SESSÃO - EXTRAORDINÁRIA
Pela Ordem




Texto

O SR. TARCÍSIO MOTTA – Senhor Presidente, senhores vereadores, senhoras vereadoras, aqueles que nos assistem pela Rio TV Câmara, funcionários da Casa, boa tarde.
Queria começar como os demais, transmitindo meus parabéns à Vereadora Rosa Fernandes, pelo seu aniversário hoje. Também todo meu sentimento de solidariedade ao Vereador Dr. Jorge Manaia pelo falecimento de sua mãe.
Dito isto, eu queria fazer uma reflexão. Muitos dos vereadores já falaram sobre a situação, sobre a trágica morte do menino, do adolescente João Pedro, da Favela do Salgueiro em São Gonçalo, esta semana. Fruto de uma situação, de um assassinato do Estado, decorrente de uma operação policial injustificada, e não vou voltar aos dados exatos sobre isso. Mas eu queria trazer algumas reflexões, porque se nós estamos durante uma pandemia e estamos vivendo uma situação excepcional, na qual uma série de atividades da vida cotidiana de todos nós estão suspensas por razões de saúde pública e nós muitas vezes nos pegamos esperançosos, esperando o retorno à normalidade, uma notícia como essa, assim como a notícia da chacina no Alemão, assim como a notícia da ação policial desastrosa na Cidade de Deus, nos lembra que a tal normalidade era muito ruim. Além de que é impressionante a incapacidade que nós temos de, mesmo sob um tempo de excepcionalidade como esse, colocarmos as coisas na sua real perspectiva.
As informações que dão conta sobre a operação na Favela do Salgueiro, em São Gonçalo, dizem que era uma operação originalmente da Polícia Federal, cujo objetivo era executar os mandados de busca, de prisão de lideranças de facção criminosa. E nisso, eles foram apoiados pelos helicópteros e pela Core da Polícia Civil. Não havia, em tese, participação da Polícia Militar.
A nossa pergunta, a esta altura do campeonato, é: qual é a lógica de empreender uma operação como essa num período como este, no qual as crianças e os adolescentes das famílias dos trabalhadores do Estado do Rio de Janeiro estão em casa? Onde, se a lógica básica é... Ele faleceu por conta de uma bala perdida, balas perdidas que atingem corpos negros, que atingem corpos negros nas favelas. O tiroteio não foi entre grupos de criminosos diferentes. O tiroteio foi causado por conta da operação policial, sem protocolo, sem condições, agindo de forma a atingir um menino cheio de sonhos, que o pai dizia que queria ser advogado, atingindo e tirando a vida desse menino, no meio de uma pandemia!
Quando a gente pensa que a morte está nos rodeando por conta desse vírus maldito, a gente percebe que, para as classes populares, para as periferias, para as favelas do Rio de Janeiro, a morte está campeando também na política equivocada de segurança pública. Da completa falta de sensibilidade, mínima, dos governos que mantêm operações policiais com um primor de horror.
O corpo do menino foi raptado pelo helicóptero que dava apoio à operação. A família não sabia se o menino havia morrido mesmo ou não! Só ficou sabendo no dia seguinte! Não houve a mínima preocupação em lidar com aquelas vidas humanas! As vidas humanas, todas elas, importam! Vidas negras, vidas faveladas, importam!
Por isso é que, de fato, uma operação desastrosa como essa merece o nosso repúdio. Não só os detalhes daquela operação, mas a própria lógica de genocídio do Estado, de violência do Estado contra essas populações, em que segurança pública significa causar mortes e não garantir vidas. A gente precisa dar um basta! A essa normalidade eu não quero voltar! Eu quero voltar para um tempo em que segurança seja garantia da vida.
Para fechar, Senhor Presidente, porque o meu tempo está acabando, eu também não poderia deixar de lamentar o fato de que a gente esteja em vias de votar o projeto do engodo, do conto do vigário, do Minha Casa, Meu Professor. Isso é a quebra daquilo com o que concordamos com as lideranças no início do processo. Acho lamentável que a gente entre nessa discussão que só interessa à especulação imobiliária, e não à Cidade do Rio de Janeiro. Quero anunciar que a gente vai discutir e vai fazer de tudo para que esse projeto não passe.
Obrigado, Senhor Presidente.