SESSÃO - EXTRAORDINÁRIA
Pela Ordem




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O SR. LEONEL BRIZOLA – Obrigado, Senhor Presidente. Boa tarde a todos e todas! Há 59 anos, acontecia um dos mais épicos episódios da História Brasileira. Não há igual, uma mobilização popular, a Campanha da Legalidade, liderada pelo então Governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, ou seja, o movimento que impediu um golpe militar no Brasil. A Campanha da Legalidade deve ser encarada por um prisma da sabedoria política na História Brasileira. Seguramente, foi o acontecimento mais progressista e libertário do Brasil no Séc. XX. O último. Por que depois de 1961, veio a tragédia que foi o Golpe de 1964, não é?
E na legalidade, a trinca de ministros militares, ali em 1961, Odilon Diniz, do Exército, Grün Moss, que era da Aeronáutica, e Sílvio Hack, que era da Marinha, não aceitaram que o Vice-Presidente João Goulart, que estava em missão diplomática no estrangeiro, assumisse a presidência após a renúncia do Jânio Quadros. A partir do pronunciamento desses “três patetas” energúmenos, Leonel Brizola inicia a mobilização da política da opinião pública nacional em defesa da legalidade constitucional, que era a posse do João Goulart. E naquela época tinha um detalhe. Nós votávamos para vice-presidente, tanto é que o Jango era de outra chapa e teve inclusive mais votos.
Ali tem início a Rede da Legalidade, em que, por meio do rádio, instalada nos porões do Palácio Piratini, Brizola começa a informar a nação da tentativa de golpe e exige o cumprimento da Constituição.
Os discursos de Leonel Brizola ganham o país, principalmente no Rio Grande do Sul. E ali o povo gaúcho se mobiliza, organizando-se para a batalha, ou seja, a batalha épica da Campanha da Legalidade.
Agora, dois momentos são cruciais para a vitória da Campanha da Legalidade. O primeiro deles, quando a Base Aérea de Canoas – a maior Base Aérea Militar do país na época – recebeu ordens para bombardear o Palácio Piratini com o governador e sua família lá dentro, como o que aconteceu 12 anos depois com Allende, no Chile. Ou seja, os sargentos da Aeronáutica… E aí eu faço um parêntese, meu outro avô, o sargento que depois anistiaram, o Coronel Alfredo Daudt Ribeiro, piloto da Força Aérea Brasileira, que jurou a Constituição. Então, queria dar posse democraticamente, constitucionalmente, a Jango. Organizou, juntou ali com os sargentos da base aérea, esvaziaram os pneus dos aviões que iriam decolar para bombardear o Piratini e trocaram as metralhadoras, o carregamento, por carregamento de festim. E há um detalhe naquela época. Os aviões não tinham a tecnologia. Uma vez carregados, eles deveriam descarregar seu armamento, porque não tinham a tecnologia quando retornassem, para que estivessem com as bombas, os aviões carregados. Porque quando aterrissavam, explodiam. Não tinham essa tecnologia. Pois bem. E ali, há o impedimento, pela conscientização dos militares legalistas, que juraram a Constituição e respeitavam a democracia.
O discurso de Leonel Brizola ganhou o país. Começou com uma rádio e terminou com mais de 100 rádios transmitindo, retransmitindo a Campanha da Legalidade, informando à população o que estava acontecendo na época. O povo, principalmente o gaúcho, se mobilizou.
O segundo momento, quando o Marechal Machado Lopes teve a ordem para fazer essa intervenção no Palácio Piratini e, inclusive, tirar a vida de Leonel Brizola, chega ao Palácio com tanques, à porta da sede do governo, e ali a população começou a cantar o Hino Nacional. Todos que estavam na praça, centenas, milhares de pessoas começaram a cantar o Hino Nacional. E eles batem continência e cantam junto. E informam ao governador que estão com a Constituição, que estão com a legalidade, e que o Terceiro Exército está aderindo à legalidade, à posse constitucional do João Goulart.
A Campanha da Legalidade nos ensina algumas coisas. Que a aliança do povo com o Exército, mas de um exército comprometido de fato com a soberania nacional. Não esses generais aí que ficam aí se refestelando, com botox e pintando o cabelo. Só a única coisa que sabem fazer é usar Botox e pintar o cabelo. Aliás, o Crivella também gosta muito desse negócio de Botox. Talvez, é o que esteja confundindo mentalmente a cabeça dele na organização política da Prefeitura. Ou seja, eram membros das forças armadas comprometidos com a democracia e com os direitos sociais, somada a força de um grande líder que conseguiu vencer a batalha das comunicações. Esse conjunto é fundamental para a transformação radical das bases da nossa sociedade, que é uma das mais desiguais do planeta.
Que a rememoração da Campanha da Legalidade nos sirva de inspiração para a nossa luta contra a tragédia que se abateu sobre o Brasil. Ou seja, essa mistura do “lacerdismo” com fundamentalismo religioso. Militares discípulos do Sílvio Frota, que é esse revisionismo, esse revanchismo. Milícias e a “lavajatismo”, que formam essa base do governo, a base de sustentação do Bolsonaro, do “bolsonarismo”.
É importante entender a campanha da legalidade, para que possamos combater o obscurantismo dos dias atuais de Bolsonaro, de Crivella e de Witzel, porque é tudo farinha do mesmo saco. Ou farinha de saco diferente.