Discurso - Vereador Leonel Brizola -

Texto do Discurso

O SR. LEONEL BRIZOLA - Senhor Presidente, senhores vereadores, já subi nesta tribuna diversas vezes para denunciar a vergonhosa privatização da Cidade do Rio de Janeiro. O Prefeito Eduardo Paes, há muito tempo, rasgou o Estatuto da Cidade. A cidade, senhores vereadores, é um direito, e direito, senhoras e senhores, não se negocia. O direito fundamental de todo ser humano é a liberdade. Uma das formas de materialização dessa liberdade é a possibilidade de ir e vir na cidade. Mas, no Rio de Janeiro, o que deveria ser um direito fundamental, tornou-se, nas mãos do PMDB, um privilégio. Primeiro, prendem-se os garotos pobres no ônibus, Vereador Alexandre Isquierdo, simplesmente por serem negros e tão pobres, ou pobres e tão pretos, como diz a Vera Malaguti, Vereador Renato Cinco. Mas isso não parece que foi suficiente: tirar os garotos pobres dos ônibus. Já com a bola de cristal, o Secretário Mariano Beltrame, imitando aquele filme do Tom Cruise, “Minority Report: Pré-crime”, já teve uma antecipação de que aqueles meninos iriam cometer um crime: “Tira do ônibus! Prende! Manda para o abrigo da Prefeitura!”.

Agora são os próprios ônibus que são tirados de circulação. É grave o que está acontecendo! E esta Casa tem o dever – já que a gente discute tanta coisa – de discutir o que está debaixo do nosso nariz. O Jornal O Dia de hoje traz uma matéria informando que a Prefeitura, a partir do dia 3 de outubro, vai extinguir 22 linhas de ônibus que atendem aos moradores da Zona Norte e Zona Oeste. Isso, senhores vereadores, cortará o acesso às praias da Zona Sul dos moradores da Maré, do Jacaré, de Ramos, de Olaria, de Tomás Coelho, de Bonsucesso e de todos os bairros da Zona Norte.

A Prefeitura tenta justificar o injustificável! A Secretaria Municipal de Transportes, onde está lá sentado o filho do Picciani, Rafael Picciani, numa espécie de capitania hereditária, diz que essa medida é necessária para eliminar a sobreposição de coletivos que fazem o mesmo itinerário.

Mentira! Cascata! Por que agora então os jovens, ou quem queira ter a sua hora de lazer, tem que fazer duas baldeações? Se quem mora na Maré quiser frequentar a Praia de Ipanema, vai ter que parar em Botafogo, e por aí vai, ou na Central do Brasil. É o impedimento do acesso ao espaço mais democrático que o Rio de Janeiro tem, ao lazer mais democrático e que não tem que pagar que é a praia. O sol é para todos, mas parece que na mão do PMDB é só para quem pode pagar.

Não duvido que daqui a pouco o ar da cidade do Rio de Janeiro, nas áreas onde seja mais puro, seja cobrada uma taxa! O sol é para todos, mas não para o PMDB! É de uma vilania tão baixa! É não pensar a cidade de uma maneira integrada. É de um preconceito que sinceramente estou estarrecido com esse projeto da Secretaria de Transportes e com o Prefeito Eduardo Paes. E a justificativa é a pior das piores. É segregação de fato que está em curso. É um ‘aparthaid’ social! Querem criar uma ilha VIP do Centro da cidade, por conta da especulação imobiliária, até o Leblon, na rua do Senhor Sérgio Cabral! Ali pode tudo! Tem segurança, tem escola, tem transporte, tem metrô, tem qualidade..., e o resto da cidade fica abandonado! Ou então em pequenos grotões de currais eleitorais que o Prefeito gosta de abastecer. Que política é essa?

Mais uma vez o Prefeito dá provas cabais de que divide a cidade em duas: a cidade dos ricos e a cidade dos pobres. De que lado vocês aqui estão? De que lado? Até quando, Senhor Presidente, teremos que conviver com uma administração que olha para a cidade como uma empresa, como um negócio, onde o que vale é o lucro? Que olha para os pobres como gasto e que olha para os ricos como certeza de lucro. Uma cidade que não é de todos torna-se de ninguém! Gentrificação, segregação, especulação imobiliária, muro da vergonha... Onde queremos chegar? Porque isso irá bater na porta de todos nós aqui! De todos os cariocas, em forma de violência, em forma de preconceito! Que cidade queremos criar para os nossos filhos e para os nossos netos?

Quando Brizola chegou aqui, no Rio de Janeiro, a primeira atitude que tomou foi justamente em relação ao transporte. Colocou transporte da Zona Norte direto para a Zona Sul, dando oportunidade de lazer gratuito. Que perversidade é essa?

O Brizola foi lá, encampou as empresas de ônibus, fez um acesso democrático à cidade – uma cidade que se comunica entre si. Assumindo o PMDB do Moreira Franco, devolveu as empresas encampadas pelo Governo do Estado às empresas de ônibus, que fazem o que querem na nossa cidade com um péssimo serviço. Falam muito dos nossos taxistas, mas o pior serviço é o dos ônibus, de longe! É o pior serviço! Serviço de péssima qualidade, de longe! Imaginem esse Prefeito presidente da República! Os pobres seriam dizimados!

E ainda assim querem se perpetuar no poder! Mais uma vez? Até quando vamos continuar cegos a este poder hegemônico na Cidade do Rio de Janeiro, que só trouxe barbárie, violência, segregação?! Qual é o legado de Sérgio Cabral? Qual o legado do Pezão? Qual o legado de Moreira Franco? Qual o legado de Eduardo Paes? Que venhamos aqui discutir o legado deles, o público e o privado! Até agora eles só governaram para o privado! Todos os escândalos de corrupção, todos eles, foram abafados! E por que foram abafados? Porque estão lá no Palácio Guanabara e no Palácio da Cidade políticos da predileção do jornal O Globo!

Esta é que é a verdade! O orçamento deixa clara a transferência maciça de recursos públicos para o setor privado! Ao final do Governo do PMDB vamos ter repassado, do dinheiro do povo do Rio de Janeiro, mais de R$ 1 bilhão para a Fundação Roberto Marinho! Qual o legado da educação do PMDB? O legado da educação do PMDB é construir presídios! A nossa cidade é uma cidade segregada, uma cidade apenas para quem pode pagar, e cada vez vai ficar mais claro isso. Mais claro! Vamos pagar um preço altíssimo, seja rico, seja pobre, seja classe média; seja político de direita, de esquerda, quem apoia o Prefeito e quem é oposição. Todos nós vamos dançar nesta, e para pior!

Ou paramos para pensar uma cidade realmente adequada, justa, democrática, para todos, ou vamos ter um arrependimento que pode ser doloroso, inclusive pegando a família de cada um aqui dentro, seja na forma de violência, de agressão, seja na forma de preconceito.

Concluo, Senhor Presidente, dizendo que estou estarrecido com essa determinação do Prefeito. Esta Câmara tem o dever de debater este assunto, porque o mesmo é de uma gravidade pior do que fechar as fronteiras, como está acontecendo na Europa! É pior ainda! A segregação está aqui diante de nós!

Muito obrigado.