SESSÃO - EXTRAORDINÁRIA
Pela Ordem




Texto

O SR. TARCÍSIO MOTTA – Senhor Presidente, senhoras vereadoras, senhores vereadores, trabalhadores da Câmara, e aqueles que nos assistem pela Internet, pela Rio TV Câmara, boa tarde.
Hoje, agora, pelo menos, eu não vou falar do infame que habita o Palácio do Planalto. Também não vou falar agora dessa doença maldita que nos isola e mata, que nos distancia e nos dá medo. Hoje, eu quero pedir licença para, a partir da morte, falar de vida. Ontem, deixaram-nos três pessoas. Deixaram-nos mais do que três pessoas, mas três pessoas nos deixaram e eu gostaria de ressaltá-las.
Morreu Flávio Migliaccio, ator que, na velhice, não suportou o peso da vida, mas que, ao longo da vida, deu alegria a tantos de nós.
Morreu Dona Neném, da Velha Guarda da Portela, que nosso mandato teve a honra de dar flores em vida. Entregamos a Medalha Pedro Ernesto, aprovada por todos vocês no dia 2 de dezembro do ano passado.
E morreu Aldir Blanc. Morreu aquele que Caymmi classificou como o ourives da palavra. Um cara genial. Um mestre genial que deixou ontem o mundo um pouco mais triste, um pouco mais sem graça. Aldir foi daqueles artistas inestimáveis, aquele patrimônio da humanidade, mas também do nosso Rio de Janeiro. Aldir cantou a esperança equilibrista em tempos de ditadura e anistia. Aldir cantou os boias-frias, que sonham com o bife a cavalo e batata frita. Aldir cantou e frequentou os botequins mais vagabundos dessa cidade. Aldir cantou com a mesma genialidade o siri, que, depois de pescado, foge num ônibus e cria um auê danado, que cantou o diálogo entre o torresmo e a moela num balcão de bar, com a mesma genialidade que ele compunha músicas que falavam do tempo, do amor, da solidão, de política. Quis o destino que Aldir Blanc morresse no mesmo dia em que Noel Rosa, outro cronista dessa cidade, outro poeta da Zona Norte, da Vila Isabel, da Muda, da Tijuca.
Eu gosto de pensar, gosto de imaginar que, estejam onde estiverem, os dois estão agora abraçados, sentados na mesa de um bar, falando um da música do outro. São geniais artistas.
Da longa e brilhante trajetória do Aldir, eu queria destacar nesse tempo curto que nós temos nesse plenário virtual, dois trechos de duas músicas dele, em parceria com João Bosco, como forma de compartilhar com vocês um pouco do sentimento que tenho hoje, porque estou falando de vida a partir da morte dessas pessoas.
Primeiro, eu queria destacar um trechinho da genial "Mestre-Sala dos Mares", música que retrata a Revolta da Chibata, ocorrida em nossa cidade em 1910, liderada pelo Almirante negro João Cândido:
"Rubras cascatas jorravam das costas dos negros pelas pontas das chibatas, inundando o coração de toda a tripulação que, a exemplo do marinheiro, gritava ‘não’! Glória aos piratas, às mulatas, às sereias, à farofa, à cachaça, às baleias! Glória a todas as lutas inglórias que através da nossa história não esquecemos jamais. Salve o Almirante negro que tem por monumento as pedras pisadas do cais."
Glória a todas as lutas inglórias que nós não esqueceremos. Aldir tinha lado! O lado daqueles que, diante das rubras cascatas, diz “não”: não aceita as injustiças! Aldir tinha lado. Tinha lado na vida e cantava isso nas suas músicas.
O segundo exemplo vem da canção "O Cavaleiro e os Moinhos" que diz muito sobre os tempos que a gente está atravessando agora. A obra de um artista, mesmo que cante a aldeia pode falar do mundo. Mesmo que a mesma seja destinada a um determinado tempo, acaba falando sobre muitos. Aldir assim nos dizia, e eu queria terminar a minha fala dizendo isso para todos vocês: "Acreditar na existência dourada do sol, mesmo que em plena boca nos bata o açoite contínuo da noite. Arrebentar a corrente que envolve o amanhã, despertar as espadas e varrer as esfinges das encruzilhadas".
Hoje, quando esse escuro da noite bate na gente tal qual o açoite, é preciso acreditar na existência dourada do sol. É preciso que a gente arrebente as correntes que envolvem o amanhã. Precisamos construir um amanhã muito melhor para a humanidade, para as pessoas que vivem ao nosso redor ou distante de nós. Que Aldir Blanc nos inspire. Que Aldir Blanc nos indique o caminho.
Viva Aldir Blanc! Obrigado, Senhor Presidente.