discutir o Brasil, vamos discutir o que a gente quer para o Brasil, o que é fundamental para o país, qual a economia que nos interessa, qual o tipo de modelo econômico e desenvolvimento, qual o tipo de nação que a gente quer, é isso que importa verdadeiramente.
Vamos parar com essa bobageira de vir aqui discutir que está certo esse juiz completamente idiotizado que diz que um guarda-chuva não pode ser confundido com uma arma. Há dois meses, um cidadão foi morto porque estava com um guarda-chuva. Há dois anos, no Morro do Andaraí, um cidadão foi morto porque estava com uma furadeira e confundiram com uma arma. É claro que essas são situações menores, secundárias, mas o que esse juiz vem fazendo? Em vez de discutir os problemas econômicos do Estado, que são gravíssimos e de que maneira enfrentá-los, de que maneira enfrentar a situação da Educação do estado, que é uma das mais precárias... O 2º grau praticado pelo Estado do Rio de Janeiro está entre os piores de avaliação do país.
De que maneira enfrentar a situação gravíssima da Saúde, que tem dois hospitais cedidos a Prefeitura arrancando quase R$ 400 milhões dos seus parcos recursos? De que maneira ele vai resolver esses problemas? Ele insiste em manter aquele discurso para idiota, aquele discurso superficial, aquele discurso para imbecil, de que vai acabar com a violência, como Moreira Franco fez há 30 anos, em seis meses.
Pois bem, de lá para cá, a violência só aumentou, até por uma coisa muito simples, muito elementar... Quando ele diz que passa na Rocinha, mas nunca entrou, alguém deveria pegá-lo a força e colocar lá no meio para conhecer a realidade da comunidade, colocá-lo lá no meio da Maré, do Alemão, para ele saber o que é aquela realidade, onde moram crianças que não têm escola, educação e nem família adequadas.
Que moram em situações terríveis, que não têm emprego, que não têm perspectiva de emprego, que nada lhes sobra, muitas vezes, a não ser uma igreja, que vai idiotizá-la para votar em alguém mais idiota que o pastor; ou então o tráfico, é o que sobra para aquelas crianças.
A gente precisa pensar dessa maneira, precisa começar a pensar grande. Tudo bem, a eleição acabou, o povo decidiu que a gente tem que respeitar a democracia, agora, vamos tentar começar a tratar as coisas de forma correta. O tema da Ordem do Dia hoje é o orçamento, especialmente, o da Saúde, da Educação e da Assistência Social.
Vamos parar de discutir essas bobageiras... isso já ganhou a eleição, já deu 125 mil votos ao tal vereador, ele foi vitorioso com essa fala tão importante e famosa de Nelson Rodrigues: “O país um dia será dos idiotas”. Estamos nesse caminho. O vereador teve uma grande votação com base nessa perspectiva, com base nessa afirmativa do saudoso Nelson Rodrigues.
Enfim, desculpem-me por ter ultrapassado um pouco o tempo, sempre falo um pouco demais, mas a gente precisa retomar a seriedade dos fatos, discutir o que a gente quer para a cidade, para o estado e para o país, porque ninguém aguenta mais ficar ouvindo aqui bobagens, idiotices de pessoas que sequer sabem, se perguntarem a ele, de quanto é o orçamento da Cidade. Obrigado.