Discurso - Vereador Tarcísio Motta -

Texto do Discurso

O SR. TARCÍSIO MOTTA – Senhor Presidente, senhores vereadores, trabalhadoras e trabalhadores desta Casa, aqueles que nos assistem pela Rio TV Câmara e os que estão na galeria, boa tarde.
Numa sociedade desigual como a nossa, o papel do Poder Público, o papel dos governantes, o papel de um prefeito, de um governador, de vereadores, de senadores, deputados, agentes públicos, devia ser olhar para a população mais pobre. O papel do Estado deveria ser agir para garantir direitos para os que menos têm. Para ter políticas públicas para, pelo menos, diminuir o sofrimento dos que menos têm.
Semana passada – e exatamente uma semana depois – nossa cidade sofreu com as chuvas de verão. Não é novidade em nossa cidade que tenhamos chuvas acima da tal média em todo verão – o que nos diz que a média deve estar errada –, e que a cidade tem algum nível de enchentes, alagamentos... Em alguns anos há inclusive tragédias seriíssimas, não só na capital, mas em todo o Estado do Rio de Janeiro. Vivi até os 18 anos em Petrópolis, enfrentei as famosas chuvas de 1988, com água até o joelho, tirando coisa de dentro de casa para poder salvar os móveis da minha casa.
Agora, um agente público, como o prefeito da capital deste estado, não pode fazer piada com a vida das pessoas. Há uma questão, em minha opinião, fundamental, que é: quando você ocupa um cargo público, você deve lembrar que fala em nome daquele cargo público e tem responsabilidade em relação a ele. O Prefeito Crivella não tem o direito de fazer piada com a vida dos mais pobres desta cidade. Se ele quiser fazer piada, que faça na família dele, com os amigos dele. Dar uma declaração pública dizendo que São Paulo também tem enchente, e que vai criar o programa Balsa Família, é fazer chacota com os mais pobres duas vezes. Comparar aqueles que precisam de um programa de compensação de renda do Governo Federal – o Bolsa Família – e dizer que vai dar balsa para que as pessoas enfrentem o alagamento? Não é possível que um prefeito como esse faça chacota.
Tem gente morrendo na cidade. Tem gente ficando sem casa, sem móvel. É muito sofrimento. Porque lá na Península, onde ele mora, ele não precisou sair de balsa. Mas teve gente na Zona Oeste que precisou e teve que usar qualquer forma pra conseguir sair de casa. Portanto, ele não tem esse direito. O que o Prefeito devia fazer era explicar o que foi feito para prevenir a questão das chuvas.
Ou melhor: ele deveria explicar o que não foi feito e por que não foi feito.
Em outubro de 2017, aqui, neste mesmo Plenário, o Subsecretário de Engenharia e Conservação, José de Abreu Lima Campos, sentado nessa cadeira, disse estar muito preocupado com o fato de que, em seis anos, aquele era o ano em que a Subsecretaria dele tinha menos recursos. E disse mais: disse que num trabalho do corpo técnico da Subsecretaria – que deve ter sido um bom trabalho –, eles mapearam 200 pontos de alagamento na cidade que necessitavam de um trabalho de manutenção permanente de drenagem, que é um sistema de drenagem que tem problemas, e todos nós sabemos. Mas a Subsecretaria na qual ele se encontrava à frente estava impedida de fazer essa manutenção por falta de recursos.
Portanto, no lugar de fazer piada, Crivella deveria estar dizendo agora: “Erramos ao tirar recursos dessa Subsecretaria. Em 2018 vamos aumentar seus recursos.” É isso que a cidade espera do Senhor Prefeito. Não que ele faça piada com a morte humana, com o sofrimento humano. E há números pra isso. Em 2014, em valores atualizados pela inflação, foram gastos R$ 47 milhões de recursos públicos na lógica da conservação do sistema de drenagem da cidade nessa ação. Em 2017, caiu para R$ 26 milhões. É uma perda de R$ 20 milhões em três anos, e uma perda de R$ 20 milhões num total de R$ 47 milhões. É quase a metade do que, na verdade, deveria estar se investindo. É claro que não significa que em 2014 estava tudo bem, mas significa claramente que a Prefeitura tem responsabilidade pelo sofrimento que as pessoas estão passando, tem responsabilidade quando não conseguiu reagir a tempo, quando, na verdade, sucateou o Centro de Operações Rio, mas tem responsabilidade na hora em que aloca recursos e corta recursos de onde não pode cortar.
O Subsecretário dizia aqui: “Estou muito preocupado com o verão. Estou preocupado porque há um trabalho técnico feito, mas nós não temos dinheiro pra isso.” A desculpa da crise passou, ou pelo menos precisava ter passado. Votamos – e eu votei contra – o IPTU aqui. Votei contra não porque não achasse que a Prefeitura precisava de mais dinheiro, mas porque a forma como o IPTU foi construído tornava a cidade ainda mais desigual. E o Prefeito tem como resposta, além de estar numa viagem que não sabemos se foi privada ou oficial..., que ora é para ver drones para ajudar na segurança, ora sabemos que a estação espacial está cuidando de buraco negro. E estamos perguntando o que o Prefeito está fazendo lá no meio do Carnaval. E ontem ele estava viajando de novo. É claro que o Prefeito não pode adivinhar o dia da chuva para estar na cidade. Mas não pode, ao estar fora da cidade de novo, na iminência de mais uma vez o cidadão estar sofrendo, voltar e fazer piada. É disso que se trata aqui.
Nós ficamos sabendo – pela coluna do Radar On-line, da Veja – que o Prefeito chegou a cogitar, chegou a ligar para o Paulo Messina e para o presidente da Riotur pra cancelar, ou adiar o desfile das escolas de samba campeãs, e que isso tinha a ver com a chuva, com medo de que tivesse chuva ou em respeito às vítimas da chuva. Pois esse mesmo Prefeito, que chega a cogitar esse nível de situação, faz piada uma semana depois. Esse Governo vai de mal a pior.
Hoje já tem gente no jornal O Globo propondo o impeachment de Marcelo Crivella, porque a forma como ele vem administrando a cidade está dando margem para uma série de questões. É a situação da mãe dele com privilégios no hospital, é a situação das viagens inexplicadas, com gastos inexplicáveis, é a situação da
falta de planejamento no Carnaval. E agora na minha opinião, a citação do corte de recursos e de fazer piada com a chuva na própria cidade. Nós não queremos um prefeito que faça piada sobre o sofrimento das outras pessoas! Como piadista, o Prefeito está parecendo muito com o próprio... Mais uma vez, não tem graça nenhuma! Nem com prefeito, nem como aquele que conta piadas.
Vamos lutar porque isso não pode continuar acontecendo. E acho que esta Casa, mais uma vez e para encerrar, precisa dar o seu recado. Quero mais uma vez dizer que esta Casa precisa fazer uma audiência pública para cobrar explicações sobre a questão das enchentes.
Nós vimos hoje no Diário Oficial, no DCM, que a CPI da Light, que o Vereador Marcelino havia tentado colocar para apurar parte da responsabilidade, foi devolvida porque não é atribuição municipal. Pois eu acho que esta Casa deveria instaurar uma CPI das enchentes. Para cobrar as responsabilidades. Porque isso é assunto municipal! É assunto municipal quando a Light não consegue religar a luz das pessoas. É assunto municipal quando a Comlurb não consegue fazer a poda das árvores! É assunto municipal quando o prefeito corta recursos do sistema de drenagem e depois faz piada falando que “tem balsa família”. Portanto, fica aqui o apelo. Esta Casa precisa se posicionar, precisa se pronunciar. E, Prefeito Crivella, pare de fazer piada e vamos administrar a cidade!