Discurso - Vereador Cesar Maia -

Texto do Discurso

O SR. CESAR MAIA – Senhor Presidente, senhoras e senhores vereadores, nesse domingo o Governo italiano, liderado pelo Primeiro-Ministro Renzi, quadro de altíssima qualidade que surgia com o estadista futuro da União Européia que submeteu ao plebiscito a população italiana a uma mudança constitucional da maior profundidade. De um lado minimizava as funções do Senado; do outro lado minimizava o poder dos governos locais e dos governos regionais. De um lado, o Senhor Renzi, que fez a defesa durante meses de sua tese e, num certo momento, disse que renunciaria se o plebiscito não fosse aprovado. Do outro lado, liderando o não ao plebiscito, o senhor líder, presidente do Movimento 5 Estrelas, movimento de um populismo digital de direita, Beppe Grillo, e do outro o Senhor Berlusconi. Os dois liderando o “não” tiveram uma vitória expressiva. Olhando o mapa georreferenciado, 80% ou mais do território italiano votaram “não”.

O fato é, Senhor Presidente, que esse longo ciclo italiano que vem desde a Operação Mãos Limpas, deve ser avaliado, analisado com muito cuidado pelos políticos brasileiros, pelos juristas brasileiros, também.

Sugiro que se veja com todo cuidado um documentário no Netflix chamado “My Way”. Atrasei de ver esse documentário. Foi um documentário de 2015. Estava pensando que era alguma coisa da música do Frank Sinatra. Não. É uma biografia de entrevista; uma autobiografia – se quiser dizer assim – com opiniões que vão surgindo de jornalistas, de políticos e com jornalistas de peso italianos entrevistando o Senhor Berlusconi. Acho que é um documentário imprescindível. Até para se conhecer a vida e a trajetória do Senhor Berlusconi, que veio de uma classe muito baixa e se torna um magnata poderoso.

A Operação Mãos Limpas, que é a que serviu de referência para a Governo italiano – o próprio Senhor Sergio Moro esteve na Itália acompanhando a metodologia usada e alguma medida aplicou aqui. O fato é que 1.200 políticos foram processados na Operação Mãos Limpas, 400 e tantos empresários, enfim, um número grande.

Amanhã vou abrir meu ex-Blog dando essas informações e esses dados. A Operação Mãos Limpas correu durante quatro anos, de 1992 a 1996. E, claro, chegou ao cerne da corrupção da política européia. E com isso, no cerne da corrupção dos grandes partidos. Em primeiro lugar, a Democracia Cristã Italiana que surgiu no pós-guerra e liderou esse longo ciclo de pós-guerra da política italiana. O Partido Socialista, Partido Comunista mesmo, Partido Liberal, enfim, as grandes forças partidárias na Itália, elas foram desintegradas.

Há que se tomar um cuidado enorme, porque o mérito da Operação Mãos Limpas foi esse, mas o fato de as instituições, de os próprios partidos políticos, de os juristas etc., não terem acompanhado que instituições políticas viriam simultaneamente terminou produzindo essa crise que segue. Nesse documentário um analista do jornal La Republica, que é um jornal de centro-esquerda na Itália, comenta que no pós-guerra se tem dois grandes ciclos de ideias que preponderam e que lideram. Primeiro a ideia da democracia cristã, e depois o Senhor Berlusconi. Não preciso falar quem foi o Senhor Berlusconi: investigações mostraram ligações dele com a máfia; ele tornou-se um poderoso empresário da televisão, o mais importante da Itália. A televisão privada era nada na Itália. Ele construiu uma máquina comprando televisões regionais e se transformando na maior emissora de televisão italiana, superando a RAI, a televisão estatal e outras. Depois ele se tornou presidente do Milan, investiu no Milan e o Milan foi campeão. E ele criou o slogan que acompanhava o Milan onde fosse chamado: Força Milan.

A Operação Mãos Limpas ocorreu de 1992 a 1996. Em 1994 o Senhor Berlusconi diz em uma entrevista coletiva que houve muita resistência da família. Ele decide criar um partido político e ele usar slogan do Milan, Força Itália. Em 1995, o Força Itália já tem a maioria do Parlamento e ele já é primeiro-ministro. E nesse período – vem desde a Operação Mãos Limpas até a data de hoje – os governos se tornaram tão frágeis politicamente que duraram em média um ano e nove meses. A Itália ainda continua nesse ciclo que virá. O Presidente da República pediu que o Primeiro Ministro convocasse eleições só a partir da próxima semana, porque existem leis importantes que precisam ser votadas e que a partir de terça-feira ele pode convocar eleições gerais. Quem serão os vitoriosos nessa eleição geral?

O primeiro partido italiano de maioria simples, porque tem 25% dos votos dos parlamentares, é o Movimento 5 Estrelas, do Senhor Beppe Grillo, que tinha um programa de humor de grande sucesso na televisão e criou o seu partido. Ele chamou a negativa da política: todos são ladrões, ninguém vale nada. E com isso ele aproveitou muito a dinâmica e a ascensão da importância das redes sociais e hoje, desde de a última eleição, é, mesmo que minoritariamente, o maior partido da Itália. Será mais ainda. Hoje ele está pedindo, nos jornais italianos, que se convoquem eleições imediatamente. Claro que a probabilidade de ele vir a ser primeiro-ministro numa eleição em cima da derrota do Senhor Renzi no plebiscito, é muito grande, até porque o Berlusconi é um octogenário.

Enfim, acho e dizia isso na sexta-feira em São Paulo, quando o partido se reuniu para tratar de orientação para os prefeitos eleitos. Já comentei aqui na minha primeira fala, comentei que é necessário que o Parlamento brasileiro, ou mesmo o partido – melhor que seja o Parlamento – constitua um grupo misto de deputados e senadores para ir à Itália, para que nós possamos aproveitar a contundência e a importância da Operação Lava Jato, que mostrou aí o cancro da política nacional, e evitar que esse cancro se desdobre em um cancro do próprio sistema partidário, das próprias lideranças. Que não venham “Berlusconis”! Que não venham “Beppes Grillos”! As semelhanças são muito grandes. É verdade que a política se repete como farsa – dizia Marx, em “O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”.

Muito bem! Mas nós estamos aí com analogias tão interessantes, ou intensas, que seria necessário se tomar prudentemente cuidado com os desdobramentos de uma operação necessária, positiva – como foi na Itália – e que redundaram, lá na Itália e estão redundando no Brasil, nos problemas que estamos enfrentando.

Era isso, Senhor Presidente!

Muito obrigado.