Discurso - Vereador Fernando William -

Texto do Discurso

O SR. FERNANDO WILLIAM – Boa tarde ao nobre Vereador Italo Ciba, hoje presidindo a Sessão; Vereadora Teresa Bergher, Vereador Cesar Maia, meus companheiros e colegas que nos assistem pela TV, funcionários. Começaria hoje tratando, mais uma vez, do tema relacionado à grave crise de saúde que, de um modo geral, vem enfrentando o Rio de Janeiro, mas muito especialmente a Prefeitura.
Eu tenho feito um enorme esforço, que certamente não tem sido bem sucedido, e tudo leva a crer que vivemos um tempo em que a busca da sensatez, a busca do equilíbrio, a busca de uma atuação republicana, que leva em conta as adversidades, que procura encontrar o denominador comum entre as eventuais radicalizações, não dá certo. Estamos vivendo um momento em que quanto mais “radicalóide”... Porque o radicalismo é sempre de uma enorme superficialidade, uma contradição, porque as pessoas se julgam radicais, mas, na verdade, seu radicalismo é um profundo desconhecimento da realidade, da concretude dos fatos, da análise correta da conjuntura, dos perigos que nós estamos correndo no Brasil e no mundo.
Mas digo isso porque tenho procurado sempre o equilíbrio. Mesmo quando faço críticas à Prefeitura, procuro reconhecer, em primeiro lugar, que o atual Prefeito é um homem que não tem nenhuma mácula na sua vida pública, nenhuma acusação de fraude, de mau comportamento, de improbidade, um senador que teve um desempenho mediano, mas que tem deixado muito a desejar como gestor na Cidade do Rio de Janeiro. Desde o início, quando não fez a transição que deveria ter sido feita, quando pagou mais de R$ 1,3 bilhão de Despesas de Exercícios Anteriores (DEA) que poderiam ter sido parcelados, na melhor das hipóteses; quando não avaliou de forma adequada gastos que poderiam ser suprimidos; não adotou medidas – que, aliás, não adotou até hoje – que poderiam aumentar a arrecadação sem criar nenhum impacto maior no bolso da população, apenas colocando para pagar aqueles que efetivamente têm obrigação de pagar seus impostos e podem pagar seus impostos; permitiu que a própria revisão da planta de valores do IPTU fosse extremamente politizada e, com isso, distorcida da sua decisão final, ainda que eu tenha votado porque tinha convicção absoluta de que, se não tivéssemos votado aquela revisão hoje, como eu disse ontem, nós – eu me refiro à Prefeitura e à própria Câmara de Vereadores – não estaríamos em condições de pagar o salário dos servidores.
Apesar de tudo isso, o que a gente observa é que nem sempre o homem probo, digamos assim, do ponto de vista moral, é uma pessoa qualificada para gestão pública. Não estou dizendo que o contrário seja verdadeiro. O que estou tentando dizer é que precisamos avaliar, daqui por diante, com muito cuidado, quem nós estamos escolhendo para nos governar. Nós estamos pagando, na Cidade do Rio de Janeiro, um preço extremamente elevado, pela incapacidade de gestão.
Eu até diria o seguinte: o Messina tem se revelado quase que um inimigo meu, nem sei por quê. Mas, se não fosse Messina, por incrível que pareça, ir para o governo – vejam a que ponto eu coloco as coisas –, acho que este governo já tinha quase acabado. Messina ainda conseguiu, com habilidade política e algum conhecimento técnico, colocar um pouco da casa em ordem, não é?
Agora, com o Secretário de Fazenda, e a gente vinha dizendo há muito tempo que a Secretária de Fazenda, a doutora Maria Eduarda, com todo respeito e carinho, nada contra ela ou enfim... Mas não era uma pessoa adequada, preparada, ajustada para exercer uma função de tal importância como a Secretaria de Fazenda. A gente demonstrou isso na prática.
Eu me lembro de que fiz com ela uma aposta ali na Sala das Reuniões de que a arrecadação não chegaria a R$ 25,5 bilhões, e ela disse que chegaria a R$ 28 bilhões. Chegou a R$ 25 bilhões, não é, aos trancos e barrancos.
Mas com o novo Secretário de Fazenda, não é, vai com um esforço muito grande adotando medidas para dar uma certa arrumada, uma melhoria nas contas da Prefeitura.
Mas o que é fundamental na política não muda, não é?
A que estou me referindo? Enquanto nós vamos hoje, por exemplo, no Hospital Evandro Freire, e assistimos a um desastre total, completo, absoluto, os funcionários sem receber o mês de setembro, paralisando em larga escala as suas atividades, com falta de insumo, pacientes morrendo na porta dos hospitais, na porta do hospital, e vários outros hospitais com pacientes.
Eu tenho a experiência da área médica, sei que as pessoas estão morrendo por falta de médico, por falta de enfermeiros, por falta de outros profissionais, por falta de insumo, por falta de medicamentos, por falta de vagas, pessoas que ficam dias e dias sentadas numa cadeira ali, sendo medicadas de forma superficial, na correria dos profissionais de saúde, sacrificados com toda aquela problemática.
E aí a gente vê a Prefeitura fazendo cortes significativos, ainda maiores numa área que já é extremamente deficitária, problematizada. Recuando de uma política que havia avançado significativamente, que é a política de atendimento básico em saúde, com a cobertura de 70% que agora será, segundo informações oficiais, reduzida para 55%.
E ao mesmo tempo pode parecer uma coisa surreal, mas, pelo menos, dois campos de grama sintética, sendo construídos para atender a interesses eleitorais, atender a interesses.
Com toda a sinceridade, eu acho que esse é um momento em que a gente tem que ter um mínimo de bom senso. Como é que a gente vai admitir que morram pessoas?!
“Ah, porque as pessoas são...” a pobreza leva as pessoas a um grau tamanho de incapacidade de perceber a realidade, de perceber seus direitos. Se todas as pessoas que estão morrendo na porta dos hospitais hoje, seus familiares, soubessem que poderiam entrar com uma ação judicial contra a Prefeitura, responsabilizando pela morte de seus parentes, a Prefeitura estaria hoje toda encalacrada.
Certamente estaria com uma dívida brutal com essas famílias cujos seus entes queridos estão sendo... “assassinados” – é uma palavra forte porque não, não seria o caso –, mas estão morrendo por falta de atendimento adequado da Prefeitura, assim como do Estado, assim como da própria União, mas a Prefeitura com um grau de responsabilidade muito maior.
E ao mesmo tempo em que a gente está com um problema gravíssimo na área de Saúde, visto aos olhos de qualquer um que vá a um hospital público municipal nos dias de hoje, a gente assiste, por exemplo, é grama sintética aqui, é um anúncio de um parque ecológico ali, de outra obra sem o menor significado ou importância ali.
Claro que toda obra tem sua importância e seu significado. Mas em situações de absoluta tragédia – nós estamos quase que vivendo uma situação de guerra no Rio de Janeiro – nós temos que estabelecer prioridades? Prioridade é Educação e Saúde, Segurança Pública. Essas três prioridades têm que ser focadas e o restante que me desculpe, as pessoas têm que ter a paciência de esperar.
É o caso, por exemplo, vamos ficar tapando buraco da cidade inteira? Vamos ficar corrigindo isso e aquilo? Não, a gente tem que focar na questão da Saúde, focar na questão da Educação, focar na questão daquilo que a Prefeitura pode contribuir em termos de Segurança Pública, sem transformar a Guarda Municipal como muita gente imagina, em Polícia, enfim, praticando atos inconstitucionais inclusive.
Então, eu quero aqui manifestar a minha indignação porque ainda hoje, eu terminei de receber um telefonema de um companheiro, que um filho foi acidentado por conta de uma queda da motocicleta, e o rapaz está num hospital municipal há mais de 15 dias esperando uma cirurgia. Como a cirurgia não ocorreu, e havia lesões na pele, isso acabou implicando a infecção da lesão. Tudo leva a crer que, a partir dessa infecção, o garoto desenvolveu uma infecção renal e agora apresenta um quadro de insuficiência renal aguda, o que pode levar um jovem de 18 anos à morte.
Isso é uma irresponsabilidade daqueles que deveriam ter um compromisso mínimo em atender e criar condições para que uma pessoa que necessita de uma cirurgia... Tudo bem que não pudesse ser no primeiro dia, que não pudesse ser no segundo, que não pudesse ser no terceiro, mas não é possível que uma pessoa esteja há 15 dias lá esperando uma cirurgia, não consiga fazer essa cirurgia, exposto ali num ambiente absolutamente contaminado onde acaba desenvolvendo uma outra doença, uma doença consequência do mau atendimento que está recebendo pela Prefeitura.
Aliás, deveria até, se fosse o caso, ter a coragem de mandar esse paciente para casa, ser tratado em casa, de alguma forma, até que tivesse vaga no hospital público. Mas nem isso, deixam o paciente ali, jogado, sentado numa cadeira e tal, até que desenvolve uma patologia mais grave, uma infecção, com as consequências que esse jovem de 18 anos está apresentando.
Claro que o que eu vou recomendar à família, caso venha a ocorrer alguma coisa mais grave – eu espero que não aconteça – é que entre com a ação responsabilizando a Prefeitura pelo que vier a acontecer de mais grave com esse jovem.
Obrigado.