SOLENIDADE


Texto
A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Boa noite a todas, fundamentalmente, a todos e, além do boa noite, agradecer a presença, por enegrecer e empretecer a Câmara Municipal.

Dou por aberta a Solenidade para homenagear a Senhora Conceição Evaristo, nossa companheira, irmã, mulher negra, poetisa, escritora, Doutora em Literatura Comparada, pela Universidade Federal Fluminense – UFF e militante do movimento negro, com a entrega do Conjunto de Medalhas de Mérito Pedro Ernesto, de acordo com a Resolução da Mesa Diretora nº 9.567/2017, de minha autoria, aprovada por unanimidade em Sessão Plenária nesta Casa de Leis e celebrar o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.

Solicito ao Cerimonial da Câmara Municipal do Rio de Janeiro que conduza à Mesa de Honra as personalidades que irão constituí-la.

(As personalidades são conduzidas ao recinto da Mesa)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Com muita alegria, componho esta Mesa de mulher preta, começando pela Senhora Diretora da Anistia Internacional, médica Jurema Werneck; com muita honra, pautada pelo nosso mandato coletivo que organizou esta Mesa e garantiu esta mulherada, também chamo a atriz e mulher negra, precursora desse lugar da resistência, Ruth de Souza; passando agora para outra amiga e companheira da luta das resistências a mais uma das formas de violência da segurança que esta Cidade produz, Patrícia Oliveira, integrante do Mecanismo Estadual de Combate e Prevenção à Tortura do Rio de Janeiro – MEPCT; a irmã e jornalista, que debate nos lugares de resistência dos grandes meios da comunicação, Flávia Oliveira; as nossas mais velhas, – não é, Carol? –, Mãe Meninazinha de Oxum e – como aprendi com o Cerimonial e, desde já, agradeço à Fernanda, nossa responsável, que vai me pautar e orientar nesta noite, além da equipe do mandato – o gran finale dessa composição, a Senhora Conceição Evaristo, nossa grande homenageada.

(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Ouviremos, agora, a execução do Hino Nacional Brasileiro.

(Ouve-se o Hino Nacional Brasileiro)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Para registrar nos Anais: Fora,Temer!

Homenagem como esta não poderia deixar de citar os recebimentos de mensagens de congratulações.

Ao longo da Solenidade, nós registraremos as presenças que vocês já passaram aqui para o Cerimonial, como a da Senhora Mira Floriano, representando o nosso companheiro de Bancada, de luta, de vida, de luta principalmente pela população LGBT, nosso Deputado Federal Jean Wyllys.

Vejo aqui, além do Senhor Leo Diniz, Sidney, Isi, Bel, a equipe do companheiro Marcelo Freixo, também da Bancada, pela Comissão de Defesa dos Direitos Humanos. A amiga Diretora do Museu do Samba e também do nosso partido, vereadora suplente desta Casa, Senhora Nilcea Freire.

E tenho a honra de registrar a presença desta Bancada, que se faz a segunda maior Bancada na Casa, com o nosso amigo Vereador Tarcísio Motta. E também do companheiro do campo progressista, de quem resiste nas lutas diárias, também pela Bancada do PT, o Vereador Reimont.

E citando dois companheiros da Comissão Permanente de Cultura, aproveito, então, para já fazer um convite fundamental para o nosso povo preto: na Câmara Municipal, no dia 11 de agosto, às 14horas, a Comissão convida para o debate de ações e políticas que debatem a Pequena África, Museu da Liberdade e Escravidão, enfim, toda a relação com o nosso território fundamental do Valongo.

Também para registrar já o povo dos Filhos de Gandhi, aqui, com a presença do Thiago. O lugar que se faz de resistência, que a gente precisa ocupar também as comissões legislativas da Casa.

E, também, da mulher preta, primeira mais votada, e isso não é menos importante numa Cidade que se diz não, que disputa os maiores índices de desenvolvimento humano, a Cidade de Niterói, mas que tem também, ali, toda na centralidade das favelas, o nosso povo preto, a presença de quem resiste e, desde o seu primeiro momento de campanha, fala de um mandato negro, popular, LGBT e feminista, minha amiga, minha irmã, Talíria Petrone, de Niterói, aqui presente.

Nesse dia de lutas e vivências, celebrações, a gente mesclou, e tomara que a gente passe uma ótima noite, de vários encontros. Agradecer de coração aos vários rostinhos e vários momentos que a gente tem que ocupar mesmo essa Casa.

Fui feliz em participar de um vídeo feito pelo Coletivo do Feminicidade, que nós assistiremos agora chamado “Voz, Cor e Luta”. Pelo Coletivo do Feminicidade e, principalmente, estimulado e também composto pela Fabbi. Eu não vi a Fabbi, vi a Cássia, vi as meninas do Feminicidade.

A Fabbi faz um lugar de resistência em Parque das Missões, com todo lugar de apadrinhamento das crianças e fez esse vídeo com muitas mulheres negras, a celebração das potências, das vivências, das mulheres da Cidade, das mulheres na Região Metropolitana. Então, com vocês, o vídeo para iniciar nossa noite.

(É feita a exibição do vídeo)


A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Depois, certamente, conta o vídeo, e vendo cada um o seu, a gente termina, exatamente, falando: “Não haverá revolução se ela não for feminista! E com a nossa cor, com o nosso lugar, com a nossa história”! Então, agradecer, mais uma vez, ao Feminicidade.

E falar também que a nossa companheira, mulher trans, negra, Alessandra Makkeda está a caminho, mas vejo aqui pessoas surdas, pedindo... “Ah! chegou!” Atrasada, cara de pau! Falo mesmo ao microfone! Vamos colocar legenda para que o lugar da inclusão... E esse lugar que nós somos sim maioria e que a gente precisa ter e socializar é fundamental. Então, fica a dica.

Bom, utilizaremos a Tribuna. E gostaria de chamar a amiga e companheira que compõe, que constrói esse mandato, que resiste nas favelas cariocas, que resiste no Borel, que resiste com as afro-empreendedoras, nossa amiga Mônica Francisco para ocupar a Tribuna e prestar sua homenagem.

(PALMAS)

A SRA. MÔNICA FRANCISCO – Eu, mulher negra, resisto! Sou Carolina Maria de Jesus, nascida em Minas Gerais, Sacramento, em 1914. Sou considerada uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil. Registrava, apesar de poucos anos de estudo, meu testemunho do cotidiano da comunidade onde residia, em cadernos que encontrava no lixo. Sou autora de “Quarto de despejo: Diário de uma favelada”, publicado em 1960.

Eu, mulher negra, resisto! Eu, mulher negra, resisto!!!


(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Mônica.

Convido a ocupar tudo e ocupar a Tribuna a juventude do Partido, a Juventude do Rua, a juventude que constrói também esse mandato, que resiste, falamos hoje da Uerj, desse lugar da resistência que depois de 400 anos de escravidão, início do ano 2000, junto com a UnB e a Uerj, suburbana e preta, no debate das cotas para a população negra, a minha companheira, Daniella Monteiro.

(PALMAS)

A SRA. DANIELLA MONTEIRO – Eu, mulher negra, resisto. Sou Dandara, guerreira no período colonial do Brasil. Líder Quilombola, dominava técnicas da capoeira e lutei ao lado de homens e mulheres nas muitas batalhas consequentes aos ataques de Palmares, na Capitania de Pernambuco.

Eu, mulher negra, resisto! Dandara: presente! Dandara: presente! Mulheres negras: resisto! Mulheres negras: presente!

(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Dani.

Chamo à Tribuna Roberta Eugênio, uma amiga, companheira, mãe da Mainá, desse lugar das mulheres negras que compõem, também, esse mandato que não se faz sozinho, para fazer sua homenagem!

A SRA. ROBERTA EUGÊNIO – Eu, mulher negra, resisto! Sou Hilária Batista de Almeida, Tia Ciata, fui cozinheira e Mãe de Santo brasileira! Mudei-me para o Rio de Janeiro aos 22 anos! Sou considerada uma das figuras mais influentes para o surgimento do samba carioca, que em minha casa reunia os maiores compositores.

Eu, mulher negra, resisto! Tia Ciata: presente! Tia Ciata: presente! Mulheres negras: resistem!

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Beta!

Convido a maranhense, favelada, amiga e companheira de longa data, Renata Souza, também, para fazer a sua homenagem.

A SRA. RENATA SOUZA – Eu, mulher negra, resisto. Sou Dona Orosina Vieira, uma das primeiras moradoras da Maré. Cheguei ao Morro do Timbau ainda nos anos de 1940. Sou rezadeira. Também presenciei as principais transformações da Maré e registrei minhas memórias em diversos livros. Hoje, sirvo de inspiração para o Museu da Maré.

Dona Orosina Vieira: presente!

Eu, mulher negra, resisto!

(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Convido a Vitória, amiga, companheira, doula, que resiste em todo o lugar das mulheres negras da saúde, a mãe da Sofia, para ocupar a Tribuna e fazer a sua homenagem.

A SRA. VITÓRIA LOURENÇO – Eu, mulher negra, resisto. Sou Virgínia Leone Bicudo, nascida em 1915, em São Paulo. Sou socióloga e psicanalista brasileira. Fui essencial para a construção e institucionalização da Psicanálise no Brasil. Pioneira a tratar do estudo das relações raciais como dissertação de Mestrado em Sociologia, em 1945.

Virgínia Bicudo: resiste! Eu, mulher negra, resisto!

Virgínia Bicudo: presente! Virgínia Bicudo: presente!

(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Convido a irmã, amiga, companheira, mulher preta que constrói movimento de mulheres que atua nas resistências nacionalmente, e compõe também esse mandato nessa construção coletiva das suas colaboradoras, Rogéria Peixinho, para fazer a sua homenagem.

A SRA. ROGÉRIA PEIXINHO – Eu, mulher negra, resisto. Sou Mãe Beata, Mãe de santo feminista, lutadora incansável contra o racismo. Desenvolvi vários trabalhos. Muita emoção por ser Mãe Beata. Desenvolvi muitos trabalhos relacionados à preservação do meio ambiente, direitos humanos, educação, saúde, principalmente ao combate à fome, ao machismo, ao racismo, ao sexismo e ao patriarcado que mata todos os dias as nossas mulheres pretas em todos os cantos do nosso País.

Eu, mulher negra, resisto.

Mãe Beata: presente, sempre!

(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Convido a Fabíola, companheira, irmã que resiste todos os dias na Zona Oeste e constrói... Partido que constrói movimento, que constrói dentro das delegacias e das resistências nas Varas o lugar das advogadas, que compõe também o estágio essa equipe, para fazer a sua homenagem.

A SRA. FABÍOLA LEAL – Eu, mulher negra, resisto. Sou Anastácia. Cheguei ao Rio de Janeiro em um navio negreiro, em 9 de abril de 1740. Importante mulher negra, muito bonita, reconhecida no Brasil como uma heroína e santa. Minha vida é um misto de luta, bravura e resistência, doçura e muita fé.

Eu, mulher negra, resisto.

Anastácia: presente! Anastácia: presente!

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Queria registrar... E que todo mundo que tivesse nesse lugar de ocupar esta Tribuna, nesse lugar dessas mulheres que compõem, integram, ajudam, montaram, estão dedicadas, Conceição, desde o primeiro momento, assim como li no início, nós aprovamos a sua Medalha há alguns meses. Algumas pessoas, hoje, nesta Casa de Leis, que acham que tudo é oportunismo, questionaram, Conceição: “como vocês conseguiram fazer isso de uma hora para outra, da Flip?” Estão achando que a sua ou as nossas histórias eram de agora. E eu ocupei a Tribuna, hoje, para dizer que este mandato de todas essas mulheres e de tantas outras que aqui estão, como a Rossana, a Luna, Elaine, Júlia, Fernanda, da equipe que compõe esse mandato. Mas, dessas mulheres negras que queriam homenagear Anastácia, Orosina, Beata, Tia Ciata e todas as outras aqui citadas nessa construção que é coletiva.

Quando a gente usou, reutilizou, deu visibilidade ao Ubuntu, no processo eleitoral, ou quando usamos o “Eu sou porque nós somos”, vejo Iara, Ana Marcela, Lana, essa, de fato, é uma construção coletiva. Quando a gente bebe nas leituras, nas escrevivências, seja da Conceição Evaristo, seja da Diva Davis, em que uma sobe e puxa a outra, mesmo com a ponderação da minha amiga Vilma Piedade que pondera e dialoga sobre isso, que a gente fala da nossa dor, da sororidade, não é utilizando deste lugar, desta presidência, sozinha, que nós reconstruiremos o nosso processo de disputa simbólica e objetiva. Ela será feita, como foi feita e como é feita, com todas as mulheres que constroem esse mandato.

E, digo mais, com homens e mulheres, mas com uma maioria de mulheres que protagonizam esse mandato que não é apenas da Marielle e que a gente está aqui de fato expressando de maneira coletiva. Todas essas mulheres que leram as suas homenagens compõem e estão fazendo história, e queria deixar isso registrado, que é de maneira coletiva que se faz política.

Por isso, agora, a saudação da amiga e companheira do Fórum de Mulheres Negras – essa amiga com quem nos encontramos no domingo, enegrecemos e fizemos farra em Copacabana – Klátia Vieira para ocupar a Tribuna e fazer a sua saudação.

(PALMAS)

A SRA. KLÁTIA VIEIRA – Boa noite a todos e a todas! Especial boa noite às mulheres pretas que estão neste espaço. Quero parabenizar o mandato de Marielle e, na pessoa de Meninazinha, cumprimentar essa Mesa, com destaque para Conceição Evaristo.

Quero dizer que é com muita emoção que com tantas mulheres que estão aqui, ontem, a gente estava ecoando as nossas vozes, pegando carona no que acho de mais importante de Conceição Evaristo quando fala dessas vozes. Ontem, nós ecoamos essas vozes em Copacabana, onde tantas mulheres que estão aqui lá estiveram e tantas outras mulheres que estão aqui construíram aquele dia de ontem. Fica o exemplo, Marielle, é dessa política que a gente precisa, dessa política de empoderamento que nós, mulheres negras, precisamos. Desse espaço, hoje, aqui! Fica o exemplo para esta Casa e para as outras Casas que fazer um mandato coletivo que saia das pautas eleitorais, um mandato de promessas que saia das pautas políticas e de campanha. Esse é de verdade! Quem quer fazer, quem empodera, não tem medo! Isso é importante para nós! A cada 25 de julho a gente vê o quanto crescemos! Vemos, agora, todas essas jovens aqui mostram que a gente está no caminho certo. Na verdade, a proposta é esta!

Que venham outras e outras e mais outras! Vamos caminhar juntas, porque ao mesmo tempo em que a gente passa conhecimento, passa sabedoria, não tenham dúvidas, a gente recebe conhecimento e sabedoria.

Aproveito para convidá-las e convidá-los para a gente dar continuidade. Na quinta-feira, dia 3, nós vamos instalar outro espaço democrático numa Casa Legislativa. Nós vamos instalar o Fórum Permanente de Diálogo das Mulheres Negras com o Poder Legislativo, na Alerj. Uma resolução aprovada em plenário a duras penas, mais um espaço para as mulheres negras, onde nós iremos caminhar.

Quero terminar agradecendo mais uma vez o espaço e dizer para Conceição que, hoje, estar aqui, você nos reporta às nossas vozes: desde a voz de minha avó até a voz das minhas netas. Isso é trabalho que a gente vem fazendo ao longo do tempo. Você e a sua poesia nos fortalecem, nos capacitam e nos dão força para enfrentar todas as dificuldades que nós, as mulheres negras, estamos submetidas. Aqui alguém falava que já fizemos muitas coisas, mas nós sabemos o quanto mais nós temos para fazer.

Muito obrigada!

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Klátia! Na quinta-feira, estaremos na Alerj para ocupar tudo mais uma vez.

Chamo, agora, a companheira Ivanete.

A SRA. IVANETE CONCEIÇÃO – Desculpa justificar a ausência da companheira Leninha, lá de Duque de Caxias. Há muitos anos à frente construindo a história do Movimento Negro Unificado no Estado do Rio de Janeiro, que não se encontra muito bem e estou aqui cumprindo a tarefa de estar fazendo essa representação.

Inicio aqui pedindo licença às mais velhas, aos mais velhos do povo negro que constituem uma história que vem para além do oceano, mas que não morreu, porque as nossas mães pretas, as nossas avós e a geração passada conseguiu garantir que essa história permanecesse ecoando nos nossos ouvidos. E assim fomos nos constituindo mulheres resistentes, mulheres fortes, não por conta de querer, mas, principalmente, por uma imposição da história que nos foi colocada enquanto escravizadas.

Estar aqui hoje, dentro desse espaço, é um marco histórico sim para nós mulheres negras. É um marco que também repercutirá pelo nome que nos faz chegar até aqui, Conceição Evaristo que, com certeza, fará com que muitas outras mulheres negras também façam esse caminho de construção da fala através da literatura. Espaço fundamental para que a gente saia desse lugar da invisibilidade, desse lugar que diariamente somos colocadas como vítimas, mulheres assassinadas, desvalorizadas, precarizadas no campo de trabalho.

Nós não podemos deixar que continue um processo de racismo e extermínio da população negra, enquanto nós, mulheres negras, somos a maioria dessa população. Nós precisamos nos afirmar na história, que até aqui vem sendo também escrita por tantas outras mulheres negras como Conceição Evaristo. Então hoje é, sim, um dia, um marco histórico dentro do 25 de julho. E como representação aqui do Movimento Negro Unificado, que no próximo ano completa 40 anos de sua história, a gente quer deixar não só um forte abraço, mas um forte compromisso também com essa história das mulheres negras dentro do Fórum de Diálogos que também já se constituiu e que precisa se fortalecer. Mas dizer, principalmente, que cada uma de nós precisa assumir também responsabilidades, mas não podemos deixar que a história desse momento, pela qual passa o nosso País, continue matando as mulheres e exterminando a nossa geração de jovens negras e negros.

A vinda de Conceição para essa homenagem é um chamado a todas nós. Que a gente possa continuar repercutindo a fala das rezadeiras, das benzedeiras, das mulheres parteiras, lavadeiras que fizeram parte da história que nos trouxeram até aqui. E que a gente possa também se transformar em intelectuais da nossa própria história.

Conceição, parabéns; Marielle, também, pelo feito de hoje!

(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Ivanete, minha companheira de partido, companheira que resiste em Caxias e constrói partido e movimento assim como a nossa amiga está lá no lugar da resistência. E também um abraço para a Leninha, porque nos movimentos que fazem, são conjuntos.

Então, convido agora a senhora resistente dessa luta, do lugar da trabalhadora, do lugar que a gente precisa tanto preservar, que a Marcha tanto falou das ameaças que as reformas hoje atingem essa vida, e que nós resistimos há algum tempo, a senhora Zica de Oliveira, para compor e nos brindar aqui, da ONG Criola, para ocupar a Tribuna.

(PALMAS)

A SRA. ZICA DE OLIVEIRA – Boa noite à Mesa, boa noite a todos!

Quero parabenizar a Marielle por este grande momento! É um momento muito importante para nós! Porque este espaço é nosso e nós achamos que não é! Este espaço é nosso, e quando a gente entra, a gente entra até tímido, não é?! E é nosso!

E este momento de a gente ocupar esse espaço é muito bom, Marielle, principalmente quando a gente sai de 25 dias de ativismo para a Marcha das Mulheres Negras; e que a gente conquista com o grande marco com a Marcha na Orla de Copacabana, e que a gente vê que os passos, os nossos passos continuam. Continuam, porque a gente não pode cruzar os braços! Sabemos que nós, mulheres negras, somos resistentes; sabemos que nós, mulheres negras, encontramos um desafio pela frente, mas temos que estar sempre firmes na nossa caminhada.

Quero também colocar aqui a importância do apoio que nós, mulheres negras, recebemos das instituições que estão ao nosso lado, nos empoderando a cada dia, como o Criola, que é uma dessas instituições que nos empodera, que nos dá força, que nos incentiva na caminhada e que nos faz sentir, perceber que somos capazes! Isso é muito importante! Porque muitas vezes a gente acha que como mulher negra, massacrada em todo o nosso caminhar, desde a escravidão, as coisas mudam, de forma a acontecer; mas o processo de acontecimento, ele, é o mesmo! Então, a gente está, aqui, hoje, agradecendo muito! Nós mulheres negras, trabalhadoras, quero colocar aqui o meu repúdio a este momento que estamos vivendo da perda dos nossos direitos, a perda do direito da classe trabalhadora. E nessa perda da classe trabalhadora, nós, empregadas domésticas, estamos inseridas. Mal conseguimos entrar na CLT, e levamos uma pernada!

Então, gente, a nossa luta é grande! A luta da mulher negra é grande! A mulher negra, empregada doméstica, saiu da senzala, mas estão nas grandes mansões. E se nós não nos unirmos, dermos as mãos, e acharmos que somos capazes, capazes de caminhar a passos longos... Porque os nossos passos vêm de longe! Estamos aqui!

Conceição, eu vendo um pouco das suas obras, você é maravilhosa! É o nosso orgulho! É o símbolo de nós, mulheres negras! Todas nós podemos estar aqui muito gratas por esta homenagem a você!

Tem uma frase muito comentada, nesses últimos dias, que “uma sobe e leva a outra”. Você é uma dessas mulheres, certo?

Achei muito interessante e importante para nós o seguinte: a questão negra não é uma questão para o negro resolver! A questão indígena não é para o índio resolver! São questões para todos nós, brasileiros!

Parabéns, parabéns, parabéns, Conceição!

(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Zica e obrigada ONG Criola por essa construção. Encontrei-me no domingo com Lúcia. E nessa construção de roda de conversa, atividades, marcha e encerrando em grande estilo, esse 25 de julho, aqui, o nosso Julho Negro. Então, agradeço muito essa parceria dos movimentos sociais, da sociedade civil organizada, com o nosso lugar legislativo, de quem nos pauta.

Convido também a Senhora Laisa dos Santos da ONG Afoxé para ocupar a Tribuna. Falei certo?

A SRA. LAISA DOS SANTOS – Boa noite a todos, em especial a todas. Nós da Afoxé Filhos de Gandhi estamos muito honrados em estar presentes a esta homenagem para a Conceição Evaristo, mas os beneficiados somos todas nós e a sociedade de modo geral. A Conceição Evaristo nos traz um legado fortíssimo, importante e crucial para o crescimento da mulher negra, para o empoderamento da mulher negra. Estou muito emocionada, desculpem-me. A insubmissão: nas suas escrevivências você deixou esse legado fortíssimo para nós. Através de tudo isso, estamos conseguindo caminhar e galgar lugares melhores, educando a sociedade. Vamos caminhando, conseguimos levar esse legado que você nos deixa e a Afoxé Filhos de Gandhi trabalha todo esse legado através da dança afro.

A Afoxé Filhos de Gandhi do Rio de Janeiro tem a presença fortíssima feminina, e trabalhamos todo esse empoderamento através da dança afro. Estou muito agradecida em nome da Afoxé Filhos de Gandhi por estar aqui compartilhando este momento muito importante para mim, para o meu crescimento e para o crescimento de todos, inclusive das mulheres guerreiras que atuam dentro da Afoxé Filhos de Gandhi. Aproveito esse ensejo para deixar um convite muito especial para todos e todas para no dia 12 de agosto estarem conosco na Praça dos Estivadores, é aniversário da Afoxé Filhos de Gandhi, estaremos lá com a presença fortíssima do corpo de dança da ONG e outros grupos de mulheres que trabalham com a cultura popular de matriz africana. Será um prazer imenso receber todos. É isso, vamos caminhando.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Laisa, pela existência, pelo lugar da celebração e pelos ensinamentos, de fato, dessa prevalência das mulheres. A Elizeth, que, na verdade, é uma tia, é uma construção, foi uma vizinha que nos adotou e muito nos ensinou. Foi a primeira vez que fui a um centro e a um terreiro, na celebração de casamento dessa mulher que energiza e que fortalece a minha vida em particular. É uma mulher de fé. E esse lugar da resistência das mulheres nessa construção da Afoxé, que muito confundido com homens, com um lugar da Bahia ou com um lugar das contas ou com um lugar apenas do debate da cultura, mas que tem essa resistência e empodera todas nós. Obrigada pela presença, com todo coração e afago para estarmos no dia 12 com vocês no Cais do Valongo.

Queria pedir para que a galera entrasse na página, curtisse e compartilhasse. É fundamental que utilizemos esses espaços. Se esta Casa está enegrecida, que consigamos fazer isso também via rede social e levar a cultura, não a contracultura, ao nosso lugar da resistência. Como diz a minha amiga, se é tempo de conservadorismo, é tempo também de resistência. Se há páginas que colocam os nossos homens negros presos e nos difamam, teremos, sim, páginas compartilhando a Câmara Municipal com muita mulher preta. Então, que também ocupemos as redes sociais e isso é fundamental. Desse lugar das resistências, da fala, da linguagem de sinais, da mulher preta trans, chamo à Tribuna a nossa amiga companheira Alessandra Makkeda, assessora do Deputado Federal Jean Wyllys, mas a mulher preta que é trans para fazer a sua saudação, dialogar e fazer sua homenagem à Conceição.

(PALMAS)

A SRA. ALESSANDRA MAKKEDA – Obrigada. É uma responsabilidade muito grande estar aqui. Primeiro, porque estou vocalizando a existência de diversas pessoas que não são faladas ainda nessa sociedade. Estou falando das mulheres trans negras. Estou falando da nossa existência enquanto ser humano, da nossa capacidade de estar dentro da sociedade, e não relegado apenas ao escuro das ruas, ao escuro da não existência, ao escuro do não poder de fala, ao escuro do não lugar, que às vezes nos é negado pelos nossos próprios pares. Então, estou aqui também representando um grupo de pessoas que não pode falar e que, justamente por isso, também não é compreendido na sua subjetividade. As pessoas não entendem que a língua de sinais é uma língua diferente da língua portuguesa e que as pessoas surdas negras têm muita dificuldade de acesso, e sofrem com o racismo todos os dias. Por isso, seguindo seu exemplo, seguindo a escrita de si, nós viemos falar, nós viemos aqui para parabenizar o seu exemplo e para dizer que se a senhora pode, nós também podemos.

Muito obrigada! E, agora, eu queria poder dizer a mensagem para os meus companheiros.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO ) – Por favor.

(A Sra. Alessandra Makkeda realiza seu discurso por meio da Língua Brasileira de Sinais – Libras)

(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Alessandra.

Quebrando rapidamente o protocolo, na figura, também, da Alessandra, queria citar que no dia 8 de março, quando havia ainda, salvo engano, 15 a 20 dias que aqui estávamos, que aqui havíamos chegado, como a quinta vereadora mais votada, como a segunda mulher mais votada, e nesse lugar de resistência, a Casa faz as suas homenagens às mulheres. E a nossa homenagem, o nosso lugar de resistência foi homenageando, sim, a nossa amiga companheira, pesquisadora, professora do IFRJ, mulher negra, Jaqueline Gomes de Jesus, que aqui está, nossa irmã, também na luta da resistência das mulheres negras trans.

Convido a responsável, não só pela minha, mas da Talíria, de um monte de gente aqui, das nossas cabeças, do Iporinchê, a mulher que resiste há 17 anos, fazendo a valorização da nossa cultura, da mulher que inclui e coloca no seu calendário anual as suas clientes e as suas mulheres de resistência, principalmente, negra, mas também branca, desse lugar dessa mulher que me ensina, que me ensinou, que trouxe, uma das últimas vezes em que encontrei Conceição e em que tive a felicidade de ouvir Conceição recitar “Olhos d’Água”, dessa mulher que, no seio da Grande Tijuca, nesse lugar que é conservador, nesse lugar do Subúrbio, que acha que é Zona Sul, que resiste, Cássia Marinho.

A SRA. CÁSSIA MARINHO – Boa noite a todos, a todas. É sempre uma emoção estar aqui, neste convite da Marielle. Mas, hoje, realmente estou hiperemocionada por poder saudar e homenagear estas Ialodês, mulheres guerreiras, mulheres fortes – como denomino, senhoras de prestígio. Então, esta homenagem às mulheres da Mesa e a todas vocês.

Realmente a Marielle, quando iniciou a campanha, eu disse a ela em um evento: “Nós vamos enegrecer aquela Câmara”. E vamos fazer uma festa lá. Mas eu, como mulher de estética, mulher de beleza, não poderia imaginar que seria um dia tão bonito assim, com tantas mulheres negras, com tantas mulheres lindas, com tantos homens lindos, negros. Marielle, muito obrigada! Te devo essa!

Então, quero dizer que esta Casa aqui é muito importante para mim. Este dia também vai entrar na minha história. A primeira vez que estive nesta Casa foi na colação de grau da minha formatura. Sou formada, sou de beleza agora, mas sou formada em Ciências Econômicas e fui convidada para ler o juramento. E isso foi muito importante, porque toda a minha família estava presente e muito emocionada. Minha mãe chorou muito, meu pai, todos choraram. E nem eu tinha a dimensão desse momento, porque sou a primeira, há 30 anos, a primeira mulher que concluiu o curso superior. Então, hoje, a gente sabe o quanto isso é importante para a gente. E outra, como a Marielle citou, foi o ano passado, quando fizemos uma homenagem às minhas clientes, homenagem às mulheres negras em nosso calendário. E no mês de maio, a nossa homenageada foi Conceição Evaristo.

Então, todos sabemos: a mulher, a intelectual, a importância que a Conceição Evaristo tem para a gente. Mas a generosidade da Conceição Evaristo me emocionou profundamente, porque ela veio, não me conhecia; só sabia que estava sendo homenageada por um salão de beleza. Uma mulher da importância dela veio de Maricá e ainda nos presenteou, nos brindou com a sua fala, declamou o texto “Olhos d’água”, e isso marcou não só a mim, mas a todos os meus clientes que estavam presentes nesta Casa, nos presenteou com muita emoção.

Conceição Evaristo, muito obrigada, meu respeito por tudo!

Marielle, muito obrigada por esta oportunidade!

(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Cássia.

Convido a Raquel, do Coletivo Feminicidade, para falar um pouquinho do vídeo.

A SRA. RAQUEL BARROS – Boa noite.

Nós do Feminicidade queremos agradecer muito por podermos estar aqui hoje, por termos tido a oportunidade tanto de ter figuras de tantas mulheres incríveis neste vídeo com a gente quanto de apresentar hoje aqui neste espaço.

Eu gostaria que quem estivesse aqui falando hoje fosse outra pessoa, que fosse a mulher que nos inspirou a fazermos este vídeo: a Fabbi, de quem a Marielle falou antes da exibição, mas ela não pôde vir por estar com a mãe hospitalizada. A Fabi é uma mulher negra, favelada, moradora do Parque das Missões, em Duque de Caxias. É uma mulher que já trabalhou e estudou com muito esforço e, mesmo assim, tem uma atuação dentro do seu território, com a sua comunidade, de resistência e realiza uma Roda Poética com mulheres lá no Parque das Missões. E ela, em 2016, no ano passado, nos convidou para fazermos com ela, pela primeira vez, um evento com essas mulheres de lá sobre o dia 25 de julho. E nós mesmas não sabíamos dessa data: ela havia acabado de descobri-la e disse que queria muito realizar aquele evento, porque as mulheres da Roda Poética muitas vezes diziam que não se sentiam representadas nas lutas feministas do 8 de março.

Foi então que, a partir disso, a gente ficou com a ideia de fazer; nós, do Feminicidade, temos essa proposta de pegar a história das mulheres e dar visibilidade para elas, botar na rua, transformar em lambes, em audiovisual.

A gente ficou com essa ideia de fazer esse vídeo para este ano. Então, junto com a Fabbi, a gente idealizou, conseguimos correr atrás de muitas mãos, muitas voluntárias. Muitas mulheres negras chegaram ao processo para fazer isso com a gente – foram mais de 20 mulheres envolvidas nesse processo. Conseguimos realizar esse documentário.

O que vocês viram hoje foi um teaser especial sobre o dia 25 de julho – das mulheres falando sobre a importância dessa data.

Em novembro, a gente vai lançar um documentário maior em que as mulheres negras contam as suas experiências de viver na Cidade, dificuldade no mundo de trabalho, o mundo da moda pensando a mulher negra.

Então é isso. Fica o convite para acompanhar, que em breve a gente terá mais desse lindo material que a gente conseguiu produzir.

Obrigada!

(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada.

Falando da Fabbi, dessa mulher que resiste com as roupas e com a assistência a essas crianças, mas existe também nas lutas, que são muitas, e que tem muita gente que tem a audácia de falar que é “mi-mi-mi” ou de secundarizar as nossas dores.

A Fabbi tem um trabalho, quando Cássia falava da moda, do lugar de resistência à gordofobia, desse lugar das mulheres negras, que não estão enquadradas no padrão de beleza, que é fundamental e que a gente precisa acompanhar e reverenciar.

Então, que bom que é um coletivo e que as companheiras falam da mesma maneira e que levam o abraço também para Fabbi e agradecer ao Feminicidade.

Chamo agora a mais velha companheira que constrói conceitos e constrói junto, principalmente, com algumas mulheres negras, como a Tainá, que saiu, que a gente chama de Tainá de Paula, mas que é um nome, a gente descobriu que é Tainá, nas brincadeiras, que constrói coletiva partida no lugar da democracia feminista, nos lugares de resistência do campo progressista, irmã e companheira Vilma Piedade para fazer sua saudação.

A SRA. VILMA PIEDADE – Boa noite a todas e a todos.

Sou mulher preta ativista feminista de axé, sou uma mulher de Iansã. É tão bom a gente falar nisso, no momento em que o fundamentalismo avança e que estão quase detonando os nossos terreiros.

Eu, na figura de Mãe Meninazinha, porque na minha tradição, a gente trabalha com a questão hierárquica e Mãe Meninazinha está ali nos representando, apesar de terem outras da nossa tradição. Então, a bênção. A bênção, Irmã Nilce, Ekede e a Lúcia de Oxum.

E parabenizar esta Mesa, e parabenizar Marielle e ver que a gente está num lugar muito preto. Aqui está tão preto, assim como diz Caetano “preto de tão preto”.

E esse lugar preto de tão preto, e nós estamos num lugar de privilégio, porque nesta Casa se faz leis. Nesta Casa a coisa acontece diferente. A gente está neste lugar. E neste lugar a gente vê esta Mesa preta, vê tudo preto; e saber que Marielle foi eleita com mais de 40 mil votos e que nesta Casa tem 51 vereadores e que só tem seis mulheres e que só tem duas negras, o buraco é mais embaixo e estão nos devendo.

A nossa conta preta não fecha. A nossa conta de mulher preta não fecha. A nossa conta de mulher no poder não fecha.Então, mas não é bem isso. É que a gente fala, eu falo muito, e ela falou no conceito, é porque eu ousei criar um conceito que é “doloridade”, porque, na minha leitura, a dor une todas as mulheres. Só que, no nosso caso, a nossa dor é preta. A nossa dor tem o agravo provocado pelo racismo.

Porque dor dói e ponto final. Mas no nosso caso a nossa dor vai além, além da violência de gênero, para além de outras violências, nós temos a questão da dor, nós temos a questão da violência racial.

E aí, Conceição... E eu quero assim falar, parabenizar, claro, você, por essa Medalha, e lembrar que você tem uma fala muito interessante. Nesta Mesa estão Ruth de Souza, Jurema Werneck, da Anistia Internacional, Flávia Oliveira, ocupando espaço na comunicação, no espaço branco de macho, e é poder... Ruth de Souza, que foi para a arte lá atrás... Marielle, preta, sentada ali, no massacre... Patrícia...

O que estou dizendo é que é muita opressão, mas só que está todo mundo aí em lugar de privilégio. Conceição, na sua entrevista, do Prêmio Jabuti, disse o seguinte: a fala estilhaça a máscara do silêncio. E essa máscara do silêncio a qual ela se refere é a máscara da escrava Anastácia. Ela diz que nós, mulheres negras, falamos até hoje por esses buracos da máscara, porque o que marca nosso lugar na história, na literatura, em todos os lugares, nas escalas de poder, é a ausência. Temos falas silenciadas.

Ter a Marielle com esse mandato coletivo cheio de mulher preta se chama inclusão. Isso se chama presença, visibilidade, em que a gente pode dialogar. A gente tem que empoderar. E você foi mais além quando disse: para as feministas, escrever é um ato político, mas, para nós, mulheres negras, publicar é um ato político, porque mulher negra não publica. É muito difícil. A gente pega a Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento...

Quero lembrar agora que, se nós temos a geração tombamento que está aí, uma academia preta, que nós temos mais 20% de jovens dentro da universidade; a gente tem que lembrar que a nossa geração – a gente vem lá de trás – quase não tinha preto. Fui a uma universidade que passou anos com dois pretos. Inclusive, nem eu sabia que era preta, porque era chamada de diferente e exótica. Nem sabia que eu era preta.

É isso, gente. Parabéns, Conceição; parabéns à Mesa; parabéns a todas. Parabéns, Marielle, com esse mandato comprometido, que sempre bota à nossa disposição, à disposição das mulheres do movimento social.

Também quero dizer, quebrando o protocolo, que Marielle fez aniversário.

(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Só a Vilma mesmo. Já que ela falou do aniversário, no sábado ocuparemos a Pedra do Sal, com uma roda de samba, com as mulheres pretas, com o Grupo É Preta, com Marina Iris, Nina, ocupando tudo lá, a partir das 14horas. Todas estão convidadas para a gente sambar e celebrar nossas vidas.

Nosso Salão Nobre está lotado. Queria saudar a galera que está ocupando – acho que tem mais de 50 pessoas lá. Ocupamos o Plenário, a Tribuna, as galerias e também o Salão Nobre.

Tem muita gente aqui. Queria citar algumas pessoas rapidamente: Mãe Nilce de Iansã, sua benção; Iya Lúcia de Oxum; senhora e amiga que constrói, não a vi, Lili, Liliane Brum; amiga e companheira Schuma; Senhora Diretora do Instituto Candaces, Mara Ribeiro; Ekede Aline Labore, também sua bênção; Kaká, minha amiga e coordenadora do Fundo Elas, presente; Rosineide, Neide, Rosi, coordenadora do IFHEP, Instituto de Formação Humana de Educação Popular, do lugar da resistência da Zona Oeste; Mônica Sacramento, amiga, companheira, mulher preta que resiste, pesquisadora, que também constrói esse lugar junto do Criola, do lugar da educação; Marina Ribeiro, minha amiga, coordenadora do Ibase, Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, também e é sempre importante no lugar dos territórios, a gente falar, sim, – o território, como Milton Santos –, desse lugar da mulher que resiste, logo ali, na Zona Oeste; companheira e amiga também, Raquel Barros, educadora da ONG FASE, Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional, da educação, do Fórum de Manguinhos, do lugar das diversas resistências do debate fundamental da segurança pública.

Agora, os homens. Não, primeiro as mulheres.

Camilla Marins, companheira do Coletivo Sapa Roxa, também desse lugar da resistência, filiada ao PSOL; a Senhora Mônica Gurjão, do Cedim; Lenilda Campos, da Faferj; Elza, da Federação das Mulheres Fluminenses; Cláudia Vitalino, da Unegro; o advogado Humberto Adami; Henrique Vieira, da Comissão de Direitos Humanos, foi Vereador de Niterói, uma face negra do lugar do negro e do novo Cristianismo, que tem um diálogo fundamental a partir da perspectiva afrocentrada, mas com um diálogo com os cristãos que também resistem. Uma saudação do mandato do Deputado Estadual, também do PSOL, Flavio Serafini, que está com a campanha “Liberte Nosso Sagrado”, do lugar, não da intolerância, mas da convivência fundamental das matrizes de religiões africanas, que manda um abraço a todas as mulheres negras, em especial à homenageada, nossa companheira e amiga Conceição Evaristo.

Com isso, a grande noite das falas da Mesa. Quero saudar e agradecer muito: não foi à toa que todas nós e todos nós reverenciamos e aplaudimos de pé a atriz, a resistente Ruth de Souza, que – pelo menos foi o que me passaram –, pela idade, pelo momento e pela noite, está indisposta, já vai se retirar, mas fez questão de vir – eu a vi maravilhosa na imagem da TV da Câmara – e prestigiar a Conceição Evaristo. Fez questão de estar conosco e saúda a todas, mas a informação da assessoria... Ruth, você vai dar uma palavrinha, amada?

A SRA. RUTH DE SOUZA – Muito obrigada. Estou sem voz. Estou muito comovida e contente de ver tanta gente trabalhando. Eu trabalhei muito, e meu trabalho valeu a pena. Com esses 70 anos de carreira, trabalhando numa profissão que não é nada fácil, consegui dar essa alegria a todas as mulheres negras. Agradeço muito a Deus – Deus tem sido muito generoso comigo – por eu estar aqui hoje.

Muito obrigada.

(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Quero agradecer muito a presença da Ruth, a sua disponibilidade e a sua generosidade de vir compor e estar presente conosco nesta noite.

Então, agradecendo à Ruth e recompondo a Mesa para a nossa Solenidade para passar já a palavra à nossa amiga e companheira, que já foi citada, referenciada, fundamental nessa construção coletiva da mulher que também constrói partido, Talíria Petrone, Vereadora de Niterói.

Passo a palavra, pedindo a bênção para as mais velhas, Mãe... Todo mundo quer dar beijo na Ruth, só eu que não posso sair daqui, porque não pode deixar a Presidência, não é Fernanda? Então, Conceição foi lá dar beijo, Mãe Meninazinha foi dar beijo...

Então, seguindo, passo para a minha amiga, companheira Jurema Werneck, Diretora, hoje, da ONG Anistia Internacional.

A SRA. JUREMA WERNECK – Obrigada, Marielle. É muito bom estar entre irmãs; é muito bom estar em casa – estar em casa de um jeito especial, que é encontrar minha vizinha, minha irmã, companheira de jornada, Conceição Evaristo.

Este momento é um momento de honra, Conceição. É um momento de honra, porque estar aqui com você, com Mãe Meninazinha; com Dona Ruth; com Patrícia, que é uma guerreira incansável; com minha irmã Flávia; com Marielle, que chega aqui e traz potência, traz força... Este é um momento de honra, de emoção e com tanta gente.

O que eu posso dizer para você, Conceição, que seja diferente do que você diz sobre nós? Eu acho que Conceição Evaristo tem feito de nós, tem feito por nós, é central e que queria chamar atenção para isso. Em algumas culturas africanas, o ser vivente passa a existir da matéria a partir do sopro, “nomo” – algumas culturas chamam de “nomo”. “Nomo” é esse sopro, essa palavra que faz existir, essa palavra que faz movimentar, essa palavra que movimenta tudo. E é isso que Conceição faz: ela faz a mulher negra existir. Ela traz a palavra que faz a mulher negra existir. Faz a gente existir de diferentes formas. Você conta da dor que dói na gente, você conta da tragédia que derruba a gente. No entanto, se a dor é verdade – não é, Vilma? –, se a dor é real, é real também essa mulher que dá o passo adiante. Essa mulher que segue adiante, fazendo existir outras mulheres. A gente ouviu aqui várias vezes e você ouviu e tem ouvido. E você também diz que as mulheres negras são cercadas pelo silêncio, pela invisibilidade, pelo apagamento da história da trajetória.

Mas isso não quer dizer que a gente esteve ausente. Isso quer dizer que o racismo, este sim, é muito potente. No entanto, você fala do nosso silêncio com palavras. Então, portanto, você o desmente. Você fala da nossa fraqueza com força. Então, portanto, você a desmente.

Se a dor é real e se a dor é verdadeira, são verdadeiros também os unguentos, os remédios, as medicinas, as formas de fazer a ferida sarar. A forma de fazer a dor ficar em outro lugar.

A gente carrega essa cicatriz. Mas não é toda hora que ela sangra. E a palavra é a poesia, é a literatura, é o livro, que é o remédio, a medicina, o curativo. É o desmentido daquilo que o racismo diz de nós.

O racismo diz silêncio e você diz palavra. O racismo diz invisibilidade e você diz presente. O racismo diz não pode e você publica. E mais do que publica, ganha o Jabuti e diz para eles: “Eu existo e ponto”.

A palavra tem uma potência que não pode ser desprezada. Isso eu aprendo com você. Publicar é um ato político; mais do que isso, o ato político fundamental que está no seu gesto de grande escritora é escrever de nós para nós. O grande ato político é você dizer que nós existimos e você se colocar como nossa porta-voz.

Você é minha porta-voz e isso é uma honra, isso é uma delícia, isso é um luxo. Todo mundo acha que o racismo acabou com a gente. Mas a gente sabe que não acabou, olha a gente aqui. Olha a gente aqui.

A gente está falando, e Conceição está falando de outra mulher. A Conceição está contando de outra mulher que se chama Meninazinha, se chama Flávia, se chama Talíria, Patrícia, Marielle, Ruth, Nilce, Naira, Zica. Há tantos nomes nessa mulher.

O que Conceição faz é dizer que a gente existe. E a gente existe. O que Conceição faz é ensinar para gente que somos nós que vamos falar de nós. Somos nós que nos fazemos existir. Somos nós que vamos dizer o nosso nome.

E é com muita honra, Conceição, que digo este nome: Conceição. É com muita honra que, ao dizer Conceição, escuto também meu nome nesse nome. Estou honrada, Conceição. Estou muito honrada e agradeço a Marielle, agradeço a você, agradeço a minhas irmãs, agradeço a Meninazinha pela oportunidade. Você e a sua palavra fazem a gente existir e fazem a gente existir de outro jeito.

Esta é a sua lição: você diz “não deixam que eles digam o que nós somos”. Conceição nos ensina: nós somos quem vai dizer o nosso nome.

Muito obrigada!

(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada pela honra, Jurema. Honrada juntas. Passo a palavra para Mãe Meninazinha, para as nossas mais velhas, pedindo a sua bênção, agradecendo pela sua presença, pela sua saudação, minha irmã.

A SRA. MÃE MENINAZINHA DE OXUM – Boa noite a todos, boa noite às amigas da Mesa, boa noite a todos vocês.

Estou muito feliz por estar aqui! Agradeço o convite, por participar desta homenagem a essa mulher maravilhosa, essa negra linda, Conceição Evaristo, e que a gente já se conhece há muito tempo!

Essa mulher lutadora, vencedora, resistente – mulher negra resistente! Meus parabéns!Coisa boa! Tanta mulher preta nessa Casa importante! Isso se chama resistência! Isso é resistência! Nós estamos resistindo! Chegar até aqui nessa Casa, que é nossa! É nossa! Nós também temos esse direito! Nós negros temos esse direito de estar aqui nesta Casa! Feliz por estar aqui, muito feliz mesmo por estar aqui participando! A emoção também está aí! Emoção por tudo, por estar aqui, por coisas que também – que não vale a pena...!

Sou mulher negra! E resisto! Estamos todos juntos, aqui, resistindo, trabalhando! E vocês me desculpem, porque não tenho mais condições! Eu sou mulher negra e resisto! Tanta coisa para falar, mas, no momento, apaga tudo! Desculpem!

Muito obrigada!

(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, minha Mãe, obrigada com as suas bênçãos e obrigada pela sabedoria desse lugar, dessa construção, das mais velhas que vêm antes de nós!

E passo, na sequência, a palavra para a companheira – já falei aqui desse lugar da resistência, das vigílias, da campanha contra o “caveirão”, da rede de comunidades contra a violência, de familiares de vítimas de violência, desse lugar das disputas com os movimentos sociais, dos grandes diálogos fundamentais para a gente ver quem e onde estão os inimigos, dessa construção da resistência nos lugares de privação de liberdade, na construção com outra mulher negra, junto com a Renata e com a Vera, junto do mecanismo de prevenção à tortura, desse lugar de visita ao manicômio, de visita ao nosso povo preto que está encarcerado nessa população carcerária que só aumenta, desse lugar das múltiplas resistências – e amiga Patrícia Oliveira para a sua saudação.

(PALMAS)

A SRA. PATRÍCIA OLIVEIRA – Boa noite a todos e todas!

Primeiro gostaria de agradecer o convite à Vereadora Marielle, porque hoje é um momento muito importante, estar aqui, principalmente pela Conceição ser uma homenageada e por ela representar várias mulheres negras.

Então, temos poucos momentos de homenagem. A gente tem muitos momentos de luta e de conflito, mas momentos de homenagens são poucos, principalmente nas Casas Legislativas, seja na Alerj ou na Câmara.

Então, estar aqui, hoje, para mim, está sendo bem importante e, com certeza, estou me sentindo representada também na homenageada!

E como a Marielle falou, o meu local de serviço é o sistema prisional, que 90% da população são negros! Você encontra nas filas das unidades as mulheres negras! Então, realmente, a gente tem que ter resistência todos os dias.

E para a juventude que está aqui, queria deixar um recado, principalmente: para a juventude tomar consciência e conhecer a sua história, porque precisamos de mais “Conceições”! Muito mais, porque a gente tem que ocupar todos os espaços: seja na Câmara, seja em qualquer espaço, a gente tem que ocupar esses espaços, porque se a gente não estiver unido, se não estivermos ocupando esses espaços, vamos sempre estar sendo massacrados. Todos os dias somos massacrados. Enquanto estamos aqui, neste momento, houve uma manifestação no Morro da Coroa e mais uma vez a polícia reprimiu a manifestação, e uma pessoa foi baleada. Então, nós só temos momentos de violência, e pouquíssimos momentos de homenagem. Nós temos que homenagear e conhecer a nossa história todos os dias e dizer que somos capazes de ser escritoras, juízas, desembargadoras, governadoras e o que quisermos ser, e acabamos não colocando esse objetivo em nossa mente.

Temos que ter este objetivo claro: podemos chegar aonde quisermos. É isso. Obrigada. Boa noite.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – A fala da Patrícia me faz olhar, lembrar e citar as outras mulheres pretas que resistem nesse lugar da disputa por outra política de segurança, por outra política carcerária.

Está aqui também a companheira Mônica Cunha, que compõe a Comissão do Movimento Moleque. Está aqui também a mãe que é vítima, mas a mãe que resiste: vi lá em cima Dona Jane, amiga, companheira, mãe de Manguinhos, essa mulher que resiste junto à organização Mulheres de Atitude. Estou agradecendo à Patrícia por estar ao lado das mulheres de Manguinhos, das mulheres das associações de moradores, das mulheres da Fiocruz, das mulheres que constroem, de fato, movimento popular de base, assim como a Rejane, não só amiga, pesquisadora, mas da Mulheres de Atitude, desse feminismo diário.

Das disputas por dentro do Estado, que a Patrícia falava e que daqui a pouco fala mais um pouquinho, porque Conceição fala dessa disputa e desse lugar da publicação, também aqui... Ela não falou, não, mas eu quero citar, porque vamos nos construindo na luta, criando amizades. A Letícia, que disputa esse lugar também, por dentro da Defensoria. Também desse lugar que a amiga e companheira, que não está aqui presente, mas a defensora Lívia Casseres, do Núcleo de Combate ao Racismo. Também ali com as amigas, as advogadas que serão sempre reverenciadas: estão ali a Laila, a Aurora, desse lugar e das novas formas de se fazer política.

Quando queremos comer a nossa comida africana – eu vi o Kanu por aí, mas não o vi mais – há o Dida Bar, dessa mulher que está ali na Praça da Bandeira, nessas novas formas das afroempreendedoras, nos ensinando muito. Quero saudar a família Trindade. Quero saudar a Dida. Quem não foi, procura o Dida Bar, que é esse lugar que nos acolhe, em que a gente se encontra com a nossa história. Esses nossos passos vêm de longe, precisamos conhecer.

E, na juventude, como a Geração Tombamento, como disse Vilma, ou, como brinco, a “Geração Hashtag”... Falamos das feministas históricas, falamos rapidamente da Nilcea, da Schuma, da Ângela – que vejo aqui também, companheira –, mas há também a neguinha, a negona de coração. A Rafaela, que está na resistência. A Rafaela é prima da Joana, do ato que nós fizemos na Central do Brasil pelo Direito das Mulheres à Cidade. O direito à Cidade que é negado no transporte público a cada dia - o povo da Zona Oeste sabe bem disso. Uma mulher que sofre o racismo estrutural da negação do direito ao transporte, que morre no ramal em Belford Roxo! Ela não morreu no metrô! E, sob hipótese alguma... Eu sempre falei isso na época em que coordenei a Comissão de Direitos Humanos, aqui não tem super trunfo da opressão! Aqui não tem hierarquia de dores! Tem, sim, mulheres que são mais vulneráveis! Tem, sim, um lugar onde a vida vale menos! A Rafaela está nesse grupo de construção da juventude preta, que está reivindicando o direito à Cidade.

Obrigada pela presença, obrigada por existir e por levar o bastão!

Passo a palavra à companheira, irmã, mulher das coalizões, das falas, da resistência, Flávia Oliveira, nossa amiga e jornalista, para fazer sua saudação.

(PALMAS)

A SRA. FLÁVIA OLIVEIRA – Obrigada!

Vou cronometrar meus cinco minutos, mas talvez roube um pouco do tempo que Mãe Meninazinha devolveu. Quero, primeiramente, agradecer a honra pelo convite para estar aqui celebrando e homenageando Conceição Evaristo, para reverenciar nossa história, as mulheres negras. E sentada, Marielle, entre uma irmã e uma Mãe. Isso não é pouco!

Esta é uma noite de enorme emoção! Ocupar esta Mesa, nesta Casa, que deveria ser do povo – como Mãe Meninazinha falou muito claramente –, mas que a gente sabe que não é, pois tem uma representatividade aquém dos nossos matizes, da nossa diversidade. Isso não é pouca coisa! Esta já é uma noite histórica, neste 1º de agosto, por esta ocupação feminina e negra, nesta Casa que, tradicionalmente, foi ocupada por homens brancos. Por isso agradeço a você, Marielle, e também Conceição Evaristo, que foi o “cavalo” dessa possibilidade de ocupação, de incorporação deste espaço.

Eu poderia falar das mulheres negras no mercado de trabalho, representadas no trabalho doméstico, na baixa remuneração, na informalidade, no trabalho autônomo de baixa qualidade, das mulheres negras que estão à frente de famílias em aguda vulnerabilidade. Isso está nos escritos de Conceição Evaristo como esteve nos escritos de Carolina Maria de Jesus.

Porém, quero fazer essa minha fala em dois eixos. No primeiro eixo, lembrar Conceição Evaristo não pelas dores – Vilma, me perdoe, como Jurema também falou –, mas pela festa. Há um episódio marcante de um encontro, talvez o primeiro encontro que tive com você, em que você nos ensinou por que o povo negro festeja. O povo negro festeja, e a gente traz a alegria, a música, o toque do tambor na história, nas nossas celebrações, nas nossas vidas, para estarmos em contato com o Divino e nos fortalecermos. A gente canta, toca o tambor e dança para ficar mais forte, para segurar a barra que é viver!

Essa é uma lição fundamental para todos nós, para todas nós, mulheres negras, para todos nós, brasileiros! Há muita incompreensão na nossa capacidade de produzir alegria, mesmo nos momentos de dor aguda! A gente sofre, chora, mas a gente canta, dança e segue em frente, porque a gente canta, a gente dança e toca os tambores reais, simbólicos, religiosos ou culturais. É assim que a gente sabe tocar essa barra.

Te agradeço por esse grande ensinamento! Peço licença para tratar de ancestralidade, para fazer desse ato aqui também, além de uma homenagem a você, Conceição, um momento de alerta político importante para o povo Quilombola deste País. Nós estamos vivendo uma situação limite. O calendário, a contagem regressiva começou a valer nesse 1º de agosto para uma apreciação no Supremo Tribunal Federal de uma ação de inconstitucionalidade proposta pelo Partido Democratas, que põe em risco a titularidade das terras Quilombolas. Perdermos a nossa terra significa nos lançar de novo, do ponto de vista real e simbólico, às trevas da opressão, da negação de direitos, e nós não podemos permitir isso.

Então, quero chamar a atenção para uma campanha de todos nós, que foi lançada no dia 28 de julho, chamada “Nenhum Quilombo a menos”, e que convida a população brasileira, a sociedade brasileira a participar da luta das Comunidades Quilombolas que são, na essência, quem nos trouxe até aqui.

Ah, agradeço. Tem alguém já me entregando. Isso não estava combinado. Veja que nós estamos alinhados.

Então, “Nenhum Quilombo a menos” é a campanha. Há uma petição que já conta com mais de 43 mil assinaturas. Nós precisamos de mais. Nós precisamos sensibilizar a nossa Suprema Corte e nosso mundo político em relação à importância do direito à terra, da posse da terra. Mulheres empreendedoras e homens também dependem disso para o seu sustento e para a preservação das nossas tradições. Então, reverencio a nossa ancestralidade negra e tomo a liberdade de ler um trecho de um poema de Conceição Evaristo para reverenciar a você e a todo nosso povo negro “Os bravos e serenos herdarão a terra”.

“Do cotidiano só rimos. Sorrimos o nosso sapiente riso com os nossos dentes abrilhantados de fome e força, porque aqueles que todos pensavam mansos, bravios se tornaram, e então, seremos nós, bravos e serenos, que herdaremos a terra.” (Evaristo, 2008, p. 42).

Venceremos, Conceição.

Obrigada!

(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Flávia!

Venceremos e hoje, no Grande Expediente, nas falas aqui da Tribuna que são facultadas aos vereadores e às vereadoras, falava dessa sensibilização, desse chamado ao “Nenhum Quilombo a Menos”. Do quanto que é fundamental, não só o processo de campanha, mas a responsabilidade sobre as terras, a responsabilidade desses vereadores que não são vereadores de Porciúncula, são vereadores da Cidade do Rio de Janeiro e desse lugar, seja em Sacopã, seja na Zona Oeste, desse lugar do direito à terra, reivindicando aqui o lugar do Município, e que a gente precisa ganhar as redes sociais.

Já, daqui a pouco passando para nossa homenageada, passo a palavra para companheira, Vereadora Talíria Petrone, na figura da mulher que disputa partido, e saúdo, rapidamente, principalmente as mulheres negras que compõe a disputa. E nessa construção desse partido, vejo aqui Luciene Lacerda – nossa companheira, Pamela Passos, Ivanete, Taiana, Rose, Rosineide, vejo também a minha companheira Sandra Quintela. Dessas mulheres que compõe e disputam esse lugar do fazer partidário. Cada vez mais tem esse lugar da política, que não é colocado, que não é inserido o lugar das mulheres e, sim, tem mulher e tem mulher preta construindo partido. Tem aqui a nossa Vereadora de Niterói Talíria Petrone.

A SRA. VEREADORA TALÍRIA PETRONE – Boa noite. Que dificuldade falar depois de tantas mulheres que tanto representam essa força que constitui nossa identidade. Estava conversando ali atrás que estou muito emocionada desde o início. Queria compartilhar, antes de tudo, uma gratidão por ver este espaço ocupado por gente preta. Este espaço ocupado por mulher preta, a Mesa composta por referências na construção da minha identidade. Conceição, você é uma referência para minha afirmação enquanto mulher negra.

Tão embranquecida ao longo da minha vida, tão negada, tão influenciada, queria te agradecer e dizer que você é uma das responsáveis pela minha identidade que cada vez mais grita enquanto mulher negra. Estar aqui não é qualquer emoção, não é qualquer sentimento de alegria, é um sentimento que vem de muito tempo, é um sentimento que movimenta a nossa história e carrega uma ancestralidade, que nos constitui e é força para nós que ocupamos espaços tão brancos, tão elitistas, espaços que historicamente são espaços dos coronéis, dos barões do café, dos donos de terra, de uma história que nos marginalizou e nos sequestrou de nossas terras para nos colocar em um lugar de escravizados e de marginalizados; uma história que negou a nossa identidade.

Mas, como a Marielle já... Queria agradecer muito à Mari, querida amiga e companheira, que conheci e encontrei na Maré, no chão da favela. Sou professora, educadora e foi lá que nos encontramos na luta. Queria te agradecer por esse espaço, porque esse espaço também reflete que se a história nos marginaliza e nos coloca na periferia, a nossa história também sempre foi história de resistência e você colocou que sempre falo isso e sempre vou dizer, porque não é a única história a nossa história de marginalização. As mulheres, nos navios negreiros, eram as principais responsáveis pelas rebeliões que faziam os brancos coronéis que se achavam donos dos nossos corpos tremerem. É uma história que, infelizmente, tem ecos ainda muito dolorosos neste momento. É uma história que se associa a uma conjuntura de muito retrocesso para o nosso corpo, para a nossa carne, para a nossa experiência na Cidade. Quando querem negar que discutamos a nossa verdadeira história e ancestralidade dentro das escolas como o Escola Sem Partido. Quando querem retirar nossos direitos com as contra reformas trabalhistas e da previdência, que vão impactar o povo preto, que já tem os menores salários, mas que estarão ainda mais na periferia desse sistema desigual da lógica do capital. Uma realidade que extermina os corpos dos nossos filhos, dos filhos das mulheres pretas das favelas e periferias, mas nem por isso vamos nos silenciar, porque nunca nos silenciamos. Se a história lá atrás nos marginalizou e respondemos com resistência, nesses tempos também responderemos com resistência.

Conceição, você é a expressão dessa resistência. Cada mulher preta que ocupa esse espaço e que faz política... E aí digo na associação de moradores, na sua casa, no seu bairro e em qualquer canto... Que experimenta a Cidade segregada, mas que nem por isso se cala, é a expressão da resistência histórica de nossos ancestrais.

Estou muito emocionada, porque a nossa existência sempre foi resistência. Para existirmos, tivemos que resistir. Conceição, sua poesia... Vou virar para você, porque quero falar isso olhando para você... Sua poesia é grito para nós, é identidade, é ancestralidade, tira-nos da invisibilidade, tira-nos das cadeias do embranquecimento.

Conceição, sua poesia resgata nossas dores, porque inviabilizar as dores não serve, mas ela não para nas dores, resgata principalmente a nossa força e potência. Não é possível mais aceitarmos nenhum espaço sem que a luta das mulheres negras tenha centralidade. Não tem feminismo sem ser o feminismo negro, não tem arte e comunicação sem que seja dada centralidade à nossa história e ao nosso grito.

Gratidão por esse momento. Viva a luta do povo preto, sejamos resistência, sejamos quilombo! Só tenho a agradecer por esse momento que me emociona e que vai ficar guardado com muita emoção. Nesses tempos... No último período, recebemos nas redes sociais: Volte para a senzala! Volte para a senzala, neguinha! Para nós, lá em Niterói. Vamos continuar na resistência.

Obrigada, Conceição; obrigada, Marielle; obrigada, mulheres que nos inspiram e que fazem com que sigamos resistindo.

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Talíria. Muito obrigada por esse lugar dos aprendizados, nós que nos encontramos na marcha. E queria saudar a presença dessa construção, do que foi, domingo, em Copacabana. Já falei e quero registrar aqui: já falávamos antes desse lugar da construção e que veio pavimentando e construindo essa homenagem à Conceição. Desse lugar, dos 25 dias de ativismo contra o machismo e contra o sexismo, de roda, seminário, das ações de enfrentamento de referência ao 25 de julho, mas em deferência às mulheres pretas que construíram esse 25 de julho, dos mais velhos que constroem esse lugar de onde nos encontramos na rua, com uma pauta muito bem colocada. Uma pauta, por exemplo, como falava a Flávia nesse 1º de agosto, começando esse mês de agosto: não acredito nas coincidências, mas nas providências divinas, ancestrais e das energias e da fé que me coloca, que me move, e no que cada um, nesse agosto, que, sim, é dia ou mês de visibilidade lésbica, de nós mulheres lésbicas que somos violentadas nos postos de saúde, nas clínicas, nos exames...

E aí falo desse 1º de agosto, porque marca o mês de visibilidade lésbica, marca esse dia de luta dos quilombos, marca mais uma vez o racismo institucional nos dois votos contrários à liberdade de Rafael Braga e do pedido de vista do Zveiter... Desse lugar da disputa para a publicação, que a Conceição fala no prefácio de Ponciá Vicêncio, que ela mesma atualiza em fevereiro de 2017. Desse lugar da disputa do Estado por dentro que nós visitamos o Rafael Braga, que nós falávamos pela Comissão Permanente de Defesa dos Direitos Humanos dessa disputa do Estado por dentro, desse homem que é vítima desse racismo institucional e cultural, que não sabia quem era o governador e não poderia ser colocado ali como prisioneiro, pelos atos em 2013. Desse lugar das resistências e do estigma sim do elemento suspeito que chega com a nossa cor.

Esse é um lugar de dor, mas é um lugar sim dessas mulheres negras da Ângela, Lélia, Conceição, Beatriz, Mãe Beata, sim, desse lugar que traz as escrevivências de áreas como potência. Agradeço muito a essa mulher que precisa ser homenageada; essa mulher, que nasceu em 29 de dezembro de 1946, numa favela da Zona Sul de Belo Horizonte, em Minas, e que acolhe o Rio de Janeiro. Filha de uma lavadeira que, assim como Carolina de Jesus, mantinha um diário, anotava as dificuldades do cotidiano, da pobreza material – sim, as condições materiais objetivas da vida são fundamentais. E Conceição cresceu rodeada por palavras. Teve que conciliar os estudos com o trabalho como empregada doméstica até concluir o curso Normal, em 1971, já aos 25 anos. Hoje é Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Publicou seu primeiro poema em 1990, no Volume 13 dos Cadernos Negros, editado pelo grupo Quilombhoje, de São Paulo. Desde então, publicou diversos poemas e contos nos Cadernos, além de uma coletânea de poemas e dois romances. Gostaria de citar a gratidão... No prefácio de Ponciá Vicêncio, Conceição fala da Editora Mazza; desse lugar, sim, que precisa ser, a cada edição, renomado, das pequenas editoras e do lugar das resistências. A sua obra foi publicada nos Estados Unidos, Alemanha, África e outros.

Em 2015, seu livro mais recente, e da paixão, “Olhos d’água”, foi finalista do prêmio Jabuti. Também homenageada na 34ª Ocupação do Itaú Cultural, em São Paulo, mais um reconhecimento da importância na literatura brasileira atual. E também, agora, mais recente, como já havia falado, o reconhecimento da Flip, que nos lembra desse lugar e de que “quando a mulher negra cresce, tudo ao redor a acompanha” e a engrandece.

A poetisa Conceição Evaristo, militante do movimento negro – e a cada vez que vejo algum vídeo da Conceição falando da possibilidade que foi o movimento negro na sua história, que a possibilitou construir e pavimentar esse caminho; do lugar em que ela mesma fala; da imagem da Anastácia na sua casa e desse amordaçamento, mas do lugar que supera o amordaçamento, que supera os silenciamentos, para a nossa resistência... Ela traz a literatura como profunda reflexão acerca das questões de raça e gênero, com o objetivo óbvio de revelar a desigualdade velada da nossa sociedade, de recuperar uma memória sofrida da população afro-brasileira em toda a sua riqueza e potencialidade de ação. É uma mulher que tem o cuidado de abrir os espaços para outras mulheres se apresentarem para além do mundo da literatura.

Conceição Evaristo é uma mulher do seu tempo, uma mulher da revolução, uma poetisa furacão, delicada e forte na escritura e nas escrevivências da resistência. Aqui está a homenagem que, com muita honra, tenho o prazer de entregar à Conceição, pela Câmara Municipal, aprovada por unanimidade, a Medalha e o Diploma.

Querida, obrigada por existir.

(É feita a entrega da Resolução, do Diploma e do Conjunto de Medalhas de Mérito Pedro Ernesto).

(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Todas as comendas, resoluções, diploma Pedro Ernesto para a Conceição, e, por favor, nos brinde com a sua fala.

Obrigada, querida!

A SRA. CONCEIÇÃO EVARISTO – Boa noite a todas e a todos, agradeço à Presidência, a Senhora Vereadora Marielle Franco, à Diretora da Anistia Internacional, Jurema Werneck, a Ruth de Souza, que precisou sair, a Patrícia Oliveira, a Flávia Oliveira, a Mãe Meninazinha de Oxum e a Talíria, que veio agora. Bom, estou emocionada. Todo mundo já sabe. Enquanto falava, imaginei um agradecimento, mas agora, neste momento exato da Medalha, me veio outro agradecimento. Na verdade, recebo esta Medalha muito mais pensando nos meus anos de Magistério aqui na Cidade do Rio de janeiro, como Professora de 1ª a 4ª, trabalhando em várias escolas, me sinto mais contemplada quando lembro esses anos de Magistério do que pela própria Literatura. Para mim, a minha afirmação aqui no Rio de Janeiro, porque, inclusive, quando saí de Belo Horizonte, em 70 e... E vim fazer concurso aqui no Rio de Janeiro em 73, vim para ser professora. Foi o que eu fiz a vida inteira e o que eu mais gostei de fazer. Preparei-me para ser professora. Então, recebo esta Medalha muito mais pensando na minha atuação como, na educação do que como escritora. Quando dizem: “Nossa, mas como vocês foram tão rápido!”... A Flip foi ontem e quero afirmar que esta Medalha, vocês já a tinham realmente pensado, fui convidada antes da Flip. Até porque quero dizer, não foi o Prêmio Jabuti que me fez e não foi a Flip que me fez!

Eu fico muito grata, é um momento especial em minha vida, eu estaria sendo modesta, teria uma falsa modéstia se dissesse que isto não me alegra, não me orgulha, não me envaidece. Lógico que estes momentos me envaidecem! E muito! Mas o que mais me envaidece, o que mais me deixa tranquila, o que mais contempla a minha Literatura é pensar que a minha Literatura pode ser uma Literatura que acolhe, que revela e que significa a voz de todas e de todos. Sempre tenho afirmado: o primeiro lugar de recepção da minha literatura, dos meus textos, foi o Movimento Social Negro, especialmente junto às mulheres negras; então, este lugar de recepção é que levou e tem levado os meus textos para as escolas, para a academia.

E não queria citar pessoas, mas também não posso deixar, por exemplo, de saber que aqui está ­­­­– pelo menos acho que está, porque a companheira dele está ali – Quando a gente estava... Já havia o Hélio de Assis no coletivo de escritores negros, no Grupo Negrícia, que eram grupos que congregavam escritoras e escritores negros.

Quando digo que a minha não começa pelo Jabuti, não começa na Flip, não posso deixar de registrar Mazza, que é uma editora que nasceu para publicar autoria negra; Nandyala, que a Iris está ali, que nasceu também para publicar essa autoria negra, dada a nossa dificuldade de mercado.

Então, esses foram os momentos fundamentais, os momentos que me fizeram chegar à Editora Pallas – que a representante está ali – sem sombra de dúvida, tem investido em meu trabalho e tem divulgado meu trabalho com bastante veemência.

Hoje, estou também com a Editora Malê, que também é uma editora que nasce com essa preocupação de publicar essa autoria negra e o meu batismo de publicação passa, primeiramente, pelo Grupo Quilombhoje, de São Paulo, que nesse ano está lançando a quadragésima publicação.

Então, são essas editoras comprometidas com a autoria negra que me produzem... Ou que me permitem, e que a gente faz as nossas primeiras publicações.

E, voltando à minha celebração hoje, que, para mim, é uma celebração que está muito mais ligada à minha vida de magistério, tenho que agradecer às pessoas que me permitiram chegar até aqui. E nós, que somos mulheres, sabemos muito bem qual a importância de uma irmã, de uma amiga que dê esse suporte afetivo, que estão lado a lado da gente.

Então, não cheguei sozinha. Vim para o Rio de Janeiro sozinha. Se eu não tivesse encontrado, inclusive, exemplos de mulheres, exemplos de vozes, a minha formação discursiva, a minha formação literária tem muito a ver com vozes como de Lélia Gonzalez, com vozes como de Beatriz Nascimento; e, aliás, faço um intervalo neste momento, porque quero saudar a Maria Soares, que para mim é uma grande mestra. Quando chego aqui no Rio de Janeiro e vou trabalhar em Educação, encontro com o pessoal, professores comprometidos com a Educação, independentes de filiação político-partidária, mas também comprometidos com essa filiação político-partidária... Então, são dessas pessoas que vou ter os meus primeiros ensinamentos aqui no Rio de Janeiro.

É claro que Minas me deu régua e compasso, não é?Chego aqui ao Rio de Janeiro já com experiência de movimento social, mas muito mais que tratava da questão operária e dentro de uma orientação católica.

Então, a minha inserção em movimentos... Ah, sim, 44 anos de Rio de Janeiro. Então, a minha vida, a minha existência humana é muito feita dentro desta Cidade. Então, é aqui que faço a minha vida profissional. É aqui também que vou ter minha vida de estudo, a minha vida literária vai amadurecer aqui. A minha inserção dentro do movimento negro e do movimento de mulheres vai acontecer aqui no Rio de Janeiro. O meu marido era um carioca da gema. A minha filha, a Iná, é uma carioca da gema, como ela gosta mesmo de falar. Então, Minas me prepara para esta Cidade. Então, hoje já posso dizer e, com esta Medalha, se confirma mais ainda: sou “cariomeira”, que é uma mistura de carioca com mineira.

Não posso deixar de registrar também que a primeira Casa de Axé que vim conhecer aqui no Rio – isso, ainda nos finais dos anos 70 – é a Casa de Mãe Meninazinha de Oxum. Esse momento também que me coloca mais próxima de religião de matriz africana que do catolicismo de Minas, apesar de sempre afirmar que a gente vive um catolicismo negro, mas ainda sob as capas de um Cristianismo.

Fico muito feliz com esta distinção. Não posso também... Acho que esta distinção, para mim, mesmo eu tendo dito, tendo afirmado que tem mais que ver com a minha carreira profissional como educadora do que com a minha carreira como escritora, não posso deixar de afirmar, porque ainda está à flor da pele, o que vivemos na Flip, no domingo. É preciso afirmar para todas nós que a Flip não foi uma concessão: a Flip foi um direito. O tempo todo tenho dito muito isso também: temos de pensar a escrita e a leitura como um direito, assim como temos direito à alimentação, à saúde pública, à escola. Temos de pensar que a escrita e a leitura não só pertença a determinadas categorias sociais: a escrita e a leitura são nossas.

E o que peço muito é que essa visibilidade que estou tendo agora, na literatura, sirva também para visibilizar outras mulheres; que nós mesmas comecemos, cada vez mais, ou continuemos, cada vez mais, a acreditar na potencialidade da nossa escrita. E a potencialidade da nossa escrita, para mim, é afirmada justamente porque ela simboliza essas muitas vozes. Mesmo quando o texto nasce a partir de uma experiência pessoal – ele nasce em primeira pessoa –, ele ganha sentido na medida em que ele é revelador de muitas vozes.

E quero afirmar também que, apesar de a literatura ser uma área da arte, do dom da palavra, a gente pode pensar que todas as pessoas são sensíveis a esse fenômeno literário, e tenho dito: mesmo quando eu ganhei o Jabuti, eu nomeei como prêmio da solidão, porque eu olhava ao lado e não via pessoas negras - eu via algumas pessoas negras nas funções que, normalmente, nos são legadas.

E tivemos a felicidade, todos esses dias, de empretecer Paraty.

Ah, sim, o que quero dizer: quero afirmar a força do coletivo, porque só conseguimos chegar a esta Mesa oficial a partir do grito que foi dado por Giovana Xavier, que tem idade para ser minha filha, com aquele texto, no qual ela chama a Flip de “Arraiá da branquidade”. Então, em todo momento que fui entrevistada no ano passado na Flip, o tom da minha fala, o que sustentou a minha fala foi justamente o texto de Giovana e as outras ações que foram feitas no Rio de Janeiro. Só no coletivo é que a gente consegue ter esse enfrentamento.

Quero dizer também que não esqueço o meu lugar de mulher negra. Quando saio, estou vulnerável como qualquer uma. Não tenho nenhuma estrela, não há nada desenhado em mim, para o olhar dessa sociedade lá fora, que diz que sou uma escritora. Não há nada desenhado. E ainda digo mais: o nosso racismo é tão cruel que alguns pares, alguns outros, algumas outras escritoras e escritores com quem já dividi mesa no Brasil e fora do Brasil, algumas dessas pessoas só passaram a me cumprimentar depois que ganhei o Prêmio Jabuti. Até então, acho que havia até uma dúvida: “O que essa mulher negra está fazendo ao nosso lado? Será que é escritora mesmo?” Então, foi preciso ganhar o Prêmio Jabuti, e hoje tenho certeza de que muitas outras escritoras e escritores brancos vão falar comigo por causa do nosso reconhecimento na Flip.

O que quero afirmar é: muito obrigada a todas e a todos. Muito obrigada aos brancos que cumpliciam conosco, porque também não podemos deixar de afirmar isso. Temos brancos que cumpliciam conosco, que são nossos parceiros, mas meu agradecimento, em especial, é a essa coletividade negra de mulheres e homens que me acolhem.

Muito obrigada!

Quero anunciar algo inusitado também. Virei cerveja e, se me permitem, posso chamar a Cervejaria Feminista para explicar o porquê?

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Por favor.

Pode ser na Tribuna. Eu e Elaine conversávamos nestes dias, e que bom, dessa homenagem e do protocolo, em que tivemos acesso na FliSamba... Mas hoje ocupando a Tribuna também a Cervejaria Feminista. Por favor.

A SRA. ELAINE BARBOSA – Olá, boa noite a todas e a todos. Eu, realmente, Conceição, não me preparei para este momento.

É uma honra muito grande estarmos homenageando a Conceição Evaristo nesse rótulo da Cervejaria Feminista – é o segundo rótulo em que a Cervejaria vem homenageando. E a ideologia da Cervejaria é justamente homenagear mulheres e fomentar uma discussão feminista contra o machismo e dizer, também, que podemos degustar nossas bebidas, avançar outros espaços, fazer o que quisermos e estar onde quisermos. Então, essa é a principal mensagem da Cervejaria Feminista, que nasceu aqui no Rio de Janeiro, e a gente vem tentando dar visibilidade a essa causa, e o exemplo da companheira Conceição Evaristo tem sido um aprendizado muito grande para todas nós. Nós somos um grupo de cinco mulheres, eu sou a única mulher negra desse grupo. As outras são mulheres brancas, mas que estão, também, abraçando a causa. E muito obrigada, Conceição, eu preciso lhe agradecer por toda essa empreitada, você tem sido a nossa parceira, que está construindo junto com a gente, também, essa história, que tem sido de muito aprendizado, de muita luta, também, que a gente está entrando nesses espaços e é uma grande honra poder homenageá-la com esse rótulo da Cervejaria Feminista.

Muito obrigada!

(PALMAS)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada, Elaine. Tem cerveja, tem poesia, tem resistência, tem histórias. Estamos fechando, rapidamente, queria pedir mais cinco, 10 minutos de paciência, desse lugar das vivências, das tias, das mais velhas. Quem me apresentou a Conceição Evaristo foi uma tia, Fátima Solange, lá da Paraíba, que, infelizmente, não pôde vir, mas que saúda e que tem aqui um abraço fraterno para você. Desse lugar da mulher que lê a poesia, desse lugar da mulher que resiste na Zona Oeste, aí com muito amor, com muita honra, enfim, fazendo nossas ações conjuntas, desse lugar da coletividade, desse lugar das intelectuais negras. Que aqui tem outra intelectual negra, desse lugar das bruxas, aqui, Carol, dessa mulher que disputa no IESP, desse lugar das Mulheres de Pedra, que tenho a honra de convidar para fazer a fala aqui e homenagear também Conceição Evaristo, nas suas leituras, pedir silêncio e atenção aqui para as Mulheres de Pedra.

(É feita a apresentação)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Obrigada às Mulheres de Pedra. Obrigada às mulheres da Zona Oeste que resistem.

A gente está dando por encerrada a Solenidade, eu queria pedir que a gente se levantasse, pois é praxe da Casa, agora, ouvir o Hino da Cidade. Saímos fortalecidas, saímos na resistência, saindo com essas flores que resistem do asfalto.

Saímos dessas disputas e sairemos juntas da coletividade que Conceição Evaristo nos fala tanto. E desse lugar que é coletivo e que a gente ocupa tudo e que vai ocupar muito. Que a gente possa virar, só rapidinho, principalmente quem está aqui, olhar ali para trás, para a galera tirar uma foto, registrar esse momento dessa Câmara enegrecida, dessa Câmara empretecida, desse lugar das múltiplas resistências, das múltiplas estéticas da literatura, da poesia, dessas mulheres aqui da Mesa, dessa construção, que muito nos engrandece, a que eu sou muito grata, que esse lugar de nós ocuparmos tudo é só o prenúncio do quanto nós faremos aqui na Câmara Municipal!

Agora, para ouvir o Hino da Cidade do Rio de Janeiro e depois receberemos os cumprimentos na Sala Inglesa para encerrar a Solenidade.

(Ouve-se o Hino da Cidade do Rio de Janeiro)

A SRA. PRESIDENTE (MARIELLE FRANCO) – Uma Cidade maravilhosa, em que a gente quer ter direito de ir e vir, de ver. Por isso, as nossas vidas importam e, por isso, nós mulheres negras resistimos e continuaremos disputando tudo, pelo direito à Cidade para todas.

Dou por encerrada a Solenidade em homenagem a Conceição Evaristo. Vamos juntas!

(Encerra-se a Solenidade às 21h29)