Discurso - Vereador Tarcísio Motta -

Texto do Discurso

O SR. TARCÍSIO MOTTA – Senhora Presidente, volto à Tribuna estimulado também pelo início da fala do nobre Vereador Cesar Maia, com quem sempre aprendo, quando ouço seus pronunciamentos nesta Casa. Acho que é um debate importante que o Prefeito Crivella – na minha opinião, muitas vezes, fazendo de forma enviesada – tem colocado para a cidade, que é o debate sobre a questão do financiamento do Carnaval.
O Prefeito Crivella tem dito e utilizou a expressão de que é hora do desmame do Carnaval. Uma expressão que eu acho, inclusive, feita de forma pejorativa. É curioso, Vereador Prof. Célio Lupparelli, que, no momento da eleição para prefeito, em 2016, quem dizia que tinha que discutir o processo de financiamento do Carnaval era a nossa candidatura a prefeito. Embora nós nunca tenhamos dito – e continuamos sustentando – que achamos que não deve haver dinheiro público no Carnaval carioca. Achamos que deve haver dinheiro público, mas achamos que onde há dinheiro público deve haver transparência, deve haver contrapartida, deve haver, Vereador Tiãozinho do Jacaré, responsabilidade naquilo que a gente financia. Ao contrário, o Crivella foi lá fazer reunião com os presidentes de escola de samba, prometer mundos e fundos e, depois, na prática, fez o contrário.
Vereador Cesar Maia lembra muito bem na história de que a perspectiva de que o financiamento público de escolas de samba estava, inclusive, associada ao fato de elas serem caracterizadas como escolas, locais também de aprendizado e transmissão de conhecimento. De conhecimento, nesse caso, não o conhecimento letrado apenas, das escolas comuns que nós entendemos. Mas eu acho que é exatamente por aqui que a gente devia pensar a questão do financiamento público para o Carnaval. Existem escolas de samba em praticamente todas as comunidades, bairros e favelas da Cidade do Rio de Janeiro; escolas, às vezes, premidas pelo tempo de não estarem nos principais grupos do Carnaval, muitas vezes em dificílimas condições de se sustentar.
Eu lembro aqui que, há cerca de 10 anos, eu, por exemplo, desfilei no Gato de Bonsucesso, uma escola da Favela da Maré. Numa dificuldade tremenda estava lá desfilando, na Intendente Magalhães, numa escola que, portanto, era uma escola absolutamente de comunidade, que gerava emprego para as pessoas ali trabalharem, soldadores, figurinistas e tal, que muitas vezes eram feitas de forma voluntária, mas que podiam ser remuneradas, que trabalhavam a questão do espírito de comunidade ali na Favela da Maré. Eu não era morador, havia sido convidado apenas a desfilar, mas estive lá na Maré por algumas vezes, inclusive para isso, e pude perceber, não só ali, mas quando estive em outros lugares no Rio de Janeiro, como as escolas de samba poderiam ser espaços importantes de produção de cultura de uma memória popular de cada um daqueles bairros.
Seria transformar as quadras da escola de samba em pontos de cultura, em espaços onde se possa ter a questão da própria memória do lugar, da própria história do lugar. Atividades culturais além da própria produção do Carnaval é uma oportunidade que a cidade não pode perder. Esse é o tipo de financiamento a partir de uma perspectiva do Carnaval como fenômeno de toda cidade e um fenômeno cultural que nós não deveríamos menosprezar.
O que dizer das escolas mirins? Meus filhos, por exemplo, já desfilaram na Filhos da Águia – Escola Mirim da Portela. Mas nós temos um sem número de escolas mirins que todo ano tem uma dificuldade enorme, enorme de desfilar. E ali também há possibilidade de garantir um sentimento de pertencimento daquela criança em relação a sua comunidade. Numa estratégia, inclusive, de que sejam escolas de samba no sentido de que aquela criança está ali aprendendo não só a ser um futuro passista, um futuro ritmista, mas também um componente daquela escola e daquela comunidade. Cultura é pertencimento. Cultura é identidade. É aqui que a gente enfrenta o desafio de gerar entre as pessoas valores de fraternidade, valores de pertencimento que podem nos ajudar a combater a intolerância e a violência ao cotidiano do dia a dia.
Portanto, eu acho, sim, que as escolas do grupo especial, Vereador Célio Lupparelli, podem ter condições de se sustentar sozinhas. É um evento comercial com um peso comercial enorme. Precisamos discutir o monopólio da transmissão da televisão. Precisamos discutir quais são as fontes de receita, dar transparência à venda dos ingressos. O futebol tem o estatuto do torcedor.
O Vereador Reimont apresenta, inclusive, um projeto de lei, que saiu de pauta na última semana, para discutir o Carnaval de rua, mas nós talvez devêssemos ampliar e discutir o Carnaval como um todo, ao pensar a perspectiva de entender o Carnaval como um fenômeno da cidade. E aí, sim, é possível dar sentido a dinheiro público que vai para as escolas de samba para gerar emprego, para gerar cultura, para gerar identidade, para gerar valores, para possibilitar, inclusive, movimentação da economia e a própria vida dessas pessoas. Significa investimento em cultura.
O nosso problema é que a gente entende o Carnaval aqui, institucionalmente, apenas como um evento turístico. É claro que o turismo e a cultura precisam estar associados. É claro que o Carnaval tem uma dimensão turística fundamental. Mas não entendê-lo como um fenômeno, sobretudo cultural, faz com que a gente aponte o debate do financiamento a partir da crítica hipócrita de que é Carnaval ou creche, como Crivella fez no ano passado. Pois o dinheiro das receitas que o Carnaval gera para a cidade deve ser destinado, sim, para financiar creches, postos de saúde e outras políticas públicas, mas isso não significa não ter política pública de cultura para a Cidade do Rio de Janeiro.
Nós vivemos tempo muito difícil, em que a cultura parece estar sendo demonizada, como se fosse alguma coisa menor. E estamos falando aqui de uma cultura popular enraizada na vida das comunidades e na história da Cidade do Rio de Janeiro.
Por isso, nós vamos apresentar, mais uma vez, o pedido de criação de uma comissão especial do Carnaval. Queremos avançar na reflexão sobre isso. Queremos chamar aqui a LIESA, a Riotur, a Secretaria de Cultura. Queremos mostrar para onde vai o investimento. Queremos chamar as escolas mirins. Queremos chamar quem conhece a história do Carnaval. Queremos apresentar propostas concretas para sair deste dilema, deste falso dilema, como se o Carnaval não fosse uma festa que pertencesse a toda a cidade.
É claro que aqueles que não gostam, não querem, não curtem brincar o Carnaval também vivem nesta cidade e precisam ter alternativas. Podem viajar, ficar assistindo a Netflix, ou indo para o retiro espiritual, para o templo ou para a igreja. Isso não é nenhum problema, mas não entender que o Carnaval pode ser estimulado na direção correta de uma política cultural, em minha opinião, é um equívoco para esta cidade.
O Vereador Cesar Maia aqui discorreu sobre uma forma, inclusive, da institucionalização de parte da dimensão da relação da cidade com o samba e o Carnaval. É preciso avançar, até para que a gente possa lidar também com fenômenos como esses megablocos comerciais, que muitas vezes devem ser tratados como shows, enormes que são, comerciais, e separar esse elemento daquilo que é o bloco, a escola, a manifestação cultural da Cidade do Rio de Janeiro.
Eu havia me inscrito para falar sobre o samba-enredo da Mangueira. Se eu tiver oportunidade, eu volto ainda a esta Tribuna para falar um pouquinho sobre a aula de história que a Mangueira deu a todos nós na última segunda-feira de madrugada. Volto a falar, então, sobre o samba-enredo da Mangueira.
Muito obrigado.